vão

1 Where dreams have no end


Notas iniciais
não sei se posso chamar isso de songfic, porque a música não tem letra, mas a história foi inteira e definitivamente feita para a composição de Alan Silvestri, "Where Dreams Have No End". o link é esse aqui: https://www.youtube.com/watch?v=RSOnsU9qv8o (sim, é da trilha de operação cupido, porque não supero nunca esse filme) espero que gostem ♥

Era como se fechasse os olhos e um tecido tremulasse no começo de uma tarde nublada. Tinha fios claros, amarelados, e, suspenso no céu, parecia quase transparente.

Vinha acompanhado de uma sensação arrebatadora que ele jamais saberia explicar nem dizer a ninguém. Era uma procura embaralhada por algo que não tinha nome; era uma tragédia em movimento e um desespero que pertencia somente a ele.

Poseidon se via caminhando, sôfrego, embaçado por aquele balançar incessante.

Era um deus, dentre tudo o que poderia ter sido, e ainda não tinha arranjado um jeito de explicar o termo (depois de tanto tempo). Que não era feliz, nem era efêmero – e, ao seu lado, desenhava-se um panteão de outros seres que não fechavam os olhos nem procuravam por mais nada.

Era parte de um Olimpo que se achava completo. E não entendia a razão, e se inundava sozinho.

Sabia quando a imagem lhe havia aparecido pela primeira vez, quando se tinha partido de todos os outros. Zeus era uma manhã de sol, erguido acima das nuvens. Tinha engolido uma profecia no nascer do tempo e selado os lábios para nunca mais.

Nunca mais Métis, transformada em asas e agora inerte à vida. Rei dos céus dos deuses dos relâmpagos – matara Métis sem nunca compreender que sua semente seria incontornável.

Nada de martelos, nada de armaduras. Em um final de dia, pela garganta entalada de Zeus, uma mosca pequena forçara um caminho árduo até escapar por seus lábios entreabertos. Ele a vomitara inteira e a fitara com pavor nos olhos. Surpreso.

Mas as pequenas asas ondulavam para longe, na direção do sol, e a vista de Poseidon então se embaçava para sempre.

Um tecido tremulava amarelo pela primeira vez: seus olhos abertos não viam mais nada.

oOo

Ninguém mais sentira nada. Pedra sobre pedra, o Olimpo tornara a se erguer e a dar nome a sentimentos e coisas como se alma e corpo fossem tipos distintos. Zeus não tinha um braço direito, as corujas pareciam mais solitárias; um artesão passara dias e dias perdido ao olhar para oliveiras.

Uma civilização nascia e crescia sem ordem, sem alguém que a pensasse e estivesse disposto a refazê-la (quando ela inevitavelmente afundasse).

Poseidon não ficaria conhecido por uma inimizade, não pelo chuviscar brilhante de uma fonte salgada, nem pelo gesto bruto e grosseiro deferido a uma sacerdotisa casta.

Erguidos sobre a cidade-mãe daquela sina, os vãos de um templo imenso permaneceriam sem nome. Seus construtores seriam incapazes de lhe atribuir significado e, aflitos, tentariam derrubá-lo vezes e mais vezes.

Poseidon se aproximaria, entretanto, e a luz do sol que atravessava a pólis iluminaria seus olhos verdes. A névoa brilhante mostraria, em detalhes mais inteiros, aquela cena que não ia embora nunca.

Acompanharia com nitidez o tecido se mover como se preso pelo vento; enxergaria sua cor clara e, muito de longe (terrivelmente de leve), o rosto fino de uma mulher de guerra.

E Poseidon defenderia aquele templo de deus nenhum como se lhe valesse a vida. E não deixaria que ninguém o derrubasse até que se chamasse delírio mais do que o reconhecessem deus.

oOo

Em vão, se lançaria naquela busca como se tentasse reestabelecer um equilíbrio de que só ele sentia falta. Procuraria por ela (por seu relance amarelado e seu nariz reto) em cantos perdidos de todo esse mundo.

Procuraria em Gaia e em estrelas distantes, só para ver o movimento desembocar sempre na mesma praia vazia.

Pediria ajuda por anos e anos, e nunca ninguém saberia como lhe confortar. Passaria um, dois, três milênios com a imagem voltando, cada vez mais fraca, até começar a esquecer suas cores. Até começar a achar, sob todo protesto, que talvez nunca o mundo tivesse sido roubado – que talvez tivesse de assentir, lábios apertados, e admitir todo aquele embaraço.

oOo

Agora já remava mais tranquilo, não tinha mais visões nem brigava com o mar e a terra. Era um ser terrivelmente sozinho e, depois de o compreender, poderia aos poucos retomar contato com os outros olimpianos (finalmente um deles).

Não havia ninguém mais para defender a antiga pólis, reluzindo em seu solo infértil e suas colunas claras. Poseidon não estava mais perto. Por isso mesmo, demoraria a receber a notícia final: tinham decidido derrubar aquele templo imponente e gracioso, erguido sobre uma encosta, incompreendido desde o primeiro momento em que o haviam planejado.

O dia estava marcado. As marretas haviam sido separadas (os machados também). Seria uma violência a que ele não assistiria de perto – e nada restaria da lembrança daquela mulher dourada.

Poseidon já havia desistido de procurá-la. Afundado no mar, não deu mais atenção ao anúncio nem à queda do monumento. Desistira.

Até sentir o primeiro golpe e desencadear um maremoto (como se Hefesto martelasse o crânio de Zeus). E enxergar enfim a cena em detalhes vívidos, depois de já a ter esquecido: encontrou aquela tarde fechada e o tecido tremeluzindo sob ela. Encontrou suas cores e o olhar de Atena, como se descobrisse uma civilização inteira.

Se esqueceu de respirar e correu, correu como nunca até ultrapassar as colunas do Parthenon de Atenas, e urrar de dor e alívio para afastar seus machados.

E urrar, urrar, urrar até que caísse desmaiado sobre o centro daquela prece – sua última visão uma mosca pequena demais se aproximando após uma longa viagem ao sol.

E acordaria então sobre uma grama verde, o mar às suas costas, só para enxergar o tecido tremulando, pendurado em um varal de roupas. E veria Atena por trás do pano claro, transparente, seus olhos cinzas como o dia, seu nariz reto.

E se ergueria a sua frente para ter a certeza, depois de anos, que ela também o tinha imaginado por todo aquele tempo.

Ela não afastaria a organza, fitando seus olhos claros como se não se sentisse mais sozinha.

Ele nunca mais precisaria gritar para ninguém que ela sempre estivera ali.

Estendeu a mão e tocou seus dedos através do tecido. Soube no mesmo momento que ela o enxergara refletido em ondas azuis de mar; que passara uma eternidade sem entender por que era a única criatura eterna entre cidades que se modificavam.

Lábios cheios se curvaram em um sorriso cúmplice, covinhas se formando nas maçãs do rosto. Ela tinha olhos de maré.

— Poseidon?

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!