Notas iniciais
boa leitura, sofredores anônimos
to break is to be sanctified,
to make in the body a safe house
where all your monsters get to be raucous
— Marty McConnell
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Robb Stark apareceu repentinamente — sem ser convidado — na sua vida depois de quase um milênio de desencontros ou qualquer outro motivo que as estrelas usem como desculpa para deixar vocês sempre de lados completamente opostos do globo terrestre — ele era um soldado britânico quando você era um japonês; um médico canadense enquanto você era um artista italiano; um ator argentino ao mesmo tempo em que você era um explorador australiano. Robb fora uma multitude de coisas em alguns países e você também fora uma multitude de coisas em outros, sempre separados por uma distância considerável que impediu qualquer tipo de contato ou reencontro — esse que vocês nem se dariam conta que era um reencontro, nada além de uma sensação estranha que se alastraria pelos espaços vazios entre suas costelas.
Algumas coisas nunca mudam — você sempre nasce em ilhas, como se a presença de água salgada próxima fosse um pré-requisito para a sua (pequena e inútil e miserável e enfuriante) existência. Robb quase que brota, verdade seja dita, da neve; ele é como uma planta que não precisa de sol enquanto você suga avidamente cada raio de luz próximo. Robb sempre foi o que oferecia, e você, o que aceitava, não? Ele abria a mão e você lhe tirava tudo o que ele tinha e tudo o que ele não tinha, só para vê-lo cair no mesmo poço que você.
Há uma certa sabedoria em mantê-los separados.
E por isso você nem sequer cogita saber a razão que fez o destino achar que era hora de deixar que vocês caíssem num redemoinho de desgraças outra vez. Não importa que o maestro que rege essa orquestra esteja morrendo de tédio — não se fazem mais guerras como antigamente, nem invasões com dragões que cospem fogo, nem amores trágicos que começam ao anoitecer e terminam na manhã seguinte. E não lhe há escolha a não ser participar disso — como todas as coisas perdidas parecem derivar para o mar, assim foi com você.
—
A ladeira começou a descer em 2004, quando seu pai decidiu estar farto do calor infernal da Flórida. Não era a primeira vez que isso acontecia — em 2000 ele forçou vocês a mudarem de país, e trocarem Porto Rico, onde você, sua mãe e seus irmãos nasceram, pelos Estados Unidos. Você chorou, é claro. Sendo específico, e segundo seus dois irmãos, você só andava chorando pelos cantos da casa, mas sua mãe lhe pedia para ter paciência. Seu pai nasceu em meio ao vento cortante da Alemanha, e se tem algo com o qual ele nunca se acostumou, foi o vapor que sobe do asfalto nos dias de verão da zona tropical. Por que ele foi morar em Porto Rico, então? você sente vontade de perguntar; mas você tem só oito anos, e desafiar as ordens dos mais velhos com perguntas indesejadas nunca foi visto com bons olhos pela sua família.
Vocês colocam os móveis no caminhão de mudança dois meses depois. De Miami até Nova York foram mais dois dias presos dentro do carro, de onde vocês só saíam para comer e dormir.
E quando vocês finalmente chegam a sua nova casa, no Bushwick, um bairro de classe média baixa quase na divisa do Brooklyn com o Queens, o seu primeiro pensamento é — como uma criança de oito anos que acabou de ser arrancada do calor de queimar ossos (que lhe é reconfortante como um abraço de mãe) da Flórida para ser jogada na montanha de gelo que é Nova York —, obviamente: eu odeio esse lugar.
(as primeiras impressões são as que ficam — você morre em nova york, e morre ainda estendendo, em sonho, os braços para porto rico)
O sobrado que dá de frente pra um beco não muito acolhedor não tem um sistema de aquecimento decente, nem quartos o suficiente para todos os cinco filhos de Balon Greyjoy — você termina na cama de baixo enquanto Asha ocupa a tão disputada parte de cima da beliche, convicta de que você com certeza cairia e encontraria uma morte trágica logo no primeiro dia em sua nova residência.
Uma morte trágica não pode ser pior do que Nova York, você pensa, usando um cobertor pela terceira ou quarta vez na vida, sem conseguir dormir por medo de acordar com os dedos repletos de frostbite, pretos ao ponto em que não há mais retorno. Seus irmãos, é claro, riem de você no café da manhã, na cozinha em que vocês seis tem que se apertar para que todo mundo consiga comer sem acabar batendo o cotovelo no outro. Eles dizem que você está com saudade de alguma amiguinha — e você raramente os ouviu falar com tanta malícia na ponta da língua — da escola. Deixe-os pensarem.
Não é como se a realidade fosse melhor.
Mas agosto está apenas no começo, o que significa que pior do que uma criança numa cidade nova, você é uma criança sem amizades numa cidade nova, e provavelmente continuaria a ser por mais um mês, até que as aulas começassem na escola com paredes descascadas e algumas infiltrações aqui e acolá em que sua mãe matriculou você e Asha — assim seria, é claro, se você não tivesse sido praticamente enxotado de casa num momento de conversa entre adultos e decidido passar o tempo no parque a uma quadra dali.
Sua mãe sempre lhe disse que não era uma boa ideia sair de casa sozinho, não quando vocês ainda não conheciam muito bem o bairro e os moradores dele, o que fazia sentido — mas naquele dia você, convenientemente, não lhe deu ouvidos. Se você tivesse dado, quem sabe a roda do destino nunca precisaria voltar a girar.
O lugar não estava muito movimentado em plena tarde de domingo, então você se deu ao que em Nova York é considerado luxo de andar olhando para o céu — ainda o mesmo azul acinzentado com nuvens escuras de sempre — sem ter medo de ser esmagado no meio da multidão que costuma ocupar todos os espaços disponíveis nas calçadas.
E que nunca se diga que o universo mantém impunes crianças de oito anos que andam sozinhas por ruas que elas ainda não conhecem muito bem sem a permissão de suas mães. Você caminhava com a cabeça erguida para observar as nuvens, mas um baque contra sua barriga e um grito de susto o fizeram se arrepender do momento em que você decidiu não olhar para frente enquanto andava. Se tivesse ouvido sua mãe, não estaria naquele instante com um fiapo de sangue lhe escorrendo pela palma da mão, nem com falta de ar devido ao choque que pegou seu estômago em cheio.
— Sua mão! 'Tá sangrando! — uma voz estridente soou em seu ouvido, piorando ainda mais a situação. Se Rodrik e Maron pudessem vê-lo, eles com certeza ririam mais do que já faziam quando o assunto era você. Mas Rodrik e Maron não estavam ali, e por mais que você fosse acostumado com pequenos cortes aqui e ali (seus pés já nem sentiam mais as conchas pontudas nas quais você pisava), era uma certeza mundial de que não era bom encostar um corte no mesmo asfalto em que todo mundo pisava com os calçados sujos. — Tem que colocar um band-aid!
(é assim que a história de vocês começa)
A dona da voz estridente não era maior do que você ajoelhado no chão, e te olhava, assustada, com dois enormes olhos azuis como o céu de Porto Rico na alta temporada. Seus cabelos vermelhos e as sardas na bochecha a faziam parecer ter saído do último filme da Disney, provavelmente a irmã mais nova da protagonista que espera ansiosamente a chegada do príncipe encantado. O garoto que corria arquejante na direção de vocês, porém, definitivamente não era aquilo que se chamaria de charming prince material.
(abre parênteses
Informações Básicas, ou: Robb Stark pelos olhos de Theon Greyjoy
Ele é quase uma cabeça mais baixo do que você, o que te impressiona e também, verdade seja dita, te deixa um pouco orgulhoso de si mesmo. Seus irmãos sempre gabavam-se de como eram muito maiores do que seu tamanho atual quando estavam no auge de seus oitos anos — eles diziam que você iria acabar baixinho como um garoto americano, muito menor do que um porto-riquenho de verdade deveria ser. Mas até mesmo outros garotos porto-riquenhos que você encontrara nas ruas de Miami eram só um pouco mais altos do que você — e você nunca encontrou nenhum menino da sua idade mais baixo. Isso só adiciona mais provas de que Rodrik e Maron são na verdade filhotes que os ogros colocaram na sua casa quando levaram seus verdadeiros irmãos mais velhos — eles bebem e fumam e gritam como ogros, de qualquer maneira. Tem coisas que nem mesmo ser criado em um lar de humanos pode tirar deles.
O cabelo dele é vermelho como o da menina que esbarrou em você — quem você pressupõe que seja irmã dele. Você não consegue se decidir entre cor de cobre brilhando no sol ou cor das folhas caindo das árvores no outono de Miami — que são, na minha opinião, cores completamente diferentes, mas tudo bem; porém, diferentemente do cabelo liso dela, que chega até os ombros, o cabelo do não é o príncipe encantado é tão cacheado que você não acreditaria ser impossível esconder algo entre aqueles caracóis ruivos. É engraçado e meio triste, porque ele não tem cara — ou melhor, não tem roupas — de quem às vezes coloca dois caramelos no bolso quando vai ao mercado e treina todos os dias a expressão de eu não tenho nada com isso no espelho. Mas o seu cabelo é liso e só um pouco ondulado nas pontas, além de ser preto como tinta nanquim — meio inútil, mas tudo bem. Você está acostumado a ser inútil.
Há sardas em suas bochechas e em seu nariz e até na sua mão quando ele a estende até você para te ajudar a levantar do chão. Você aceita porque o corte começa a doer mais do que deveria, e porque não tem ninguém olhando mesmo, então qual o problema? Ninguém além de você e suposta realeza da Disney vai saber.
Duas covinhas se formam nas bochechas dele quando ele lhe sorri, e você faz um esforço hercúleo para não estender a mão suja de sangue e tocá-las
fecha parênteses)
— Deixa eu ver a sua mão machucada — ele disse, apontando para onde você a escondia atrás das costas. A voz dele não era estridente como a da irmã, mas, ainda assim, não deixava de ser uma voz infantil; você pensou que ele não deveria ter mais do que seis anos. Você estendeu a mão, meio hesitante. Não era lá grande coisa, e, sinceramente, uma boa lavada na torneira do parquinho resolveria todo o problema. — Meu tio mora na próxima rua, a gente pode ir lá rapidinho pra minha mãe passar remédio nisso.
— E colocar band-aid de flor!
— Eu acho que ele não vai gostar dos seus band-aids de flor, Sansa. — Eles eram primos, então? Você não estava entendendo mais nada, mas seu pai sempre disse que vocês não precisavam da compaixão de estranhos. Logo eles iriam perceber que você tinha saído, e se Asha esquecesse de dizer para a sua mãe onde você tinha ido, ela iria arrancar os cabelos (dela e seus) de preocupação. — E você já pediu desculpas pra ele?
— Desculpa, moço… Robb tem band-aids do Capitão América se você não gostar das flores. — Ela fez um leve bico ao dizer aquilo, como se fosse uma ofensa não gostar de flores. — Você gosta do Capitão América?
Ele é um herói para americanos, Maron sempre lhe disse, mas você suspeitava que era porque ele sempre foi mais fã do Homem de Ferro. E você é americano, oras. Todo mundo que nasce nesse continente é americano, não?
— Eu gosto sim — você lhe diz, mesmo sendo uma mentira. Seu herói favorito sempre foi o Deadpool, porque ele faz falar palavrão não parecer tão ruim assim. E depois dele vem Homem-Aranha, Demolidor, Wolverine e a Tempestade. Todos da Marvel, é claro, porque as comics que você lê são as que seus irmãos não querem mais, e eles se recusam a comprar DC.
O garoto — Robb, certo? Era um apelido de Robert ou algo assim? — sorriu como se gostar do Steve Rogers imediatamente fizesse de você uma pessoa divertida e confiável, o que provou de forma definitiva que certas mentiras vem para o bem — esse sendo um mantra que você carregou no peito durante toda a vida. Você não teve coragem de negá-lo depois daquilo, e quando ele segurou a mão de Sansa para que ela não saísse correndo de novo — eles eram irmãos, você aprendeu no caminho, e ela gosta de fugir e se esconder para deixá-lo preocupado — você foi andando um pouco atrás deles, ciente dos olhares que Robb sempre lançava para se assegurar de que você ainda estava ali.
A casa para qual ele lhe levou se destacava das outras — até uma criança como você percebia que quem vivia ali tinha mais condição financeira do que os moradores costumeiros daquele bairro. Era cheia de gente, em contraste com a sua casa de silêncio e caras fechadas.
Foi a mãe de Robb quem passou remédio em seu machucado e colocou um band-aid — do Capitão América — mesmo você dizendo que não era necessário. Ela sorriu para você, mas, se os olhos dela pudessem falar, eles certamente iriam estar te mandando ir embora dali.
E você foi, mesmo com Robb lhe pedindo para ficar e brincar de Capitão América versus Homem de Ferro (ele tinha os dois bonecos, não aqueles de plástico vindos da China que você tinha, mas bonecos de verdade, tipo action figures). Afinal, não era como se você — latino-americano, caribenho, hispânico, porto-riquenho — não fosse acostumado a ser indesejado em casa de gente branca.
—
Vocês se encontravam todos os domingos, sem falta, no parque — a menos, é claro, nos dias em que Robb não aparecia, e você passava a tarde inteira tentando socializar com as outras crianças. Você aprendeu quase tudo sobre a vida dele e ele aprendeu só um pouco sobre a sua. Robb tinha duas irmãs — ele sempre lhe dizia que eram três, mas um meio-irmão não é um irmão —, e era o mais velho dos filhos. Ele morava em Manhattan — e quando ele disse Upper East Side pela primeira vez você não conseguiu conter o oh que escapou dos seus lábios ao lembrar de todas as vezes que você viu esse bairro na televisão — e o pai dele era advogado de uma grande empresa a qual nenhum dos dois conseguia pronunciar o nome. Quem morava na casa amarela onde você ganhou um band-aid de super herói era seu tio, Benjen, que por várias vezes você vira rondando pelas ruas com sua farda de policial; e era ele quem chamava-os todo o domingo para um almoço de família — ainda que desfalcado. Robb dissera que dois de seus tios paternos morreram um pouco antes de ele nascer. A mãe dele é revisora de uma editora importante e está sempre ocupada com pilhas de folhas debaixo dos braços. O pai dele gosta de café preto, colocar os pés em cima da mesinha de centro — o que irrita a Sra. Mãe — e macarrão com queijo na hora do jantar.
Em troca, você lhe dava alguns pedaços da sua família também. Você contou sobre Asha e as incontáveis vezes em que ela subiu nas árvores dos seus vizinhos na Flórida para roubar laranjas; sobre o tio Rodrik e os livros que ele lhe dava de presente — todos em inglês, porque você ainda tropeçava nas palavras mais complicadas — e tia Gwyn, que lhe dava bolas de beisebol e chuteiras de futebol para compensar; você contou sobre sua mãe, sobre a música que ela cantava para todos vocês na hora de dormir quando ainda eram pequenos — Robb pediu para ouvir, mas você negou; teve vergonha demais para sequer tentar —, que ela prepara um quesillo tão delicioso que chega a ser uma maldade fazê-lo só para ver acabar, que a primeira coisa que ela procura para você sempre que se mudam é um lugar onde possa ter aulas de piano, que ela gosta de te abraçar, bastante e bastante e bastante, como se a qualquer hora você fosse ser abduzido por alienígenas e não fosse voltar nunca mais.
(você não disse a ele que seu pai sempre chegava nervoso do trabalho na fábrica, gritando com quem estivesse pela frente; você não disse que rodrik sempre sempre sempre estava com hálito de cerveja, quer seja de manhã ou de noite; que maron sumia de noite e volta para casa com os olhos vermelhos e uma vez tentou apagar um dos cigarros na pele da sua mão; que euron lhe olhava de um jeito que dava calafrios na sua espinha, que ele sempre lhe dava um de seus sorrisos assustadores e abraços apertados demais; que aeron consegue acabar com a rara alegria do almoço quando começa com mais um de seus sermões religiosos que pendem para o lado do inferno e da danação eterna; você não disse que victarion agia como uma estátua, como se ele nem mesmo estivesse ali, e o único momento em que aquilo mudava era quando ele e euron decidiam que não haveria um momento melhor para uma briga entre irmãos
você não disse nada disso porque não quer que ele pense que você é só mais um hispânico pobre e de família desajustada, apesar de isso ser exatamente o que você era. você não queria que ele percebesse que poderia estar muito melhor com seus amigos brancos ricos com suas camisas bem passadas e seus brinquedos de 200 dólares do que com você, cujos brinquedos e roupas e gibis são de segunda mão. e, dai a césar o que é de césar, você não queria que ele fosse embora; por mais que você construa castelos de areia com as outras crianças do bairro, que eram em sua maioria porto-riquenhas como você, robb era o único com quem você falava além do que a educação e os bons modos exigiam. ele era seu único amigo)
Mas você, veja bem, não era nada além de um farelo de pó nas engrenagens do destino — que muito provavelmente ainda não tinham esquecido seus pecados. Seu pequeno pedaço de paraíso durou por aproximadamente seis meses, até que Robb apareceu com a expressão mais triste que você já o vira usar e lhe perguntou se vocês podiam brincar até mais tarde hoje, porque tio Benjen foi promovido para uma delegacia no Bronx e iria se mudar o quanto antes, então essa provavelmente seria a última vez que ele viria ao Bushwick.
Você lhe respondeu que sim, tudo bem, seus pais não se incomodariam se você passasse só um pouco do horário — mentira. Você o deixou ganhar no esconde-esconde e ele lhe pagou um picolé daqueles grandes, e quando ele foi para casa — não antes de dizer que vocês com certeza se encontrariam na faculdade, um dia — você acenou como se a promessa da amizade de domingo ainda estivesse de pé, firme e forte, fazendo com que você tivesse algo o qual aguardar durante a semana.
Você não chorou na volta para casa — seus irmãos sempre diziam que você chorava por qualquer bobagem, então é, seus olhos estão bem secos quando você finalmente chegou para o jantar. O que não significa, é claro, que você não sentisse uma dor do tamanho daquela que se alojou no meio dos seus pulmões quando seu pai disse que vocês iriam embora de Porto Rico.
Por que deixar Robb doeu tanto quanto deixar sua casa?
(é assim que a história de vocês termina)
—
Você sabia que não deveria se deixar afetar tanto. Afinal, Robb era um garoto do Upper East Side e você um moleque de Bushwick, e sua amizade nasceu fadada a acabar. Você encontrou outros amigos, outras crianças do Brooklyn, negras ou latinas ou pobres. Gente do seu nível. Você saía com eles todas as noites para não ter que ouvir seu pai brigar com sua mãe pelos motivos mais idiotas possíveis; você abraçou alguns deles e beijou outros, meninos e meninas, e você sorriu enquanto vocês dividiam o fone de ouvido e as últimas bolachas do pacote. Mais do que tudo, você fingiu que Robb Stark nunca existiu.
O que foi em vão, é claro — durante todo esse tempo você só quis encontrar alguém que lhe fizesse sentir aquela sensação estranha nos espaços vazios entre as suas costelas outra vez, alguém, como se algo estivesse queimando, mas sem doer. Queimando pra renascer.
Mas você não encontrou ninguém — são 7 bilhões de pessoas no mundo e vocês são um punhado de desafortunados espalhados pelos mais de 100 países existentes. O que que quer dizer que, mesmo depois de 10 anos desde a última vez que você o vira, ainda sonhava com Robb Stark.
Esperando que, mesmo depois desses 10 anos, ele ainda sonhasse com você.
—
Você conheceu Ramsay Bolton na sua festa surpresa de aniversário de 18 anos, direto da casa de alguém que você nem sabia o nome — um amigo de um amigo de um amigo seu. Mas ninguém ligava para nomes, muito menos o dono da casa; tinha álcool, tabaco e maconha, e isso era tudo o que importava para os outros adolescentes que se divertiam dançando com copos nas mãos.
Você não fazia ideia de como conseguiram juntar tanta gente para comemorar o seu aniversário, mas tanto faz. Muita gente significava quase 100% de chance de encontrar um rapaz que lhe achasse atraente, e depois disso eram outros quase 100% de chance de vocês acabarem indo para o banheiro. Era assim que se comemoravam bons aniversários, na sua opinião. Principalmente esse, que — ao menos em lei — lhe dava plenos poderes para arrumar suas malas, sair de casa e nunca mais olhar na cara do seu pai. Em lei, é claro. Financeiramente, você era mais incapaz do que uma criança de 10 anos, a menos que desistisse da vaga recém-conquistada no curso de artes da New York University — que você ainda não havia revelado para sua família, porque duvidava que eles veriam sua escolha com bons olhos. Mas era bom sonhar.
Você estava procurando alguém com um isqueiro quando um cara alto — se bem que quase qualquer homem é alto perto de você e seus 1,68m — segurou seu ombro com uma mão tão grande que parecia ter saído de um doujinshi yaoi (sim, suas amigas que lhe fizeram ler isso uma vez). Você normalmente tiraria a mão dele do seu ombro com um tapa antes de virar — você odiava quando pessoas lhe tocavam sem permissão desde que Euron deu todo um novo sentido a isso quando você era pequeno demais para perceber —, mas aquele não era seu primeiro cigarro e você já tinha bebido muito mais do que uma lata de cerveja; todo mundo estava dançando ou gritando ou fodendo, e não havia motivo para se assustar, certo? Não havia ninguém de quem se defender.
(aliás, em todas as suas vidas aquele que mais te machucou foi você mesmo)
Então você se virou para trás sem alarde e sem afastar a mão do homem do seu braço como se fosse uma barata radioativa, apenas para sentir como se alguém tivesse puxado o tapete de Nova York e você estivesse flutuando no ar. Porque Alto, Misterioso e Lindo (essa é a primeira coisa que você pensa sobre ele) é, obviamente, alto, misterioso e lindo, com cabelos pretos presos num rabo de cavalo, brincos vermelhos pendurados no lóbulo das orelhas e um sorriso aberto, mostrando seus dentes brancos e caninos afiados — é como o lobo mau encontrando a vovozinha. Exceto que era 2013, vocês estavam numa cidade e não numa floresta, e você definitivamente não tinha idade para se prestar ao papel de avó. O que leva ao segundo motivo de você ter ficado quase 30 segundos parado, olhando para aquele estranho que você nunca havia visto na vida como se ele fosse a oitava maravilha do mundo moderno.
Ele lhe mostrou algo que você achava ter perdido para sempre — uma sensação esquisita, como se de repente todos os espaços entre as suas costelas estivessem preenchidos com algodão, como se toda a sua caixa torácica estivesse sendo apertada e manejada para lá e para cá como um brinquedo do destino. E você ficou lá, saboreando cada momento até que aquilo finalmente fosse embora, olhando para o homem na sua frente — que também te olhava como se você tivesse sido um anjo enviado pelos céus —, esse homem de quem você nem sabia o nome mas sentia que o conhecia como ninguém.
Ele sorriu para você, um sorriso que escondia todos os segredos do mundo — e que te manteve absorto por tempo o suficiente para que você não percebesse a malícia que brilhava nos olhos dele. Já era tarde demais. Você estava perdido desde que ele o encontrou.
— Você é o aniversariante? — ele perguntou, enquanto procurava um isqueiro no bolso. Você não pôde deixar de reparar nos brincos dele, nas pedras vermelhas que lhe pareciam caras demais para alguém da área, alguém que andasse com gente da sua laia. E essa não era a única diferença que o fazia parecer tão alien num lugar como aquele.
— É… Sou. — Parecia que todas as suas frases recheadas de sarcasmo ou de entrelinhas eróticas tinham subitamente fugido da sua mente como borboletas amedrontadas. Seus amigos com certeza iriam se dobrar em gargalhadas se pudessem te ver daquele jeito; você sempre gostou de deixar claro como não se abalava com rostinhos bonitos. Mas esse cara era muito mais do que isso. — Theon. É meu nome. Uau, você deve estar me achando um idiota. Mas você é…?
— Ramsay. Ramsay Bolton. — E isso definitivamente faz um sino soar na sua cabeça como se estivesse possuído pelo espírito dos sons raivosos ou coisa assim. Não que você tivesse prestado atenção; tudo o que passava pela sua cabeça era já ter ouvido aquele sobrenome na televisão, ou lido em alguma notícia na internet. Bolton. Bolton. De onde você os conhecia? — Quantos anos, aliás? — ele perguntou, interrompendo sua linha de pensamento. Agora com um isqueiro na mão, que ele levou até onde um cigarro estava pendurado entre seus dedos. Você deixou que ele o acendesse antes de colocar nos lábios.
— Dezoito — você respondeu simplesmente. Ramsay pareceu gostar daquilo.
— Maior de idade, finalmente? Você vai aprender que não é o mar de rosas que lhe dizem. Mas eu não vim até aqui para estragar sua festa com toda a minha amargura adulta. — Ele sorriu como uma leoa que acabou de avistar um filhote de búfalo andando sozinho (você nem se dá conta), foi até a mesa onde estão as bebidas e voltou com dois copos.
— Um brinde ao aniversariante! — ele falou, baixo demais para ser um brinde de verdade, daqueles com sorrisos e tantos tin tin que se tornam quase impossíveis de contar. Você deu um sorrisinho de canto antes de encostar o copo de plástico vermelho no dele. É como um acordo. Você lhe mandou uma piscadela antes de virar o copo em sua garganta.
Ramsay continuou do seu lado até o fim da festa.
(o que você não percebeu, porém, foi que o que se espalhava entre os seus ossos não lembrava em nada a adocicada ardência que você sentiu quando conheceu robb — está mais para água se solidificando e prendendo seu coração numa caixa de gelo. arde, e é tudo menos doce.
é um sinal para que você se afastasse — aprender com os erros das vidas anteriores. mas você, é claro, nem se dá conta disso
há pessoas das quais é impossível escapar)
—
Você lhe deu seis meses e Ramsay Bolton conseguiu se entrincheirar no seio da sua família como uma jiboia que enrola todo o corpo em sua presa. Ele arrancava sorrisos de seu pai com piadas e histórias do seu passado, derretia sua mãe com novos presentes a cada visita, bebia e assistia basquete na companhia de Rodrik e Maron. Ele ia até o Brooklyn de manhã e lhe levava de carro até Manhattan, onde ficava o seu campus.
(você não achava estranho tanto robb quanto ramsay serem de manhattan? robb stark e ramsay bolton, tão diferentes quanto água e óleo — e lhe deixavam completamente perdido no universo, como se alguém tivesse arrancado sua alma de seu corpo e você estivesse flutuando pelo espaço, do mesmo jeito
o problema é que não se flutua no espaço — se morre. e você estava prestes a aprender isso)
Ele era perfeito — uma das poucas coisas em que todos na sua casa concordavam. Mas todos eles achavam que Ramsay era só um bom amigo seu, e que sorte, não?, ter conseguido agradar logo um ricaço do Upper East Side (você era algum tipo de imã de menino rico?), e um humilde ainda por cima, que não se incomodava com a sujeira das ruas do seu bairro, nem com as rachaduras que iam aparecendo pela parede da sua casa.
Sim, ele perfeito, você pensava, quando ele lhe beijava antes de deixar você na porta da universidade, com tanta força que seus lábios continuavam vermelhos e inchados por quase toda a primeira aula — você gostava disso, gostava que as pessoas soubessem que você era de alguém, que por mais pobre fodido latino que você fosse alguém queria você. E alguém rico! Podre de rico! Muito mais do que muitos daqueles branquelos que lhe olhavam com desdém iam ter em toda a sua vidinha branca, privilegiada e medíocre. Todos os filhinhos e filhinhas de papai que gastavam seu tempo livre bebendo em bares (coisa que você invejava) ou torrando dinheiro em shoppings (coisa que você também invejava), enquanto você arrumava a bagunça deles, limpava os cavaletes de pintura, organizava os materiais para a próxima aula e classificava os trabalhos entregues por ordem alfabética. Tudo isso para conseguir um desconto na mensalidade.
Ramsay era branco, é claro. Mas ele você podia perdoar. Principalmente quando ele lhe levava para um restaurante francês chique, você comia lagosta até dizer chega e depois lhe fazia um boquete no banheiro. O perdão costumava ser delicioso, ainda mais quando vinha na forma de uma boa foda na king size do pai dele.
(robb era branco também, não? branco e rico e morador do upper east side, mas em momento algum você sequer chegou a pensar em compará-lo a ramsay, porque não haveria maneira que os olhos dele escrutinizariam todos os seus segredos, como os do seu namorado faziam)
Ramsay era tudo o que você não era, tudo o que você nunca poderia ser — e você era tudo o que ele não precisava. Ainda assim, numa tarde de sexta-feira, ele seguiu por uma avenida estranha, ao invés de descer para a Brooklyn Bridge. Você não quis perguntar nada porque Ramsay não gostava quando você fazia perguntas — você vai saber na hora, ele dizia, e fechava a expressão quando você insistia. Mas, quando ele também não entrou na rua que dava acesso a casa — ou você deveria chamar de mansão? —, sua curiosidade cresceu ao ponto que foi impossível não dar com a língua nos dentes e perguntar.
— Ah, a gente não devia ter pego aquela rua pra ir pra sua casa? — você falou, apontando para a esquina que ficava cada vez mais longe, até desaparecer do espelho retrovisor.
— Eu sei onde é a minha casa. Eu sei em qual rua entrar para chegar lá. — Lá estava ele, o Ramsay de verdade. No fundo você sabia que todos os sorrisos e carinhos eram momentâneos, e era quando vocês dois estavam a sós que ele descontava em você todo o estresse do trabalho.
— Eu só fiz uma pergunta.
E aquela claramente não foi uma boa coisa a se dizer, pelo jeito que Ramsay soltou um suspiro como se você fosse uma criança que precisasse levar uma bronca.
— Você sempre está só fazendo uma pergunta. Quantas vezes eu já te disse pra simplesmente confiar em mim? É difícil manter um relacionamento quando você precisa saber os mínimos detalhes de tudo o que eu vou fazer. — Você nunca me conta nada, idiota, era o que você queria lhe responder; só não o fez naquele momento porque estava pra conhecer algo mais perigoso do que um Ramsay com raiva e dirigindo. — Nós estamos indo para a casa do meu pai. Eu comprei roupas para você, estão em cima da cama dele. Fale com ele, suba, tome banho e vista-se. Temos um jantar às 20h. — Você olhou para o relógio do carro. Ainda eram 17h30, mas você duvidava que trânsito de Nova York seria gentil naquele dia. — Eu queria fazer uma surpresa, entende? Mas já que você só fez uma pergunta, estou só dando uma resposta.
por que ele sempre conseguia fazer com que você se sentisse culpado?
— Eu sinto muito — você disse, mais porque sabia que ele gostava de ouvir aquilo do que qualquer outra coisa. Odiava pedir desculpa. Aprendeu em Thor (que não é lá o melhor método de aprendizagem) que é melhor pedir perdão do que permissão, mas a verdade é que não suportava nem um nem outro.
Ramsay pareceu iluminar-se com aquelas palavras. Ele era, em todos os sentidos, um deus — e assim como um deus, ele se regozijava ao ver seus devotos se prostando ao seus pés, seja para pedir misericórdia ou para agradecer.
— Tudo bem. Você sabe que eu te amo, não sabe? Ainda vamos ter tempo pra muitas surpresas. — Ele virou a esquerda, parando na frente do portão de um condomínio de luxo até que o deixassem entrar. Você já tinha ido até aquele lugar uma vez, quando o pai de Ramsay lhe convidou para jantar com a família e você teve que gastar uma fortuna que não possuía em uma camiseta elegante o suficiente para não parecer que você era tão pobre quanto realmente era. — Mas este é um jantar de negócios com alguns dos sócios do meu pai. Vários empresários e herdeiros irão estar lá, mas a verdadeira intenção é promover alguns contratos.
Vocês entraram na garagem da mansão de Roose Bolton, onde a discrepância do Audi de Ramsay frente ao Bentley do pai ficava impossível de não ser notada — não era por menos que seu namorado estava sempre reclamando sobre o tratamento que recebia pela família; depois que seu irmão morreu, todos pareciam tratá-lo como se ele não fizesse parte dos Bolton, ou pelo menos era isso o que ele lhe dizia.
ele é só um garoto que quer que papai lhe dê elogios e biscoitos, você pensava toda vez que ele recomeçava a ladainha. muito provavelmente você sabia disso por experiência própria, por mais que se negasse a admitir.
Os dois entraram e encontraram Roose sentado num dos sofás de couro branco, já vestido em seu traje social e com os cabelos soltos chegando até o início de suas costas. Ele parecia, como sempre, completamente indiferente à tudo, como se fosse incapaz de demonstrar qualquer emoção — um traço que Ramsay, infelizmente, não herdou. Você disse olá, senhor Bolton, e ele respondeu com um mero aceno de cabeça e a sombra de uma sombra de um sorriso. Não que você não estivesse habituado a esse tipo de atitude. Perguntava-se, até, qual era o nível da vergonha que ele deveria ter do namorado imbecil que o filho (outro imbecil) arranjara. Conhecendo homens como Roose, seria mais do que você estaria confortável em admitir.
O que não impediu Ramsay de lhe convidar para um jantar com os sócios do pai dele — ele estava constantemente desafiando a autoridade do pai de uma maneira que você nunca teve a coragem de fazer. Seja tomando decisões na empresa que não são da sua área, fumando dentro de casa ou namorando um porto-riquenho. Ramsay era valente, mesmo que a valentia só piorasse cada vez mais a já difícil convivência entre os dois.
Você se arrumou na suíte do quarto principal. Ramsay já havia tomado banho, o que significava que você seria o último a ficar pronto. Tratou de não demorar para que depois seu namorado não o culpasse pelo atraso, mas era difícil parar de olhar a decoração do cômodo — e tanto dinheiro desperdiçado em um banheiro. Onde as pessoas só tomam banho e usam a privada. Provavelmente haviam mais objetos de decoração ali do que em toda a sua casa.
(sem falar na banheira de hidromassagem)
A camisa roxa que Ramsay lhe comprou caiu como uma luva, e a calça precisou apenas de um cinto para ficar no lugar. Você esperava que Roose não percebesse que era o perfume dele que você estava usando — em sua defesa, Ramsay já estava andando pelo corredor e você não queria deixá-lo irritado.
O caminho até o restaurante foi tão rápido quanto é possível às 19h em Manhanttan. Você foi enxotado para o banco de trás enquanto Roose ia dirigindo e Ramsay no banco do passageiro, ambos os três em silêncio absoluto — e você teve de se contentar em ficar o tempo inteiro observando a paisagem com seus arranha-céus todos cobertos por placas espelhadas, recapitulando o manual de instruções que Ramsay quase soletrara para você e que poderia ser resumido em três palavras: sorria e acene. Sorria sempre, coma pouco — ele sempre lhe dizia para comer pouco, te colocando numa dieta forçada pela culpa que você começava a sentir sempre que ingeria algum alimento —, não puxe conversa com ninguém — não é como se você realmente soubesse algum assunto que poderia interessar um dos sócios —, só fale quando falarem com você. Em síntese, só fique lá, como uma boneca; uma bela boneca latina para fazer Roose passar vergonha. Uma bela boneca latina para mostrar a ele que ninguém despreza Ramsay Bolton, nem mesmo seu próprio pai.
Ao menos você poderia ficar olhando a decoração e beliscando um pouco de comida de rico enquanto os mais velhos faziam negócios.
Havia uma fila de carros esperando para serem estacionados no restaurante quando vocês chegaram, e Roose se juntou ao grupo daqueles que desce do carro e entrega sua chave a um dos funcionários para que ele cuidasse do resto — coisa que você nunca faria se tivesse um carro caro, com medo de que o dito funcionário decidisse que aquele veículo valia muito mais do que seu salário e decidisse dar uma voltinha com ele por aí. Para sempre. E essas eram as únicas vezes em que você agradecia de coração por ser pobre. Nunca sequer pensou que passasse pela cabeça de um ladrão roubar o Chevrolet Aveo usado que seu pai comprara há uns três anos.
Você estava quase abrindo sua porta quando Ramsay fez isso para você — ele queria dar um show de provocação aquele dia, e você estava mais do que feliz em ajudá-lo com isso, se significava que ele iria andar com a mão estrategicamente posta sobre seu ombro, deixando bem claro que tipo de relacionamento vocês dois tinham. Não era você quem iria ter que se acertar com Roose Bolton depois, de qualquer maneira. Os problemas de Ramsay eram de responsabilidade dele, ainda mais os que ele mesmo trazia para si.
O Jean-Georges era tudo o que você nunca viu em um restaurante — o que não deveria ser levado em consideração, já que você e Asha só andavam na Chinatown do Brooklyn. As paredes eram todas cobertas por tinta branca, da mesma cor das cortinas que cobriam as janelas enormes. A quantidade de mesas era maior do que a de dois restaurantes da Chinatown juntos, e a maioria delas estava ocupada por mulheres com vestidos longos e homens usando terno e gravata. Jantares de formatura, aniversários, pedidos de casamento — todos eles aconteciam no Jean-Georges. E lá estava você, maculando o tapete persa com seus pezinhos de pobre. Gostaria de rir, mas essa era uma das coisas que Ramsay lhe proibiu de fazer, porque você nunca conseguia rir como gente educava, e mostrava os dentes para Deus e o mundo enquanto tentava recuperar o fôlego.
Com sorte, nenhum dos presentes teria histórias engraçadas para contar.
— Estes são Jon Umber e Wyman Manderly. Senhores, este é Theon Greyjoy, meu convidado — Ramsay disse, lhe apresentando para um homem que se encaixava perfeitamente no estereótipo de bara, e outro tão gordo que ocupava quase que totalmente o assento que se assemelhava a um sofá; e você esperando que os ditos sócios fossem bonitos para que pudesse se distrair olhando para eles. Mas querer não é poder, então você lhes sorriu, disse apenas olá para os dois, e sentou-se na cadeira vazia entre seu namorado e o pai.
Definitivamente não era a sua primeira escolha em questão de assentos, mas seria desconfortável para todos se você sentasse na esquerda de Ramsay e ignorasse o espaço vago ao lado de Roose Bolton — o espaço que o filho dele deveria preencher.
Se alguém percebera o que aconteceu — ou deixou de acontecer — entre vocês três, não deixou transparecer. Quinze minutos se passaram entre conversas triviais das quais você recebera permissão de participar quando Ramsay lhe incluiu, fazendo uma pergunta e colocando a mão em seu joelho por baixo da mesa. Não parecia um jantar de negócios, mas você nunca tinha estado em um para saber como era de verdade.
Um grande sorriso no rosto de Jon Umber prenunciou a chegada do convidado principal. Todas as cabeças viraram para trás, cumprimentando os recém-chegados, mas a sua foi a única que voltou-se rapidamente para frente, enquanto você tentava desesperadamente impedir seu corpo e sua mente de virarem uma bagunça tremenda, enquanto você tentava reorganizar todos os seus órgãos em seus devidos lugares para não ter um colapso nervoso bem no meio do Jean-Georges, um dos restaurantes mais chiques de toda Nova York — eles irão dizer que tanta sofisticação foi demais para o seu coraçãozinho de pobre.
A verdade é o que destino sempre gostou de brincar com você — com todos as pessoas, mas você em especial, você tem algo que eu não sei dizer o que é, algo que fez o destino parar e pensar é ele! esse é o humano que vai me divertir por toda a eternidade. Então ele lhe jogou de Porto Rico para a Flórida, da Flórida para Nova York; lhe deu seu melhor amigo para arrancá-lo de você meses depois; transformou sua adolescência no reality show do diabo; fez com que você se apaixonasse por um homem que gravita entre te tratar como uma joia ou como um pedaço de lixo; e agora, quando você achava que já tinha tido o suficiente, o ex-melhor amigo — que desde seus 15 anos você percebeu que não era apenas um amigo, ao menos não para você — caiu no seu colo como se o próprio anjo Gabriel o tivesse enviado.
Mas Gabriel sabiamente esqueceu que você tinha 19 anos e não 15, que você estava namorando Ramsay Bolton, que era um cara legal apesar dos pesares e que lhe levava e buscava todos os dias na faculdade, que pagava seu ingresso no cinema para vocês poderem assistir Homem de Ferro 3 (maron sempre foi mais fã do homem de ferro), e lhe trazia para jantares de negócios do pai dele. Era o pior momento possível para se reencontrar com a única memória que você tem de um tempo que não é seu passado, de uma vida que não era sua — mas como já foi dito, o destino sempre guardava para você algumas das piores (melhores?) reviravoltas.
Seu coração parecia querer explodir a qualquer momento, e a sensação — aquela sensação que você daria o mundo para sentir mas que naquele momento só lhe soava como o prenúncio do fim — só piorava a cada segundo em que você ouvia a voz dele, em que percebia os outros o cumprimentando e dizendo seu nome — o nome que você anotou nos seus cadernos, blocos de notas, em cada pedaço de carne nua no seu corpo; o nome que você saboreou letra por letra antes de dormir durante anos, esperando pelo dia que você o diria outra vez. Ramsay apertou sua coxa mais uma vez, com força, como se quisesse repreendê-lo, como se você fosse um cachorro que não aprendeu a lição. Então você se levantou, sem conseguir respirar direito e com as pernas trêmulas, e virou para cumprimentar Robb Stark.
Você seria capaz de reconhecê-lo em qualquer lugar, seja lá a quantos quilômetros de distância; mesmo que ele usasse um boné que cobrisse os grandes cachos de cabelo ruivo ou um par de óculos que escondesse o azul-claro de seus olhos. Você o reconheceria por causa, é claro, desta coisa ridícula se debatendo contra suas costelas como na primeira vez há mais de 10 anos, mas também porque, bem, olhe para ele. Olhe para ele! Como você poderia esquecer as sardas que cobriam seu nariz e bochechas, a maneira com que um dos cachos dele continuava — mesmo depois de 10 anos — caindo em sua testa, de onde ele tinha que afastá-lo repetidas vezes durante um curto período de tempo. Como você poderia esquecer as covinhas que apareciam em suas bochechas todas as vezes que ele sorria — e ele estava sorrindo para você sorrindo para você sorrindo para você. E ele estava tão alto agora. Quantos anos deveria ter? 19? 20? Ele era um homem, o homem que você também (não) era; não a criança com band-aids do Capitão América, não mais.
(e o negócio era: ele estava olhando para você como se alguém tivesse de alguma forma puxado o tapete da crosta terrestre sob seu pés — mas ele não estava caindo em direção ao magma fumegante do centro do terra. não. ele flutuava, não como madeira podre em água parada, mas como balões cheios de hélio que são soltos ao céu e sobem sobem sobem sobem até que explodam, tão alto na atmosfera que ninguém consegue vê-los, porque o confinamento das paredes de borracha não é mais forte o suficiente para prender o gás que se agita do lado de dentro. robb parecia um balão de hélio prestes a explodir, como se sua carne e seus ossos não fossem mais capazes de suportar o peso da sua existência)
Então ele olhou para você, este homem, este Robb Stark de 18 anos que você havia visto pela última vez brincando na gangorra do Irving Square Park, no Bushwick, quando ele lhe disse que não voltaria mais àquele lugar. Ele olhou para você e ele (ele respira fundo um dois três estende a mão para você com o maior sorriso do mundo em seu rosto e diz:)
— Theon, certo?
Você queria dizer sim sim! está certo meu nome é theon você se lembra você se lembra de verdade! Mas em vez disso, o que saiu da sua boca é Robb, certo? numa imitação quase perfeita do tom de voz que Robb usou e então vocês estavam rindo enquanto se abraçavam de maneira totalmente masculina e hétero e brother. Aquele abraço que se dá com um braço só e um tapinha nas costas.
A mão de Ramsay serpenteia repentina até parar no fim de suas costas, lembrando a você da presença dele ao seu lado. Todos sentaram à mesa depois que você cumprimentou Ned Stark — e se antes era você quem separava Ramsay e Roose, a partir dali era Ramsay quem separava você e Robb. Era ele quem se interpunha entre amigos de infância que o destino separou numa lufada de vento e que agora não paravam de conversar — em voz baixa, para não incomodar os adultos de verdade —, aparentemente sem se importar com aquele que estava no meio deles.
Ele até mesmo beliscou seu braço numa tentativa fútil de capturar sua atenção, e que funcionou por apenas 5 minutos — o tempo transcorrido desde que a dor surgiu até seu sumiço. Você poderia ver Ramsay todos os dias, mas quando poderia encontrar Robb Stark outra vez?
Então vocês aproveitaram — ele aproveitou para perguntar sobre sua vida e você aproveitou para sorver cada mínimo detalhe da vida dele e anotar num canto do seu cérebro para nunca mais ser esquecido. Ele falou sobre Sansa e Arya e Brandon e Rickon, e você, exatamente como antes, evitou falar da sua família, desviando o assunto para a faculdade. Vocês comeram e falaram e falaram outra vez e durante todo o tempo você tentou fazer com que ele estivesse sempre sorrindo para que pudesse gravar aquela imagem na sua memória para a eternidade — um acaso colocou Robb Stark na sua vida outra vez, e você apostava que um acaso iria retirá-lo.
A noite acabou rápido demais para quem passou 11 anos esperando por ela. A conta foi paga, as despedidas foram dadas — você e Robb deram um abraço de verdade dessa vez — e a mão de Ramsay apertava seu quadril com tanta força no caminho até o carro que as marcas roxas no formato dos dedos dele duraram por dias, mas naquele momento você não sentiu nada — era como se você estivesse no fundo de uma piscina, cercado de água por todos os lados, num silêncio e numa calma tão absolutos que nem um meteoro caindo logo em frente poderia lhe incomodar. E o melhor era que, mesmo sem vê-lo, você sabia que Robb Stark sentia a mesma coisa.
(é assim que a história de vocês recomeça)
—
A vida era doce na barriga da besta, ou, pelo menos, até que ela decidisse que passara da hora de lhe matar de uma vez — e Ramsay nunca foi conhecido por ser paciente. Pelo contrário. Pela primeira vez desde que lhe prensou contra a parede e arrancou-lhe um beijo, ele se sentira ameaçado; um leão que via outro, mais forte e mais jovem, adentrar seu território.
Não importava para ele que Robb Stark só te ligava uma vez ou outra, e que vocês só se encontraram duas vezes depois do jantar — uma para maratonar Demolidor na Netflix de Robb, e outra para assistir um show do Twenty One Pilots, uma banda que ele abertamente detestava. O que importava era o que ele via: eram os seus sorrisos toda vez que pegava o telefone e o nome de Robb aparecia na tela, eram as duas horas que vocês passaram conversando durante o jantar, oportunamente esquecendo que ele existia e que ele era seu namorado.
Roose Bolton nunca gostou de Ned Stark, então era natural que Ramsay não gostasse de Robb — tal pai, tal filho, depois de tudo, apesar dos dois terem tantas diferenças ao ponto de fazerem o uso desse ditado um tanto quanto duvidoso. Você era só mais uma casualidade que caiu sem querer no meio do fogo cruzado entre grandes investimentos e ambições maiores ainda.
(dai a césar o que é de césar: você meio que caiu sem querer na vida)
O que começou com alguns gritos a mais ao dia e beijos violentos demais se tornou um redemoinho de ciúmes e desconfiança que lhe deixava com vontade de arrancar os cabelos. Eu deveria terminar com ele, você pensava, mas arriscar a fúria de Ramsay direcionada para você com todas as forças lhe enchia de medo. E é aí que mora o perigo: como se tem medo de alguém que se ama?
(ah mas você não o ama, pobre garoto, você nunca amou — ramsay sempre foi um quebra-galho, alguém que pudesse aliviar o ardor que tomava conta do seu peito toda vez que você lembrava de cabelos vermelhos e sardas. você amava robb antes de conhecê-lo)
— O que você acha que eu vou fazer? — você perguntou a ele, deitado na cama dele, assistindo Amercian Horror Story na Netflix dele, com as pernas jogadas por cima das pernas dele. — Correr com ele para as colinas? A gente só conversa, Ramsay. Ou você quer me proibir de ter amigos?
Suas palavras pareciam entrar por um ouvido e sair pelo outro, porque Ramsay continuava com seu celular na mão, analisando todas as suas mensagens. Não era a primeira vez que ele fazia aquilo — ele sempre fora ciumento, mas nunca com tanta força —, mas era a primeira que lhe deixava incomodado. Antes, você não tinha motivo para temer, mas com Robb a situação se tornou um pouco mais complexa, as conversas entre vocês dois podendo facilmente ter suas palavras distorcidas para dar a impressão de que vocês estavam secretamente tendo, ou ao menos desejando ter, um affair pelas costas de Ramsay e de Jeyne Westerling — sim, Robb tinha uma namorada. Sim, ele muito provavelmente era hétero, e você ficou muito mais triste do que o que seria socialmente aceitável para um homem que já está em um relacionamento por isso.
— Você parecia muito capaz de correr com ele para as colinas no dia do jantar. Em que eu lhe levei para fazer companhia para mim. Mas não — ele fechou os olhos e suspirou, jogando mais uma pitada de drama numa panela de pressão prestes a explodir —, você preferiu se divertir a noite toda com Stark, não foi? E eu tive que ficar ouvindo meu pai falar sobre negócios e negócios e negócios nos quais ele não achou por bem me incluir. — Ele terminou jogando o celular no seu colo, já tendo vasculhado cada conversa existente nele.
— Eu já pedi desculpas, o que mais você quer que eu faça? — E você realmente já tinha pedido desculpas. Pelo menos uma dezena de vezes. — Nos não nos víamos há… Sei lá, uns dez anos? Muito assunto para colocar em dia. Ele tem, tipo, cinco irmãos e milhões de histórias deles para contar. — Você suspirou também, mas não para criar um efeito dramático, e sim porque já estava cansado desse tipo de conversa.
Porque quando você errava Ramsay agia como um cachorro que não conseguia largar o osso, mas quando era quem gritava e fazia você se encolher dentro de si quando via que ele estava quase levantando a mão, ele agia como se nada tivesse acontecido, como se um pedido de desculpas e um presente resolvessem tudo.
Não que houvessem desculpas e presentes — aparentemente, essa era uma técnica que Ramsay usava só no início de relacionamentos, quando o medo da solidão não era tão grande quanto o medo que você sentia dele. Mas você perseverou, tentando juntar os cacos de um namoro que já começou estilhaçado, e viu os presentes sumirem e depois as desculpas; até que no fim, tudo o que você recebia era um olhar desaprovador, daqueles que se dá para uma criança que tenta entrar em um assunto que não lhe diz respeito.
No momento em que vocês dois concordaram silenciosamente em dar uma trégua para pelo menos terminar de assistir a maldita terceira temporada de uma série que você nem gostava tanto — nada vai superar Asylum, verdade seja dita —, Stressed Out, do Twenty One Pilots, começou a tocar. Seu novo toque de celular, é claro — porque você era só um fã mediano antes, mas depois que foi assistir a um show com Robb Stark as coisas mudaram um pouco.
Mas quando você foi pegar o celular, tudo o que sentiu nos dedos foi o tecido macio da calça jeans surrada que estava usando — aquela que era de Maron e sua mãe teve que dar umas pinças porque ficava folgada demais e você detestava usar cintos. Seu celular estava nas mãos de Ramsay mais rápido do que você pôde ver a careta de desgosto que ele fez enquanto dizia eu não acredito que você colocou essa porcaria como toque de celular.
(você rezou para não ser quem você achava que era, mas deus — ou os deuses, sabe-se lá — lhe ignoram, como de praxe)
— E falando do diabo, adivinha quem está ligando para você. — Ele virou o celular para você, deixando que você visse a foto de Robb no meio da tela. Ela foi tirada no fim do show, quando vocês dois estavam suados e com as gargantas roucas depois de tanto gritar, mas com sorrisos enormes nos rostos. Você não queria que Ramsay a tivesse visto. Você queria que ele não soubesse nada sobre Robb, sobre essa parte da sua vida que você preferia manter escondida para que ela não pudesse despedaçá-la.
(já imaginou se ele contasse para robb tudo o que sabe de você? toda a sujeira, theon, que você varre para baixo do tapete)
— Me dá isso — você disse, só para ter o celular tirado do seu alcance. — É sério, Ramsay. — Oh, mas nenhuma palavra sua mudaria a situação. Com o mesmo sorriso maldoso que tinha no dia em que vocês se conheceram, Ramsay encostou o dedo na tela no exato local em que desligaria a chamada. Você tentou não se irritar.
Foi em vão.
Você praticamente voou nele, mas, para continuar na linha realista, fica dita a verdade: você jogou seu corpo em cima do dele, esticando-se o máximo que podia para alcançar o celular que ele segurava frouxamente na mão graças ao susto. Voltou rapidamente para sua posição inicial, atrapalhando-se com os botões numa tentativa de retornar a ligação o mais rápido possível. Você não viu Ramsay levantando-se, não viu quando ele parou na sua frente, esperando — tudo o que você via era a tela e depois os números e então a foto e então
(e então)
Você não viu mas você sentiu, ah sim, você sentiria por dias, o tapa que explodiu do lado direito do seu rosto, fazendo o celular se chocar contra sua orelha com tanta força que você o deixou cair no chão — a merda do iPhone 5S que Ramsay lhe deu de aniversário, seu imbecil, você deixou cair, você sempre quebra tudo. Antes mesmo que você pudesse levar mão à bochecha, sentir o calor e se dar conta, meu deus — porque você ainda não fez isso — de que você levou um tapa, um tabefe, seja lá o que for, que estalou na sua cara com tamanha força que lhe deixou tonto, seus ombros são empurrados e você deitou-se — ou foi jogado — de costas na cama. Em um segundo você via a tinta branca no teto, e no outro os cabelos de Ramsay caindo em seu rosto.
Ele parecia pronto para matar alguém, você percebeu; pronto para matar você. Mas a expressão maníaca tal qual um cachorro com raiva se desfez no lugar de um sorriso tão aberto que você podia contar quantos dentes haviam na boca dele. As duas mãos deles seguravam os seus pulsos e suas pernas estavam habilmente sobre as suas coxas para que você não pudesse se mexer. Se você tivesse obedecido seu pai e feito aulas de judô, teria conseguido se soltar daquela prisão facilmente. Mas você nunca o deu ouvidos, não?
— Eu vou sair daqui e, se você tentar encostar naquele celular, eu vou quebrar o seu pulso. Você entendeu, Theon? — ele disse, calmamente, como se estivesse dando instruções a uma criança. Você não tinha forças para reagir; tudo o que sentia era medo pânico pavor (quantas palavras descrevem uma mesma sensação?) uma vontade horrenda de sair dali, daquela casa, e nunca mais olhar para Ramsay na vida. Ele apertou um de seus pulsos com mais força. — Eu vou perguntar pela segunda e última vez: você entendeu, Theon?
Você acenou positivamente com a cabeça, sem conseguir encontrar voz para respondê-lo.
— Ótimo. — Seu sorriso se tornou um pouco mais caloroso (não que tivesse sido caloroso antes), mas você não duvidava da probabilidade de ele se transformar em algo horripilante como a Coisa a qualquer momento, e arrastar você para um buraco dentro de onde pudesse te esquartejar. — Nós vamos continuar assistindo nossa série, e depois, quando eu cansar, você vai abrir as pernas para mim como o belo namoradinho que você é. E então nós vamos dormir. Entendido? — Você acenou novamente. — Muito bem, Theon. É bom ver que você ainda tem alguns neurônios funcionais nesse seu cérebro de puta latina.
Ele saiu de cima de você tão rápido como foi parar lá. Você continuou deitado enquanto ele pegou seu celular do chão, o desligou e colocou-o ao seu lado da cama, tentadoramente perto. Você arriscaria um pulso por Robb Stark? Porque não havia sombra de dúvida da veracidade das palavras de Ramsay. Na verdade, você desconfiava que, dada a chance, ele quebraria mais do que apenas um pulso.
(você sempre soube que ele um monstro, mas essa era a primeira vez que você o via de verdade, de dentes arreganhados e garras para fora — ele é uma besta e hoje, você é a caça)
Com um carinho tão gentil que parecia ter sido feito por um anjo na sua bochecha que latejava e um eu vou buscar cerveja sussurrado tão baixo que você mal ouviu, ele saiu do quarto em direção a cozinha. Você tentou fazer com que sua respiração voltasse ao normal e sentou-se exatamente no lugar onde estava antes, mas não adiantou muito. A volta dele pareceu fazer com que seu rosto doesse ainda mais, mas você não arriscou perguntar se podia colocar gelo no local — pelo contrário, você deixou que ele passasse os braços pelo seu ombro e lhe trouxesse tão perto que vocês pareciam uma coisa só, uma macabra entidade Theon e Ramsay que era metade ódio e metade solidão.
Você arranhou as costas dele de verdade enquanto ele te fodia, numa tentativa idiota de vingança que apenas servia para deixá-lo ainda mais excitado. Tentou focar seu olhar no teto, na madeira brilhante do guarda-roupa, na noite sem estrelas da janela aberta, mas no fim você sempre acabava olhando para o rosto dele contorcido de prazer enquanto ele entrava e saía do seu corpo — e cada vez lhe dava ainda mais nojo. Você só esperava que ele estivesse tão tomado pelo pós-orgasmo que não fosse capaz de sentir o gosto de vômito na sua boca quando fosse lhe beijar.
Era assim que ele pedia desculpas sem dizer desculpa.
—
Por todos os tapas e socos e arranhões que você se acostumou a levar nos três meses seguintes, foi Ramsay que decidiu por um fim a essa farsa que era o namoro de vocês dois.
Não que você achasse que era algo mais do que aquilo — ele só queria cuspir na cara do pai, e você só queria alguém que lhe enchesse de presentes e carinhos como você nunca teve. Daqui a mais três meses você diria que estavam fadados ao fim, mas naquele momento você teve de se equilibrar contra a parede da sua casa para não cair.
Ele esperou e esperou e esperou, como se tivesse em busca do momento perfeito para pisar em você até que não restassem nem migalhas. Vocês assistiram Avengers: Age of Ultron de mãos dadas, dividindo até mesmo o canudo do refrigerante. Ele comprou — mais um — colar para você, uma fina corrente de ouro que mal aparecia na sua pele morena.
(foi um presente de despedida, mas é claro que você não pensou nisso na hora)
— Você pelo menos sabe qual estação de metrô tem que pegar até a faculdade? — ele te perguntou, assim que você saiu do carro dele, em frente a sua casa. Era quase meia-noite, e você detestava ficar na parado do meio da rua esse horário, já que o Bushwick não era conhecido por ser um bairro de criminalidade baixa. Mas não era como se você pudesse ignorar Ramsay, ou ao menos dizer para ele se apressar.
— Sim, eu acho. Por quê?
— Bem, porque a partir de amanhã você vai ter que começar a se virar sozinho. Eu não vou mais fazer todo o caminho de Manhattan até esse fim de mundo para te levar no ar condicionado até a sua universidadezinha, Theon. — Ele sorria enquanto dizia aquilo, aquele mesmo sorriso em parte encantador em parte assustador que era um alerta de tempestade vindo na sua direção. — Você sabe, eu percebi que você está saindo caro demais para mim. E não me leve a mal, não é como se eu não tivesse dinheiro, mas não acho que vale a pena gastá-lo com gente da sua laia. Dê uma olhada em volta. Olha esse bairro. É nojento, Theon. É cheio de vocês pobres, porto-riquenhos que fogem do seu pais miserável para terminarem trabalhando como frentistas de posto nos Estados Unidos. E vocês acham isso maravilhoso!
Ele estava falando alto de propósito. Queria chamar a atenção dos seus vizinhos, queria que todo mundo visse como o sonho do garoto da casa 1473 e seu namorado podre de rico não passava de um castelo de cartas. Queria que soubessem que você era só mais um desgraçado — que sua única especialidade era ser uma boa foda uma vez ou outra. Nada mais.
— Não me leve a mal, querido. — ele continuou, e naquele segundo você já estava de costas na parede, uma mão na maçaneta da porta à espera do momento em que teria coragem para correr dali. Sim, coragem para correr, por mais estranho que isso soasse. — Eu não estou dizendo que odeio sua gente, mas eu odeio! Pobrezinhos. E você pensava que eu gostava de você. Como se eu fosse gostar de um latino pobre quando se tem tantos por aí, iguaizinhos a você. Qual é a graça de ter algo que todo mundo pode ter? — Ele franziu a testa, como se estivesse verdadeiramente pensando no assunto, e não atuando em uma peça ensaiada há algum tempo. — O Upper East Side está cheio de garotas e garotos que sabem usar mais do que três talheres, Theon. Eu não preciso de você.
— Você está terminando comigo — você afirmou, Capitão Óbvio, porque aquela era a única porcaria que saiu da sua boca. Deveria se sentir aliviado, afinal, aquele era o fim dos gritos e tapas que você teve de aguentar calado para não receber em dobro, mas era como se alguém tivesse arrancado o tapete do mundo dos seus pés; e dessa vez você não estava flutuando, e sim caindo.
— Sim, gênio. Eu estou terminando com você. Você é bom na cama, sabe, Theon? Uma bela bunda e tudo mais, mas isso a gente acha em qualquer puteiro por aí. Pode ficar com os presentes, tá? Não é como se eu fosse sentir falta deles. Ou de você.
Ele lhe mandou um beijo antes de subir a janela do carro e acelerar o carro até que as rodas cantassem no asfalto, acordando todo mundo que não tivesse ouvido o que ele tinha a lhe dizer. A Sra. Velásquez lhe olhava da sacada de sua casa como se quisesse lhe pegar no colo e colocar na cama, mas você não tinha força nenhuma para dar os três passos necessários para se chegar na casa dela e pedir uma xícara de chocolate quente. Em vez disso, você se deixou cair contra a porta de madeira — barata, como eram todas as coisas no Bushwick —, até que sua mãe desceu a escada correndo, abriu a porta e lhe abraçou até que você entrasse em casa, seu rosto cheio de lágrimas e a marca que começava a arroxear no lugar em que Ramsay lhe beliscou porque você riu alto demais em uma cena do filme doendo mais do que você achava ser possível.
—
Todas as marcas espalhadas pela sua pele desaparecem em um período de um mês, mas aquelas plantadas em seus pensamentos perduraram. Elas derrotaram as sessões de terapia, deram uma goleada nos remédios e lhe ensinaram que é muito mais confortável gastar todo o seu tempo livre olhando para as paredes de casa. Elas te mostraram que, por mais horrível que seja ficar deitado na cama pensando em todos os seus fracassos, passados e futuros, ainda assim é uma perspectiva melhor do que enfrentar um mundo com outros milhões de Ramsays à espreita de um momento de fraqueza seu.
(e, ultimamente, todos os seus momentos tem desse tipo)
Enquanto você estava com o coração pesado demais para sair debaixo das cobertas num dia de agosto em que o sol brilhava com todas as suas forças — um dia em que você imploraria à seus pais que te levassem na praia, se você ainda fosse criança, ainda morasse em Porto Rico ou na Flórida, ainda fosse feliz —, sua mãe praticamente flutuou, vencendo os remédios da quimioterapia que sempre a deixavam horrivelmente nauseada, e pegou o celular abandonado no chão ao lado da sua cama, bem debaixo do seu nariz. Você estava cansado demais para perceber. Você estava cansado demais para perceber qualquer coisa, na verdade. Mas aquele em especial, realmente, foi um erro. Se sua mãe não tivesse pego seu celular você poderia continuar chorando confortavelmente no travesseiro — mas ela foi em sua lista de contatos e deu início ao que você gostava de chamar Operação.rar, ou Robb ao Resgate.
O que era, obviamente, ridículo, e você sabia. Situações ridículas pedem por nomes igualmente ridículos, apesar de que nenhum deles poderia ser mais adoravelmente ridículo do que Robb Stark.
(se você perguntasse para sua mãe o porquê, de todas as pessoas, ela ligou justamente para robb, ela não saberia como te responder. mas é como o ditado diz: mãe tem sexto sentido, e o da sua apitava que aquela era a única maneira de ela não te perder outra vez)
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Em dez minutos, ela conseguiu a proeza de lhe arrastar da cama — mesmo estando no meio de um tratamento de câncer de mama e mal tendo forças para levantar do sofá —, lhe obrigar a tomar um banho, vestir uma roupa fresca, passar protetor solar no rosto e descer até a sala para esperar o famigerado momento em que Robb Stark, provavelmente com um Porsche ou outro carro de filho de rico, buzinaria. Foram os melhores piores 20 minutos da sua vida — melhores porque, veja bem, você vai sair com Robb Stark! E tudo bem que havia sido sua mãe quem arranjara tudo numa tentativa de não deixar você se entregar 100% para a depressão, mas ainda assim. Você. E Robb Stark.
Mas eles também são os piores porque, mais uma vez: Você. E Robb Stark. Porque você não queria que ele lhe visse daquele jeito, uma sombra do que você era antes, daquele garoto que adorava Deadpool mas que aprendeu a gostar do Capitão América. Você não queria que ele percebesse que seus dedos estavam um pouco estranhos — é o que acontece quando eles são quebrados dezenas de vezes em sucessão —, e por causa disso, a faculdade de artes se tornou o pior pesadelo da sua vida. Você mal conseguia segurar o lápis do jeito certo. Robb era rico e bonito e gentil e charmoso e você era todos os contrários possíveis, todos os motivos necessários para que ele não quisesse nem saber de você. Mas ainda assim sua mãe havia lhe dito que ele levaria você para passear.
(o único lugar onde eu quero passear é no inferno, você pensou, mas não disse nada a ela — sua mãe e asha eram as únicas pessoas da família que não lhe viraram as costas, e não havia motivo para ser desnecessariamente cruel com elas, por mais que você sentisse vontade)
Surpreendentemente, não foi um Masserati ou um Bentley que apareceu naquela ruazinha sem saída no Bushwick, mas sim um pequeno Chevrolet Spark esverdeado — confie em Robb para escolher a pior cor para um carro. Ele não buzinou — seria falta de educação, ele disse depois, quando vocês já estavam dentro do carro, tem muita gente dormindo num domingo à tarde —, apenas deu três batidas (toc toc toc) na porta e esperou, pacientemente, você se arrastar para deixá-lo entrar. Se ele se assustou com as olheiras sob seus olhos, não deixou transparecer.
— Olha quem está vivo! Para quem não atende minhas ligações há mais de uma semana, você parece ótimo. — E, claro, confie em Robb Stark para colocar um sorriso idiota na sua cara em qualquer situação. Era verdade que você havia ignorado várias ligações dele, mas em sua defesa, você havia ignorado várias ligações de todo mundo.
— Ah sim, olhe para mim: eu sou o garoto propaganda da saúde. Quer entrar? — você perguntou, abrindo um pouco mais a porta para que ele pudesse passar. — A mãe provavelmente vai querer que você coma alguma coisa.
— Na verdade, eu acho que seria melhor a gente ir logo? Quer dizer, eu quero te levar num lugar que provavelmente vai ter bastante gente então, é. Quanto mais cedo a gente chegar lá, melhor.
— Você não vai me levar nesse lugar com esse carro verde alienígena, vai, Stark?
— A gente pode ir de ônibus também, mas não garanto que o ar condicionado dele vai estar funcionando, Greyjoy.
(eu não vou mais fazer todo o caminho de manhattan até esse fim de mundo para te levar no ar condicionado até a sua universidadezinha, ramsay lhe disse quando terminou com você, bem naquele lugar — mas robb não era ramsay, certo? não era. aquela coisa que apareceu no seu peito de novo quando você abriu a porta para ele era mais bonita que o mar lambendo os dedos dos seus pés em porto rico. ramsay era como a lua — por algum tempo você acreditou que ele brilhava sozinho, mas isso nunca foi verdade. ele só refletia aquilo que você já conhecia, o que já estava dentro de você, desde o dia em que sansa lhe derrubou e robb levou você para que mãe dele fizesse seu curativo. ramsay era apenas a lua. robb sempre foi o sol)
Vocês não trocaram uma palavra durante a maior parte do trajeto. Você se contentou em observar a paisagem pela janela e Robb não fez perguntas. Não lhe pressionou. Não disse que você deveria procurar outra psiquiatra, ou que ele conhecia uma pessoa como você que melhorou depois de tomar tal e tal remédios. Ele só dirigiu, sem dizer para onde ia, e você não sentiu necessidade de perguntar, como em todas as vezes em que você saía com Ramsay. Ele era bênção na sua vida, esse Robb Stark, e você não tinha como agradecer suficientemente por aquilo. Deus proteja Steve Rogers e seus band-aids.
O minuto em que você se distraiu da rádio que tocava naquele domingo ensolarado foi o suficiente para acabar com o silêncio que se instalou entre vocês. E isso porque aquilo que você estava vendo à distância e que vocês estavam se aproximando cada vez mais eram definitivamente várias montanhas-russas — e você não podia acreditar que Robb Stark seria capaz de lhe dar um golpe tão baixo, aquele babaca.
— Eu não acredito que você me trouxe pra Coney Island! — Suas memórias daquele lugar não eram poucas, e definitivamente não eram calmas. Principalmente nas vezes em que você fora com Robb.
— Eu sempre quis ir na Thunderbolt nova com você. E agora não tem ninguém pra arrastar nós dois pro Deno’s e fazer a gente andar no elefante voador, ou no carrossel.
— Ei, o barco pirata do Deno’s é bem legal.
— É de criança — ele disse, como se aquilo impedisse um brinquedo de ser legal. — E agora que nós somos adultos responsáveis, podemos ir em todas as montanhas-russas de adultos, e nas casas assombradas de adultos, e—
— Brinquedos de adultos, Robb. Eu entendi. — Por toda a pose de entediado que você estava colocando, não tinha como negar a animação que vinha ao saber que estaria voltando com Robb ao mesmo lugar em que tanto brincaram no curto período em que eram amigos na infância.
— Eu espero que você não se incomode em molhar esse short, porque nós vamos na praia e não é uma ida de verdade se não tiver um mergulho. — Ele estacionou o carro numa vaga apertada, a única que vocês encontraram que não era longe demais da praia. Parecia que todos aqueles que haviam ficado em Nova York no verão iam para Coney Island pelo menos uma vez por semana. O lugar estava sempre cheio.
Ele até mesmo correu para o outro lado do carro, abriu sua porta e estendeu a mão para você. E você queria dizer que não precisava nada daquilo, que esse não seria mais um dos dias em que você não encontrava força nas pernas para sair do lugar. Mas não foi isso que você disse. Muito pelo contrário.
— Você ganhou, Robb. — E debaixo da pele dele você sentia o sangue fluindo nas veias, o coração dele batendo num thud-thud no mesmo ritmo do seu.
—
Quase quatro horas depois, seu cabelo já estava quase totalmente seco, sua boca ainda mantinha o sabor do algodão doce que você comeu com ¼ de culpa e ¾ de desejo, e na sua mão perdurava uma dor que não doía, de quando Robb a apertou com força para não deixar transparecer que estava morrendo de medo da montanha-russa — a ideia toda foi dele, no fim das contas, e você não ia deixá-lo sair de fininho porque não tinha noção do tamanho real da queda que vocês estavam prestes a enfrentar. Eu não acredito que você vai me deixar dar um olá para a morte sozinho, Robb, você disse, mas a única coisa que realmente o convenceu foi a força dos seus braços o arrastando até o primeiro carrinho.
E sim, algumas pessoas olharam para vocês dois como se fossem duas crianças, e enquanto Robb tinha a dignidade para se envergonhar, você lhes fazia caretas — o que só fazia deixar Robb sem ar graças a tentativas falhas de segurar as risadas.
(ele nunca conseguira fazer aquilo, e você, enrolado na cegueira da paixão que você sente desde os oito anos, pensava que era porque era um som bonito demais para ser escondido, como os anjos soando suas trombetas nos quatro cantos de um atlas. todo mundo deveria ouvir o riso de robb stark ao menos uma vez na vida, mas naquele dia, o privilégio era só seu)
Do banco de onde vocês estavam sentados, na orla da praia, ainda era possível ouvir as ondas batendo na praia — um barulho que sempre te acalmou de uma forma que você nunca soube explicar. Como se você fosse feito de espuma marinha, uma cria que uma sereia colocou no berço da casa dos Greyjoy. No mar você brilhava incandescente e, pelo jeito que Robb lhe olhara durante todo o tempo, isso ficava claro o suficiente para todo mundo.
— A gente pode voltar aqui de novo amanhã — Robb disse, depois de dar um último gole no suco de laranja que vocês compraram num quiosque logo atrás de onde vocês estavam. Ele segurou o copo de plástico vazio nas mãos, ao invés deixá-lo se juntar aos seus irmãos abandonados na areia. Típico de Robb Stark. — Não é como se a gente tivesse muita coisa para fazer nas férias. Quer dizer, talvez você tenha e eu definitivamente não estou lhe chamando só porque eu não tenho nada para fazer, mas, é. Você entendeu.
Sim, você realmente entendeu, mas isso não significava que iria deixar passar a oportunidade de provocá-lo um pouco.
— Eu me viro muito bem sozinho, Robb. Não precisa ficar me levando para passear numa esperança de que eu melhore, ok? — Você não sabia mais se estava brincando com ele ou sendo totalmente sincero. — Mas, se você for pagar toda vez que nós sairmos, bem, então fica muito difícil de recusar seu convite.
— Eu não quis dizer que você precisa de ajuda! É só que… Meu pai costumava dizer que o lobo solitário morre, mas a matilha sobrevive, entende? Não que eu ache que você precise de ajuda, mas se você precisar, eu estou aqui por você.
(todos os pelos do seu corpo se eriçaram de repente quando ele disse aquelas palavras, apesar do único vento que soprava na direção de vocês ser uma brisa leve demais para conseguir aquela proeza — você sentiu seus ossos cantando como uma prece dominical. o inverno está chegando
e até lá estaremos todos debaixo da terra)
— Uma matilha de dois, você quer dizer? Me desculpe, mas ela me parece bem fraquinha. E matilhas não tem aquelas presepadas de lobo alfa, beta e tal? Eu só aceito se eu for o alfa.
— Isso é tão ridículo — ele disse, mas sorriu mesmo assim. — Você pode ser o lobo alfa se quiser. Você pode ser qualquer lobo, Theon Greyjoy, se isso significar que você não vai tentar fugir de mim.
— Por que eu faria isso? Você me traz para a praia num carro verde marciano, tem medo de altura e me convida para assistir Star Wars quatro meses antes do filme ser lançado. Certamente eu não tenho nenhum motivo para fugir de você, Robb Stark.
— Na verdade, eu estava pensando em te levar no cinema, mas todos os filmes que estão passando são uma porcaria.
— Eu não iria no cinema com você para assistir filmes, você sabe.
— Ah é? Por que você iria, então?
Ele sorriu e você sorriu e ele sorriu mais ainda, como se todos os vazios entre as suas costelas e as costelas dele estivessem sido lentamente preenchidas com algodão doce, o mesmo cujo sabor você sentia enquanto sua língua descobria o céu da boca dele. Algodão doce doce doce como os dedos dele se enrolando nos fios do seu cabelo como se eles fossem feitos de ouro, doce como o som do mar embalando vocês nos braços do universo, doce como um desejo realizado depois de mil anos de espera.
Doce como ver a primeira neve que caía nos jardins de Winterfell, como sonhar com verão que acabara há uma eternidade, mas que ainda resistia — cantando! — dentro do peito de vocês dois.
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