À Espada Pelo Sangue
29 Capítulo 24 - Idiota
Notas iniciais
— Muito bem. Todos aqui. – Izumi elevou a voz e nós nos reunimos à beira da pista. – É assim que vai rolar: cada um vai ao ponto de encontro por conta própria, já que é arriscado andarmos por aí todos juntos. Até onde pudermos nos locomover separadamente, nós o faremos. Todos aqui têm seu meio de transporte, certo? – Assentimos. Eu não sabia quanto aos outros, mas pensara imediatamente em Pandora — É aqui que vamos nos encontrar – Ela apontou no mapa o covil dos Ciclopes – Se temos que evitar o Prédio da Reunião, vamos ter que passar pelo Covil de qualquer jeito. Hiro e eu viajaremos pelas Sombras, mas nos juntaremos a vocês lá. Fiquem longe o suficiente para que não sintam o seu cheiro até que todos cheguem. Matt-kun tem a estratégia.
Matthew deu um passo à frente.
— Vamos lutar com a formação principal. – Falou – No entanto, como estamos lidando com uma circunstância sobre a qual não temos muito conhecimento, estejam prontos para assumir posições diferentes. Se encontrarmos até dois ciclopes, não precisaremos de alterações, mas a partir de três precisaremos nos dividir em três grupos menores. Como já disse, Hiro e Izumi, Ian e May, Kess, eu e Tori. Lembrem-se: nosso objetivo não é matar os ciclopes, mas atravessar a área de seus domínios. Se virem a oportunidade de fazê-lo sem gastar tempo em batalha, simplesmente vão.
Izumi assentiu e agradeceu a Matt. Ela então deu a ordem:
— Vamos. E que os deuses lhes guiem.
Levei a mão a boca e assoviei, chamando Pandora. Antes mesmo que pudesse ver algum sinal dela, ouvi o barulho de moto. Olhei para trás. Ian e Charlotte montavam cada um em uma Harley Davidson e colocavam os capacetes. Eu não havia notado antes, mas ambos estavam vestidos de forma apropriada para o transporte: Charlotte vestia uma calça preta e jaqueta de couro, com óculos escuros na cara, e Ian... Na verdade ele estava com o mesmo estilo de sempre, com sua calça preta surrada e uma jaqueta escura, mas, de certa forma, se encaixava perfeitamente no cenário.
— Wow. – resmunguei.
— Legal, não? – disse Matt ao meu lado.
Assenti.
— De algum jeito, combina com eles.
Ele concordou com a cabeça e se virou para mim.
— Como está o ferimento?
Levei a mão até minhas costelas.
— Não está mais doendo. – menti.
Com uma expressão descrente, ele cutucou o local com força. Fiz um esforço para disfarçar, mas ele deve ter visto a dor em meus olhos, pois disse irritado:
— Não minta para mim. Isso é importante, Mayara. Se não for honesta quanto a isso agora, não vou poder fazer nada por você, muito menos confiar.
Suspirei e dei de ombros mentalmente. Valeu a tentativa.
— Tá, desculpe. – falei – Estou bem melhor, mas ainda dói.
Ele abriu a boca para dizer algo, mas eu me adiantei:
— Mas eu posso lutar! Juro que posso, Matt.
Ele cruzou os braços.
— Eu sei que pode. Mas já falamos sobre isso, não foi?
— Sim. – Admiti a contragosto, já prevendo o discurso “pelo bem da equipe” – E eu já entendi. Mas não vou ficar do lado de fora enquanto vocês vão à batalha lá dentro. Prometo tomar cuidado, mas eu já te disse: não vou me abster de lutar. Se fosse qualquer outro membro da equipe...
— Se fosse qualquer outro membro da equipe – Ele interrompeu – Eu faria as mesmas recomendações.
Eu ergui a mão.
— Eu ia dizer que qualquer outro membro da equipe seria capaz de lidar com isso. – falei, determinada – E eu também devo ser. Talvez não consiga dessa vez, mas preciso tentar. Estou a milhas de distância de ser o que esse time precisa, e é por isso que tenho que correr, e ficar mais forte.
Matthew sustentou meu olhar, provavelmente analisando minha determinação. Não recuei. Havia pensado bastante sobre isso durante a noite, e tinha certeza sobre o que dissera. Eu só havia visto Hiro, Ian e Izumi lutarem, e, mesmo em lutas que pouco lhes exigira, eu havia visto a lacuna enorme entre eu e eles.
— Tenho que ficar mais forte. – repeti.
Matt descruzou os braços.
— Pois bem – disse, com um sorriso estampado na cara – Eu já esperava isso de você.
Minha pose de afronta caiu.
— O-o que?
— Escute, eu te coloquei onde haverá menos perigo. – disse – E onde creio que será mais útil. Mas uma batalha pode ser imprevisível, então tenha cuidado. E preste atenção, aprenda o máximo que puder. Se realmente precisarmos nos dividir, faça tudo o que puder para ficar próximo a Ian e ajude-o. E mais importante: se precisar de ajuda...
— Não se preocupe. – interrompi, animada – Eu posso cuidar de mim mesma. Não vou fazer besteira. Mas se algo der errado, eu vou pedir ajuda.
Ele balançou a cabeça em aprovação.
Ouvi um relincho e olhei para cima. Pandora sobrevoava a pista.
— Vou fazê-la descer em alguma rua mais escondida. – disse a Matthew, já começando a atravessar a rua – Te vejo no ponto de encontro.
— Temos um problema. – Matt disse, e nós interrompemos nossa caminhada cautelosa pelo território inimigo.
Havíamos passado para a caminhada a pé quando nos encontramos no ponto de encontro, visto que nem todos tinham como atravessar pelo ar ou pelas sombras. O conjunto onde estávamos era pouco movimentado naquele momento, com a maioria das pessoas no trabalho, mas alguns carros ainda passavam vez ou outra. Nós andávamos normalmente, tentando evitar suspeitas, mas nossos sentidos estavam em alerta.
— O que foi? – Izumi respondeu.
— Nós esquecemos de considerar que JJ vai querer uma oferenda. – ele disse – Se enfrentarmos os ciclopes, será o presente perfeito. Abrimos o caminho para seus “clientes” chegarem até ele sem problemas. Ele com certeza vai pedir por isso. Deveríamos nos adiantar.
Izumi levou a mão ao queixo.
— Você tem certeza disso? – ela perguntou.
Ele assentiu.
— É a escolha mais apropriada. De qualquer maneira, mesmo se ele fosse pedir outra coisa, ao chegarmos com isso, ele não negará. É uma oferenda boa o suficiente.
Izumi balançou a cabeça.
— Sendo assim – falei, dando um passo à frente – teríamos que limpar a área?
— Bom, pouco adianta se matarmos só alguns. – Matt respondeu.
— Então teremos que cobrir uma área maior – disse eu – Se quisermos ganhar tempo, deveríamos usar a segunda formação.
— Ela é mais arriscada, no entanto. – ele ajuntou – Separar o grupo dessa forma pode dificultar a comunicação entre a equipe. Seria perigoso se a situação ficasse crítica para alguma dupla.
Levei a mão ao meu pingente de morango, pensativa.
— Em um covil como esse, há uma máxima de seis Ciclopes, se não me engano. – falei.
Matthew assentiu com a cabeça.
— Entendo. – respondeu – É uma média de dois para cada dupla. Considerando que um grupo tão grande só se junta dessa forma quando seus integrantes não são muito poderosos, devemos ser capazes de lidar com essas proporções sem muitos problemas.
Concordei.
— Mas – acrescentei – não temos como garantir que não vamos encontrar três ciclopes juntos.
— Bom, se isso acontecer, teremos que reagrupar. Vamos definir um ponto de encontro.
— E quanto aos mortais? Estamos em uma área residencial.
— Apenas precisamos deixar a Névoa fazer o trabalho dela. E manter a luta longe deles.
Izumi, que como os outros havia passado o olhar de mim para Matt, entrou na conversa:
— E Então? Vocês também pretendem calcular o tanto de passos que devemos dar, ou podemos prosseguir? Eu sei que vocês de Atena adoram essas coisas, mas não podemos ficar parados por muito tempo.
Matthew riu.
— Desculpa, Izumi. – disse – Acho que deveríamos nos dividir. Se alguma dupla der de cara um grupo maior, não deve enfrentá-lo. Nós devemos reagrupar para então investir contra ele.
— Ótimo. Para mim está de bom tamanho. – disse ela – Vocês ouviram o estrategista. Ian-kun e May-san, vocês vão cobrir a área mais à esquerda. Hiro e eu vamos pela direita. Matt-kun, vocês vão pelo meio. Nós nos encontramos do outro lado.
— Ian! – gritei, elevando minha voz acima do barulho de sua Harley e forçando Pandora a um galope mais rápido – Se formos tão rápido assim podemos perder alguma coisa.
— Não se preocupe, novata. – ele respondeu – Eu sei para onde estou indo. Só tenta me acompanhar.
Ele acelerou, aumentando a distância entre nós.
— Sinceramente... – resmunguei, emburrada.
Bati com o calcanhar na barriga de Pandora.
— Para cima, garota! – pedi.
Ela abriu as asas e alçou voo, ganhando altitude. Senti o vento no rosto, e a sensação de liberdade que experimentava toda vez que a montava. Alguns segundos depois, nossa sombra acompanhava Ian lá embaixo, que olhou para cima de repente.
Ele gritou alguma coisa, irritado.
— Não dá pra te escutar daqui de cima, idiota! – respondi com um sorriso triunfante, embora soubesse que ele também não podia ouvir.
Pandora olhou para mim. Por um momento pensei ter visto um ar de reprovação em seu olhar. Revirei os olhos. Ela parecia minha mãe.
— Não pega no pé, não. – falei – Ele é insuportável. Eu lhe emprestei meu casaco essa madrugada e ele nem devolveu. Pior, nem agradeceu.
Lancei outro olhar ao garoto. Ele agora gesticulava impaciente.
— Esse cara faz questão de me chamar de novata o tempo todo, e está sempre com aquela cara de desgosto quando estou por perto. – continuei – Não sei qual o problema dele. Um dia e já estou cheia desse... Mas o que é que ele tá fazendo?
Ian parou a moto e desmontou. Sem entender, dei um tapinha no pescoço de Pandora.
— Vamos descer, garota.
Ela planou mais um pouco, descendo em espiral, até pousar na estrada, perto de onde Ian estava. Eu saltei no chão e caminhei até ele, que vinha em minha direção com uma expressão irritada.
— O que aconte...
— O que diabos estava fazendo? – ele interrompeu.
Franzi a testa.
— Você disse pra te seguir.
— Em voo?! – exclamou – Baka*! Quer que todos os ciclopes desse covil saibam que estamos aqui?
Pisquei, de repente percebendo o meu erro.
— Droga. – falei – Isso é um problema.
Ele ergueu as mãos.
— Ah, que bom que percebeu!
— Não, não. – interrompi – Você não entendeu. Se eles estavam observando o céu, então já viram Pandora.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— É mesmo, gênio? Bom, para sua sorte foram apenas alguns segundos. Talvez vocês tenham passado desapercebidas.
Suspirei.
— O que estou tentando dizer, Ian, é que Pandora já veio ao meu encontro voando. Isso quer dizer que se estavam nos observando, eles já sabem que estamos aqui há algum tempo.
Vi a compreensão passar por seus olhos.
— Você só pode estar brincando. – reclamou.
Levei a mão ao meu pingente de morango, pensando. Se estivéssemos sendo seguidos... Sermos surpreendidos seria ruim, mas também não podíamos ficar parados à espera de um ataque ou preparar uma emboscada sem saber se eles estavam vindo ou não. No entanto, se eu pudesse atraí-los para longe...
Peguei de volta as rédeas de Pandora.
— Continue nesse caminho. – falei – Vou voltar lá pra cima e atraí-los para longe, enquanto você segue em frente. Aproveito para checar se tem alguém vindo.
Ian torceu o nariz.
— Baka. – falou novamente e comecei a desconfiar de que “baka” não era um elogio – Não vamos nos separar. O que vai fazer se forem atrás de você, enfrentá-los sozinha?
Ergui uma sobrancelha.
— O que, tá preocupado comigo?
Seus olhos faiscaram.
— Nós não vamos nos separar. – repetiu – Mande Pandora sozinha. Indique a direção e ela a seguirá. Você pode vir na garupa comigo. Vou mudar a bainha da minha espada de lugar para ela não te machucar.
— Mandá-la sozinha? E se a pegarem?
— Eles não vão ter interesse nela.
— Eles não vão cair nessa. Dá pra ver que não tem ninguém montado.
— Eles não vão se preocupar em checar isso. Vão cair sim.
— M-mas...
— Pare de tentar inventar desculpas para não sentar na moto comigo. – interrompeu, deixando-me surpresa por conseguir me ler tão facilmente – Eu também não estou feliz com a situação, e como a culpa é toda sua, podia ao menos tentar não dificultar.
Emburrei.
— Vamos, ande logo.
Revirei os olhos e fiz o que ele dizia. Assim que Pandora partiu, ele tirou o capacete e o estendeu para mim.
— Coloca isso.
— Mas e você?
— Só coloca.
Eu o peguei, mal-humorada, e ele montou na moto novamente.
— Anda, sobe. – ele disse e eu obedeci, revirando os olhos – Segura firme!
Ele arrancou com tudo, pegando-me desprevenida.
— AAAAAAAAAH – gritei, minhas mãos agarraram seus ombros desesperadamente.
Recobrei o equilíbrio.
— IDIOTA! – esbravejei – EU VOU CAIR!
— EU TE FALEI PARA SEGURAR FIRME! – Ele gritou de volta, olhando para mim.
— PELOS DEUSES, IDIOTA, OLHA PRA FRENTE!
Ele gargalhou, divertindo-se.
— VOCÊ DEVERIA VER SUA CARA AGORA, NOVATA!
— ORA SEU...
Ele fez uma curva brusca. Por sorte não fui jogada na pista, mas senti meu coração querer sair pela boca.
— Ei, novata, não me abrace com tanta força.
— Heh?
Percebi que meus braços estavam ao redor de sua cintura, apertando-o. Repreendendo a mim mesma por fazer papel de gatinha assustada, obriguei-me a soltá-lo e me segurar no banco. Após me acostumar um pouco mais com os movimentos da moto, respirei fundo.
— Ei, Ian – chamei – Sabe mesmo para onde estamos indo?
— Daijoubu*. – respondeu.
— Não fale em japonês comigo, idiota. – reclamei – Parece até que está me xingando.
— Baka. – ele resmungou, mal-humorado, mas pude ouvir. Perguntei-me quantas vezes ele ia repetir aquela palavra – Eu falo três línguas, sabia? É difícil não misturar.
— Foco, Ian.
Ele fez mais uma curva apertada, como se em protesto. Meu coração deu uma batida descompassada.
— Há uma praça nas redondezas. – falou – É um centro de drogas. E adivinha quem são os traficantes?
— Os ciclopes? – exclamei, surpresa – Eles realmente se envolvem dessa forma com o mundo mortal?
Ian começou a diminuir a velocidade. Pude ouvi-lo bufar.
— Como esperado de alguém treinado no Acampamento. Aqueles caras são ingênuos demais.
— Como é que é? – comecei, irritada.
— É isso mesmo. – ele suspirou – Os semideuses comuns podem até saber muito sobre os monstros e ser bons em matá-los. Mas a época em que tudo se resumia a isso já se foi há muito tempo. Ou você acha que depois de séculos e séculos os monstros racionais não aprenderiam a se aproveitar da Névoa e passariam a fazer mais do que apenas caçar semideuses?
Não tive como contra argumentar. Aquilo fazia sentido perfeitamente. Não pela primeira vez, censurei-me por não ter pensado nisso antes. No entanto, nem mesmo os campistas mais antigos do Acampamento haviam comentado nada sobre aquilo. Perguntei-me se Ian não estaria certo e eles não eram ingênuos demais. Afinal era natural, visto que a maioria ali se mantinha longe dos monstros dentro das fronteiras mágicas, enquanto os Greno estavam mergulhados nesse mundo até o pescoço.
— Ei, se continuar encarando o chão com tanta força, capaz de a pista sair correndo.
Eu não havia percebido, mas Ian havia parado a Harley e agora esperava que eu saltasse para poder fazer o mesmo. Mais uma vez, eu estivera tão imersa em pensamentos que esquecera de tudo.
Eu lhe lancei um olhar irritado, mas desmontei.
Olhando ao redor, não via praça alguma, e a área não me parecia segura. As casas tinham uma aparência normal, mas de certa forma a atmosfera era pesada, e eu tinha a impressão de que estar ali era perigoso.
— Vamos. – disse Ian, começando a caminhar. Ele pegou a bainha de sua espada, que estivera em sua cintura, e a colocou novamente na posição de sempre às suas costas.
— Ei, tudo bem deixar sua moto aqui? – perguntei.
Ele me lançou um sorriso triunfante.
— Que moto?
Olhei para onde havíamos estacionado. Ela não estava mais lá.
Revirei os olhos. É claro que era um artigo mágico. Ian, parecendo se divertir com a minha reação, girou na mão uma carta de baralho. Em um dos lados, havia a exata imagem da moto que montávamos há um minuto.
— Wow, isso com certeza é muito legal. – tive que admitir.
Ele sorriu e então voltou a caminhar. Quando chegamos a uma esquina, Ian ergueu a mão e eu parei. Ele espiou por trás do muro.
— Como eu pensei, está movimentada com as férias de verão. – disse – Posso ver dois deles ali, o que é um número perfeito para nós, mas vamos precisar tirar os mortais daqui se não quisermos que isso vire uma confusão maior.
Assenti.
— Bom, eu tenho um plano.
— Sério? Chama isso de plano?
Eu o encarei.
— Você não tem nenhuma ideia melhor, tem?
Ele fez uma careta de desgosto. Fiquei satisfeita.
— Ótimo. Agora vamos. Tudo o que precisa fazer é ficar caladinho. Deixe que a filha de Atena fale. – avancei.
Ouvi Ian soltar um suspiro, mas ele me acompanhou.
Eu caminhei discretamente até a praça e, como quem não quer nada, me aproximei de um dos grupos mais à parte. Três garotos e duas garotas passavam a droga entre si e riam, aéreos. Quando perceberam nossa presença, lançaram-nos olhares desconfiados.
Eu os fitei de volta.
— Preocupados? – falei, diante de suas expressões acuadas – Pois deviam mesmo.
Tirei do bolso minha carteira e a abri, exibindo-a para eles como se fosse um distintivo por menos de três segundos. Teria sido o suficiente para qualquer um em sã consciência perceber o blefe, mas aqueles caras não pareceram se dar conta: estavam com os sentidos muito alterados para isso.
— Sim, eu sou da polícia de New York – continuei em um tom ameaçador. Uma das meninas fez um movimento para se afastar, mas eu ergui a mão e ela parou, com os olhos arregalados – Ah, não... É melhor que não façam nenhum alarde. Sabe, não estamos atrás de vocês, miseráveis. Queremos os peixes grandes. Só aconteceu de estarem no meio do caminho.
Olhei para o rosto de cada um, certificando-me de que estavam me acompanhando, e então continuei pausadamente:
— Vejam, seria problemático ter uma dúzia de jovens no meio do tiroteio... O pessoal dos Direitos Humanos faria um alvoroço. Mas podemos dar um jeito nisso. Tudo o que precisam fazer é discretamente espalhar entre os outros usuários que a polícia está aqui, e, assim que estivermos a sós com os caras importantes, “puf!”: eu e meu parceiro esquecemos do rosto de vocês.
O grupo se encarou, confuso.
— Ei, novata. – Ian sussurrou para mim – O que garante que eles não vão simplesmente fugir sem avisar os demais?
Dei de ombros.
— Se fizerem isso, ainda estaremos no lucro. – respondi para que apenas ele ouvisse – Só teremos que falar com o próximo grupo e daí em diante. E se os caras perceberem, nós podemos atraí-los para longe de uma vez.
Minha fala foi interrompida por uma risada nervosa.
— Não tem como vocês dois serem policiais. – disse um dos garotos, que parecia estar um pouco mais sóbrios que os outros – Quer dizer, não são nem mais velhos do que eu.
Nesse momento ele sentiu um metal frio ser pressionado contra suas costas.
— Polícia ou não... – Hiro falou ao ouvido dele, segurando duas pistolas, uma delas encostada à pele do rapaz – Ainda acha que importa?
— Hiro? – Ian murmurou – O que ele está fazendo aqui?
Neguei com a cabeça, também sem entender direito a situação, mas coloquei uma expressão ameaçadora no rosto novamente.
— Então... Mais algum questionamento?
Os demais negaram.
— Bom. Então já podem começar. – falei – E outra coisa... Pelo bem de vocês, é melhor que não deixem os traficantes notarem. Ou eu mesma trato de colocar vocês no caminho das balas.
A expressão assustada no rosto deles confirmou que minha fala havia atingido o objetivo. Eu então os dispersei, e eles seguiram obedientemente até os outros grupos.
Suspirei.
— Francamente...
Hiro colocou uma de suas pistolas no coldre e checou a munição da outra.
— Ah, Hiro. – chamei e ele ergueu o olhar – O que aconteceu? Onde está Izumi?
— Estávamos seguindo uma dupla quando eles se separaram. – ele disse casualmente – Segui um deles até aqui enquanto Izumi Nee-san ficou com o outro. Pensei em emboscá-lo em algum lugar mais discreto, mas parece que agora teremos que lidar com três.
— Ele te viu? – perguntei e Ian revirou os olhos.
— A única pessoa que eles podem ter visto é você, novata. Todos nesta equipe são profissionais.
Eu o fuzilei com o olhar.
— Eu devia ter deixado os profissionais lidarem com a retirada dos civis, então. – cruzei os braços, ácida – Sinto muito.
— Ei, Ian. Não fique se ofendendo em meu lugar. – Hiro disse e então mudou de assunto – E então, querem que eu cuide desses pra vocês?
Ian abriu um sorriso pretencioso.
— Até parece que eu vou te deixar ficar com toda a diversão. Quem matar seu alvo primeiro parte pro segundo.
— Espera aí. – reclamei – Por acaso estão me excluindo da luta?
— Ele sempre quer acabar sozinho com todo mundo. – Ian apontou para Hiro – Quanto a mim, sim. Acho melhor que você proteja os civis e...
— Não seja idiota. – interrompi – Melhor, não pense que sou idiota. Eu não vim nessa missão com um grupo cheio de gente super treinada e forte para ficar me escondendo atrás de suas costas. Eu vou lutar. E se não gosta da ideia, eu não me importo, mas Matthew me disse para aprender com vocês, e é o que eu vou fazer.
Hiro apoiou as mãos na nuca, como sempre se divertindo com as situações.
— Ela não se importa, Ian. – disse, rindo – Acho que você encontrou alguém com uma teimosia tão grande quanto a sua.
Ian bufou.
— Bom, não é problema meu se quer arriscar o seu pescoço. – falou – Mas é melhor ter cuidado, entendeu?
Abri um sorriso convencido.
— Ao menos do meu pescoço eu sei cuidar. – retruquei.
— Ou pelo menos foi o que pareceu na semifinal contra Alek Clarke. – Hiro comentou – Eu me pergunto até onde você iria contra Jay.
— Jayden Kellin? – Ian franziu a testa – Você ia lutar contra ele?
Eu assenti, com uma pose casual. “Ha! Surpreso agora? Aposto que deve estar pensando que tenho coragem” pensei, triunfante.
— Você é mais idiota do que pensei. – ele concluiu e eu quase engasguei.
Hiro riu.
— Eu e Matt-kun pensamos a mesma coisa. – ele passou o olhar pela praça e colocou as mãos nos bolsos – Acho que vamos ter problemas.
Segui seu olhar e percebi que havia uma pequena comoção se formando entre os mortais.
— Bom... – comecei – Não esperava mesmo que fosse tudo sair perfeitamente. Hiro, será que não dá pra usar o truque da arma novamente?
Ele tirou uma das pistolas do coldre e a apontou para cima. Arregalei os olhos, mas, antes que eu pudesse impedir, ele deu dois tiros para o céu.

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