À Espada Pelo Sangue
70 Capítulo 57 - À Beira da Escuridão
Notas iniciais
Naquela noite, sem saber bem o motivo, estendi a mão para a porta com o nome de Jayden e revivi o pesadelo que revelava seu passado. Vi novamente aquele homem bater em uma criança por hesitar em matar uma família indefesa. Quando acordei, não tinha os sintomas do uso do Past Dream, e nem a tristeza indefesa da primeira vez. Ao contrário, havia apenas aquela raiva sufocante, além da voz distante que gritava em minha cabeça um desejo sombrio, mas inegável, do meu coração.
Woon Nam precisava morrer.
Ian ficou terrivelmente quieto uma vez que notou do que eu pretendia. Depois daquele dia, por muito tempo que me perguntei o motivo de ele não ter falado nada, nem tentado me impedir. Quando lhe perguntei, respondeu que eu tinha nos olhos uma sede de sangue tão intensa que ele sabia que eu não ouviria a razão. Sendo assim, sua única opção era vir comigo e garantir que eu não fizesse algo do qual eu me arrependeria depois. Ele disse que tinha suas próprias razões para desprezar Woon Nam, mas jamais me permitiria virar uma assassina. Ele quis dizer que estava disposto a matá-lo em meu lugar.
De um jeito ou de outro, naquele dia, pensei que seu silêncio era uma benção. E nem passou pela minha cabeça o quão fundo eu estava em minha própria raiva.
Se for pra classificar aquele dia, eu diria que nunca estive tão perto de sucumbir a Daímonas quanto naquele momento. E nem tão cega a isso. Afinal, ele fez o trabalho direitinho. Não foi direto, não fez sua voz soar, nem deixou eu eu notasse sua presença. Ele sabia que não havia funcionado antes, então foi inteligente o suficiente para ser de uma sutileza incrível desta vez. Então simplesmente foi me conduzindo pelo caminho que eu mesma escolhi. Sim, a culpa foi minha, pois os sentimentos eram todos meus. Ele só me convenceu a agir de acordo.
Não vou narrar as horas ociosas que passei em companhia os meus pensamentos revoltosos. Não gosto de relembrá-los, pois eram agonizantes. Tudo o que você tem que saber é que eu vinha contendo uma tempestade dentro de mim, e agora estava prestes a liberá-la contra aquele maldito shinigami.
E isso aconteceu naquela noite, no porto de LA.
Chovia, como se Zeus estivesse querendo deixar o momentos ainda mais dramático. Ian e eu abrimos a porta do contêiner, a qual rangeu com um som agudo. O lado de dentro não estava bem iluminado, mas era possível ver o ambiente com relativa clareza.
Um sofá rasgado, uma televisão velha, um tapete sujo. Aos fundos, um armário, uma geladeira meio enferrujada e um fogão pequeno. Apesar de haver bastante espaço, isso era tudo que o preenchia. Isso e uma figura maltrapilha sentada no chão de forma miserável, com uma garrafa de cerveja na mão e as costas contra o assento do sofá. Foi um choque reconhecê-lo como o antigo shinigami, o homem que havia transformado Jayden numa arma.
Mas as paredes do contêiner não negavam a verdade: estavam decoradas com fotos de pessoas, todas com um X riscado em vermelho. Se aquilo não significava o número de vítimas, eu não sabia o que era.
— Surpresa por eu guardar esses rostos? — a voz veio rouca de dentro e só então notei que o olhar de Woon Nam recaía sobre nós.
Tinha o cabelo preto desengrenhado, longo ao ponto de chegar aos ombros. A tez estava pálida, e seus olhos orientais, nos quais antes eu podia ver o brilho cruel, pareciam sem energia, mortos. Ele voltou a encarar a parede.
— Aqueles ratos do Conselho... Fizeram isso assim que me encontraram escondido aqui, há cinco dias. Foram eles que colocaram as fotos aí, não eu. Não que eu me importe de ter a companhia dos meus mortos. Mas me incomoda quem os colocou aí. — ele abriu um sorriso cínico — Ah, eles não querem que eu esqueça do que me culpam... Maldito sejam, o Líder de Guerra e todos os seus cães! — sua voz foi crescendo — Foram eles que me mandaram fazer! E agora querem que eu seja o único a pagar por isso? Já não foi o bastante matá-la, agora também querem acabar o serviço comigo? Ao menos venha você mesmo, Cullmann, seu bastardo!
Woon Nam jogou a garrafa na parede, em seu acesso de raiva , e ela se espatifou com um som estraçalhado. Esperei que ele se levantasse ou continuasse a gritar, mas o homem deixou pender a cabeça e soltou um riso baixo.
— Kure.... — murmurou — Talvez seja uma boa ideia simplesmente morrer aqui. Meu tempo já acabou. Eles não precisam mais de mim. Minha missão acabou. Não tenho mais motivo para ficar vivendo.
Busquei me recompor da surpresa inicial. Não esperava encontrar um homem miserável, e sim um assassino cruel. Um homem que passou a vida inteira com o único objetivo de eliminar seu alvo, um homem que ensinou uma criança que matar era seu prazer. "Não. Por mais que ele esteja assim, ainda é o shinigami." convenci a mim mesma, e pisei duro no chão metálico do contêiner.
— Sua missão? — repeti — Ser um emissário da morte, você quer dizer? Está falando que essa é a sua razão para viver?
Ele ergueu os olhos para mim e me fitou tão intensamente que eu teria prendido a respiração se não estivesse lutando para manter minha raiva queimando.
— Acha que me permitiram ter outra razão, garota? — falou em um tom grave que fez o ambiente parecer mais escuro — Acha que não tentei ter outra razão? ELES A MATARAM!
Ele socou o chão, recolheu a mão e cerrou os punhos, voltando a falar baixo:
— Eles a mataram. Ela e o bebê. Só para me lembrar de quem eu sou. Quem eu fui criado para ser. — ele me fitou, ardil — Eu sou a morte, garota. E é isso que devo levar para onde for. É o que sei fazer, e o que amo fazer. — ele fechou os olhos e deixou a cabeça cair no sofá atrás de si — E não me olhe desse jeito, menina. Existem pessoas nesse mundo que devem morrer, e pessoas que as querem mortas. E então, há pessoas que farão o trabalho sujo a quem pagar melhor. É assim que o mundo funciona.
Trinquei o maxilar.
— Mercenário. — cuspi — Vou fazê-lo pagar por tudo isso. Vai pagar por ter transformado Jayden no shinigami. Como pôde ensinar a uma criança que matar é seu único prazer?
Ele me fitou, e encará-lo de volta paralisou minhas ações. Não foi um olhar comum. Aqueles eram os olhos de alguém morto por dentro, de alguém que esperava pela morte como quem espera um amigo. Em um momento de empatia, senti que aquele homem estava destroçado. Não senti pena, veja bem, mas vi meu ódio congelar, e me vi incapaz de puxar Prostátida. Woon Nam ficou em silêncio por alguns segundos, olhando-me, e então virou-se para o chão.
— Ah, o jovem shinigami... Eu o ensinei bem, não foi? — sussurrou — Ele pensa exatamente como eu. — virou para mim novamente e falou mais claramente — Mas parece que eu sou o único vilão, não é?
Franzi a testa, embora ainda um pouco amortecida.
— Ele é só uma criança.
Woon Nam suspirou e assentiu.
— Então, uma criança que pensa assim é uma vítima. Um adulto que pensa assim é um monstro. — refletiu, quase como se falando para si mesmo — Mas esquecem-se de que esse adulto um dia já foi criança. Em que ponto ele deixou de ser a vítima e passou a ser o monstro? Ou será que sempre o foi? Eis a contradição da sociedade. Você me culpa por ensiná-lo assim. Mas parou para pensar que alguém me doutrinou da mesma forma? Fui de vítima a monstro com os anos, sem ter consciência de minha condição. Quando por fim me dei conta, já era tarde de mais. Ambos os adjetivos me custaram tudo que eu tinha. Aqueles que me eram queridos me foram tirados... Pelas minhas próprias mãos.
Encarei aquele rosto miserável, sentindo o ódio escorrer por minhas mãos. De fato, como poderia descer um juízo absoluto sobre aquele homem? Se ele era o culpado de Jayden ser como era, quem era o culpado por transformá-lo? Um único homem? Um grupo? Não. As ideias que remotavam aos fundamentos da Família nos haviam levado àquele ponto. Cargos, regras e leis foram criados para evitar aquele fim, mas ali estávamos nós, de cara com tudo o que havia de mais sujo na humanidade. Após cada vez que os deuses interviram, a cada correção, nós nos mantínhamos fiéis e corretos por um tempo, até que nos esquecêssemos. E então cometíamos mais uma vez os erros do passado. A História era a mesma, só mudava o protagonista. Mais uma vez, atentávamos contra tudo o que era humano. Era essa a nossa sina? Caminhar em círculos pelo resto da História? Manchando nosso caminho com sangue, travando uma Guerra eterna?
— Vai tirar toda a responsabilidade dos seus ombros dessa forma? — a voz de Ian me arrancou de meus pensamentos sombrios.
— O quanto de suas ações você não tomou por escolha própria? Se está dizendo que toda a culpa é daqueles que te ensinaram assim, está clamando que é um produto do meio?
Eu o vi lançar um olhar de desprezo para o homem, e então agarrá-lo pela gola da camisa.
— Você é desprezível. — cuspiu — Uma criança é uma vítima por que ela não sabe fazer diferente do que lhe é mandado, porque ela não é capaz de pensar por si mesma. Um adulto, no entanto, pode muito bem dicernir. Quando se olha nos olhos de alguém prestes a morrer, quando se ver o terror ali, você decide se sente prazer ou abominação. Você, e não quem te criou, decide poupar ou acabar com uma vida. É isso que significa livre arbítrio.
Ian jogou o homem no chão.
— Os pecados que cometeu são só seus, e de mais ninguém, porque você os escolheu cometer. Você não é um fruto do meio, a não ser que queira ser.
O homem encarou Ian com os olhos arregalados, enquanto eu os observava, surpresa. Aquele garoto... De alguma forma ele conseguia varrer meus pensamentos errados, como se o mar os carregasse para longe.
Alguns minutos de um silêcio pasmo se passaram, até ser cortado por uma risada tresloucada. Woon Nam, ainda no chão, tremia os ombros, e aos poucos foi morrendo a voz. Ele então fixou um olhar perdido na parede.
— Se ao menos alguém tivesse me dito isso naquela época... — lamentou — O quanto de mim poderia ter sido salvo, eu me pergunto... Aquilo que eu chamava de meu, aqueles que me eram queridos... O quanto disso eu poderia ter salvo?
Respirei fundo, saindo de meu estado perplexo.
— Talvez todos eles. — respondi, e então lhe dei as costas — Vamos, Ian. Eu pensava ter o dever de parar as ações deste cara, mas ao que parece, ele já colhe consequências o suficiente por elas.
Ian não se moveu, olhando para mim.
— Maya... Tem certeza?
— Ha! Não entendeu, rapaz? — Woon Nam disse — Ela me quer manter no sofrimento. Essa dor que carrego, não quer que acabe tão cedo.
Senti o olhar de Ian em minhas costas, pressionando-me. Fechei meus olhos.
— Se é assim que escolheu ver minhas ações, pense como quiser. — falei — Mas a verdade é que não vejo necessidade de manchar minhas mãos quando o próprio destino já está cuidando de tudo. — virei o rosto, a fim de que ele visse meu perfil — Mas que fique claro... Se voltar a causar problemas, eu não o pouparei.
Certifiquei-me de que minha seriedade se fizesse clara, e então voltei a caminhar para longe.
— Garota. — seu chamado deteve meus passos – Cuide bem do pequeno Shinigami.
— O nome dele é Jayden. – devolvi, sem olhar para trás – E eu com certeza serei melhor para ele do que você jamais seria.
Com Ian fechando a porta atrás de si, saímos daquele lugar.
— Você está bem?
— Estou.
Senti seu toque em minha mão. Meu punho estava fechado com força.
— Olhe para mim.
Lentamente, fitei seu rosto. As lágrimas vieram aos meus olhos imediatamente.
— Achei que o mataria facilmente, Ian. – confessei – Mas fiquei apavorada. Eu... Eu realmente não consigo. Eu não pude ser forte o bastante.
Ele puxou minha cabeça para o seu peito e eu passei os braços ao redor de seu corpo, apertando seu casaco.
— Não. – ele disse – A questão é outra, Maya. Você é forte o bastante para resistir ao desejo de vingança, por isso não o matou. Você veio aqui para parar um monstro, que fez algo horrível com alguém com quem você se importa. Quando viu que ele já não era mais capaz de fazer mal a ninguém, você ainda tinha um motivo para matá-lo, mas foi mais forte que isso. — ele segurou meus ombros e me afastou o suficiente para olhar meus rosto — Estou aliviado. E orgulhoso de você. Tenho certeza de que hoje venceu mais um batalha contra as forças que querem te derrubar.
Funguei, ainda incapaz de me recompor, e ele voltou a me abraçar.
Dentro de mim, meu peito custava a se acalmar. Eu havia me apressado para sair do contêiner por um único motivo: pela primeira vez durante todo o dia, havia tido um momento de lucidez. Havia passado o dia inteiro com sede de sangue, alimentando aquela ideia de me vingar, embora disfarçada por um desculpa de impedir Woon Nam de voltar a fazer mal a alguém. Mascarei um desejo sórdido com um senso de justiça fajuto. Mas alguma coisa me puxou de volta no último momento e contemplei o quão perto de tomar um caminho sem volta eu estava.
Apertei o casaco de Ian com mais força. Por pouco aquelas mãos não tiraram uma vida. Uma vida maldita e suja, mas ainda assim uma vida. Por pouco eu não me tornara uma assassina. Percebi o medo instalado em meu coração acelerado. Era um pavor genuíno, que me fez fitar Ian e, num impulso, pedir com desespero:
— Se eu tentar algo assim de novo, impeça-me.
Ele não alterou sua expressão.
— Prenda-me, dê-me sonífero, faça qualquer coisa, mas não me deixe virar uma assassina, Ian, por favor, não me deixe.
Ian tirou os fios molhados dos meus olhos.
— Essa sempre foi a minha intenção.
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