Notas iniciais
your eyes close with my dreams
I love you like this because I don’t know any other way to love,
except in this form in which I am not nor are you,
so close that your hand upon my chest is mine,
so close that your eyes close with my dreams.
— pablo neruda
I.
Lexa está sentada em frente ao fogo, silenciosa como uma estátua, há pelo menos cinco minutos quando você fala pela primeira vez. É arranhado, e muito cansado, porque você está vagando pela floresta já tem mais de cinco dias e não teve muito uso para sua voz nesse meio tempo. É também tão baixo que o vento quase leva embora; e por um segundo, você quase deseja que isso tenha acontecido mesmo. Você não sabe se está pronta para falar com ela ainda (quem pode te julgar?). Mas Lexa te ouviu, é claro. Lexa (quase) sempre te ouve — menos quando as coisas são importantes.
“Eu quero que você vá embora”, é o que você diz a ela. A primeira coisa, uma semana depois do que ela te fez. Ainda é muito mais do que Lexa merece, você está convencida. (Se a própria Lexa é alguma juíza, você está certa. Você não sabe, mas para ela você está (quase) sempre certa. Menos quando as coisas são importantes).
“Eu vim aqui porque você está se matando”, é tudo que ela responde, sem se virar. Você se pergunta como toda a parte da frente do corpo dela não está pegando fogo, sentada assim tão perto da fogueira. Acabe decidindo que Lexa simplesmente subverte as leis da física ao seu bel prazer. Poderia ser impossível, mas quem é você para dizer? Se te perguntassem uma semana antes, qual é a maior impossibilidade do mundo?, você talvez responderia Lexa me deixar.
“E você se importa?”, sua resposta é a de uma criança petulante, e você está perfeitamente ciente disso. Mesmo assim, não consegue morder as palavras de volta, e acaba deixando-as rolarem pela sua língua. Porque, afinal, é a verdade. E todos sempre te disseram que a verdade precisa ser dita.
(você só quer machucá-la, de qualquer jeito que seja. porque você está no inferno, e tudo ao seu redor é fogo, então quem ela pensa que é para sair ilesa da sua vida?)
Lexa não diz nada, o que não te surpreende nenhum pouco. Você não consegue mais contar todas as vezes em que ela usou o silêncio como uma forma de encerrar uma briga, uma conversa, uma discussão; entretanto, o que ela não vê — mas você enxerga, e você entende — é que, dessa vez, não tem como sair andando do que vocês fizeram. Dessa vez, o silêncio é pesado com sangue, traição e morte.
(e radiação)
II.
Você se esconde atrás de uma árvore, observando Lexa caçar seu jantar. Por um lado, você se sente péssima por não conseguir fazer isso sozinha (na Ark, a comida sempre aparecia pronta numa bandeja; na nave, quando vocês chegaram à Terra, alguém costumava tomar essa tarefa das suas mãos, sem rancor nem discussão, porque você não sabia fazer isso — mas você sempre soube fazer outras coisas —; depois que os outros chegaram, as tarefas foram ainda mais subdivididas, e a possibilidade de você ter que procurar comida ficou cada vez mais remota; e desde que você esteve sozinha na floresta, você se alimentou basicamente de raízes de aparência suspeita); por outro, você pensa é o mínimo. Ela deixou você e seu povo para morrer, com nada mais do que um sinto muito, que nós nos encontremos novamente, etc, e o rancor que borbulha na sua garganta ainda não dissolveu em aceitação e perdão (o que você temia que acontecesse. Quando você deixou Camp Jaha para trás e decidiu se esconder determinadamente de cada um dos seus pecados, perdida na floresta, esse era seu maior medo. Porque você sabia que Lexa iria aparecer. Poderia demorar um dia, ou uma semana, ou um mês, mas ela iria aparecer. E você teve medo de perder a sua raiva, porque do momento em que você puxou aquela alavanca em diante, isso pareceu se tornar sua essência, sua única constante. Raiva e culpa. Raiva e tristeza. Raiva e mágoa).
As folhas arranham seu rosto e reabrem seus machucados — preocupada com a ideia de que ela te visse olhando, você se escondeu atrás do arbusto mais inconveniente do mundo —, mas você não se move. Em verdade, você mal pisca. Você apenas fica lá, imóvel, dividida entre desejar que ela sorria e desejar que ela morra.
III.
“Como você me soube que eu estava aqui?”, você pergunta na segunda noite. Ela está deitada há cinco passos de você, longe o suficiente para manter uma ilusão de distância, mas perto o suficiente para te ouvir gritar. A fogueira queima fracamente — morrendo — perto das suas costas.
Ela fica em silêncio por muito tempo. Tanto, que você poderia achar que ela não ouviu, se ela não estivesse tão perto; tanto, que você poderia achar que ela dormiu, se ela não estivesse tão tensa. “Eu não soube”, é o que ela responde, finalmente, quando você já desistiu de esperar e se prepara para virar para mais perto do fogo.
“Então como você me achou?”, você pergunta, muito quieta, quase com medo da resposta. Quase com medo de quebrar.
“Eu procurei.”
IV.
“Eu queria que você queimasse”, você diz numa tarde quente, enquanto descasca algo que parece vagamente com batata. Lexa limpa um peixe perto de você, o braço esquerdo dela se encostando no seu braço direito às vezes. “Quando você me abandonou naquela montanha”, você esclarece, como se fosse necessário, “eu quis muito que você queimasse.”
“Só queria?”, ela pergunta, muito neutralmente.
“Ainda quero”, você responde, quieta, “às vezes.” (silêncio). “Mas agora eu vejo, não é sobre você. Provavelmente foi, nos primeiros minutos depois que você virou as costas e saiu andando sem olhar para trás,” você adiciona, um sorriso irônico puxando o canto dos seus lábios para cima. “Mas depois do que eu fiz—“ você suspira, profundamente, e larga a quase-batata no chão perto das suas pernas. “Depois do que eu fiz, era sobre mim. E sobre o que eu tive que fazer. Eram mais de trezentas pessoas, incluindo crianças, aliados, civis. Eu matei todas elas, Lexa. Cada uma. Depois do que eu fiz, eu não consegui mais respirar. O ar ficou pesado com o cheiro de morte. Pesado com o cheiro de radiação. Então eu te odiei. Porque, se você não tivesse me deixado para morrer sozinha, talvez eu não tivesse que ter feito aquilo. Eu não teria—“
Você não diz nada por muito tempo. Tanto, que você poderia achar que você nunca falou nada de modo geral. Nunca, desde seu nascimento.
Ao seu lado, Lexa abre e fecha as mãos como se tentasse controlar o impulso de encostar em você.
“Agora, eu sou um monstro”, você diz, quando o peso das palavras na sua língua se torna tão pesado que você pensa que elas vão te sufocar. “E foi por isso que eu te odiei.”
“Eu sinto muito”, ela diz, baixinho. Uma por uma, as palavras se quebram no meio. “Eu nunca quis que você se transformasse nisso.”
“O que você achou que ia acontecer?”, você pergunta, e existe uma espécie de raiva infantil na sua voz, o tipo que nasce da falta de vontade de genuinamente acusar. O tipo que nasce depois de uma traição exausta. No fundo, você já sabe a resposta. No fundo, você já aceitou isso há muito tempo, no mesmo segundo em que ela te disse adeus.
“Eu achei que você fosse morrer.”
V.
Vocês estão deitadas uma ao lado da outra, seus rostos há um palmo de distância, e o barulho do vento uivando é o único som que pesa no ar. Vocês estão em silêncio, sim, mas o tipo que nasce depois que as palavras ficam exaustas; depois que a vontade de gritar com alguém morre de uma morte súbita. É meio confortável — você quase sente vontade de sorrir. Por um segundo, o peso constante dos acontecimentos da montanha parecem até leves; esquecíveis. Se não perdoáveis, compreensíveis.
“Eu tenho que voltar pra casa”, você diz a Lexa, mas ela balança a cabeça. Toca seu pulso direito com os dedos da mão dela, sem dizer nada, mas você consegue ler nas sobrancelhas franzidas tudo que ela não sente vontade de te falar. Nós poderíamos nos esconder aqui. Se não para sempre, pelo menos mais um pouco. Só mais um pouco. “O sol já vai nascer”, você continua, porque não existe motivo para desejar o que não pode nunca ser verdade. Lexa tem um povo para comandar, e você, com alguma sorte, tem uma casa te esperando. Vocês não podem viver para sempre nessa bolha suspensa no ar.
“Eles não precisam que você volte.” ela responde, mas há um cansaço derrotado no jeito que ela pronuncia as palavras. Como se ela tivesse se preparando para levantar agora mesmo e ir atrás dos cavalos. Você sorri.
“Eu sei. Mas o seu povo precisa de você, e minha bunda dói de tanto dormir no chão dessa floresta.”
“Você quer mesmo voltar?”
“Não. Mas eu tenho que.”
“Dever.” é tudo que ela diz, mas você entende, e suspira.
“As coisas que nós fazemos por outras pessoas são as que doem mais, não são?”
“Todas as vezes.”
VI.
Lexa te ajuda a subir no seu cavalo, cuidadosamente, como se tivesse medo que você se quebrasse com algum movimento mais brusco. Vocês estão limpas, e cheiram a algum tipo de sabão que os grounders usam para tomar banho. O cheiro é bom. Você gosta — faz com que você pense casa.
Você pensa em perguntar vamos nos ver de novo?, mas desiste, porque você não tem certeza se quer ouvir a resposta. Não porque tem medo que seja não, mas porque é mais provável que seja sim, (na próxima vez que estivermos em guerra).
Você se inclina, seus lábios se encostando nos dela, tão leve que poderia ser o toque do vento; tão breve que poderia ser um sonho.
“Eu vou sentir sua falta”, é o que você diz, porque o tempo dos eu te amo já veio e já se foi, e só deixou a tristeza no lugar. É o que você diz, porque você já a teve e já a perdeu e não sabe se a teve de novo, mas tem certeza que é o momento da perda outra vez. Você está cansada desses começos abruptos e desses finais abertos. Você, como todos que só tem forças para sorrir de exaustão, só deseja que tudo isso acabe.
“Tome cuidado, Clarke”, ela responde, e os lábios dela se erguem, nos cantos, um último sorriso de adeus. Você considera isso uma evolução. Da última vez que ela te deixou, não houve sorrisos. Ela te dá as costas e monta em seu próprio cavalo, mas então— para. Ela se vira e te olha, um minuto inteiro.
E então, vai embora.
(pela última das últimas vezes).
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