À Espada Pelo Sangue
27 Capítulo 22 - Jay Kill
Notas iniciais
Meu próximo adversário era um garoto insano.
Não pude nem mesmo terminar de mastigar a ambrósia direito e a luta já havia acabado, com o perdedor ensanguentado no chão. Quase cuspi tudo fora quando meu cérebro finalmente registrou que estava na minha vez.
— Ah, então você vai lutar com ele. – Matt colocou a mão em meu ombro – É, boa sorte.
Hiro riu.
— Você não tem dó.
O juiz anunciou o fim da luta e nos deu dez minutos de intervalo. Eu observei o garoto sair do tatame.
Era uma criança. Devia ter no máximo dez anos. Os cabelos loiros bagunçados e ondulados emolduravam seu rosto, e ele os soprava para longe de seus olhos cada vez que uma mecha escorregava. O físico era atlético, e eu pudera perceber que ele era muito (muito mesmo) ágil.
Mas o que me chamou atenção foram seus olhos: carregavam uma inocência e uma insanidade misturadas. Ele ria enquanto batia no outro garoto, e parecera decepcionado quando a luta chegou ao fim. Eu percebi em sua expressão: lutas, guerras, e mesmo a morte não deviam passar de uma grande brincadeira na cabeça dele. Senti a curiosidade crescer dentro de mim, e de repente soube que precisava conhecê-lo.
— Aquele ali não tem um juízo no lugar. – falei.
Matthew se agachou ao meu lado.
— De fato. – disse – O nome dele é Jayden Kellin Greno. É conhecido como Jay Kill. Nove anos de idade, está na linha de frente desde os seis. Aliás, ele combate mais do que somente monstros.
Fiz cara de quem não entendeu.
— O que?
Hiro interviu.
— Não dá tempo de explicar isso agora. – falou – O fato é que aquele garoto é perigoso. Ele é extremamente habilidoso e gosta de acabar lentamente com seus oponentes. Foi criado para isso.
— Mas fora isso, – ponderei – ele é só uma criança.
Ele negou com a cabeça.
— Não há muito espaço para infância na vida da maioria dos Greno, e no caso dele, há menos ainda. Duvido que ainda reste nele alguma atitude de criança. Acredite, nós viemos do mesmo lugar, e lá não temos esse luxo.
— Está errado.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Eu vejo em seus olhos. – falei – Digam o que quiserem. Aquele garoto...
Não fui capaz de completar o pensamento.
Procurei Jayden com os olhos, até encontrá-lo sentado em uma cadeira, os pés balançando, alegremente comendo um sorvete. Antes que eu pudesse pensar, fiquei de pé e caminhei até ele.
— Olá. – falei, e o garoto ergueu o rosto para me encarar. Eu me agachei para ficar da mesma altura que ele, apesar de minhas costelas e minha perna gritarem de dor no ato.
Seus olhos arregalaram. Eram de uma tonalidade mel intensa.
— Qual é o seu nome? – perguntei.
— Jayden Kellin Greno – falou devagar, ainda de olhos arregalados. Ele tinha o mesmo sotaque de Hiro, embora não tivesse aparência oriental.
— Prazer em conhecê-lo, Jayden. Eu sou May. – falei e estendi a mão direita, mas a dele estava ocupada com o sorvete, e o pobre garoto pareceu experimentar um instante de confusão. Eu sorri e recolhi a mão.
— Onee-chan! – ele exclamou – Você é a próxima?
Eu ergui a sobrancelha, percebendo que ele se referia à luta.
— Sou sim – falei.
— Legal! – ele esticou a mão esquerda e cutucou a minha bochecha. – Você é bonita. Mas não parece muito forte. Você é?
Eu ri e dei de ombros.
— Quem sabe? – respondi – Você vai descobrir logo.
Ele abriu um sorriso empolgado.
— Onee-chan, você vem com tudo? – perguntou, balançando as pernas no ar.
Eu não soube exatamente como responder àquilo. Eu não queria “ir com tudo” numa luta com aquele menino. No entanto, essa parecia ser uma resposta que não o agradaria: como dizer a uma criança normal que não brincaria com ela do jeito que ela queria. E de qualquer maneira, de acordo com o que Matthew havia dito, eu não tinha chance contra aquele garoto.
Vendo a minha hesitação, Jayden assumiu uma expressão meio confusa, meio séria.
— Onee-chan – falou em tom de repreensão – não é divertido se não for pra valer.
Deixei um sorriso escapar. Eu sabia. No fim das contas, ele era apenas uma criança querendo diversão. A luta lhe propiciava isso.
— Tudo bem, então. – falei – Acho que vou ter que ir com tudo.
Ele abriu um sorriso e estendeu o braço esquerdo, o punho fechado.
— Promete?
Eu soquei a mão dele de leve.
— Prometo.
Ele acenou com a cabeça em aprovação, e voltou a comer seu sorvete e resmungar sozinho, de repente entrando em um mundo só seu.
Eu levantei e manquei de volta até Matt e Hiro. Os dois me encaravam meio pasmos. Quase dei um sorriso. Era essa a cara que eu queria que fizessem.
— O que? – perguntei.
— Ahn, você sabe que ninguém nunca venceu Jay Kill em nenhum torneio que ele já participou, não sabe?
— Não, não sei. – falei, sentando novamente no chão – Mas isso deve ser por que ninguém nunca o entendeu. Para ele a luta em si não importa, ele quer se divertir. Um bando de gente que não teve espaço para infância – lancei um olhar significativo para Hiro e ele ergueu uma sobrancelha – não poderia saber como reagir à forma de lutar dele.
Matt cruzou os braços.
— E você sabe? – perguntou, em um tom cético.
Eu o encarei.
— Bom, eu não diria que posso ganhar, mas se quer saber minha opinião... Jayden vai se arriscar, deixar a guarda baixa, fazer movimentos desnecessários, porque tudo isso dá mais emoção à luta. Eu devo entrar no jogo dele, atacar sempre que encontrar uma abertura, e me manter atenta. Fora isso, vou dançar conforme a música. De qualquer forma, agora já não me interessa mais ganhar. – dirigi o olhar ao garoto, que se lambuzava com o sorvete – Eu só quero entender... – eu me detive – Esse garoto... Ele me intriga.
Era verdade. Havia algo sobre aquele menino: seu olhar, suas palavras, sua história... Eu sentia como se houvesse algo que eu precisava desvendar sobre Jayden. Quer dizer, uma criança de nove anos nas linhas de frente? Quem em sã consciência faria isso? E ainda havia aquela fala de Hiro: “de onde viemos, não há espaço para infância”. Perguntei-me pelo que exatamente ele passou para chegar ao ponto de ser temido até mesmo pelos integrantes do meu grupo, que, segundo Charlotte, eram alguns dos mais fortes.
Por um momento, tive o pressentimento de que Jay representava um lado da família Greno que eu temia descobrir, ao mesmo tempo que não podia abandonar a curiosidade e deixar de dar uma olhada. Mas não achei que Matt e Hiro fossem entender.
Desviei do assunto.
— Aliás... – comecei a levantar, mas minhas costelas explodiram de dor e eu caí novamente, pondo a mão sobre o local.
— O que foi? – Hiro se ajoelhou ao meu lado.
— Merda. – reclamei, vendo o sangue em minha mão.
Matt se aproximou e levantou a minha blusa. As faixas que cobriam os pontos do ferimento estavam ensanguentadas.
— Como é que você não percebeu isso antes?
— Eu estava com dor, mas não achei que fosse sério.
Ele revirou os olhos.
— Você é louca? Lutou com isso assim?
Eu ergui uma sobrancelha.
— Ei, nem vem. A ideia foi sua pra começo de conversa. Eu já tinha essa fratura desde hoje de manhã!
— Você não disse que estava machucada. – ele se defendeu.
— Eu estou mancando! – exclamei.
— Ei, depois vocês resolvem de quem é a culpa. – Hiro interrompeu – O que fazemos com isso?
Matt ergueu as mãos.
— Eu só treinei primeiros socorros. Como se cuida de uma fratura exposta?
Revirei os olhos.
— Eu sei como. – falei, e comecei a tirar a blusa, ficando apenas com o top de academia que usava para fazer exercício – Hiro, me dê mais Ambrósia. Matt, comece a desenrolar as faixas.
Os dois não se mexeram.
— Oi? – chamei – Terra para os Greno?
— E-ei, May – Matt resmungou, ficando vermelho – Você sabe que estamos no meio do Shopping, não é?
— E daí? – falei – Isso não vai esperar eu encontrar um lugar mais reservado para continuar a sangrar. Se eu perder sangue demais, vou ficar muito fraca para lutar.
— Espera aí! – Hiro exclamou enquanto eu tomava da mão dele a Ambrósia – Não está pensando que ainda pode lutar desse jeito, está? Aliás, cuidado para não virar pó com esse monte de Ambrósia que você está comendo.
— Tá tudo bem. – disse eu – Matt, vê se acelera.
Ainda vermelho, ele terminou de tirar as faixas, abrindo a visão para o ferimento.
Respirei fundo.
— Ok, agora vem a parte difícil. – falei – Matt, precisa empurrar as costelas até que fiquem no lugar delas, e então costurar a abertura. A ambrósia cuidará do resto.
Ele assentiu, com um olhar determinado.
Peguei minha blusa e coloquei entre os dentes, para não gritar.
— May. – Hiro chamou e eu olhei para ele. – Tem algo que precisa saber sobre o Jayden. Nós dois fomos do mesmo centro de treinamento no Japão. Eu tinha oito anos e ele tinha quatro. Depois de seis meses treinando juntos aprendi algo sobre ele...
Tirei a blusa da boca.
— Olha, Hiro, eu realmente gostaria de saber o que é, mas será que não dá pra deixar pra de... – uma dor insuportável percorreu todo o meu corpo quando Matt empurrou as costelas para dentro de uma vez.
Senti meu corpo querer desmaiar, mas resisti.
— Ah, que merda. – murmurei, tentando afastar a dor. Apontei para Hiro – Boa estratégia.
Ele sorriu.
— Normalmente funciona.
— Ainda não encaixou. – Matt falou e eu bufei.
— Claro que não... – falei, debochando da minha sorte. – Faz logo de uma...
Ele apertou novamente antes que eu tivesse tempo para me preparar. Meus olhos lacrimejaram, soquei o chão com força. Minha mão também doeu.
— Ai, deuses. – arfei.
Mordisquei mais um pouco de Ambrósia e a dor aliviou.
— Como vamos costurar? – Matt perguntou.
— Tem um kit na minha mochila. – falei.
Hiro pegou a mochila, tirou o kit e o passou para ele.
— Como conseguiu isso? – perguntou Matt, começando a costura.
Franzi a testa, imaginando que importância isso teria, mas pensei que seria simplesmente mais fácil responder que tentar entender.
— Bom, tenho um amigo que é filho de Apolo e...
— Estou falando do ferimento. – interrompeu.
— Ah, isso... – Murmurei.
Eu não estava com vontade de falar sobre aquilo, mas ele continuou.
— Disse que estava ferida assim desde de manhã, e parece que está machucada em vários outros lugares. Não pode ter sido em algum tipo de treinamento. Isso por acaso tem alguma relação com o fato de você já ter conhecido Ian antes de ser apresentada hoje à tarde?
Eu dei um sorriso amargo.
— Você não deixa passar nada. – Suspirei – Suponho que não tenha outra alternativa a não ser contar. Bom, em um resumo grosseiro, eu fui possuída por um eidolon. Ele me usou como Cavalo de Tróia, matou meu pai, e feriu gravemente minha madrasta. Tive que fugir com meus dois irmãos mais novos, mas eles a curaram e nos perseguiram junto com um mortal possuído. Lutei e derrubei minha madrasta, mas o cara me pegou. Pode-se dizer que Ian me salvou. Mas ele também enfiou uma espada nela, então nós discutimos. Ele queria nos trazer para cá logo, mas eu decidi levar meus irmãos a um lugar seguro e deixá-los fora disso.
— Por isso ele achou que você ia desertar. – Hiro concluiu.
Assenti.
— Sem ofensas, mas esse cara... – deixei a frase no ar, tendo certeza de que eles entenderam o que eu quis dizer. Eu não gostava de Ian, e isso ia além do que havia acontecido pela manhã. Alguma coisa naquele garoto me incomodava.
Matt continuou passando a linha pela minha pele.
— Mas, May, — começou – Ian salvou sua madrasta. Se ela foi curada...
Sua voz morreu. Percebi Hiro estremecer de leve, como se a ideia fosse abominável demais.
— O que? – perguntei, curiosa – O que de tão horrível acontece quando alguém é curado por eles?
Matt assumiu uma expressão grave.
— Eles são espíritos de ódio, de vingança, cheios de desejo de voltar à vida. Quando possuem alguém comum, os desejos da pessoa são transformados nos desejos deles, mesmo que por um período muito curto de tempo. Isso só acontece com os Greno quando somos curados pelos poderes deles, e no entanto, pode durar para sempre se o demônio não for derrotado logo. Em outras palavras, se Ian não tivesse colocado aquela espada nela, ela morreria dentro de si, consumida pelo ódio e sede de vingança. Por fim, ela se tornaria um com ele para sempre.
Meu coração disparou. Então era desse pesadelo que a espada de Ian havia nos salvado. De repente senti um peso na consciência. Mas outra questão martelava minha cabeça.
— Mas e agora? – perguntei – Ela vai se recuperar?
— Bom, isso vai depender. – Hiro respondeu.
— De que? – falei impaciente.
— De quanto tempo ela ficou possuída, de qual a classe do demônio, do quanto foi curada, de quão forte ela é. Ela ainda poderia se recuperar fisicamente, mas ter sérias alterações de personalidade, ou sequelas desse tipo. Ela pode ter que lutar contra impulsos vingativos pelo resto da vida, mas tudo isso vai depender.
Eu sorri.
— Bom, se vai depender da força dela – falei – eu posso ficar tranquila.
Matt terminou o último ponto e olhou para mim.
— Devo dizer que estou surpreso de isso tudo aconteceu hoje de manhã e ainda assim...
Baixei o olhar.
— Estou tentando não pensar muito nisso... Não tenho tempo para a dor ainda. – respondi.
Hiro colocou a mão em meu ombro.
— Bem-vinda à família Greno.
Eu mordi mais um pouco de Ambrósia e mudei de assunto, antes que pensasse demais no que havia perdido.
— Quantos minutos eu tenho antes da luta?
Matt olhou seu relógio.
— Dois. – respondeu – Mas você não vai lutar.
— Como é?
— Isso mesmo – ele falou, firme – Escuta aqui, sua prioridade é a missão. Estou ciente de que pode aguentar a dor, mas esse ferimento aqui vai te atrapalhar. E, atrapalhando você, atrapalha a nós. Se você piorar, teremos que adiar nossa saída, e isso está fora de cogitação, sendo assim, nós a deixaremos para trás, o que nos deixaria com menos pessoal. De um jeito ou de outro, você nos traria problemas. Tenho certeza que não é o que quer.
Eu fechei a cara. É claro que ele estava certo, mas eu queria lutar com Jayden a qualquer custo.
— Sabe em quanto tempo isso se curou? – Apontei para a cicatriz em meu ombro.
Ele não respondeu.
— A garra do monstro atravessou o meu corpo. – falei – Saiu do outro lado. Deveria ter levado meses para cicatrizar e eu provavelmente não deveria ser capaz de fazer todos os movimentos novamente. Mas quer saber? No dia seguinte eu treinei arco-e-flecha, esgrima e karatê. Quando tiramos as faixas, tudo o que havia era essa cicatriz.
Hiro tinha um sorriso na cara, as mãos apoiadas na nuca, como se estivesse se divertindo. Matt não mudou de expressão.
— Um dia é suficiente para comprometer a missão toda. – Ele disse – Não podemos arriscar. Você já está mal o suficiente do jeito que está. Não me importa o interesse que você tem em Jay Kill, mas vai ter que esperar.
Abri a boca para protestar, mas Hiro pousou a mão em meu ombro novamente.
— Matt tem razão, May. – falou, e então colocou as mãos nos bolsos, relaxado – E, de qualquer forma, eu sei que Jay gosta de lutar com seus inimigos em seu potencial máximo. Nesse estado, ele não levará nem um minuto para acabar com você, e então vai perder totalmente o interesse. Você não terá mais a atenção dele se perder, e terá desperdiçado sua chance. Mas, se adiar a luta agora, principalmente depois do que falou pra ele, vai deixá-lo mais animado, e pode satisfazer essa sua obsessão em outro momento.
Revirei os olhos.
— Não estou obcecada... – resmunguei, mas me vi obrigada a concordar com ele.
Nossa discussão foi interrompida quando uma Mensagem de Íris apareceu à nossa frente. Mike estava diante de nós, aljava nas costas e camiseta laranja do acampamento. Ele alternou o olhar entre Hiro e Matt, que encaravam fixamente o símbolo do Acampamento na camisa dele, e então pareceu notar que eu estava sem minha blusa, e corou, de olhos arregalados. Seu rosto ficou vermelho de raiva de repente, e eu soube que ele havia percebido o sangue espalhado pelo chão.
Ele cruzou os braços.
— Mayara! – exclamou – O que diabos aconteceu com você?
— Lá vem... – revirei os olhos.
Ele olhou ao redor.
— Um torneio?! De quem foi essa ideia estúpida?
Matt ergueu as mãos.
— Em minha defesa, ela nunca mencionou que estava seriamente ferida.
Michael pôs a mão na testa.
— Deixa eu ver. – falou, e eu mostrei o ferimento recém costurado. – Quem colocou de volta no lugar?
Apontei para Matthew.
— Nada mal. – Michael respondeu com desgosto. Dei um sorriso de canto: o ciúme estava estampado na cara dele. – Lavou as mãos, não é?
O silêncio foi sucedido por um olhar fuzilador. Eu me apressei:
— Não tínhamos tempo pra isso!
— E aposto que também não usaram anestesia, a julgar pela forma como está desperta. – ele ajuntou – É bem a sua cara mesmo fazer questão de sentir a dor! Afinal, pra que eu te dei aquele kit?
— Não exagera... – comecei – Não tinha tempo pra fazer o procedimento todo certinho.
— Qual era a pressa, que importava mais que sua saúde? – ele me encarou por alguns segundos e então pôs a mão na testa novamente – Nem precisa dizer... – ele apontou para mim – Nem sonhando que você vai voltar à competição!
Matt assentiu em aprovação e eu revirei os olhos pela terceira vez em dois minutos.
— E você, — Michael falou para ele – vai sair em missão com ela, certo? Não deixe ela comer mais Ambrósia, apenas Néctar por hoje. Isso deve cicatrizar em um dia. A fratura vai demorar cerca de uma semana. E essa perna também deve levar mais tempo que o previsto. – ele suspirou e olhou para mim – Você não tem jeito mesmo. Nunca me escuta.
Eu sorri.
— Desculpe. – falei – Mas e então? Quais as novidades? Rachel chegou? Annabeth já voltou? Ela encontrou Percy? A pista de Hera estava certa?
Ele ergueu a mão para deter meu falatório.
— Calma, uma coisa de cada vez. Rachel já chegou, mas ainda está na Casa Grande com Quíron. Annabeth voltou, mas não encontrou Percy. Ao invés disso, trouxe três novos semideuses que serão apresentados agora à noite. E, May, eles lutaram contra anemoi thuellai. O sátiro guardião deles foi capturado.
Apetei o punho. Eu odiava aqueles monstros.
— Alguém vai atrás dele?
Michael negou com a cabeça.
— Pelo menos não enquanto Rachel não tiver algo a dizer. Ao contrário de você, ninguém está disposto a sair do Acampamento em missão sem uma profecia.
Assenti, compreendendo.
— Mas se não tem nenhuma notícia, por que ligou?
Ele coçou a nuca.
— Bom, é que eu estou indo ao Formigueiro procurar por Percy.
— Como é que é?! – Exclamei depois dos cinco segundos que levei para processar a informação.
— Nós recebemos autorização de Quíron assim que Annabeth chegou sem tê-lo achado. – ele continuou, o que não respondia à minha pergunta – Ela queria nos acompanhar, mas esses novatos parecem ter algo de especial. Um deles perdeu a memória e ela vai ficar encarregada de...
— Eu não ligo para os novatos. – interrompi – Desde quando você está nessa?
Hiro e Matt se moveram, desconfortáveis por estarem ouvindo a conversa.
— Annabeth pediu ajuda do pessoal de Apolo, May. – falou – Eu me ofereci. Will pode ser o conselheiro-chefe, mas eu sou de longe o mais experiente. Então, pode-se dizer que estou nessa desde que Annabeth traçou os planos e os apresentou para mim.
— Então, antes mesmo de eu partir. – concluí – Por que não me contou?
Ele fez um gesto com a mão.
— Não quis te preocupar. – disse – Afinal, hoje é apenas uma missão de reconhecimento. Vamos explorar e observar, sem chamar atenção das Formigas, procurando sinais de captura, ou coisas do tipo. Com a Maldição de Aquiles, Percy não poderia ser ferido, e temos bastante tempo antes que a fome possa matá-lo.
— Mas vocês vão voltar lá.
— É provável que sim, mas não se preocupe: o pessoal de Ares estará na linha de frente, juntamente com Atena. Eu sou apenas o reforço médico, e o cara do arco-e-flecha.
Eu suspirei.
— Não gosto dessa ideia.
Michael riu.
— Bom, então agora sabe como eu me sinto com você aí fora sozinha. E sem uma profecia. – Enfatizou novamente.
Eu ergui uma sobrancelha. Esse pessoal de Apolo é obcecado com profecias.
— Não estou sozinha. E até agora não senti a menor falta de uma profecia, obrigada.
— Sei.
Rolei os olhos, e depois deixei os ombros caírem.
— De qualquer jeito – falei, voltando ao assunto – Imagino que não há muito que eu possa fazer agora, certo?
Ele sorriu de canto. Eu o fuzilei com o olhar e apontei para o seu rosto.
— Escute aqui, se você morrer... Eu juro que te mato.
Ele abriu mais um sorriso.
— Vou manter isso em mente. – disse.
Suspirei.
— E quanto aos meus irmãos? Como estão? – perguntei.
— Drake os instalou no chalé de Atena. – respondeu – Luther ainda chorou um pouco perguntando por você, mas Laura o acalmou. Ela está animadíssima com as atividades do Acampamento. Acredita que pediu que eu lhe ensinasse a atirar?
Sorri.
— Acredito. O que você disse?
— Que ia falar com você. O que acha?
— Talvez seja uma boa ideia. – ponderei – É bom que eles fiquem ocupados. Você e Shay também poderiam levar Luther para o chalé de Apolo de vez em quando? Ele adora pintar.
Ele assentiu.
— Obrigada.
Nós nos olhamos por mais alguns segundos.
— Tenha cuidado. – falou.
— Você também.
Ele passou a mão na imagem e ela desapareceu.
Eu suspirei e virei em direção a Hiro e Matt. Ambos tinham testa franzida.
— O que foi? – Perguntei.
Eles trocaram um olhar.
— May, há quanto tempo sabe que é uma semideusa? – Matthew perguntou.
Dei de ombros.
— Cerca de um mês? – Respondi.
— E desde então tem sido treinada no Acampamento Meio-Sangue? – Hiro ajuntou.
— Sim. – falei, estranhando – Por que?
Matt mudou a expressão facial e espantou o assunto com um gesto.
— Depois falamos disso. – disse, começando a caminhar para o elevador – Agora precisamos ir encontrar com os outros.
— Espere — falei – Quero falar com Jayden antes. Afinal, eu havia prometido que lutaria.
A expressão de decepção de Jayden quase me fez mudar de ideia e voltar à competição, mas eu sabia que não era o melhor a fazer.
— Mas, Onee-chan, você prometeu. – ele disse.
— Eu sei. – falei – Mas você mesmo disse que não tem graça se eu não for forte, não é? – ele balançou a cabeça — Sinto muito não podermos lutar agora, mas da próxima vez nós vamos nos divertir muito juntos, ok?
Ele assentiu.
— Onee-chan? – Hiro sorriu enquanto caminhávamos para o elevador – Ele gostou mesmo de você, hein?
Balancei a cabeça
— Ele não para de me chamar assim desde o começo. – falei – O que significa?
— “Onee” é irmã mais velha. “Chan” confere uma forma carinhosa de falar, tipo “maninha”. Nesse caso, não necessariamente precisa ser usado apenas para designar sua irmã. – ele explicou.
— Então quer dizer que ao chamar Izumi de Izumi-chan, Charlotte está falando de forma carinhosa?
— É, mais ou menos. Izumi-chan seria como dizer “Izumizinha”. Minha irmã sempre detestou ser chamada assim, e Tori-chan não perde a chance de brincar com termos japoneses, então acabou pegando. Agora ela não liga mais, mas no começo ficava louca de raiva.
— E quanto à Onii-sama? – perguntei, lembrando que era como Charlotte chamara Ian.
— “Onii” é irmão mais velho. “Sama” confere muito respeito. Embora Tori-chan realmente tenha um grande respeito por Ian e seja louca por ele, tenho quase certeza de que o chama desse jeito também como uma forma meio debochada.
Assenti, compreendendo.
— Ah – falei, lembrando de mais uma dúvida – e quanto a esse apelido, Tori?
Hiro sorriu.
— Faz referência à personalidade dela. – disse – Tori é pássaro em japonês.
Percebi que o apelido respondia muito bem à sua função no momento que a porta do elevador se abriu para o segundo andar e eu pude ver o que Charlotte estivera fazendo durante nosso tempo livre. Ela havia transformado o andar em sua pista de skate, e agora fazia manobras radicais, quase atropelando os passantes.
— Até que enfim chegaram. – a voz de Ian me assustou. Ele estava encostado na parede ao lado da porta do elevador – Agora, será que podemos finalmente dar início à missão?

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