À Espada Pelo Sangue

67 Capítulo 54 - Direções Apontadas


Notas iniciais
Oieee Como vão? O cap anterior teve muitas emoções, certo? Mas ainda temos muito pela frente ^^ Agradeço a Ary por seu comment lindo no cap anterior ♡♡♡♡♡♡♡

Se fosse pra descrever o modo como minha relação com Ian ficou depois daquela noite, eu não tenho certeza se conseguiria ser exata. De certa forma, as coisas ficaram iguais de um jeito completamente diferente. Imagine que você costuma ouvir uma certa música, aprecia a letra e a melodia. E então você descobre que houve toda uma circunstância especial vivida pelo autor para que a música fosse o que era. No fim, a melodia e letra permanecem as mesmas, mas você de repente começa a notar certas coisas sobre elas, tudo passa a ter um significado mais profundo, e sua compreensão sobre elas se tornou mais real, mais excelente, mais plena.

Era mais ou menos como eu me sentia com Ian.

Ele acordou primeiro no dia seguinte e, quando abri os olhos, estava de costas para mim, sentado no chão, apoiado na cama, de forma que sua nuca ficava à altura dos meus olhos. Meu primeiro pensamento sonolento foi a lembrança da sensação macia que seus fios negros deixaram em minha mão quando os acariciei. E, por falar em macio, seus lábios em minha pele também foram...

Enrubesci, finalmente despertando completamente e soltando um bocejo. Arrependi-me logo de cara ao me dar conta da dor que ainda se alastrava por minha cabeça. Ian virou o rosto para me encarar, enquanto eu me espreguiçava e sentava na cama, consciente de que, mesmo com a cabeça doendo, provavelmente não conseguiria dormir mais.

— Bom dia. — murmurei.

— Bom dia. — respondeu, e voltou ao que estava fazendo. Notei que estivera lendo alguns papéis, mas não consegui ver o que era.

— O que está lendo?

Ele suspirou e ficou de pé, caminhou até a mesinha, pegou lá um copo de isopor térmico tampado e voltou para onde estava, ficando de pé ao lado da cama.

— Recebemos uma carta de Izumi. — anunciou, estendendo-me o copo e sentando no chão novamente.

Abri a tampa e o cheirinho de café se alastrou pelo quarto.

— É um macchiato. — disse — Eles não tinham canela.

— Obrigada. — respondi, levando o copo aos lábios — Mas e então, a carta? Temos novas ordens?

Ele negou, e me estendeu a carta.

Era curta, e trazia instruções e notícias do restante da equipe:

"Ian e May,

Primeiramente, Tori-chan manda dizer a Ian que não precisa se preocupar. Taiga também mandou te tranquilizar sobre seus irmãos, May-chan, disse que conseguiu despistar o Conselho. As coisas aqui andam agitadas. Há aliados de Himeko aqui, e aproveitei a oportunidade para deixar escapar que Ian e 'outro membro da minha equipe' estavam desaparecidos e não davam sinais de vida há algum tempo. Agora é torcer para que não tenha sobrado nenhuma testemunha do nosso reencontro após a luta de vocês com Himeko.

Minhas instruções para vocês são as seguintes..."

Terminei de ler o restante rapidamente, e soltei um grunhido ao fim.

— Um hospital psiquiátrico? — repeti as palavras escritas.

— Nada que não possamos resolver em meia hora, talvez menos. — respondeu — Tenho a impressão de que Izumi está nos deixando de mãos vazias de propósito, e isso só pode ser por um motivo.

Beberiquei mais do líquido quente, já tendo em mente qual seria o motivo mencionado por Ian.

— Ela quer te dar espaço para começar as investigações. — concluiu.

Assenti.

— Imagino que ela não possa ser diretamente envolvida comigo xeretando por aí, certo? Por isso não me deu uma ordem direta para investigar, mas nos mandou justamente para cá, onde as coisas estão mais calmas...

— E onde está a sede da Teia. — Ian completou, e ergueu outro papel, que reconheci como sendo aquele em que eu escrevera a lista de preocupações.

— Você...

— Desculpe. — falou — Estava solto pelo chão, e acabei lendo.

Suspirei, fazendo um gesto. Só era um pouco constrangedor que ele visse alguns itens ali, mas pouco importava agora.

— Mas então... JJ-sama... — ele se interrompeu — Quer dizer, tio Jack te deu o endereço?

Acabei descendo para sentar ao lado dele, ainda saboreando o café.

— Sim. Escreveu que vou "precisar dos serviços da Teia" e me recomendou que fizesse "uma pergunta que valha a pena". Mas, para ser sincera, nem sei o que é A Teia.

Ian assentiu.

— A Teia é uma rede, como o nome sugere. — começou, mas depois fez uma pausa e abanou a cabeça — Não, não. Talvez a melhor palavra seja mercado. Venda e troca de informações. Eles são poderosos, pois esta é uma mercadoria valiosa, pela qual até o Conselho paga caro.

— O Conselho?

— Sim. Pode soar estranho, já que eles normalmente iriam simplesmente dar uma ordem e A Teia teria que revelar tudo, mas esses caras são grandes. Além disso, mesmo que o Conselho os ameaçasse, eles simplesmente desapareciam do mapa e começavam tudo de novo. Os mitos dizem que A Teia só deve obediência a uma pessoa: o Investigador. Todos os demais têm que pagar.

Pagar... Sova exatamente como Daímonas, e isso me incomodava, mas, por outro lado, eles provavelmente não tentariam devorar a minha alma.

— E o que cobram?

Ian deu de ombros.

— Às vezes dinheiro, às vezes outras informações. O importante é que são sempre justos. Por causa da Balança.

— Balança?

— Um item mágico abençoado por Têmis, a deusa da Justiça. Se pedem uma informação, ela é escrita num papel e posta em um dos pratos. No outro vai o pagamento. A Justiça decide.

Soltei um grunhido. Era um sistema interessante.

— Entendo. Informações valem de acordo com o momento, certo? — ponderei.

— O que quer perguntar?

Eu o fitei.

— Quero a localização do Shinigami da última geração. — respondi e voltei os olhos para o café — Eu vou quebrar o ciclo.

Tomei o último gole, coloquei-me de pé e caminhei até a mochila, procurando uma boa roupa para vestir e tentando ignorar a tontura que tomava conta de mim quando fazia movimentos bruscos.

Senti o olhar de Ian me seguindo, mas ele não protestou.

— O que vai oferecer em troca?

Parei por um segundo. Devo ou não?

Abanei a cabeça. Não há mais volta. Desde a minha escolha de salvar os Greno, desde que me tornara familiar de Izumi.... Não podia mais hesitar em arriscar a minha vida. "Ian vai estar aqui, tenho Prostátida, e os conselhos de papai. Não preciso do medo".

— Pergunte a Izumi se temos autorização para sair da cidade depois de fazer o que ela mandou. — pedi e o encarei — Vou pagar com a minha localização.

Nós resolvemos esperar a resposta de Izumi antes de seguir para a missão que ela designara. Era apenas uma medida de segurança: relatos sobre um paciente de um hospital psiquiátrico dizendo absurdos, como a dominação do mundo pela Mãe Terra. Aparentemente, isso chegou aos ouvidos dela, e a líder resolveu que era um bom jeito de ocupar minimamente o nosso tempo, como uma forma de nos fazer sentir úteis. Ou foi o que eu pensei sob a lente da minha falta de disposição para fazer o que ela mandara.

Ora, não me julguem. Minha cabeça doía em uma soma de motivos, já que, além do Past Dream, eu ainda havia chorado horrores. Pensar nisso me fazia querer socar a cara de Ian.

— É tudo culpa sua. — murmurei, a cabeça caída sobre a mesa, enquanto esperávamos o almoço no restaurante do hotel.

Ele revirou os olhos. Na verdade, eu não estava vendo seu rosto para ser capaz de dizer, mas tinha certeza de que ele revirara os olhos. Ele sempre fazia isso.

— Não me culpe por estar com dor de cabeça. — devolveu — Foi você que quis usar seu poder, não foi?

Fiz o possível para dar de ombros na posição em que estava.

— Mas você é que me fez chorar.

Ele não respondeu, e de repente me preocupei pela acusação. E se ele começasse a se sentir culpado de novo? Ergui a cabeça e o encarei.

— Estou brincando. — afirmei, séria.

Seu rosto continuou inexpressivo enquanto ele fitava a janela.

— Eu sei, baka.

Revirei os olhos, tendo me preocupado por nada, e deitei a cabeça na mesa novamente. Fiquei me perguntando se esse era um efeito colateral de estar conhecendo mais coisas sobre Ian: sentia um impulso de ser mais cuidadosa com as brincadeiras para não machucá-lo sem querer. Eu estava como quem tira um véu que cobria um vaso de vidro fino, segurando a peça entre as mãos cuidadosamente. Queria mantê-lo perto desesperadamente, mas assombrava-me a ideia de quebrá-lo.

Diagnostiquei isso como sendo da mais perfeita normalidade. Quando mais valorizamos alguém, mais queremos evitar machucar essa pessoa.

— Maya. — chamou, fazendo-me grunhir em resposta — Se começar a me tratar como um estranho, vou ficar irritado.

Franzi a testa, mas permaneci com a cara na mesa.

— Do que está falando?

Eu o ouvi suspirar.

— É que você está assim desde que acordou: sempre pedindo desculpas por coisinhas pequenas, segurando as provocações, evitando as brincadeiras. — pontuou — Parece até que, ao invés de ficarmos mais próximos com o que houve ontem, nós nos tornamos estranhos. Você fez eu falar um monte de coisas que eu não queria te contar, e me viu chorando como nunca permiti nunguém ver. E agora está agindo como se não me conhecesse. Está me irritando.

Fiquei muda. Nem havia me dado conta desses detalhes ao longo da manhã, mas ele me conhecia bem o bastante a esse ponto. E, droga, ele estava certo. Eu estava me preocupando ao invés de me sentir mais livre com ele, o que era a maior contradição. Afinal, foi exatamente o que eu usei como argumento para convencê-lo a me deixar acessar seu coração.

Fiz um bico, aborrecida comigo mesma.

— Desculpe. — suspirei — Você tem razão.

Dois, três segundos se passaram. E então ele soltou uma risadinha. Ergui meu olhar para ele, levantando um pouco a cabeça.

— O que? — perguntei.

— Nada. — sorriu, convencido — É só que ouvir você dizendo que eu tenho razão é uma sensação extremamente prazerosa.

Revirei os olhos.

— Baka. — falei, deitando de novo.

Silêncio.

Eu não estava com vontade de ficar assim por muito tempo.

— Ian.

— Hm?

— De onde tirou esse apelido?

— Qual?

— "Maya" — respondi — Ninguém mais me chama assim.

— Ah... — soou contrangido o suficiente para que eu tivesse a vontade de espiar sua expressão — É que eu costumava te chamar assim quando éramos pequenos.

Ergui as sobrancelhas.

— Sério?

Ele assentiu. Sorri.

— Gostei. — declarei — Eu por acaso te chamava de algum apelido?

— Nenhum que valha a pena relembrar.

— Então havia algum! — levantei a cabeça rápido de mais, e precisei segurar a tontura — Ai.

Ele cruzou os braços.

— Fique quieta. — ralhou — Precisa se recuperar ainda hoje, temos uma missão, lembra?

Resmunguei e deitei de novo.

— Estou com fome. — reclamei — Por que eles demoram tanto?

Ian suspirou.

— Vou verificar. — disse com um tom entediado e se levantou, deixando-me sozinha.

Silêncio... Fechei os olhos.

Não notei o momento em que caí no sono. Só lembro de ter pensado vagamente que precisava lembrar de forçar Ian a me contar como éramos quando crianças, mas esse pensamento se dissolveu em um sonho perturbador.

Gaia estava em meio a mais uma conversa com Michael.

Ela era a mesma imagem jovial e assustadora do outro sonho, os olhos ainda fechados e os pés praticamente flutuando. Michael parecia esgotado, sua pose determinada se fora, e a única coisa que restava do velho Mike que eu conhecia era um brilho fraco no olhar. Presente, mas fraco. Uma centelha de sua resistência, à qual eu podia ver que ele se agarrava.

— Aquela garota... Mayara Greno, certo? — Gaia sorria.

Senti um arrepio me percorrer. Aquilo não cheirava bem... Gaia sabia o meu , e eu não gostava disso nem um pouco.

Michael assumiu uma expressão dura.

— Ah, meu querido, não precisa disfarçar. Eu sei bem o quanto ela é valiosa pra você. Afinal, ela te salvou, não foi?

Imagens apareceram no chão: ele me contando sobre o Acampamento no dia em que cheguei, nós dois conversando na fronteira, nossas brincadeiras infantis, seus cuidados médicos comigo. Franzi a testa. Eu o salvei? Isso não fazia sentido. Era sempre o contrário. Mike fora aquele a me ajudar em todos aqueles momentos.

Mas Michael não negou.

— Nesse verão, quando você começou a se dar conta de que mais nada havia restado para você naquele lugar, que seus irmãos morreram sob seu comando, e que a você não sobrara nem mesmo sua mortalha, ela apareceu.

"Não havia restado nada...?" Pensei, já começando a me desesperar "Pelos deuses, Mike, isso é uma mentira enorme!"

Mas ele também não refutou o que ela dizia.

— Ah, sim. Ela transformou o Acampamento em um lugar em que valia a pena ficar novamente. Você demorou a perceber, não foi? O quanto ela era importante. E quando finalmente se deu conta, ela foi arrancada de você tão rapidamente...

"Não é verdade!" Eu quis gritar "Droga, Michael, eu não morri, sabia?!" Mas ele novamente não expressou sinais de que lhe resistiria.

— É uma pena, mesmo... Você sabe que essa missão dela não tem volta. Sabe que, uma vez tão ligada aos Greno, ela nunca mais vai voltar pra você. Ah, e você viu, não foi? Ela e aquele garoto... Com certeza a ligação dos dois é muito mais forte que a sua.

Meu coração gelou. Eu e Ian... Mas... Não era bem assim...

Não achei forças para negar. Não achei coragem para confirmar.

Senti as lágrimas virem aos olhos, pela primeira vez me dando conta que talvez... Não. Quer dizer...

— E você foi deixado sozinho novamente. — Gaia não esperou que minha confusão se dissipasse — Sobrou-lhe apenas essa sua irmã, a quem você fingiu amar.

Michael ergueu a cabeça, reagindo.

— Não me olhe assim, criança. Eu sei o que realmente sente sobre ela. — ela acariciou o peito dele — Vamos, pode admitir para mim a sua inveja: aquela garota e seu talento incrível logo te custariam o título de melhor arqueiro do Acampamento. Você viu o potencial dela, e a odiou desde então.

— Não! — Michael finalmente resistiu, mas sua voz era rouca, chorosa e sem força — Não, não é verdade. Eu amo Shayla. Eu a amo. Eu a amo. Eu a amo...

Ele continuou a repetir aquilo, como que se agarrando a um mantra. Gaia sorriu, com falsa pena. Ela beijou suavemente sua face, e então voltou para a terra.

— Maya! — a voz de Ian me puxou de volta à consciência.

Ergui-me com força, buscando por ar como se sufocada, e em meio a lágrimas. Ian estava ao meu lado, balançando meu ombro, e deu um salto para trás com meu movimento repentino. A cadeira caiu para trás, chamando a atenção de todos no restaurante.

Ofeguei, desesperada, e soltei mais um soluço. "Michael..."

— Maya, o que houve? — Ian sussurrou, aproximando-se de mim e segurando meu braço para firmar meus pés, que osculavam com a tontura.

— Gaia... — murmurei — E Mike, ele... Falando mentiras pra ele... Minha culpa...

Ele não pareceu entender, mas se virou para o garçom que trazia nosso almoço, mandando-o levar para o quarto, e começou a me conduzir para lá.

O trajeto levou dois minutos, mas foi o suficiente para me tirar do estado de choque, e me levar à próxima fase: a tristeza que me atropelava impiedosamente. Assim que Ian fechou a porta depois do garçom sair, encostei a testa em suas costas, agarrei sua camisa com os dedos e pedi que não se movesse. E chorei silenciosamente. Não emiti mais sons, apenas deixei as lágrimas escorrerem e respirei a respiração entrecortada que o choro exige. Ele me deixou assim por mais um minuto, e então se virou, ergueu meu rosto, secando-o, e me perguntou o que havia acontecido.

Repeti para ele os dois sonhos que já tivera com Mike, omitindo a referência que Gaia fisera a nós dois, contando também mais detalhes sobre o incidente no Acampamento que lhe custara a vida.

— Ela o está transformando. — Ian explicou — Eidolons nem sempre morrem com o desejo de vingança. Algumas raras vezes, eles são transformados porque são convencidos de que tiveram uma vida injusta. No caso do seu namorado, ela o pegou antes que ele fosse mandado para o Julgamento, então tem a faca e o queijo nas mãos.

Passei a mão nos cabelos. Estávamos ambos sentados no chão mais uma vez, com as costas contra a cama.

— Mike não era meu namorado. — enfatizei, percebendo que me incomodava profundamente ouvir Ian se referindo a ele daquela forma, apesar de eu mesma ter ficado feliz com aquela perspectiva algum tempo atrás — Isso quer dizer que ele ainda não é um eidolon? Ainda há um jeito de salvá-lo?

O garoto suspirou.

— Teoricamente. — respondeu — Mas ele já foi envenenado. Ainda não está completa, mas a transformação já foi iniciada. Talvez haja um jeito de livrá-lo do fim e apenas mandá-lo para o curso normal de seu Julgamento no Mundo dos Mortos, mas... Eu não faço ideia.

Fitei minhas mãos. Aí vinha a terceira fase: raiva.

— Droga. — murmurei, fechando o punho — Isso é culpa minha. Mike e Shay foram o preço pela pergunta a Daímonas.

Expirei, exasperada.

— Mas não faz diferença agora. — falei — Não adianta reclamar a essa altura. Preciso resolver o problema e ponto.

Ian permitiu-se a sombra distante de um sorriso complacente.

— E o que vai fazer?

Levei a mão ao colar e fitei o vazio.

— Essa é a questão. Eu preciso saber o que fazer para salvar Michael. Em outras palavras, preciso de informações.

Ele compreendeu:

— A Teia.

Eu o fitei com um olhar determinado e um sorriso:

— Será que a Criança Bastarda vale duas perguntas?

Notas finais
Eaeee? Críticas, expectaticas, teorias? Deixa um comment me contando seus pensamentos ^^ Obrigada pela leitura e pelo amor ♡ ~jaa ne! P.S.: eu tenho outras fics aqui no Nyah!! Se quiserem dar uma olhada, chequem aí o meu perfil ^^ beijooos ♡