verē
1 verē
Notas iniciais
Capítulo I:
Parecia o despertar de um sonho estranho; ela observava as torres ao seu redor e, apesar de seus pés saberem exatamente para onde deviam ir, ela certamente não conhecia aquele castelo.
Como no automático, os pés a guiaram pela escada de mármore que dava acesso à porta da frente; uma obra de arte em pedra translúcida que brilhava furta-cor e prata. Apesar da relutância em mover-se, a porta abriu-se como quem dá as boas-vindas; ainda no automático ela sentiu seu corpo atravessar o hall, adentrando as áreas mais íntimas daquele lugar. Ela viu-se, depois de passar por luxo, aos pés de uma escada comprida, a qual subiu sem hesitar; a sensação de conhecer aquele lugar na boca do estômago.
Seu corpo respondeu ao comando apenas depois de subir as escadas, adentrar a ala do que ela imaginava ser os dormitórios e parar em frente a uma portinhola de madeira com puxador em couro verde. Ela tocou, com cuidado, os entalhes na pequena porta redonda; pareciam ter sido realizados por crianças; com um sorriso acreditando que o espaço estaria vazio, como o resto do castelo, ela abriu num rompante a porta, parando surpresa ao ouvir uma voz feminina e alguns barulhos que vinham dali. Receosa abriu mais a fresta, o suficiente para que pudesse passar; deixou a porta entreaberta caso precisasse fugir enquanto olhava para frente.
Observou primeiro, boquiaberta, a figura ao centro do quarto; a mulher, de longos cabelos ondulados e escuros estava sentada no chão com um vestido de baile luxuoso, o diadema em sua cabeça, com as gemas brilhantes, parecia brilhar junto dos olhos dela; estava lendo algo às nove — nove!, assustara-se com a quantidade — crianças deitadas em suas camas a sua frente. O mais curioso, Bella notou, inclinando suavemente a cabeça, era a cena que a mulher narrava ganhando vida na frente deles.
Com curiosidade Bella avançou alguns passos na direção da mulher; ninguém parecia vê-la; querendo ouvir melhor sobre o que falava; o vinco que formara-se na testa da mulher e das crianças despertando sua curiosidade. A figura intimidadora contava algo que chocava as crianças e, para o espanto de Bella, sua visão foi tomada pelas cenas horrendas as quais ela narrava tão fielmente — Junto de seu sidus acuti o primeiro dos primeiros Regnuex que nossos povos tiveram, eles... — a voz dolorida dela falhou, o diadema sem mover-se um milímetro enquanto a cabeleira escura chacoalhava; Bella não sabia se por estar distraída com a cena a frente; os dois homens, um de olhos dourados e outro de olhos castanhos; mas não conseguia escutar em totalidade o que ela falava, a voz às vezes parecia vinda de muito longe; quanto piores os relatos, pior parecia para Bella conseguir ouvi-los.
Foi tropeçando para trás com o terror da cena que desdobrava-se a sua frente que ela entendeu os olhares esbugalhados das crianças; através de uma névoa de fantasia uma série de pessoas era presa, puxada através de grilhões para várias celas em formatos de cápsulas, o metal retorcido que as formava num tom cristalino estranho; apesar da curiosidade de Bella, a mulher ao centro do quarto parecia saber que as cenas que desdobravam-se a partir dali eram violentas demais para aquele público de idade reduzida.
Apesar do tremor de horror que percorria seu corpo ela aproximou-se da mulher, encarando fixamente o livro; era ele que parecia projetar sozinho a cena a frente, mas ela decidia até onde ele ia; observando por cima da cabeleira escura ela pôde ver um ser, de pele num verde escuro e olhos castanhos, a cabeça completamente raspada e o corpo esquelético, ser arrastado sem a mínima delicadeza, para uma cela; esta um pouco menor que as anteriores e totalmente fechada. — Com violência a figura era jogada dentro da cela, alguns fios projetando-se como mágica do ar e, sem cerimônia, agarrando nos seios desnudos da, Bella agora podia notar, mulher de aparência frágil —. Bella só desviou os olhos cheios de lágrimas quando sentiu um cutucão na cintura depois de encarar fixamente os olhos escuros e brilhantes, agora esbranquiçados, a boca da mulher aberta para sempre num grito silencioso.
— Bella, pela deusa! — Um outro cutucão, mais forte e agora no braço. — Estarei novamente atrasada na venda e a culpa será totalmente “minha” — a voz, ainda com resquícios da adolescência, continuou a reclamar enquanto ela abria os olhos, enfrentando a dificuldade dos cílios colados pelo tanto que dormira. A boca seca era sinal da ressaca que ocasionara a “culpa” da irmã pelo atraso no trabalho.
— Estou indo, tenha um pouco de paciência! — grunhiu, a voz atordoada ao levantar-se da cama de casal; cambaleante e ainda assustada pelo pesadelo ela parou em frente ao espelho de piso e aproveitou a pequena bacia com água que a irmã levara para limpar o rosto, esfregando especialmente os cílios. Depois de secar o rosto aceitou um casaco-vestido longo vermelho oferecido pela irmã, vestindo-se enquanto era guiada por Jess até a penteadeira para sentar-se a cadeira; foi só enquanto a irmã trançava seus longos cabelos brancos, as pressas, que ela, calçando os sapatos, ouvira o pai fazendo barulho propositalmente no andar inferior para avisá-las sobre o atrasado. — Ai! — Os olhos brancos de Bella encararam Jéssica. — Sei que está com pressa, mas, pela deusa, não arranque meus cabelos!
Bella pôde notar os olhos da irmã, tão iguais aos da mãe, um azul celeste límpido, revirarem-se em descaso; sabia como a família Newton podia — e gostava — ser exigente. Ao terminar de amarrar o laço do sapato ouviram a voz de Charlie gritar abaixo da janela do quarto: — Bella e Jess, se não estiverem aqui em 5 minutos partirei sozinho! — Trocando um olhar de cumplicidade as duas saíram do quarto de Bella, descendo as escadas e rumando para a cozinha, parando apenas para pegar o café da manhã de Bella, deixado por Renée no aparador.
A mãe já havia ido trabalhar; acordava normalmente mais cedo que o restante da família, dizia gostar do tempo sozinha e, apesar do hábito, Renée as esperara, como sempre quando saíam de noite, retornar da casa de Ang na madrugada anterior. A Sra. Swan repetia como mantra, alertando as filhas, sobre os misteriosos ataques sofridos por todo o reino nos últimos tempos; a insegurança crescia a cada dia no Vilarejo de Forks e, apesar da confiança, ela não gostava das filhas voltando de carruagem, não confiava plenamente nos cavalariços dali.
Ao sair pela porta Bella sentiu as mechas soltas de cabelo batendo como um chicote sob o vento frio do final de outubro; observou Charlie em seu uniforme de investigador, um sinal claro que era um dos representantes diretos da corte real no vilarejo, já estava montado em Soles, o cavalo de pelo preto brilhante. Com um orgulho evidente o pai notou as duas filhas montarem com habilidade em seus cavalos, um ensinamento dele. — Como foi a noite com Ângela? Faz tanto tempo que não vejo Magda. — Um sorriso curvou os lábios dele ao lembrar-se da criança sapeca. — Como elas estão? — a pergunta foi seguida pelo iniciar dos trotes do cavalo; enquanto as filhas respondiam algo que ele fingia prestar atenção, a cabeça estava no trabalho, na missão que tinha que realizar.
Apesar do esforço de tentar agir com normalidade, Bella podia notar que algo estranho estava acontecendo com o pai; o semblante distraído e as rugas nos cantos dos olhos pareciam fixos em Charlie; acima do trote dos cavalos ela encarou a irmã, as duas trocando um olhar. — Vai à galeria hoje, Bells? — a voz do pai soava alta e clara; o convite usual para ir com ele até o trabalho, para a surpresa de Bella e Jess, não seguiu a pergunta.
— Sim, vou só passar na loja primeiro — ela respondeu quase gritando. — Algo de errado, pai? — a pergunta incisiva foi descartada pelo pai com um aceno negativo, nenhuma palavra saindo da boca dele.
Outra troca de olhares entre as filhas seguiu a resposta de Charlie; dessa vez ignorado por um dar de ombros de Bella, era direito do pai manter as coisas para ele.
A atenção de Bella voltou-se para as compras que teria que realizar, ainda cavalgando em Saurus, o cavalo de pelugem caramelo e manchas brancas, ela alisou a crista branca enquanto segurava as rédeas. O peso da argila, ela suspirou, era sempre um problema; apesar da loja ser próxima da galeria a quantidade era enorme. Antes dos três separarem-se ao chegarem na zona portuária e comercial do vilarejo, Charlie deu-lhe um beijo na testa, ainda em cima de Soles, e seguiu caminho; os cabelos tão brancos quanto os dela, brilhando enquanto agigantavam-se ao cavalgar de Soles.
Entrando em uma área mais ao centro da zona comercial, as construções de dois a três andares com pequenas janelas, todas em tijolos de pedra empilhadas e barro, Jéssica parou em frente a um estúdio de confecção; a irmã jogou um beijo ar de despedida para Bella enquanto descia de Spirit, os curtos dreads na altura dos ombros chacoalhando levemente, os brilhantes olhos azuis sorrindo para as colegas de trabalho quando Bella perdeu a irmã de vista.
Ela adentrou, após alguns minutos cavalgando, numa ruela mal pavimentada; a famosa e clichê “loja do artista”, uma edificação estreita de dois pavimentos, teto baixo e colorido; Bella desmontou de seu cavalo, com um sorriso enquanto o alisava, deixou seu rosto encostar de leve na penugem de Saurus antes de entregá-lo a John; o garoto que cuidava dos estábulos da galeria, um prédio ao lado da loja que espalhava-se na horizontal, quase que preguiçosamente, atrás de um gigantesco salgueiro.
Após uma troca de amenidades com John, a mulher de longos cabelos brancos adentrou a loja, pegando e pagando as encomendas realizadas com antecedência e rumou para a galeria; os pesados sacos de argila quase caindo de seus braços enquanto ela os levava pelo piso de mármore até sua sala privada.
Passou horas entretida em sua nova escultura; na mão as estecas enquanto moldava o rosto da mulher que vira no sonho, a imagem tão fixa em sua mente que, enquanto esculpia, parava para tomar ar; o registro de sua boca aberta naquele grito eterno cruelmente embrenhada ali.
Apenas quando o sol já havia caído há horas ela parou, as estecas em suas mãos completamente sujas, as unhas com argila e o avental que usava sujo; o pigarro divertido de Renée a despertara do transe da escultura, os saltos da mãe ecoando pelo piso da sala de Bella.
Bella observou, repousando as estecas na mesa lateral enquanto encostava as costas doloridas no encosto da cadeira, os olhos da mãe examinando os desenhos em papel e carvão pendurados a parede; os dedos negros de Renée tocaram com suavidade uma peça deixada temporariamente de lado pela filha, aquela que a vira trabalhando na última fez que fora ali.
— Oi, mãe. — A voz cansada de Bella ecoou pelas paredes de pedra; a mão de Renée agora tocando o casaco-vestido que a filha usara enquanto aproximava-se dela.
Tocando os cabelos de Bella, afastando as mechas brancas que teimavam em desprender-se da trança, ela olhou para a nova escultura da filha; Bella podia ouvir o sorriso na voz da mãe: — Imaginei mesmo que teria que vir te buscar. Jess avisou que você não passou por lá no fim de expediente. — Os cabelos escuros e crespos de Renée caíram ao lado do rosto da filha quando ela encostou o queixo no topo da cabeleira branca, as mãos agora apoiadas no encosto da cadeira de Bella. — Já sabe o que é? — a pergunta da mãe sobre a escultura não lhe era inesperada; ela respondeu com um aceno positivo de cabeça, o mistério ao redor da peça de formato ainda indefinido aos olhos de Renée.
— Você sabe que não é assim. — Bella soava divertida quando levantou-se, notando a ansiedade da mãe pela resposta; ela esfregou as mãos no avental rumando para a pia no canto da sala, querendo limpar as mãos sujas enquanto Renée resmungava ao fundo — Só quando e, mais importante, se, eu conseguir terminar.
— Sou sua mãe, sabe. — Renée começou com um lamurio, observando a filha enxugar as mãos. — Pelos nove meses dentro do meu ventre — tocou com a teatralidade e suavidade que só uma bailarina tão experiente quanto ela poderia, arrancando uma risada de Bella —, eu deveria ser a primeira a saber — ela finalizou, a filha ignorando-a enquanto riam e desciam as escadas; Bella abotoou o casaco por cima da roupa de dormir enquanto iam até os estábulos recuperar seus cavalos.
Enquanto voltavam para casa, Renée, a professora de balé do vilarejo, acenava para aqueles que conhecia. A família Swan era conhecida pelo vilarejo inteiro; visto a posição de Charlie, autoridade real, e Renée, a única professora de dança de Forks; não dispunham de grande luxo mas era evidente que não passavam por dificuldades. As duas filhas do casal eram bem instruídas e estudadas; a mais nova, Jéssica, uma ótima desenhista de roupas, trabalhava num dos estúdios mais elegantes do vilarejo; Bella, a mais velha, uma das poucas artistas dali, sendo acompanhada apenas de Ângela, que, depois do nascimento de Magda, já não trabalhava tão assiduamente.
A casa modesta onde viviam, com uma cozinha aconchegante de armários amarelo mostarda, um balanço pendurado numa árvore e uma grande horta dentro da densa floresta do quintal. A residência simples de dois pavimentos em pedra com grandes janelas, onde a família morava, fora uma herança de Geoffrey Swan para seu único filho, Charlie.
As estrelas brilhavam lindamente naquela noite de sexta quando Bella e Renée chegaram em casa; Jess as aguardava sentada na escada que dava acesso à porta da frente com um bloco de notas e um carvão, riscando com avidez o papel.
O rosto levantou-se com um sorriso, os olhos azuis e límpidos brilhando enquanto olhava a mãe e a irmã mais velha desmontando de Saurus e Angus; Jess ficara ali para ajudá-las a levar os cavalos para o celeiro e, enquanto concentrava-se na atividade, Charlie preparava o jantar, com um avental amarrado a cintura enquanto os cabelos brancos caiam pela testa. A música alta preenchia a casa quando as três entraram pela porta dos fundos rindo; o cheiro do tradicional assado de Charlie preenchendo os ambientes.
O sábado chegara como o dia de preguiça que era para os Swan; a música alta continuava a tocar, intercalando entre os gostos dos quatro moradores; o vinho, agora que as filhas finalmente eram adultas, enchia as quatro taças que mudavam a toda hora de cômodo. Com seus blocos de desenhos em mãos, Bella tentava desenhar o diadema brilhante da mulher de seu sonho enquanto a irmã lia silenciosamente ao seu lado.
A voz de Renée ecoava enquanto planejava sua semana com precisão, sendo enfática ao marcar o dia do mês de mãe e filhas; as duas sabiam que não havia dispensa, era o único dia do mês em que eram literalmente obrigadas a fazer uma atividade a gosto de Renée.
À noite, recheada pelos sons de talheres batendo sob os pratos, era alegrada pela presença de Charlie que passara o dia numa ronda próximo à casa de Ang.
As marcas das taças de Bella e Jess carimbavam a mesa de centro quando Charlie finalmente cedera as investidas de Renée, tropeçando descalços pelo chão de taco da sala de estar enquanto faziam o que a esposa mais amava. — Ai! — A reclamação foi ignorada pelas filhas, tão acostumadas, mas seguida de um riso de Renée, que novamente desviava o pé esquerdo da mira de Charlie.
O piano soava de forma adorável pela sala de estar; as portas duplas abertas para permitir que a brisa entrasse balançava os cabelos escuros de Renée contra os brancos de Charlie. O esposo tentava girar Renée, arrancando agora risos das filhas ao tropeçarem e quase pararem no chão. — Pela deusa, Charlie! — a mão de Renée tocou o peito do esposo quando ela não aguentou soltou o riso. — Semana que vem tentamos de novo, querido. — Ela percebeu, pelo canto dos olhos, Bella e Jess deixando a sala ao notarem Charlie afastar um cacho de seu rosto.
A música, agora uma melodia lenta, impediu que Charlie se afastasse da esposa; Renée não reclamou, abraçou o esposo com um pouco mais de força, aproveitando o momento a sós para aproximar mais os corpos.
Ele mirou os olhos brancos para observar a mulher à sua frente, como fazia há vinte e nove anos. Todos os sábados, sem falta, tentavam girar por aquela sala. O brilho encantador das velas fazendo a pele negra de Renée adotar um brilho dourado, os olhos azuis mais límpidos que nunca.
Com uma parada abrupta, para a surpresa de Renée, Charlie colocou a mão em seu rosto, colando seus lábios e murmurando: — Mal podia esperar para voltar para casa — ele pôde sentir os lábios dela curvando-se num sorriso —, para voltar para vocês. — Separou os lábios dos dela e rumou para sua orelha esquerda. — Para você! — a voz saiu num sussurro conspiratório que fez Renée recostar a cabeça no peito do esposo, da forma com a qual estava tão acostumada.
Rodopiando lentamente, os corpos tão grudados quanto num abraço, os lábios cheios de Renée curvaram-se num sorriso, os olhos ainda fechados. Os meses turbulentos que seguiram o aniversário de cinquenta anos da morte de Geoffrey, com Charlie afundando-se no trabalho, evitando ver ela ou as filhas para evitar inflamar a dor de poder perder uma delas, finalmente ficando aos poucos no passado.
A segurança e a sensação de casa; saber que as filhas cresceriam e seguiriam em frente, mas teriam Charlie ali, seu corpo quente e macio recostando-se ao dela nem que fosse para dançarem desajeitadamente; a mão dela acariciou o braço dele. — Continue voltando para mim. — O sussurro, quase inaudível, fez Charlie sorrir enquanto os últimos acordes soavam ao fundo.
Capítulo II:
Piscando os olhos rapidamente, tentando desembaraçar a visão, Bella notou as mãos amarradas; estava presa observando a mesma mulher da última vez. A mulher, agora com uma aparência mais saudável, batia no vidro da cápsula a qual estava presa, tentava gritar, mas Bella não ouvia nada.
Apenas quando os fios, aqueles iguais da última vez, surgiram novamente que Bella pôde ver o desespero nos olhos roxos da mulher; tentando puxar as mãos para tampar as orelhas, como um passe mágica, ao ver os fios sugando novamente aquele brilho roxo dos seios desnudos da figura, ela ouvia os gritos de dor.
De pé e com as mãos amarradas por uma força invisível, Bella perdeu o equilíbro, o corpo caindo com força no chão; ela sentiu o impacto na testa e no nariz, o ar sendo arrancado de seus pulmões pela dor. Com os olhos ainda cheios de lágrimas ela tentou abri-los, tentando verificar a existência de sangue, mas a concentração fora desviada pelo horror que desdobrava-se ali.
O chão ao qual ela caíra, agora que não olhava fixamente para a cápsula da mulher, era em vidro com uma armação metálica. A vista para baixo era pior do que olhar para a mulher à frente; como num passe de mágica ela conseguiu ouvir, com uma precisão que embrulhou seu estômago, os gritos de todas as pessoas nas incontáveis cápsulas que estendiam-se como um mar; todas presas, os fios extraindo fluxos de diferentes cores deles.
Ela notou, o estômago contraindo, o aspecto cadavérico da maior parte daquelas pessoas. Os olhos cheios de lágrimas quando viu um canto específico onde várias crianças, todas em silêncio e sentadas, os olhos vidrados encarando o nada, presas em cápsulas menores; a palidez evidente por suas peles coloridas.
Aos prantos ela sentiu um par de mãos puxando-a para cima; parecia desprender suas mãos. — Não olhe para isso. — A voz aveludada soava abafada enquanto virava o corpo dela; a figura, ela podia ver agora de frente, não passava de uma forma indefinida formada por diversos flocos de neve.
Assustada e enxugando as lágrimas, ela tentou distanciar-se da forma que tentava tocá-la; as mãos apertando os ouvidos tentando abafar os gritos quando sentiu seu corpo ser puxado, com violência, por aquela mesma força invisível que lhe amarrara as mãos. Ela ouviu aquela mesma voz soando uma última vez: — Cuide de meu coração!
Tremendo um pouco pelo pesadelo e piscando em confusão ela sentou-se na cama espaçosa; dando-se conta, ainda atordoada, ao notar a claridade direta nos olhos, que havia esquecido de puxar as pesadas cortinas brancas antes de dormir. Ao virar-se para a esquerda, tentando sair da cama para fechar as cortinas e voltar a dormir, ela sentiu um risco dolorido na palma da mão esquerda. Xingando alto, daquele jeito ensinado por Renée, ela olhou para a bagunça na cama — De novo não! — lamuriando-se e levantando-se da cama; teria de botar a roupa de cama para lavar o mais rápido possível ou Renée a xingaria por ter dormido novamente com a caneta tinteiro em cima da cama. O hábito de desenhar na cama, apesar da escrivaninha, irritava a mãe pelas manchas. Imitava a voz de Renée sozinha em seu quarto: — Quantos lençóis já manchou assim, Bella? — Revirou os olhos arrancando os lençóis, parando ao notar as cores no céu. O nascer do sol surgindo atrás das árvores.
Meio sonolenta largou os itens e rumou para a porta do quarto; atravessando a casa inteira em segundos ela parou apenas para puxar de um dos ganchos, enquanto mantinha a porta dos fundos aberta com o pé, um casaco xadrez verde de Renée.
Encaminhou-se para o banco que ficava aos fundos do quintal; era impossível deixar de sorrir ao ver a figura já sentada; Charlie amava a rotina.
Bella sentou-se, o casaco grande demais espelhando-se ao redor; seus dedos tocando a madeira entalhada; a peça era simples, mas um projeto dos dois, fora construído por Charlie e entalhado artisticamente por Bella. — Eu já devia ter adivinhado — O pai murmurou com um sorriso desviando a visão do nascer do sol ao olhar para ela. Os lábios carnudos de Bella curvaram-se, apesar do resmungo malcriado que saia dali; ela aproximou mais o corpo ao do pai, encostando a cabeça em seu ombro.
Nos dias que dava sorte de acordar em tempo, conseguia assistir o nascer do sol de domingo com o pai; o silêncio confortável sendo interrompido pelas provocações de Bella sobre a noite anterior entre os pais, as bochechas coradas de Charlie, que ameaçava levantar-se despertando o riso em Bella. — Ah, filha — ele começou a reclamar balançando a cabeça, o rosto quente pela vergonha enquanto as mãos da filha agarravam a manga do casaco, mantendo-o no banco.
— Vai dizer que... — Ela não precisara continuar, o sugestivo levantar de sobrancelhas fora suficiente para Charlie corar mais, e ela sequer achava aquilo possível; continuou a provocar o pai até ele cutucar-lhe as costelas.
— Vou começar a falar sobre o filho dos Newton... — ele provocou rindo, a filha agora resmungando.
— Não sei de onde Mike tirou essa ideia insana, sejamos sinceros... — ela só precisou trocar um olhar para o pai e nada mais precisava ser dito.
Com uma careta, Charlie continuou: — Poderia ser alguém melhor. — O nome de Jess não fora dito, mas eles sabiam que ele referia-se a ela; a filha mais nova era apaixonada pelo herdeiro dos Newton.
— Achei que gostasse dele; está sempre tentando trazê-lo para jantar conosco — ela continuou; apesar da implicância com o Newton por suas indiscretas investidas, ela sentia a necessidade de ajudar a irmã. — E, se formos pensar melhor... — ela continuou fingindo ignorar os protestos de Charlie. — Ele nem é tão ruim assim. — O sorriso amarelo foi acompanhado da risada seca do pai enquanto ele dava tapinhas em sua mão.
— “Nem é tão ruim” — ele repetiu, a atenção no nascer do sol a frente. — Querida, quero alguém de fato bom para vocês — Ele notou os olhos da filha, idênticos ao dele, revirando. — E, sinceramente, filha, gosto de Michael, mas não tanto assim — ele repetiu, Bella soltando uma risadinha suave enquanto agitava os cabelos brancos.
Aos poucos a conversa morreu; Bella e Charlie aproveitando os últimos momentos do nascer do sol e, consequentemente, os últimos momentos da casa em silêncio antes que a mãe e Jess acordassem. Com calma voltou a recostar a cabeça no ombro do pai, sentindo o braço dele lhe abraçar. Os dois, observando em silêncio o iniciar de mais um dia.
Foram despertos do transe da paisagem com um grito de Jess; viraram o rosto a tempo de ver a pequena mulher de dreads curtos, com as bochechas coradas pelo excesso de peso que carregava, gritando entre um xingamento e outro: — Me ajudem!
Charlie levantou-se, revirando os olhos. — Sua mãe disse que uma criação liberal seria incrível... — ele começou — Mas vocês duas só ganharam uma boca incrivelmente suja! — ele reclamou pegando os dois baldes pesados, sem dificuldade, das mãos da caçula. As filhas ignoraram as reclamações e o trocadilho, voltando à porta dos fundos da casa onde Renée havia deixado alguns sacos com adubo e outros baldes com mais água.
Adentrando a floresta que erguia-se atrás da casa dos Swan, eles rumavam para a horta da família. Os pesados sacos de adubo caindo das mãos de Bella. — Pai! — O grito despertara a atenção de Charlie, que levava mais itens ao fundo.
A expressão preocupada de Charlie era óbvia, todos os três preocupados quando a voz de Jess soou: — Está morta.
— Pai — Bella voltou a repetir, a voz incisiva. — Está inteiramente morta — ela corrigiu a irmã; o ar carregado ao redor deles. Ela ouvira diversos habitantes do vilarejo relatando que as colheitas estavam morrendo. Os olhos de Bella voltaram-se ao pai, a pergunta rondando-o.
— Os mensageiros do Rei disseram que é uma praga. — A voz dele soava cansada; os olhos desviando-se das filhas; a mentira ali para quem pudesse notar. A boca fechada quando ele foi mais adentro na floresta, observando a terra que parecia morta. — Deve ser só uma fase ruim, esse tempo... o solo. — Pegou um dos sacos de adubo caídos a frente de Bella, afastando-se das filhas. Precisava sair o mais rápido possível do olhar de Bella, ela parecia ter um tino especial para notar as mentiras.
— Algo está preocupando você? — A voz de Bella soou alta as costas do pai, que respondeu com um menear da cabeça, fingindo atenção redobrada nas atividades cotidianas.
Bella sabia que não devia insistir; o pai deixara claro o fim da conversa. Aproximando-se mais da irmã, as duas começaram a abrir os sacos ali. — Odeio quando ele faz isso — Jess resmungou uma careta, voltando a atenção para Bella.
Ao fundo Charlie, realizando sua atividade, ouvia as risadas e as conversas baixinhas das filhas; era impossível que, olhando para a terra à sua frente, que ele sabia estar morrendo, ele não sentisse seu peito apertando de dor. A vida, ele olhou para as filhas distraídas, era uma mistura de momentos iguais àquele, agridoces; fez o que Renée lhe falara na noite anterior, estava tirando a pintura mental daquele momento. Bella cutucava Jess com uma pá metálica suja de terra; os cabelos lisos e brancos, um contraste perfeito com a pele negra, brilhavam e voavam a brisa, os olhos brancos, era impossível não notar mesmo aquela distância, sorriam provocando a irmã mais nova; a caçula dos Swan, um pouco menor que Bella, os cabelos escuros e encaracolados em dreads, a pele negra pouco mais clara que a da mãe.
Voltando a atenção para a terra a sua frente; notando as raízes das árvores apodrecendo, ele sentiu as costas tensas pelo segredo que guardara durante todos aqueles anos; o peito pesado ao ouvir as filhas, os pedacinhos dele e de Renée com partes únicas delas mesmas; a chaga de perdê-las real demais para ele poder respirar livremente.
Capítulo III:
— Mãe, pela deusa! — a exclamação de Bella soou quando Charlie atravessou a porta da frente.
— Bells, filha; Magda irá amar, você sabe... — Jess, do coche da carruagem, escutava a discussão da mãe e da irmã; as duas apaixonadas pela filha de Ang.
Enquanto tomavam cada um em sua posição usual, as filhas no coche e os pais no controle da carruagem, Bella olhou pelo espaço na janelinha de vidro quando já estavam há alguns metros de casa, a família inteira conversando quando dobraram a rua a caminho do chalé dos Weber quando ela viu, com certo espanto, um homem ao lado de sua casa olhando afastarem-se; ela pôde ver só os olhos dourados brilhando antes que, uma nuvem de neve vinda do nada envolveu a figura até ela desaparecer.
Ainda olhando para a direção onde a casa estivera, as sobrancelhas brancas formando um vinco; ela sentiu um leve beliscão no braço, era Jess chamando sua atenção para a conversa com os pais. A atenção de Bella na figura desconhecida dissipando-se no caminho até Ang.
Observando a paisagem enquanto conversava com a família, como ela fizera o caminho inteiro, pôde logo avistar ao longe a residência dos Weber; um chalé térreo aconchegante em madeira escura e cobertura e esquadrias na cor verde musgo, rodeado de árvore e uma horta nos fundos; uma música suave os embalou quando pararam na propriedade da amiga.
Bella pôde ouvir, assim que colocou os pés para fora da carruagem, o gritinho infantil tão conhecido pela família Swan. Observando a menininha de cabelos ondulados e escuros correndo em sua direção, pronta para chocar-se contra suas pernas, Bella pegou-a no colo; abraçando apertado Magda, ela distribuiu beijinhos em suas bochechas, os dentinhos brancos de Magda aparecendo enquanto gargalhava. — Tía – ela gritava enquanto ria.
— Aí, compartilhe um pedacinho dessa coisinha comigo... — Renée pediu, tomando Magda do colo de Bella e cheirando os cabelos com aquele cheirinho característico de neném.
— Vó! — A menininha, animada, apertou os bracinhos gorduchos ao redor do pescoço de Renée, recebendo um beijo estalado na bochecha rosada.
— Vó não, meu amorzinho... — Renée corrigiu, como fazia todos os fins de semana; levou Magda para dentro tentando dissuadir a menina a chamá-la de tia.
— Você não me abraçou assim, Magda! — Bella reclamou formando um beicinho nos carnudos lábios marrons levando as bolsas que Renée insistira em levar para o chalé de Ângela; Charlie atrás com algumas outras tantas também.
— Parece que ela tem uma preferida... — Ang começou abraçando Bella desajeitadamente pelas bolsas e correndo para ajudar Charlie. — E não é você! — amiga cantarolou o final, recebendo um empurrão no ombro.
— Então sou a esquecida! — usando sua melhor voz teatral, Jess olhou para a criança de dois anos, agora no colo de Charlie, e fez um biquinho, como se estivesse triste.
Jogando-se direto para o colo de Jess, quando ela passou ao lado de Charlie, Magda lançou um beijo babado e estalado com toda a força que tinha no rosto de Jess, arrancando uma risada de todos ao notarem a marca de baba na bochecha de Jess. — Não fica assim naum, eu ti amú, tía Gés. — A vozinha infantil soou, nenhum dos adultos tendo coragem de corrigir os pequenos erros da fala.
Adentraram o chalé de Ângela indo todos para a sala de jantar; o almoço como sempre pontualmente pronto.
Entre os barulhos dos talheres e conversas, as filhas do casal Swan alimentavam Magda, ajudando uma Ângela com olheiras fundas. Ang tentava dispensar a ajuda, mas as amigas de infância recusavam-se a parar; filha de Astrid Weber, grande amiga de Charlie enquanto cresciam, as filhas tornaram-se automaticamente amigas pela proximidade. As famílias, já unidas, quase fundiram-se após a morte de Eric, o marido de Ângela, enquanto ela estava grávida.
A gratidão nos olhos de Ang enquanto tinha tempo para comer com tranquilidade era evidente.
Charlie fora o primeiro a quebrar o silêncio, a voz soando sem deixar espaço para recusas: – Mais tarde iremos ajudá-la com os afazeres da casa; adiantar um pouco do seu trabalho durante a semana. — A boca cheia de comida do patriarca dos Swan foi repreendida por Renée.
— Não precisa! — negando com veemência Ang balançava os cabelos escuros e lisos, agora na altura do queixo.
— Sem discussão. — Renée parara com o garfo a caminho da boca, olhando séria para Ang. — Vai ser bom para você dormir um pouco. — Ang sabia que a conversa estava finalizada ali.
Os olhos redondos e escuros de Ang, quase num formato de gota, focaram em Bella, um pedido de ajuda silencioso para tentar dissuadir Renée; Bella enfiou, sem pensar duas vezes, uma garfada cheia de alface à boca.
As írises brancas encaravam o teto do quarto há horas; a noite havia caído há tempos, mas ela não conseguia dormir; exausta pelos pesadelos que tinha ultimamente e os fatores externos; um suspiro escapou de seus lábios.
Bella tinha conseguido passar pelo jantar, apesar do misto de sentimentos. Repassando mentalmente a conversa do pai com Ang, ela conseguia entender a fala da mãe sobre preservação da individualidade no casamento.
A voz de Ang soava abafada por trás da porta de madeira pela qual Bella escutava a conversa — Charlie, as crianças... — a voz, tão conhecida para ela, parecia em agonia.
— Ang, acha que não sei? São as minhas filhas, a minha esposa... — a voz do pai falhou; ela colou melhor a orelha atrás da porta.
— Estamos em... — ela tentou aproximar mais a orelha, mas as vozes eram tão baixas que perdia as palavras pela metade — ... continuar aqui, sabendo disso... — mais e mais palavras intangíveis — ... depois de tudo... merecem?
— É a minha família, Ang... eu sei... sei! — a voz soava quase sufocada — ..., mas... meu povo... — A confusão e a aparente iminência de perigo aceleravam o coração de Bella; antes que pudesse afastar o ouvido colado a porta ela ouviu uma risada seca soar de Ang, som atípico a ela. — Este é seu povo? — A voz ríspida.
Foi só por notar a sombra de Renée virando o corredor que dava acesso aos cômodos íntimos do chalé que Bella correu para a cozinha, ajudando Jess cuidando de Magda enquanto ela lavava a louça do lanche da tarde; o sol já se pondo.
Ela tentou conversar com o pai enquanto colocavam as bolsas de volta da carruagem, tentou enquanto o ajudava com a louça e antes de todos irem se deitar, mas fora categoricamente dispensada, Charlie esquivando-se a todo instante. O comportamento esquivo, entretanto, fora o que despertara a atenção de Bella e aumentaram suas suspeitas de algo errado acontecendo.
Focou o olhar num desenho específico no teto, feito por Charlie; dois pares de olhos lado a lado, azuis e brancos; ela havia pedido as tinturas de presente pelos dezenove anos — no ano anterior —, era a primeira tentativa de pintar e ocorrera com sucesso.
Como se sentisse todas as preocupações flutuando ao redor de sua cabeça, seus olhos voltaram-se para o ombro esquerdo, a surpresa não havia deixado seu rosto nem após um ano convivendo e vendo a marca crescer.
Um suspiro escapou dos lábios quando ela afundou mais a cabeça no travesseiro, fechando os olhos enquanto tocava a marca sob o ombro. No dia do aniversário de dezenove anos uma porção de coisas estranhas aconteceram; não piores que as que ocorreram durante a virada de ano que, pela deusa!, ela preferia não relembrar o terremoto que percorrera a terra e fora a causa de diversas destruições no vilarejo; a mais estranha era aquela marca, os formatos de falhos perfeitos surgiram primeiro contornando a orelha esquerda dela, como um espécie de ornamento; o tempo se encaminhava de aumentar a marca, que agora quase ultrapassava o ombro. Ela havia passado com diversos médicos do vilarejo, mas nenhum soubera identificar o que causara aquilo. A quem olhava de fora, o último médico dissera, parecia uma pintura corporal muito bem-feita.
A bela marca, se ela fosse admitir, não viera sozinha, acompanhara aqueles pesadelos estranhos e uma figura que sempre tentava posicionar-se a seu favor durante estes, uma figura de voz aveludada e indistinguível, visto a nevoa que formava o ser.
Contornando, ainda de olhos fechados, a marca, ela pôde senti-la esfriando; era a mesma sensação sempre que a tocava, parecia que gelo passava a correr pelos desenhos que tingiam sua pele.
Os olhos, já pesados pelo sono, o cansaço do dia e as preocupações finalmente tomando seu corpo apenas do receio de pesadelos; ela permitiu-se lembrar da figura que vira antes de partir para Ang, aquela que convencera a si mesma ser delírio, os olhos dourados brilhando a luz do sol.
Quem pudesse, de longe, observar a mulher negra de cabelos brancos e em profundo sono, veria seus dedos tocando o ombro desnudo e, sob eles, a marca que Bella achava tão estranha brilhando no mesmo dourado dos olhos que achara ser delírio.
Capítulo IV:
— Está cada vez maior, Bells. — O olhar de Renée fixo sob a marca que contornava a orelha e o pescoço da filha e, agora, percorria o ombro, escondendo-se sob o tecido do vestido florido.
— É tão linda... — A voz sonhadora era de Jess, que segurava sua vara de pesca parecendo entediada. — Queria essa sorte! — Ela olhou para o pescoço desnudo da irmã com admiração; a marca atribuira uma beleza a Bella que parecia brilhar através dela. Sob o sol, da forma que estavam, podiam observar um estranho e suave brilho nas írises e circulando os cabelos brancos de Bella.
— E se isso for uma doença? — as sobrancelhas brancas de Bella inquiriram Jess.
— Uma bela de uma doença... — ela começou e pigarreou percebendo na hora o que falara; a expressão horrorizada da mãe. — Quero dizer… não linda…, mas ficou bonita… em você ficou bonita. — Jess parou de tentar corrigir-se fingindo concentração na vara de pesca.
Renée, entretanto, não deixaria aquilo passar com facilidade. Voltando a concentração à paisagem ela descartou a discussão entre a mãe e irmã. Renée soubera, como sempre, reservara o dia mais bonito do mês para o encontro mensal delas.
— Quando é que um peixe vai aparecer? Estamos aqui há horas e não pegamos nada. — Apesar das reclamações de Jess, sempre ignoradas por Bella e Renée, a satisfação de estarem juntas era evidente.
O sol banhando as peles das três, os copos cheios de vinho — não muito!, Charlie as repreendia — e vários sanduíches e docinhos na cesta. A pesca, na realidade, era o de menos; a paisagem era sempre suficiente para inebriá-las.
A manhã aos poucos tornara-se tarde, o silêncio sendo interrompido apenas durante a passagem dos copos e comidas; a densa floresta que circundava o lago era de tirar o fôlego. Tiravam e colocavam os chapéus conforme a necessidade do sol.
O rosto de Bella virado para o sol numa tentativa de capturar os últimos raios enquanto Renée gabava-se sobre a última pupila: — Uma coisinha tão linda, vocês precisam ver! — a mãe falava distraída e apaixonada, como normalmente ficava quando referia-se a dança ou as crianças. — E tão, tão talentosa! — enfatizou enquanto desmontava sua vara, preparada para deixar tudo em ordem para retornarem.
— Quero conhecê-la, quando será a próxima apresentação? — partira de Bella enquanto ajudava Jess a recolher o lixo.
— Ainda não temos data definida. Vocês sabem como é treinar com crianças, é ideal acompanhar o desenvolvimento delas... — Tão concentrada estava em guardar as iscas que não percebera as filhas trombando-se; Jess distraída com a fala de Renée virando com a vara de pesca montada e desequilibrando Bella, arremessando a irmã no lago.
— Bella? — Jess ria quando quando Bella emergiu, a mãe numa gargalhada que a arrancava lágrimas.
— Sério, Jess? — Bella soava aborrecida enquanto tentava agarrar a mão oferecida pela mãe. — De novo?
— Não foi de propósito! — a irmã exclamou, os olhos azuis arregalados durante a afirmação.
— Toda vez? — a mais velha continuava, o rosto formando uma carranca ao notar que teria de nadar até as margens ou derrubaria uma das duas.
Foi pouco antes de soltar a mão de Renée que elas ouviram ao longe uma voz gritando.
— Renée? — A voz soava distante quando as três viraram para olhar quem chamava a matriarca. — Renée? — O homem, elas agora reconheciam, começara a pular e balançar os braços no alto da cabeça enquanto gritava repetidamente o nome, indicando que era para voltarem.
A surpresa evidente nos olhos azuis quando Renée olhou para a filha mais velha, ainda na água; a preocupação pela excentricidade do evento aos poucos ganhando espaço entre elas. — Volto nadando. — Bella adiantou-se, a voz baixinha quando recebeu um aceno de cabeça da mãe.
Ela observou, entre as braças, a mãe e a irmã chegarem as margens de barco enquanto nadava sozinha; concentrava-se na própria respiração para evitar pensar no coração acelerado.
Sem se importar com o vestido colado ao corpo ou com o longo cabelo branco pingando as costas; apesar do coração acelerado ela aproximou-se com calma da irmã, observando os membros da guarda real, Sandra Yukio e Adam Woo lado a lado conversando com Renée. Viu o momento em que a mãe abaixara a cabeça enquanto Sandra colocava a mão em seu ombro.
O silêncio, atípico as irmãs Swan, perdurou enquanto viam Renée atravessar o campo aberto com lentidão exagerada, os ombros e cabeça baixas. Puderem notar, quando a mãe chegou mais perto, a rapidez com que piscava.
Renée pôde notar, ao aproximar-se das filhas, elas dando as mãos. — Queridas... — a voz lhe falhou; as lágrimas lhe sufocando — Charlie... o pai de vocês... e-el-le... — Um suspiro trêmulo escapou pelos lábios entreabertos. — Durante sua última missão ele precisou fazer uma ronda... el-le foi atacado por um animal selvagem e... — Os olhos azuis nublados pelas lágrimas fecharam-se por uma fração de segundos; Renée preparava-se para mudar a vida das filhas de forma irreparável. — Ele não resist-tiu. — A voz falhando no fim, ela mesma ainda descrente. — Eu sinto muito, sinto tanto, tanto, tanto... — ela repetia sentindo o abraço das filhas, que circulavam ao mesmo tempo sua cintura, a cabeça de cada uma encostando em um ombro; o soluço da filha mais nova ecoando pela clareira.
Os olhos de Bella, tão idênticos ao de Charlie, brancos com pontinhos violetas transbordavam pela dor, ainda descrentes; os cabelos tão brancos quanto os do pai grudando, ainda molhados, ao corpo dela enquanto abraçava a mãe a irmã; quebradas demais, todas as três, para perceberem qualquer coisa além da perda.
Capítulo V:
Era madrugada quando rumou para a saída do próprio quarto, parando para observar, antes de fechar a porta, a mãe e a irmã, agora adormecidas ocupando a cama de casal ao centro do quarto verde; com cuidado exagerado encostou a maçaneta dourada ao trinco, envolvendo-se mais no sobretudo de azul de Charlie enquanto descia as escadas.
Caminhou até a cozinha, os pés descalços tocando o taco frio enquanto esticava a coluna para alcançar, atrás de uma porção de latas em conversa, o uísque escondido. Agarrou a garra de vidro e no automático saiu pela porta de trás, atravessando em segundos o quintal.
Atirou-se no banco de madeira; os entalhes pareciam queimar sua pele através do tecido do sobretudo. Abrindo a garrafa com os dentes e jogando a rolha longe no gramado à frente, entornou a garrafa, sentindo o melhor uísque do pai queimar sua garganta. Os olhos, tão idênticos aos de Charlie, transbordavam enquanto ela finalmente liberava o bolo que formara durante aqueles dias; ela deitou o corpo no banco enquanto chorava como criança, o corpo tremendo e os soluços ecoando pelas árvores. O cheiro de Charlie, ainda tão presente no sobretudo, agarrava-se ao nariz dela.
Encolhendo-se mais, tentando sentir seu corpo inteiro acolhido pelo banco, ela fechou os olhos; a vã tentativa de adormecer após os quatro dias desperta. Com um tremor abriu os olhos após poucos segundos; a imagem da pele pálida e fria do pai, os cabelos brancos intocados, tão diferentes do usual, os olhos fechados e os lábios fechados, nenhum sorriso sairia mais dali. Ela sentou-se ao sentir o estômago apertar, a imagem de Charlie imóvel com um brilho vermelho ao seu redor muito vívida.
Num rompante levantou-se, atrapalhando-se com o sobretudo grande demais para ela; aos tropeços pelo excesso de bebida e pelas lágrimas pegou a garrafa do chão, virando o restante do líquido âmbar e correu trôpega na direção do celeiro, escolhendo montar o cavalo de Charlie. Desajeitadamente selou e montou Soles.
A falta de experiência montando o alto cavalo do pai era evidente; Soles, ao sentir que ela estava com a rédea em mãos saira em disparada para longe da residência dos Swan.
Segurava-se com força quando Soles, sem aviso, adentrou uma densa mata; segurava a rédea numa das mãos enquanto afastava os galhos que agarravam seus cabelos e arranhavam o rosto; a bebida turvando a visão de Bella e minando seus reflexos, era fora pega de surpresa quando, ao afastar um galho do rosto, outro bateu em seu peito.
Como em câmera lenta sentiu as rédeas de Soles soltarem de sua mão, o corpo sendo arremessado para trás enquanto os cabelos voavam; com um gemido ela sentiu um par de garras segurando-a a tempo por tempo o suficiente para que não se machucasse muito durante a queda. Há dois metros do chão as garras a soltaram, as mãos de Bella e os joelhos absorvendo boa parte da queda.
Com as mãos arranhadas ela permitiu-se cair de peito para cima; observou a ave que a agarrara antes de cair no chão, Soles encarava a harpia, de penas brancas e cinzas e brilhantes olhos dourados, com desconfiança. A visão turva de Bella pela bebida impedira o susto pelo tamanho da ave.
Virou-se novamente para encarar o céu estrelado, as mãos ardentes e os olhos voltando a lacrimejar pela imagem de Charlie dolorosamente intensa na memória. Deitada e apenas com o silêncio como companhia o choro voltou a intensificar-se, as costas do sobretudo na grama molhada quando gritou para o nada, completamente bêbada: — Deixar a gente assim, do nada! — A voz anasalada pelo choro, os soluços tornando a frase um dilema. — Injusto, tão injusto, injusto, injusto... — Chorava copiosamente, os olhos em fendas fixos nas estrelas, o nariz escorrendo.
O choro só foi interrompido quando ouviu um grito estridente soar, parecendo um aviso da ave de olhos dourados. Levantou-se tão rápido quanto podia, Soles e a ave encarando fixamente o lado oposto do emaranhado de árvores onde estavam. Sem que pudesse pensar, começou a andar de costas ao ver as duas figuras assustadoras, os dois olhos vermelhos a encarando; a ave, sem que pedisse, fincou as garras novamente em seus ombros, ajudando-a a montar Soles. Sem esperar pelo comando, o cavalo disparou novamente; com o peito martelando pelo medo, Bella virou o rosto por segundos a tempo de tentar distinguir melhor as figuras.
Uma mulher loira e pequena, os cabelos claríssimos presos num coque apertado, os olhos num vermelho brilhante fixos enquanto corria com tranquilidade quase ao lado de Soles, um brilho vermelho, parecido com os olhos dela, envolvia seu corpo pequeno. Com o coração martelando nos ouvidos ela sentiu o um bafo quente no cabelo, virou a cabeça a tempo de ver uma garra metálica passar a milímetros de seu rosto.
Com a respiração entrecortada ela agarrou-se às rédeas de Soles, os olhos cheios de lágrimas pelo medo; a mulher assustadora e um ser de corpo esquelético e garras quase alcançando-a. As mãos tremiam enquanto os cabelos voavam pela velocidade; ela conseguia ver os dois pelo canto do olho. O ser ao lado da pequena mulher era assustador; um corpo esquelético com órgãos parcialmente expostos, cobertos por uma pele fina que rasgava-se, o tom doentio do branco-papel era cortado pelo vermelho vívido da epiderme a mostra; as garras metálicas brilhavam enquanto aquilo sobrevoava tentando agarrá-la; os ossos das asas expostos e a cartilagem que as envolvia rasgada; o chifre agitava-se no ar, tentando chicotear Bella e Soles; os chifres retorcidos acima das orelhas gigantes e pontudas.
Com a visão periférica notara o grande rabo branco agitando-se pronto para acertá-la quando sentiu alguém montar junto dela em Soles, as costas tocando as dela. O grito assustado de Bella soando pela floresta ao mesmo tempo em que uma barreira branca, parecida composta de uma neve vinda do nada, formava-se entre Soles e os dois seres.
— Você fez isso? — a voz grossa foi seguida de um palavrão; parecia impressionado e com medo. Virando o corpo forte na direção de Bella, evitava as tentativas dela de derrubá-lo de Soles.
— Sai daqui! — A voz trôpega pelo uísque soava alta e brava enquanto ela ignorava a pergunta. — Quem. É. Você? — ela tentava a todo custo derrubar o estranho do cavalo.
Ignorando a pergunta de Bella ele moveu a cabeça dela para o lado para observar para onde iam, a barreira rompendo-se conforme o bicho batia as garras e a mulher socava a parede. A mata densa cedia espaço para um penhasco.
Enquanto Soles cavalgava a toda velocidade em direção ao penhasco, sem obedecer aos comandos para que parasse; fugia desesperado do ser que agora rosnava alto e da mulher, Bella fechou os olhos. A morte certa a sua frente quando sentiu Soles mergulhando no penhasco; o grito da harpia soando ao fundo enquanto os acompanhava.
Capítulo VI:
Foi apenas quando as patas de Soles escorregaram no desconhecido que Bella voltou a abrir os olhos; impressionada que houvesse algum solo sob as patas do cavalo. Com as costas tensas, ela viu uma plataforma azul cristalina surgindo como solo sob as patas de Soles; a mão grande do homem às suas costas estendidas, o poder azul parecendo sair dali.
O silêncio amedrontado dos dois só foi interrompido quando as patas de Soles tocaram o solo que estendia-se junto ao fim do penhasco.
Bella desmontou de Soles com pressa. Os dedos tateando os bolsos internos do sobretudo do pai só pararam quando sentiu o metal gelado contra a pele. A confiança que não sentia apresentou-se quando ela sacou com rapidez o canivete, apontando a lâmina para o homem à sua frente enquanto observava-o com calma.
Ele era muito forte, os braços e pernas pareciam musculosos mesmo sob a lã do suéter que usava; os cabelos escuros e encaracolados caiam na testa. Ela apertou os lábios numa linha quando viu os olhos dele, o corpo inteiro tensionando; as escleras e íris violetas e as pupilas na vertical, rodeadas de veias violetas mais claras e mais escuras. — Bella... — ele tentou tocar nela, recuando ao notar o medo.
— Como sabe meu nome? — a pergunta era firme, apesar da bebedeira; a harpia, ela podia notar agora, observava o homem com olhos de crocodilo com desconfiança.
— Sou Emmett Patel, seu pai é... foi... um grande amigo da minha família — ele corrigiu-se rapidamente, vendo os olhos dela, tão idênticos aos de Charlie, surpresos ao notar o pai fazendo parte do passado.
— Aham. — murmurou descrente enquanto continuava a observá-lo com desconfiança; ele tinha quase o dobro de seu tamanho e parecia poder desmontá-la, se quisesse, com um simples tapa. Seguindo o conselho do pai, com o peito apertado ao ouvir seu nome, manteve a lâmina pequena do canivete em riste.
Ele deu de ombros; era óbvio que a filha mais velha de Charlie seria tão desconfiada quanto ele e, se não bastasse, ainda recuperava-se da bebida — Seu pai foi um grande amigo do meu, Alam Patel. — continuou, ignorando os murmúrios descrentes enquanto examinava ao redor — Estive no enterro dele. Sinto muito, Bella. — ele olhou para ela — Charlie foi um grande homem; ele e meu pai eram amigos de infância e, depois que meu pai morreu, Charlie sempre fez questão de cuidar de mim — ele riu, as covinhas nas bochechas aparentes apesar do nó que formara-se em sua garganta — Foi um pai para mim, é difícil pensar que... — ele parou; ainda era difícil verbalizar. Ele enxugou uma lágrima vendo a lâmina tremer nas mãos dela. — Fico feliz que exista uma lembrança tão vivida de Charlie neste mundo! — ele sorriu; era doloroso ver como ela era parecida com o pai de consideração. Os cabelos dela longos da mesma cor que os de Charlie; as íris brilhantes naquele branco familiar.
Num reflexo Bella tocou no cabelo com a mão livre; um sorriso, ainda desconfiado, para Emmett — Aham. — repetiu ironicamente, recebendo uma risada dele. Seguindo com a lâmina apontada, os quatro — Bella, Soles, Emmett e a Hárpia — seguiram caminho pelas margens do rio durante a madrugada.
O silêncio fora rompido por Emmett, que seguia o caminho inteiro cantando uma música estranha sobre um reino desaparecido — Vai continuar com isso apontado para mim? — incomodado sob a mira de Bella recebeu um aceno positivo de cabeça – Você está bêbada, é um perigo para mim! – a dramaticidade, Bella pôde perceber enquanto revirava os olhos, não era um dom só dos Swan.
— Olha seu tamanho... — apontou dos pés a cabeça para ele com a lâmina — Nem pensar!
Ela notou o revirar dos olhos violeta quando ele voltou a caminhar, junto da volta do cantarolar; enfiou a mão livre dentro do bolso do sobretudo, tateando os bolsos a procura da folha que notara há pouco embalando o canivete. Tirou desajeitadamente uma folha velha dali; abrindo com uma mão ela viu um mapa estranho. As sobrancelhas brancas formando um vinco enquanto observava reinos com nomes que nunca tinha escutado falar. Ela observou com curiosidade um ponto brilhante furta-cor pulsando sob o território que chamava-se Exsilium; com um olhar desconfiado olhou ao redor, as montanhas que os rodeavam, abertas durante o tremor na terra no ano anterior, pareciam idênticas às do mapa. Se Bella estivesse observando corretamente, o que não era certo, visto que era péssima em geográfica, eles estavam a poucos minutos de uma espécie de labirinto cavernal; o mapa não mostrava detalhes do que havia dentro;
Ainda desconfiada voltou a atenção para Emmett — Ei! — chamou; a harpia voando acompanhando-os no mesmo ritmo de Soles; — Sabe o que meu pai estava fazendo por aqui? — fora direto ao ponto depois de enfiar o mapa de volta no bolso.
— Eu... — começou e parou pigarreando; parecia ter aprendido com Charlie como ser um péssimo mentiroso, pensou instintivamente — Não, eu... não. Não falou nada. — tentava enfatizar.
— Emmett. — puxou a manga do suéter que ele usava; os olhos brancos mais sóbrios que nunca — Meu pai está morto. — era a primeira vez que verbalizava, o maxilar trincado — E aquilo, o que quer que seja... — ela apontou para cima das montanhas — Acabou de nos perseguir; não pareciam querer uma conversa conosco. — a respiração entrecortada, a lâmina finalmente baixa — Então, é melhor ir me falando tudo o que você sabe, a começar por: O. Que. Meu. Pai. Fazia. Aqui? — repetiu a pergunta pausadamente, os olhos inflamados pela fúria; não podia acreditar que Soles a levara para o local onde o pai fora assassinado.
— Vai precisar ser menos cética, Bella. — ele avisou — Você achou o mapa? Ele não deixou na minha casa. — perguntou, vendo os olhos dela estreitando-se em fendas — Ele estava tentando arrumar uma forma de achar a primeira gema da Deusa, que estava aqui em algum lugar. — Bella o observou pigarrear, os olhos pareciam longe dali — Nós viemos procurá-la, mas naquele dia... — a voz grossa falhou — Ele veio sozinho; nós sabíamos que os Noxvra tinham conseguido atravessar as muralhas, mas... Aquele dia... — ele esfregou a testa; os olhos brilhando pelas lágrimas — Ele não conseguiu se defender sozinho, eles só... eles... — a voz morreu quando ele virou a cabeça, escondendo as lágrimas.
Ela tocou o ombro dele antes de começar — Emmett, por que ele nunca falou sobre você? Sobre nada disso?
— Ah, Bella... — o riso em meio ao choro enquanto balançava a cabeça — Charlie obedecia ao tratado piamente; e o tratado é claro quanto a condição de ignorância dos humanos. — Ele continuou, a voz ainda rouca pelo choro explicando o que sabia sobre o exílio daquele reino do mundo mágico.
A voz de Emmett soava tranquila enquanto contava a Bella sobre a preocupação de Charlie, que intensificara-se após o último ano com as mortes das plantações; aquele penhasco, ele enfatizava, era a prova de como as coisas estavam erradas. Ele fora aberto após aquele tremor violento na virada do ano anterior — Charlie estava atento ao nível dos rios, — os olhos violetas voltaram-se para a água que os rodeava — eles vem baixando cada dia mais. Charlie dizia que isso era só o começo, que estávamos à beira de um colapso.
— Ang sabia disso, não é? — a pergunta era retórica; ela lembrava-se do conteúdo da última conversa entre os dois.
Ela observou os ombros largos de Emm chacoalharem — Sim.
— Ela também... é? — Bella apontou para ele.
— Uma feiticeira? — ele riu, as covinhas voltando a aparecer — Sim; Alam e Astrid conseguiram; assim como tem feito os Noxvra; atravessar a muralha no ano anterior a virada secular, com a renovação da magia, as fendas na muralha fecharam-se.
Bella apertou os lábios.
— Eles ficaram presos aqui? — a voz um sussurro.
— Sim.
Ela pegou o mapa do bolso e abriu-o em frente a Emm; a harpia ao lado deles observando o mapa com curiosidade. Sugeria que reunissem as gemas, mantendo o plano de Charlie.
— Se acharmos essa primeira gema aqui... — Emm começou, os olhos fixos no ponto mágico pulsante no papel — Ainda nos restará reunir mais doze. Se o problema está na falta de elementos para renovar a magia das nossas terras, como Charlie acreditava, precisamos reunir todas elas e tentar fazer com que a deusa nos conceda um pedido. — Ele balançava a cabeça — Estamos na última semana de outubro, Bella. Nem se conseguíssemos atravessar as muralhas; o que não sabemos fazer; conseguiríamos reunir todas elas a tempo da virada secular.
— Emm, meu pai acreditava nisso... — ela apontou para o mapa — Acreditava ser possível, o mínimo que posso fazer…
— Bella! — ele a interrompeu; a harpia gritando antes que os dois iniciassem uma discussão.
Respirando fundo ela cortou o silêncio.
— Pegamos esta e depois conversamos. — Estendeu a mão na direção dele, sorrindo cansada ao sentir a mão grande envolvendo a sua.
Capítulo VII:
Bella observou, Renée — com as olheiras escuras evidentes — descer as escadas. Vestida em seus trajes de dança, estava pronta para trabalhar. Os olhos de Bella arregaram-se com surpresa. Ainda de luto e mais cansada do que jamais lembrava ter estado após a cansativa conversa com Ang e Emm, ela impressionava-se com a força da mãe para levantar da cama.
Parou apenas quando passou pela filha — Você está bem, querida? — a voz preocupada da mãe soou baixo quando afastou uma mecha do cabelo de Bella do rosto, vendo-a acenar positivamente com a cabeça — Tem certeza? — a pergunta fora respondida com outro aceno; ela apertou os lábios numa linha fina, examinando a filha uma última vez antes de lhe dar um beijo na bochecha e partir para o trabalho.
Ela estava sentada, com as costas encostadas na cadeira enquanto bebia água; a boca parecendo permanentemente seca; quando a irmã desceu correndo as escadas; o vestido preto, atípico para a Jess, agitando-se enquanto ela montava em Spirit.
Sozinha na casa silenciosa, Bella observou a casa ao seu redor; idêntica ao que sempre fora e mesmo assim incompleta. Os olhos foram atraídos, sem sua permissão, para as escadas; o latente anseio de que a última pessoa que faltava ali descesse as escadas.
Seguiu para o quarto, uma última tentativa de tentar descansar. Ao abrir a porta notou, com um sorriso fraco, o cuidado da irmã e da mãe em arrumar tudo antes de saírem; o quarto estava pronto para recebê-la. Abriu uma das grandes janelas do quarto, aquela oposta ao banco do quintal, permitindo a entrada da harpia que sobrevoava a casa.
Cansada após tantos dias insone, ela não conseguiu conter os olhos de fecharem-se assim que se deitou. A lembrança vívida da conversa que tivera com Ang e Emm repassando repetidamente antes de finalmente adormecer.
— Ah, minha deusa! — Ang observava admirada e preocupada a gema nas mãos de Bella; a magia ainda fazia a marca de Bella brilhar num furta-cor cristalino — Eu não posso acreditar. — Exclamou quando Bella lhe passou a pedra brilhante do tamanho de uma lichia — Vocês a acharam!
Bella concordou arregalando os olhos; ela e Emmett trocando um olhar cúmplice. Depois de horas presos no labirinto de pedra; Emm usando de sua magia para conter no ar as armadilhas que ativavam pelo percurso, chegaram a um salão com piso em pedra polida e teto com algumas pinturas com cenas desconhecidas e arabescos dourados, várias tochas em pedra acedendo-se enquanto os guiava por um corredor curvo no salão; ao centro uma mão em pedra cinza escura fazia movimento para segurar um flutuante cristal losangular translúcido. Bella, a primeira a tocar a pedra, sentiu a torrente mágica tocando-lhe as veias e escapando através do brilho intenso que vinha dos galhos e estrelas de sua marca.
— Há uma chance, uma pequena chance... — Bella começou, a voz esperançosa quando foi interrompida por Ang.
— Não, Bella! – a voz era dura — Vocês encontraram dois guardas Noxvra, tiveram muita sorte de sair com vida. — Ang finalizou voltando os olhos em formato de gota para a harpia que os observava — Ele não teve a mesma sorte; não vou arriscar perder mais nenhum pedaço da minha família!
— Ficar aqui é assinar nossa própria sentença! — Bella retrucou, a voz mais rígida.
— Bella, mesmo que consigam atravessar as muralhas você é humana. — falou o óbvio — Acha que deixarão você passar assim? Será morta antes mesmo de conseguir dizer o que está fazendo. — Ang levantou a mão, impedindo que a amiga a interrompesse — Pensando em um cenário perfeito, onde ninguém os matasse, como conseguiriam reunir as gemas? E como retornariam a tempo da renovação das muralhas? — ela ergueu as sobrancelhas escuras, balançando a cabeça num riso descrente — Acha que Renée e Jess merecem isso? Já perderam Charlie, Bella, não podem perder você também. — A pele verde que a feiticeira revelara tocou a pele negra do braço de Bella, dando-lhe um apertão de leve.
— Ainda precisamos fazer algo. — já dissuadida da ideia, Bella fechou o mapa e o enfiou no bolso interno do sobretudo azul.
— E vamos! — a voz suave de Ang soou; Bella pôde ver Emm de pé ao fundo, próximo de uma janela, sorrindo leve em concordância.
Capítulo VIII:
Ela folheava o diário de Charlie, achado no escritório que o pai mantinha na casa de Emm, com a calma de quem já lera o caderno com capa de couro quatro vezes. Nos últimos dias, passara a entender melhor sobre os reinos e sobre o comando dos seres mágicos: os filhos da lua, os feiticeiros — como Emm, Ang e seus pais —, os lobos e os vampiros. Debruçara-se sobre os relatos de sidus acuti, o ritual onde os seres escolhidos pela deusa encontram-se e transbordam sua magia pelos reinos.
Mais preocupada do que nunca após as estrelas, todas brilhantes no céu, desaparecem diante dos próprios olhos, ela relia uma parte que lhe chamara atenção; Charlie falava sobre uma profecia lançada pelos filhos da lua e feiticeiros após uma rebelião. Para o desgosto de Bella, o próprio pai parecia confuso com aquilo.
No escuro como estava; trancada no escritório de Charlie após a mãe e Jess terem dormido há muito; ela notou um papel surgir em cima da mesa de madeira escura, vindo do nada. A harpia, observando Bella como mantinha-se nos últimos dias pela janela que ela deixara aberta, emitiu um som. Com cuidado ela agarrou o papel; sabendo instantaneamente quem era o remetente.
Levantando-se da cadeira e caminhando com papel na mão de um lado para o outro ela, aos poucos, sob o olhar dourado da harpia, decidiu o que fazer.
Capítulo IX:
Montada em Saurus sob o olhar vigilante da harpia, Bella virou o rosto para despedir-se, uma última vez, da família. Os olhos brancos brilhando na noite sem estrelas, as lágrimas finalmente escorrendo quando deu o comando para Saurus partir ouvindo a harpia que estava com eles gritar; uma despedida às demais Swan.
A lembrança do último jantar estava vivo no memória de Bella enquanto os cabelos voavam soltos; elas todas sentadas à mesa, agora uma atividade rara naquela casa, o barulho dos talheres batendo nas louças e os risos enchendo a casa; o olhar de Renée uma hora fora diretamente atraído para a sala de estar, às portas duplas fechadas desde a morte de Charlie.
Ela evitou imaginar a mãe e a irmã acordando e lendo as cartas de despedida; ela não saberia explicar o que fazia e corria o risco de desistir ao despedir-se pessoalmente.
Inclinando o corpo mais para frente ela mergulhou mais a fundo com Saurus madrugada adentro; indo de encontro a Emm.
Ele ouviu primeiro um xingamento alto de Bella, seguido de vários resmungos — Péssima ideia!
— Calma! — ele tentava agarrar-se a uma parte do barco, que roubara, que não estivesse afundando; a tempestade alta os jogando de um lado para o outro.
— Foi uma péssima ideia! — ela gritou, segurando-se com a maior força que tinha ao mastro enquanto o barco continuava a balançar perigosamente; outro xingamento escapou de seus lábios ao ver a bolsa com comida afundar na água.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Segure-se bem. — O grito de Emm cortou a noite enquanto ele esticava o corpo tentando alcançar a última caixa com suprimentos.
Ela tentou retrucar, mas os raios a impediram. O medo dos dois era evidente nas feições; da forma que estavam, mesmo sendo bons nadadores morreriam de fome ou sede antes que pudessem atravessar a muralha invisível.
Bella ouviu, ao mesmo tempo em que uma onda alta cobria completamente o barco, o grito estridente da harpia soar, parecendo quebrar a tempestade.
Ela podia ouvir o grito desesperado de Emm, tentando encontrá-la, quando o corpo chocou-se contra a água. Antes que pudesse paralisar, cansada pelas horas tentando manter-se dentro do barco à vela durante a tempestade; um clamor alarmado lhe soou aos ouvidos — Não desista; não agora! — a voz masculina e desconhecida não passava de um sussurro; aquela figura formada por neve tomando forma enquanto Bella abria os olhos debaixo d’água.
Buscando forças onde não tinha ela impulsionou o corpo e emergiu, olhando pelo breu da tempestade; tentou gritar o nome de Emm mas a água lhe engasgava. Quando outra onda pesada atingiu seu corpo; no que ela achava ser horas depois; os músculos cansados e os olhos fechando-se impediram as braçadas de continuarem cortando a água. Aos poucos ela entregou-se ao breu que a envolvia; antes de entregar-se completamente a escuridão confortável, deixando o corpo finalmente afundar; ela ouviu aquela mesma voz sussurrar, enquanto o último grito da harpia soava — Não desista!
De olhos fechados, semiconsciente, ela sentiu uma espécie de puxão forte pela cintura antes de desmaiar.
Capítulo X:
Ela não precisou abrir os olhos para notar duas coisas: a boca seca e algo gelado e pontudo contra o peito. Abrindo os olhos com dor pelos grãos de areia que caiam aos olhos, ela olhou assustada a figura à sua frente.
De tamanho humano e forma felina um ser a encarava; a pelagem num azul escuro brilhando, o rabo comprido balançando enquanto apertava um pouco mais a lança metálica contra o peito dela — O que faz aqui, humana? — soava com nojo; dois braços cruzando-se a frente do corpo enquanto os outros dois seguravam a lança. Antes que pudesse responder um outro ser apareceu no campo de visão de Bella; arrastava Emm desmaiado por um dos braços, várias facas brilhantes de tamanhos diferentes em sua cintura.
— Olha só o que achei! — a voz bestial respondeu, jogando o corpo grande de Emm, sem cuidado, ao lado de Bella.
Arfando ela levantou-se contra a lança, sentindo-a afundar um pouco mais no peito, e virou-se na direção de Emm, em busca de seus sinais vitais.
— Humanos por aqui. — os dois focinhos retorceram-se em nojo enquanto Bella voltava a sua posição, aliviada por Emm estar vivo — Os denunciamos? — o ser que jogara Emm tocava com calma as facas — Ou não?
Antes que a lança fosse atravessada por Bella a harpia soou, pousando ao lado da Swan. Os olhos dourados brilhavam de forma impressionante quando os dois seres curvaram-se em respeito a ave.
Prontos para partir e ainda olhando com nojo para Bella, aquele com a lança comentou – Elizabeth não poderá salvá-la sempre, humana, certamente não em Nebhreta. — Ele lançou um olhar para a mancha de sangue no sobretudo azul dela — Sua sorte não perdurará.
Ela esperou os dois estarem longe para ajoelhar-se, fazendo careta pela dor no corpo, ao lado de Emm. Sob o sol escaldante, com as mãos trêmulas, ela fez massagem cardíaca e respiração boca-a-boca, preocupada com a demora do amigo em acordar.
Foi só quando ouviu ele tossindo e cuspindo a água que deixou o corpo relaxar; tombando a cabeleira branca na areia.
Com dificuldade e guiando-se pelo mapa que, graças a magia de preservação lançada continuava perfeito, eles seguiram rumo a Soles Miandre; Bella não podia conter um sorriso nos lábios ressecados toda vez que lia o nome.
Não eram só as horas que pareciam arrastar-se; a desidratação dos dois comprometia a rapidez com que conseguiriam chegar ao reino. Paravam sempre pelos desmaios do outro; a fome sendo saciada apenas quando achavam uma folhagem que parecia segura.
Os dois avistaram primeiro o bebedouro para cavalo; com tanta pressa quanto podiam, acompanhados por, agora eles sabiam, a harpia Elizabeth, eles enfiaram as mãos na água do bebedouro, sugando com pressa o líquido que escorria pelas mãos e braços. Assolados pelo cansaço e pela fome adentraram o estábulo que escondia-se entre a mata; deitando na primeira baia vazia, os dois logo adormeceram.
Acordou com o corpo sendo puxado para cima com força, sendo carregada enquanto alguém corria com ela nos ombros; instintivamente abriu os olhos, tentando desvencilhar-se da pessoa. Recebeu em troca um aperto mais forte – Está maluca ou só quer nos matar? Emm gritou por cima do barulho ensurdecedor de patas e rosnados.
Enquanto o amigo continuava correndo ela conseguiu levantar a cabeça um pouquinho, o suficiente para ver enormes patas pisando rapidamente; derrubando árvores pelo caminho.
Com uma rapidez que não imaginava possuir, Emm a colocou no chão e em segundos os dois estavam montados num dos cavalos soltos pela floresta; alto e de penugem cinza brilhante, começou a correr ao primeiro comando deles.
Agarrando-se na cintura de Emm, que conduzia o gigantesco cavalo, ela olhou para trás antes de apertar o rosto contra as costas dele.
— Emm, o que é isso? – a voz trêmula quando ela conseguiu ter uma visão do que os seguia. — É... é um dr-dra... — ela gaguejou; observando agora hipnotizada o dragão que os perseguia. Numa cor idêntica ao do cavalo, as escamas brilhavam num chumbo em tamanhos diferentes; uma crista verde saía do centro do que parecia ser a coluna do dragão; o único chifre do meio da testa formado por osso preto; as asas gigantes estendiam-se pelas patas. Os olhos eram de um preto brilhante através da noite, quando o bico do dragão se abriu, relevando dentes afiados e uma bola de fogo saindo da garganta.
Um rosnado ensurdecedor preencheu o ambiente; o cavalo em que estavam montados empacando em seguida. Desesperada, Bella foi a primeira a saltar, gritando por cima do ombro — Corre! — o fio de esperança entre eles era fino; um dragão de trinta metros com asas os pegaria facilmente.
Tão certa estava que, sem surpresa, com um agitar das asas próximo de Bella e Emmett, o dragão os derrubou; a magia os aprisionando no solo. A clareira ao redor deles parecia girar, a cabeça doendo pelo impacto. Boquiaberta e tremendo de medo, ela aguardou em silêncio pelo fim; o dragão em frente a eles, entretanto, recostou o corpo inteiro no chão, deixando a figura que o montava finalmente descer.
Com surpresa Bella observou a mulher que descia; os cabelos lisos e castanhos presos num penteado elegante; o vestido verde de saia rodada deixava os ombros à mostra; a pele amendoada parecia brilhar junto do dragão.
Com a ousadia que restara, Bella começou — Uhn... — limpou a garganta — Quem é você? — a pergunta foi recebida por uma risada seca.
— É a primeira vez que invadem este reino e me perguntam quem sou. — Ela os observava com curiosidade, a cabeça inclinada — Eu lhes pergunto, quem são vocês? — a voz flutuou suave até eles; nenhum dos dois dispostos a responder. Balançando a cabeça os olhos da mulher brilharam em conjunto com os do dragão; ele levantando-se e inspirando os dois, o cheiro de medo permeando as narinas — Um feiticeiro e uma humana – acariciou o dragão que retornara para o seu lado; os olhos voltaram a brilhar quando ela repetiu a pergunta — É a última vez que pergunto... Quem são vocês?
Emm foi o primeiro a falar, a voz trêmula ao sentir o bafo fétido do dragão — Sou Emmett Patel e essa é Isabella Swan. — O silencio voltara a perdurar.
Uma expressão de dor e reconhecimento pareceu rapidamente passar pelos olhos da mulher ao ouvir Emmett; a voz lenta ao falar — Alam? Alam Patel? — apesar de falar com Emm, o olhar estarrecido era fixo em Bella. As amarras mágicas aos poucos soltando-os.
Por precaução, enquanto acompanhavam a mulher para o enorme casarão que parecia ser abraçado pela floresta, fundindo-se quase a esta, Bella enfiou a mão no bolso do guerreiro sobretudo, agarrando o canivete dentro do bolso. Emmett seguia tagarelando ao lado da mulher; que revelara ser Leah Clearwater; falava sobre a morte do pai, ao que Leah respondia sobre Harry, o próprio pai, poder ter interesse em ouvir mais sobre Alam.
Com admiração Bella observou a edificação à frente; atravessaram o jardim dos fundos com alguns bancos em pedra, seguindo para a entrada. O emaranhado que a floresta formava ao redor do casarão liberava-se com a aproximação de Leah, a pesada porta dos fundos em metal abrindo-se sem ruído ou toque.
Atravessando os cômodos luxuosos da casa, sob a penumbra da noite, ela podia observar o dragão levantando voo e partindo. Atravessaram as grandes escadarias de mármore, chegando a uma ala de dormitórios onde duas portas abriram-se sob o comando da mão de Leah.
Bella e Emm caminhavam, aliviados por hora, lado a lado em direção aos seus respectivos quartos, quando a voz de Leah soou às suas costas — Gostaria de falar com vocês amanhã, acredito que ainda temos muito o que acertar. — a voz não deixava brecha para perguntas — Bom descanso! — ela acenou suavemente com a cabeça, descendo as escadas.
Sozinhos e à porta de seus quartos, Bella e Emm trocaram um olhar sério; embasbacados por estarem vivos trocaram um abraço apertado, os dois com lágrimas nos olhos. Nenhuma palavra precisou ser dita quando se separaram e, separadamente, caíram em suas camas sem olhar ao redor.
Capítulo XI:
O som de bicadas sobre um vidro a despertou no início da tarde do dia seguinte; agitou-se na cama por alguns minutos ao não reconhecer o local, suspirando ao sentir o peso do que vivera desde que deixara sua própria casa.
Esfregando os olhos, Bella olhou ao redor; as dificuldades dos dias anteriores amenizando os pensamentos sobre a mãe e a irmã. Observou desanimada o quarto bonito, as paredes num tom de verde escuro, a cabeceira da cama grande era uma série de arabescos na cor chumbo à parede; o requinte do espaço era impressionante.
Com preguiça, ela levantou-se da cama e foi em direção às grandes cortinas que cobriam uma das paredes; com esforço puxou uma delas, revelando Elizabeth bicando o vidro das portas duplas que levavam a varanda.
Com as sobrancelhas arqueadas, falando com a harpia, ela começou — Ah, quando precisamos de você... — ela foi em direção ao conjunto pequeno e elegante de mesa e cadeiras no canto do quarto, guiada pelo cheiro da comida deixada sobre a bandeja — simplesmente desaparece; um dragão apareceu e você... Puft! — sentou, lendo o bilhete de Leah, que a esperava após a refeição e o banho. O gavião esticou o pescoço para Bella, pouco se importando com suas reclamações.
Comeu calmamente todo o conteúdo da bandeja sob a luz da tarde enquanto examinava o mapa e pedra; decidida a não revelar aquilo a Leah; vez ou outra, acariciava Elizabeth.
De estômago cheio, seguiu para o que, observando o quarto maior que o andar inferior da casa dos Swan, notara ser a área para se limpar. Uma cabine fechada com um vaso e uma pia com uma grande bancada em mármore verde escondida sob uma parede falsa e, atrás de uma divisória de vidro fosco, uma grande banheira branca.
Ela despiu-se com calma, aproveitando o que sabia ser um dos últimos dias de tranquilidade. Encostou as pontas dos dedos para sentir a temperatura e mergulhou na banheira por completo em seguida; debaixo da água, os cabelos brancos flutuando ao redor, encolheu-se em posição fetal; a marca brilhando em seu ombro suavemente. Apesar da falta de ar que lhe sufocava, emergiu apenas quando Elizabeth emitiu um ruído; puxando o ar ela iniciou o banho, esfregando-se com todos aqueles produtos luxuosos e cheirosos.
Saiu da área molhada direto para o piso de madeira clara; escovou os longos cabelos brancos e vestiu a roupa deixada por Leah para ela; um conjunto de calça e uma camisa longa na cor vermelho púrpura. Por cima ela jogou o sobretudo de Charles, agora limpo a pedido dela, guardando a gema e o mapa com calma; o ponto verde pulsante marcando exatamente o local onde estavam: o reino de Soles Miandre.
Capítulo XII:
Os três estavam sentados do lado de fora do casarão; uma área de jantar ao ar livre com uma grande mesa de pedra preta e quinze cadeiras ao redor.
A brisa gelada do início de novembro agitando as árvores que cediam espaço para eles comerem. Repousando o garfo de sobremesa sobre o prato, Leah começou a falar — E então, o que estão fazendo aqui? — as sobrancelhas ergueram-se; agora no fim da sobremesa eles não podiam encher as bocas de comida para evitar responder.
— É complicado. — Bella respondeu simplesmente, enfiando um pouco mais do tiramisù na boca.
— Preciso interrogá-los para que me falem a verdade? — Leah resmungou esfregando as têmporas, parecia exausta — Vocês não são ignorantes, sabem que humanos deste lado da muralha é uma quebra no tratado. Você será, no mínimo, morta, Isabella.
— Bella. — ela automaticamente corrigiu, interrompendo Leah e arrancando dela um arquear de sobrancelhas. — Você será trucidada, Bella. — Corrigiu — Vocês dois, nenhum de vocês tem experiência neste mundo. Serão caçados pela quebra do tratado e levarão quem estiver com vocês junto. — observou os dois engolindo em seco enquanto suspirava balançando a cabeça — Ao contrário do que minha posição pede, não os denunciarei ao Conselho, mas precisam voltar o mais rápido possível para o reino de vocês. Os ajudarei, entretanto, no que for necessário para sua partida. — ela continuou, ignorando os resmungos que seguiram.
— Nosso reino está morrendo. — Bella começou, sucinta — Nossas plantações, nossas terras, os níveis dos nossos rios cada vez mais baixos; nossas estrelas... — ela olhou para cima; desde o dia em que vira diante de seus olhos as estrelas apagando-se, elas nunca mais voltaram a brilhar — Desapareceram; nosso reino vem sendo invadido por seres mágicos que... — ela engoliu em seco, a voz falhando — ameaçam a vida de nosso povo.
Desconfiada Leah recostou as costas no assento da cadeira, os olhos escuros fechados em fendas — Você não me respondeu, o que fazem aqui? — ela repetiu — Veio atrás de vingança pelos seus que foram assassinados? — a voz era dura ecoando na noite.
— Isso não é da sua conta. — A resposta fora direta; Elizabeth, que desaparecera desde o fim da tarde, pousou num galho próximo deles — Vim fazer o que precisa ser feito para salvar meu reino.
Os olhos cor de chumbo de Leah brilharam curiosos para a conhecida Elizabeth; ela voltou os olhos para Bella — E o que precisa ser feito?
Olhando ao redor e, fechando rapidamente os olhos enquanto pesava os prós e contras enquanto Emm enrolava contando sobre sua infância com Alam e então com Charlie e Ang, Bella enfiou a mão dentro bolso do casaco, tirando o mapa puído. O ponto verde pulsante brilhou sob os olhos de Leah.
— Oh! — a exclamação saiu dos lábios da mulher enquanto observava o papel que achava ter sido perdido há muito — Essa...? — os olhos admirados viraram-se para Bella e Emm, a pergunta no ar.
— Sim.
— Suponho então que toda sua enrolação — ela dirigia-se a Emmett, o cinismo estampado nas feições dele — era para não me contar sobre isso. Estão protegendo a primeira pedra?
Bella respondeu com um dar de ombros, não queria revelar além do necessário — Vai nos ajudar? — ousadamente perguntou, arrancando um olhar de surpresa dos dois.
— Vocês não pediram minha ajuda. — Leah respondeu simplesmente.
A figura de longos cabelos brancos olhou para o mapa e instintivamente pensou no pai — Nos ajude, por favor. — A súplica marcava a voz dela.
— Mesmo que eu queira, e não estou dizendo que quero... — Leah iniciou — É muito arriscado manter vocês aqui. Você, especialmente, Bella. — Balançou a cabeça — Qual a ideia? Irmos de reino em reino, roubando suas gemas, com uma humana em nosso encalço? — ela desdenhou.
— Sim! — Emm e Bella responderam em uníssono.
— É um plano ridículo; num bom cenário apenas ela — indicou com o queixo para Bella — será morta. Num mal cenário, todos nós. — Leah balançou a cabeça, agitando os cabelos escuros — Isso se tivermos tempo, resta menos de um mês até a virada secular.
— Bella... — Emm começou, os olhos violeta numa súplica silenciosa — Leah está certa; você seguir conosco... — ele foi interrompido pela voz irritada da amiga, os olhos brancos flamejando em sua direção e olhando acusadoramente para Leah.
— Eu vou! — ela respondeu, pondo-se de pé — Vou com ou sem vocês — já perdi coisa demais, já deixei coisa demais para trás, ela completava mentalmente — Não vou voltar; ou vamos juntos ou vou sozinha! — ela voltou a afirmar, recolhendo com pressa o mapa e enfiando-o no bolso junto à pedra e o canivete.
Leah podia ver, observando a mulher negra de olhos e cabelos brancos, tão parecida com... Ah!, o ar de seriedade e petulância — Meu mundo está morrendo, Bella. — Ela falava diretamente a outra, levantando-se também — Não achamos solução alguma neste último ano para nossa iminente exterminação. Se o preço para salvar meu mundo é proteger você... então está feito! — ela estendeu a mão para a outra.
Sob o olhar atento de Bella, Emm e Elizabeth, um trovão soou no momento em que as mãos encontraram-se; Leah, com a testa franzida em preocupação, afastou-se de Bella — Não será fácil. — Ela avisou.
— Eu sei. — A resposta foi seca — Quando começamos as buscas? — a voz de Bella soava determinada enquanto Leah e Emmett a observavam voltar a estender o mapa.
Capítulo XIII:
Ela observava o próprio reflexo no espelho, a calça e a camisa longa, agora tão usuais para ela, num tom de púrpura arroxeado; um sobretudo longo até os pés cobrindo quase todo o corpo. Os cabelos trançados firmes ao couro cabelo. As botas nos pés e as luvas de couro nas mãos eram sinais de que estavam para partir em busca da próxima gema, no reino de Excotur.
Tocou a marca atrás da orelha esquerda com um sorriso consternado; se as suspeitas dela e de Leah estivessem corretas... Ela suspirou, a grande pintura com moldura dourada dos atuais reis e seus protetores na lembrança. Olhou para o gavião encarando-a das portas abertas; o gavião real, o ser protetor do, pelo que vira na pintura, rei de Chriems Glacium.
As evidências pareciam confirmar as teorias de Leah; ela pensava quando um rolo, vindo do nada, caiu aos seus pés. Pegou o objeto e desenrolou o papiro, o recado fazendo-a sorrir.
— Podíamos todos ter vindos montados em Aria — Emmett reclamou pela quinta vez seguida em menos de dois minutos, referindo-se ao dragão de Leah — Ou em alguns cavalos... — ele continuou sendo ignorado pelas duas que o ouviam repetir a mesma coisa há horas.
— É uma ótima ideia quando você não quer ser notado ou morto — Leah foi irônica, voltando a atenção à dúvida de Bella sobre o exílio do povo humano — As lendas são confusas e a profecia se perdeu ao longo dos anos com a troca dos reinados — a voz era baixa para não despertar atenção; estavam subindo uma região montanhosa quando entraram numa região onde a mata estava completamente morta; o reino de Nebhreta, Leah contara a ela mais cedo, era um dos que tiveram suas florestas devastadas mais rapidamente; a população a um passo de perecer – Mas a crueldade dos primeiros regnuex, o primeiro casal de rei de todos os povos; formado pelo Vampiro-Rei de Chriems Glacium e um humano do reino de Exsilium; fizeram com que a Deusa, espantada com a devastação causada por aquela união aleatória, exilasse o reino humano para sempre.
— As muralhas foram criadas pela Deusa? — a voz de Bella era clara; acostumada a caminhar pela mata com Charlie desde a infância, ela avançava sem dificuldades.
— Ah, não! Os primeiros regnuex caíram só depois da morte do rei humano; o amor vampírico levou o rei que restou a loucura – ela recitava a história contada pelos pais desde que era criança — Ele foi perdendo aos poucos o controle do reino; a virada secular foi o que marcou o fim do controle dele sob nossas terras. Os filhos da lua e feiticeiros que conseguiram escapar das torturas uniram as gemas da Deusa, a invocaram e fizeram um acordo com ela... Todos os povos pagariam a consequência por seus erros em troca da paz. E foi o que aconteceu; desde então, dizem as lendas, o reino humano passou a ser chamado de Exsilium — ela ergueu as sobrancelhas, o motivo do nome já claro — E nenhum vampiro, há dois mil anos, é regnuex; os humanos... — ela apontou com o queixo para Bella — foram exilados; seu reino rompeu-se do nosso e as muralhas foram erguidas ao seu redor.
O gavião os acompanhava atento a conversa; a voz de Leah contanto uma das fofocas reais para Bella em tom conspiratório — Alguns dizem que a causa de toda essa desgraça que assola os reinos... — as duas rindo quando Emm chegou mais perto delas para escutar o que era dito — Em todo ano que precede a virada secular os reis que comandam os doze reino mágicos devem estar acompanhadas de seus sidus acuti — o tom sonhador de Leah ao falar o termo era óbvio; a magia concedida pela Deusa de encontrar alguém que pudesse transbordá-la daquela forma... ela não conseguia sequer imaginar como seria — Se um deles não tiver passado pelo ritual, nossas terras começam lentamente a morrer, a magia não tem força para renascer. — A fala parecia mais impactante enquanto andavam sobre a floresta devastada — O atual rei de Chriems Glacium não encontrou sua sidus acuti, alguns dizem que é uma maldição por ser um vampiro da linhagem Cullen.
— Me parece crueldade dizer algo assim. — a voz séria era de Emm.
— Nem todos pensam assim. — Leah respondeu enquanto chegavam numa parte mais íngreme.
As mãos enluvadas de todos eles raspando as pedras enquanto subiam a montanha; as árvores caídas podres ao seu redor.
Acompanhados de Elizabeth pararam para Leah e Emm descansarem. Enquanto conversavam, abriram a mochila pegando as comidas e água que levaram para a viagem. Com o mapa em mãos apontando um trecho marrom pulsante Bella deixou as bolsas que carregava no chão e seguiu caminho sozinha, avisando antes que estaria por ali.
Tentando encontrar a localização perfeita indicada pelo mapa, ela viu Elizabeth bicando um ponto alto na montanha onde a vegetação ainda estava viva. Aproveitando que ainda vestia as luvas de couro Bella começou a escalar com cuidado, sentindo as garras do gavião nos ombros quando o pé deslizava na pedra.
Parando onde Elizabeth voltara a bicar, ela afastou a folhagem densa à frente, notando com surpresa uma fenda ali — Eu te amo, Beth! — encostou a cabeça de leve na ave antes de escorregar para dentro da fenda cavernosa.
Escorregar para dentro da fenda havia sido uma coisa, caminhar ali era uma atividade árdua; com a barriga encolhida enquanto mantinha os braços rentes ao corpo ela tentava avançar. Foi ao notar uma luz brilhante no outro lado da fenda que desconcentrou-se em diminuir o corpo e entalou — Porra! — a voz ecoava, com a cabeça recostada voltava a encolher-se; o desespero por ninguém saber que estava ali fazendo o coração bater acelerado.
Bella caiu direto dentro de uma espécie de saleta com uma porta dupla central em pedra, uma tocha em metal enferrujado acesa. Tocou na porta, os entalhes para encaixe das pedras na ordem que deveriam ser recuperadas, como ela já vira ao recuperar as gemas em Soles Miandre, Excotur e Metmmarum, sem vida. Ela retirou da bolsinha presa ao cinto da calça as quatro pedras e encaixou todas na porta; vendo as gemas brilharem fixas à porta, um barulho suave ecoando pela caverna enquanto a porta abria-se para Bella.
O salão que estendia-se à frente era de tirar o fôlego; a natureza viva do lado de fora da fenda indicava o que havia ali. O chão, contrariando toda pedra ali, era um misto de flores e folhas; algumas árvores tapavam a pedra do teto, formando-o com suas folhas. Bella não conseguiu deixar de sorrir ao ver a paisagem, os dedos coçando para desenhar aquilo em bloco de desenho quando ela resignou-se a ir até o centro do salão, iluminado pela pedra ao centro.
Como nos outros reinos, uma mão de dedos longos simulava segurar a gema que flutuava acima. Com uma reverência que agora, munida de conhecimento ela possuía, tocou com delicadeza a pedra antes de puxá-la, como se pedisse permissão.
Tão cedo os dedos tocaram a pedra, a centelha de poder incendiou a marca dela. Ela podia notar o reflexo dos olhos, dos cabelos e da marca brilhando sob a vegetação. O poder que ela tanto temia ficando cada vez mais difícil de conter quando finalmente saiu pela fenda; pulando desajeitada.
Antes que pudesse atingir o chão as garras de Elizabeth erguerem-na no ar; tentado soltar-se ela observava a cena abaixo.
Das mãos grandes de Emmett, flechas violetas eram lançadas contra a mulher loira; Bella parou de lutar contra as garras quando viu um poder vermelho projetando-se da figura na direção de Emm, enquanto ele caia do lado oposto, urrando de dor. Leah, com uma espada flamejante em mãos lutava contra o mesmo ser que seguira Bella e Emmett no reino humano; a lâmina batia contra a pele fina, deixando talhos de carne exposta; os olhos brilhantes e vermelhos do ser fixos em Bella quando tentou alcançar voo, sendo impedido pela espada de Leah cortando o ar; a lâmina chiando quando o fogo cortou as asas dele.
O grito ensurdecedor ecoou pela floresta quando Leah saiu em disparada na direção de Emm — ao longe asas e ser caindo separadamente com um baque no chão —. O mesmo brilho que projetara-se na direção de Emm direcionado para Bella sob a mira dos olhos da mulher do reino dos Noxvra. Antes que pudesse sentir aquela mesma dor que assolara Emm, uma figura formada de neve, tão conhecida por ela, colocou-se a sua frente. As mãos frias tocando com força sua cintura.
Capítulo XIV:
Ela pôde ver, enquanto aos poucos ela e os amigos desapareciam do reino Nebhreta, a expressão de espanto da mulher loira; aquele mesmo brilho assustador vermelho explodindo de dentro dela enquanto gritava.
O mundo rodopiava ao seu redor; envolvida pelas mãos frias e a neve; o cheiro de âmbar inebriando seus sentidos. Os cabelos chicoteando pelo vento frio e forte ao seu redor enquanto sentia os olhos brilhando.
Sentiu os pés afundando sob a inesperada neve; a figura transformando-se finalmente em pessoa. O corpo gelado afastou-se do dela. De forma absurda para Bella, o tempo pareceu parar quando os olhos dourados focaram nela, o cabelo acobreado caindo sob a testa pálida; era o homem mais lindo já vira na vida. O sorriso escapou pelos lábios finos do homem à sua frente — É um prazer tê-la aqui! — a voz aveludada sussurrou.
Um pigarro partiu o momento entre os dois; a cabeleira branca e ruiva virando-se para encarar Emmett constrangido — Onde estamos? — a pergunta fez com que Bella passasse a observar ao redor.
Entre algumas montanhas cobertas de gelo, uma única torre cortava o ar; o vento cantando ao bater na estrutura que parecia feita em gelo pelo aspecto cristalino e pesado.
— Olá, Edward! — Leah cumprimentou com um aceno de cabeça.
— Leah. — Ele acenou de volta — Estamos na minha residência privada. — Ele respondeu simplesmente, guiando-os até uma sala aconchegante e indicando o sofá — Harry está com você nisso? — a primeira pergunta foi diretamente direcionada a Leah; referia-se ao rei de Soles Miandre.
— Sim. — A resposta surpreendeu Emm e Bella — Bella é uma humana, não avisar a nosso rei... — a princesa balançava a cabeça.
Edward concordou com a cabeça; falava com Leah mas os olhos desviavam-se com teimosia para Bella, tantos séculos à sua espera e finalmente estavam no mesmo espaço – É compreensível, saber que Jane e seu protetor estão atrás de Bella... É a confirmação da ciência de Aro da presença dela. — Ele voltou os olhos com esforço para Leah — Estão dispostos a travar uma guerra contra Noxvra? A essa altura?
— O que temos a perder, Edward? A essa altura? — a pergunta perdurou entre os quatro, o silêncio arrastando-se.
Sentada observando a escuridão do céu, os flocos de neve misturando-se ao seu cabelo solto, ela sentiu a presença dele antes de sua voz soar.
— Bella... — ela sabia que ele viria ao seu encontro; os galhos que envolviam o ombro e o braço esquerdo, à mostra, desde que chegara ali, a marca não deixara de brilhar nem por um segundo.
Ela estendeu o papiro na direção dele, puxando de volta quando ele fez menção de pegar.
— A quanto tempo sabe sobre nós... sobre mim? — ela corrigiu-se, um pigarro constrangido soando.
— Há algum tempo; não sabia que você era você. — o riso dele soou, fazendo os teimosos lábios dela curvarem-se para cima — Mas sabia que você era... minha sidus acuti e então, fiz o que pude para conseguir chegar perto. — ele olhava fixamente nos olhos dela, a neve caindo entre os dois na varanda descoberta — Espero não ter sido muito invasivo. — era um singelo pedido de desculpas.
— Invasivo? — ela já imaginava a que ele referia-se.
— Sim, os sonhos, Elizabeth, o recado... — ele deu de ombros — Por um momento achei que não conseguiria passar pela muralha — os olhos dourados de repente ficaram fixos, parecia relembrar algo — Elizabeth sempre é... pontual! — ele finalizou sorrindo.
— Pontual? O que ela fez... na muralha?
Ele riu antes de responder — Ela tem um grito potente, disso eu sabia, mas de que seus gritos eram capazes de romper a muralha... ah, disso não. — Ele voltou o olhar para ela — Não é à toa que é nosso ser protetor.
— Como tem tanta certeza? — ele ergueu as sobrancelhas com a pergunta inesperada — Que sou sua sidus acuti, isso... As coisas continuam morrendo, as estrelas... — olharam juntos para o céu.
— Bella, eu sei que é, mas... — ele colocou a mão ao lado dela — Se você precisa descobrir, não me importo, não tenho pressa.
— Temos dois meses, Edward, como não... — ele a interrompeu.
— Simplesmente não tenho, estou aqui e vamos resolver isso juntos.
Juntos, ela repetia internamente, envolvendo a mão fria na sua.
Capítulo XV:
Ela voltava para o local onde agora era sua casa; a torre escondida entre as montanhas; com as roupas do treino. Jasper e Alice, de mãos dadas atrás dela, voltavam aos cochichos trocando carícias.
— Nunca estive numa festa tão luxuosa! — Emmett exclamava do seu lado — Alice e Leah me ensinaram algumas coisas, mas... — ele parecia inseguro, a família tão simples quanto a de Bella não estava habituada a conviver entre a realeza.
— Não será um natal formal, Emm! — a voz de Alice soou quando num segundo chegou ao lado deles – É uma festa entre a família, nada extravagante.
A mentira deslavada de Alice só passara pela forma afetuosa a qual se referira aos dois; seguiram em silêncio o resto do caminho até a torre de gelo, como era chamada; a preocupação evidente em todos.
No último mês, Aro tornara-se uma ameaça mais letal. Os guardas de todos os reinos relatavam que os Noxvra tentavam infiltrar-se nos territórios atrás de uma humana; a reunião que os preocupava, marcada para acontecer na Sede do Conselho Real, aconteceria às vésperas do natal.
A preocupação de todos era amenizada pela bem-vinda e inesperada descoberta dos poderes de Bella; as especulações sobre ter absorvido parte dos poderes da pedra era sempre levantada quando os amigos corriam dela chamando-a de “esponja de poder”.
Ela observava todos à mesa grande; Edward com a mão confortavelmente sob a dela.
A torre havia sido decorada por Alice e Esme, irmã e mãe de Edward, respectivamente; o que seria uma festa simples tornara-se um evento da família. A decoração, num branco e dourado brilhante, era impressionante.
Com um nó na garganta, ela olhava para a nova família que, com tanta bondade a havia adotado. Sue batia de leve enquanto Seth enfiava mais comida do que devia na boca, despertando risos da mesa toda. Antes de voltar a atenção para o próprio prato, trocou um olhar de cumplicidade com Emmett.
Era tão grata, mas havia perdido tanto.
Os dois sorriram um para o outro; Bella voltando a atenção para Edward que tentava explicar para Alice e ela sobre um novo feitiço que ouvira falar, estranhamente confiável, mas nunca haviam escutado falar dele em todos os reinos — Parece superseguro, Ed. — a irmã respondia, rindo.
Estavam a sós no quarto que passaram a compartilhar nas últimas semanas, ela retirava o vestido vermelho que usara com cuidado, os cabelos caindo por suas costas quando sentou-se à cama observando Edward caminhar até ela — Dance comigo. — Ele pediu novamente, como fazia todas as noites; encostando as testas ela balançou a cabeça.
— Não. — Os lábios sorrindo a centímetros dos de Edward.
— Bella, por favor, amor. — Ele deu-lhe um beijo rápido nos lábios — Por favor, por favor — os intervalos entre as repetições eram preenchidos por beijinhos.
Rindo, ela respondeu — Não. — Ela ficou séria, os olhos fixos nos dele — O que aconteceu na Sede?
A pergunta não pegara Edward de surpresa, mas, em meio a um dia festivo como aquele, ele preferia não lembrar do que havia se passado na reunião com todos os reis. Ele encostou a cabeça no joelho dela antes de voltar a falar — Tentamos argumentar, Bella, tanto, tanto... — ele suspirou cansado — Aro está convencido.
— Convencido a que?
— Ele quer que entreguemos você, diz ser uma quebra no tratado... — ele voltou os olhos para os dela, a mão tocou o rosto que esperara tanto para ver — Ou derrubará a muralha.
— Se tudo der errado, Ed... — ela começou, vendo ele balançar a cabeça — Me escute, é uma possibilidade. Se tudo der errado, prometa que vai confiar em mim. — Ele olhou para ela, sabia que não tinha um poder de escolha sobre aquilo. A decisão era dela.
Com um sorriso dolorido ele levantou e estendeu a mão para ela — Sob uma condição…
Ela engoliu em seco, afastando as memórias que tinha sobre cenas daquelas enquanto encostava a mão na de Edward.
A música já havia começado a tocar quando os dois, no meio do grande quarto em roupas íntimas, grudaram os corpos dançando lentamente. O corpo de Bella sendo envolvido pelos braços fortes e frios de Edward; ele cantando, com sua voz aveludada, junto da música, em seu ouvido.
— Sem pressa? — ela sussurrou, afastando a cabeça o suficiente para que Edward pudesse lhe beijar.
Ele sorriu em resposta — Sem pressa, meu amor. — Os dois dançaram juntos aos beijos; tropeçando para a cama aos risos com as últimas notas do piano tocando ao fundo, embalando o resto da noite de natal do rei e da, ainda não anunciada, rainha de Chriems Glacium.
Capítulo XVI:
Ela sentiu o impacto do corpo despencando no chão; um xingamento escapando-lhe os lábios quando o ar faltou pela dor.
Olhando para o céu branco; a neve caindo da cobertura mágica do tatame que Edward instalara próximo a torre para que ela pudesse treinar; ela viu o rosto oval de Zafrina tampando sua visão, os longos cabelos azuis da rainha de Chactarumm tocando o rosto dela — Bella, levante-se! — os olhos dourados brilharam sobre a pele azulada de Zafrina — Se sua estrutura rachar diante de seus pés durante uma luta, você está morta. — Ela continuava a falar, era uma professora de feitiçaria exigente.
De início, Zafrina fora como um favor a Edward; a família Cullen tornara-se grande amiga da família Rendy; mas, quando o tempo estabelecido entre eles acabou ela continuou ensinando.
— Uma Swan deitada esperando pela morte! — os cabelos da rainha agitavam-se enquanto via Bella levantando-se.
Bella voltou a tentar formar as plataformas sob os pés enquanto caminhava; Zafrina lhe jogava flechas sem pontas e a atacava; a missão dela era conseguir escapar sem cair, usando seus poderes como auxílio.
O gosto que Zafrina pegara para ensinar não atribuía-se apenas a habilidade natural de Bella para atrair desafios e se sair muito bem deles, ela também queria saber como seria uma Swan. Ela repetira inúmeras vezes ao encontrar Bella; um dos motivos pelos quais Edward insistira em fazer o encontro entre as duas acontecer, a família de Zafrina era conhecida pelas gerações de feiticeiros e, há milênios, antes do exílio dos humanos, fora amiga íntima dos Swan.
As duas, ofegantes sentadas sob o tatame, encaram a neve cair; a voz de Bella interrompendo sempre o silêncio com suas dúvidas, para o divertimento de Zafrina — Fico me perguntando, se for mesmo verdade, como deveria ser.
Observaram o horizonte, onde o reino dos híbridos um dia, segundo as lendas, existira. — Um tempo de paz, segundo as lendas, Bella. — Zafrina suspirou sonhadora — É impossível pensar que você aqui seja por acaso; depois de tantos anos, nosso mundo em colapso e a uma das últimas Swan vivas atravessa a muralha. Me faz pensar nas possibilidades à frente.
— Quais possibilidades? — Bella levou uma garrafa de vidro à boca, entornando a água.
— Se o reino híbrido existiu um dia, quem melhor do que você para achá-lo?
A risada de Bella soou — Sim, não é como se não tivéssemos conseguido recuperar as gemas em Auras e Noxvra, não é? — a frase saiu como um resmungo, a frustração e o desespero que as duas semanas que faltavam para a virada secular carregavam consigo.
— Não se cobre tanto, Noxvra... — Zafrina balançou a cabeça — Aro nunca permitiria que alguém tomasse algo de seu reino. E Billy nunca permitiria que você entrasse em Auras, não confiam em humanos, aliados a vampiros então... — ela riu, a mão tocando o braço de Bella – Nós ainda temos a reunião, Bella e, se estivermos sendo sinceras — sorriu empurrando de leve o ombro da outra — Acredito que é você.
Ela olhou ao redor; os pinheiros podres cobertos de neve; antes de responder Zafrina, a voz desesperançosa — Uhum.
O sorriso de Bella era desanimado ao ouvir Zafrina recitar a profecia; a paisagem a frente falando mais que qualquer lenda estúpida.
“Quando a hibrida chegar, a profecia há de se realizar.
O reino verē, com o toque do mar, assim emergirá.”
Capítulo XVII:
A capa branca por cima do uniforme que Bella usava tremia quando desceu as escadas ao lado de Edward; as mãos dela, suadas, grudadas nas dele.
Emmett e Jasper os encontraram aos pés da escada, os dois com o mesmo uniforme de Sargentos do reino de Chriems Glacium. O olhar tenso trocado entre eles, nenhuma palavra fora murmurada quando rumaram até o escritório de Edward.
No centro do cômodo, espirais douradas penduravam-se do teto; posicionaram-se ao centro enquanto Edward os transportava direto para a reunião. A neve, vinda do nada, envolvendo os corpos enquanto a magia os direcionava.
O mundo rodopiava a seu redor quando as botas encostaram o piso de mármore, os braços de Edward firmes ao seu redor.
Com um olhar de Edward pedindo por um momento a sós junto dela, Jasper e Emmett atravessaram em silêncio o portal que dava acesso ao salão da Sede.
— Não saia do meu lado. — A voz dele era urgente ao tomar o rosto dela entre as mãos — E não caia em provocações.
— Edward... — ela balançou a cabeça — Estamos nisso juntos!
Com um suspiro os olhos dele brilharam para os dela quando finalmente concordou. — Eu sei, eu sei. — Deu um beijo na testa dela — Vai dar tudo certo.
Ela encostou os lábios no dele, antes de separarem as mãos e atravessarem o portal juntos.
Uma estrutura impressionante apareceu na frente dos olhos de Bella; sem paredes ou teto, os espaços eram desenhados e delimitados por pilares em pedra carrara ornamentada, em diferentes tamanhos; os detalhes dourados que envolviam os ornamentos brilhavam sob a luz do feitiço de luminosidade. As estrelas deveriam ser lindas vistas dali, ela pensou melancólica ao observar o céu escuro.
A atenção dela voltou-se para a mesa ao centro do salão, onde os doze reis discutiam calorosamente; Edward, ela podia ver apenas sua cabeleira acobreada, mantinha-se calado.
A primeira voz a cortar todas aquelas fora a de Aro, ela reconhecera pela pintura mostrada por Leah; os longos cabelos pretos caindo as costas, o rosto fino e magro a observavam pelos olhos vermelhos brilhantes, uma curiosidade quase doentia enquanto falava e olhava para Bella — Ora, ora... — uma risadinha macabra — Se não é a humana que quebrou o tratado. Venha aqui... — ele estendeu a mão, animado, para ela.
Bem informada por Edward, ela apenas arqueou as sobrancelhas, sem mover-se. — Aro... — a voz de Harry não passava de um aviso baixo.
— Eu só quero conhecer quem é a responsável por trazer o caos a nosso mundo. — Bella precisou respirar fundo algumas vezes para não perder o controle enquanto ouvia o homem que mandara os soldados responsáveis pelo assassinato do pai.
— Ela é uma Swan. — A voz de Harry soava, apaziguadora.
— Uma imunda. Unida a humanos desde que nasceu, na primeira oportunidade, como seus antepassados, fugirá deixando nosso povo em desgraça.
— Chega. — A voz de Edward era um sussurro frio cortando a fala de Aro — Bella... — ele indicou para ela começar a falar.
Antes que ela pudesse abrir a boca, a voz de Aro interrompeu — Daremos voz a traidores agora? Na Sede do Conselho Real? — ele balançava a cabeça teatralmente.
Ignorando a voz que continuava a tentar interrompê-la, ela começou — Atravessei as muralhas para salvar o meu povo e, com a ajuda de todos vocês... — ela olhou nos olhos de cada um dos doze reis a frente — Gostaria de reunir o restante delas, para que juntos possamos rever o fim de nosso mundo. — Enquanto ela falava Edward estendia as dez gemas reunidas; aqueles que haviam cedido de bom grado concordando com a fala de Bella e os demais surpresos.
— Ela nos roubou! — parecia ser a desculpa que Aro precisava para o inferno formar-se no salão.
Edward pôde ver o espectro de dor de Jane deslocar-se, pelo comando de Aro, na direção de Bella; colocou-se à frente quando, antes da bruma vermelha envolvê-lo, um escudo cristalino surgiu em sua frente.
— Você devia ter deixado comigo. — Ela gabou-se, recebendo um sorriso rápido de Edward.
Um tremor tomou a estrutura flutuante da Sede do Conselho Real; todos parando em seus lugares quando Aro, com os olhos mais brilhantes que nunca, gritou por cima de um raio vermelho que partia a Sede em duas.
— O reino de Noxvra declara guerra contra todos os que aliarem-se a híbrida. — A última palavra dita com nojo enquanto fitava os reis e rainhas, aos poucos, tomarem seus lados — Ofereço uma última chance a vocês, — ele estendeu a mão pálida, um sorriso macabro preenchendo os lábios — Entreguem-me a mulher e as gemas, estamos prestes a cometer os mesmos erros do passado — as palmas estendidas agora a frente dele. — Estou oferecendo a paz. — A sobrancelha de Bella enrugou-se pela contradição.
Ela observou Aro balançar a cabeça, fingindo decepção enquanto, um a um, os aliados dele voltavam a seus reinos.; não sem que antes ouvissem a voz Bella, firme – Vocês nos mantiveram em ignorância, mas os ignorantes são vocês. Se meu reino cair, todos nós cairemos.
Capítulo XVIII:
Distraída, ela encarava a paisagem lá fora. O vento gelado que entrava pela janela não a incomodava, a cabeça estava longe.
O nó que formara-se na garganta impossível de engolir quando ela, agora na varanda do quarto no castelo oficial do reino, permitiu-se chorar. Sentiu, enquanto soluçava, o abraço frio de Edward envolvê-la.
— Abandonei minha família para deixá-la morrer. — A voz chorosa soava, a mão grande e gelada arrastando-se preguiçosamente pelas costas.
— Bella, amor... — a voz dele abafada pelo cabelo dela, uma das mãos carinhosamente acariciando os galhos, tão iguais aos dele, que os marcava para sempre — Nós daremos um jeito nisso.
Ela afastou-se dele o suficiente para permitir que Edward se sentasse ao seu lado no banco de pedra — E se não conseguirmos dar um jeito?
Edward sorriu desanimado, secando as lágrimas dela com a ponta dos dedos — Então cairemos juntos. — Encostou a testa na dela, os dois fechando os olhos e abraçando-se.
Capítulo XIV:
Faltavam três dias para a virada secular quando, reproduzindo o que fizera na casa dos Swan, ela deixou o castelo oficial de Chriems Glacium às escondidas.
Sob a penumbra da noite escura, ela, do lado de fora, sentiu aquele rodopio familiar ao transportar-se. Os pés segundos depois tocando o piso de pedras com várias fissuras — Bella, querida, é um prazer revê-la. — a voz aguda de Aro soou do lado oposto à Sede do Conselho, agora partida — Eu sabia que viria. — os dentes afiados refletiram sob o brilho de seus olhos.
— Estou aqui — ela constatou estupidamente.
— Há tanto eu não via um dos seus por aqui. Se refugiaram depois da ideia imbecil de construir uma ponte dando acesso a um reino exilado. — ela ouvia calada, esperando por seu destino, as costas eretas e os olhos sustentando o olhar de Aro — Deviam ter permanecido e morrido com honra, mas vocês todos... — ele a olhou de cima abaixo — Uns covardes imundos. — ele riu cruel — Agora, as gemas.
Os olhos dela formando fendas enquanto os lábios formavam uma linha fina — O combinado não foi esse.
Mais uma risadinha — Surpresa! — agitou as mãos.
— Não estão comigo. — ela respondeu simplesmente; o sorriso dele estranhamente alargando-se.
— Sabe, Bella, conheci seu povo... Aprendi a não confiar em vocês; são serezinhos sorrateiros. — Ele balançou a cabeça — Pensando bem, mudo minha proposta. — ele foi interrompido por xingamento dela — Oh, a rainha de Chriems Glacium, tsc tsc, tão deselegante.
— Estou cumprindo minha parte do acordo, Aro. — ela não deixaria transparecer o medo que sentia; a voz continuava firme enquanto falava — Cumpra a sua.
— Percebi, Isabella... — ele sentou-se num dos tronos — Que a paz é uma coisinha muito importante para você e que tenho muito poder nessa negociação. — ela notava, finalmente, diversos soldados dos reinos que aliaram-se a ele atacando a muralha; os soldados Nebhreta, Metmmarum, Auras, Excotur lançando feitiços e suas armas.
O grito dela cortou a noite, os olhos arregalados ao ver os pedaços da muralha, agora visível, despencando; a magia enfraquecendo no ponto onde mais fora preservada. Ela sentiu a mão gelada de Aro em seu ombro, antes que pudesse afastá-lo, ele já estava novamente sentado no trono, um sorriso alegre nos lábios.
— Imagine só para onde enviei os soldados do meu reino — tentava, com sucesso, atiçar a curiosidade dela; os soldados Noxvra, conhecidos pelas atrocidades que cometiam a mando de seu rei.
— Aro... — ela começou, a voz ameaçadora; o fluxo de magia irradiando por seus olhos, os cabelos flutuando ao redor.
— Poupe-se, Isabella! — ele descartou sua fúria com um gesto da mão — Meus soldados foram eficazes antes matando Charlie Swan, a precisão... — ele levou a mão em concha a boca, beijando as pontas dos dedos — Um reino que ínsita rebelião como Chriems Glacium tem que sumir... — a voz sugestiva sumiu quando Bella atirou-se contra Aro.
Com um movimento rápido ele tentou livrar-se dela, mas a magia o desorientou por segundos suficientes para que ela pudesse apoiar os pés nos ombros dele e tentar puxar sua cabeça. Com o ódio colorindo sua visão via a pele de Aro trincando-se, o pescoço aos poucos soltando de seu corpo; foi quando sentiu ele forçar o corpo piso abaixo da estrutura flutuante, os lançando em queda livre.
Um raio cortou a noite quando os dois mergulharam na escuridão.
Ele viu a chegada dos Noxvra pela visão de Alice; a decisão tomada apenas com a chegada nos portões do reino. Instruira os aliados, junto de uma parcela de seu exército, a protegerem a muralha dos ataques que aceleravam sua queda.
Edward transportou-se até o porto onde ficavam os portões de proteção; Alice e Jasper responsáveis por Alec e Jane, Emm compenetrado contra Félix; os olhos fixos na figura mais ao fundo enquanto os soldados guerreavam ao seu redor.
Com um piscar de olhos ele estava ao lado de Chealsea; os olhos vermelhos o encarando enquanto ela formava, com ar de tédio, um espectro preto.
— Surpreso? — a pergunta foi seguida pelo lançar, desajeitado, do espectro — Puff! — ela divertia-se com o desafio, há anos tentava romper os laços de Edward com a família, mas o vampiro era rápido demais. Tentava formar outro espectro quando sentiu ele tentar amarrá-la; o chute certeiro acertando-o no peito e lançando-o a metros dali.
Rapidamente Chelsea alcançou o vampiro, os olhos brilhando enquanto o lançava novamente pelo ar, chutando agora seu rosto. Foi ao tentar dar o terceiro chute que ela sentiu a mão forte dele envolver o tornozelo dela, tentando derrubá-la. A rapidez dos vampiros era aliada e inimiga, a briga corporal tornara-se próxima, onde Edward sabia deixar Chealsea em posição de desvantagem para lançar os poderes.
Ele ouviu o raio antes de avistar, pela visão periférica, um borrão atravessando o céu da noite. Um riso cruel escapou da vampira que, pela distração dele, conseguiu afastá-lo com uma cotovelada — Pobrezinha, nem teve chance de assumir a coroa!
Sob a mira de Chelsea ele fixou os olhos nas figuras que lutavam agarradas enquanto caíam ao mar.
— Bella! — a voz não passava de um sussurro quando ele caiu de joelhos na neve. Sentiu o impacto como se fosse em seu próprio corpo; o gosto impossível da bile lhe subindo num piscar; a vontade de desistir de tudo e ele mesmo quebrar as barreiras ao atravessá-las sendo impedida apenas pelo dever maior do reinado; ele abaixou a cabeça em direção a neve, não aguentava permanecer ali; sentia como se fosse explodir em milhões de pedacinhos e mesmo assim continuava ali, inteiro e pronto para sentir a dor de ser partido repetidamente.
Um rosnado escapou dos lábios de Edward quando lentamente virou a cabeça na direção de Chealsea, os olhos brilhando furiosos; a neve ao redor formando um redemoinho violento, arrastando sem cerimônia os invasores do reino dele; as forças esvaindo-se de seu corpo enquanto a voz de Bella sussurrava repetidamente em sua cabeça “Se tudo der errado, prometa que vai confiar em mim”.
Capítulo XX:
Durante a queda, Bella abraçou-se a Aro; os olhos brilhando enquanto sentia as tentativas de fuga dele serem frustradas pelas amarras mágicas que o prendiam.
Mergulharam juntos na escuridão, o corpo dela afundando com força sob o chute que Aro conseguira dar ao escapar durante o impacto com o mar; Bella, abrindo a boca num grito silencioso de dor, engasgou com a água.
O ar faltando-lhe, quando as forças para continuar lutando abandonaram seu corpo, que afundava agora lentamente.
A voz de Zafrina parecia ecoar a tantos pés abaixo do mar, repetindo sem parar a profecia sobre o reino híbrido.
Ela sentiu como se estivesse sendo abraçada; recuperando o ar de um local que não sabia existir, abriu os olhos num rompante vendo os galhos brancos envolvendo seu corpo acima de um piso cristalino enquanto ela via o que achava ser uma plataforma avançar a superfície.
O solavanco ao finalmente emergir fora assustador; uma onda de poder espectral lilás rompendo de seu peito e cobrindo todos os reinos. O corpo de Bella tremia olhando ao redor chocada quando finalmente conseguiu sentar-se; uma longa e cristalina ponte ligava o reino de verē, nas alturas, ao reino de Chriems Glacium.
Ela ainda tremia quando avistou Edward chegar, naquela nuvem familiar de neve, no meio da ponte. Com o corpo cansado despencando para o lado, ela sentiu os braços dele envolverem-na, a voz sussurrando entorpecida em seu ouvido – Graças a deusa, Bella! – beijou o alto da cabeleira branca.
— Todo mundo está bem? — ele sabia, sem que ela precisasse detalhar, que ela incluía Renée e Jess na frase; ele só pôde acenar antes de observar ela desmaiar.
Abrindo os olhos com dificuldade ela tentou sentar-se, estranhando de imediato o local. Uma mão familiar gelada envolveu sua testa, obrigando-a a voltar a deitar.
— Bella, amor, descanse. — ela virou a cabeça para ver Edward sorrindo preocupado — Está se sentido bem? — ele esperou ela acenar com a cabeça, deu um beijo na testa dela e voltou a encarar os olhos brancos — Como eu disse a você, todos estão bem, mas Emmett foi atacado por um dos Noxvra durante o ataque.
— Você disse que estava tudo bem! — ela começou a levantar e dessa vez Edward não a impediu. — Onde ele está? Ele está vivo? — o coração acelerava lembrando da última vez que ouvira palavras parecidas.
— Bella, olhe para mim. — Edward envolveu o rosto dela com as mãos, suas peles em contraste — Emmett está vivo. — Tranquilizou-a — Está se recuperando numa outra ala da enfermaria. Agora ele está dormindo, mas Leah está com ele. — Ele a observou voltando sozinha para a cama; ficaria na enfermaria até que Bella pudesse voltar para casa.
Virou a maçaneta da porta com cuidado; acabara de ser liberada e insistira em visitar Emm antes de descansar.
Surpresa com o que via pela porta aberta, entrou no quarto. Emm estava de pé, colocava alguns itens entregues por Leah, dentro de uma bolsa couro — Já está de saída? — a voz de Bella chamou a atenção dos dois.
— Já? — o amigo virou-se na direção dela, o sorriso largo deixando as covinhas da bochecha à mostra — Não aguento mais! — ele a abraçou com dificuldade para não provocar dor; o braço direito fora amputado pouco depois do cotovelo — Mas tenho de concordar... — ele virou para Leah enquanto as duas abraçavam-se — As drogas de vocês… — assobiou—– deixam as humanas no chão!
As duas riram; Leah saindo para lhes dar privacidade.
Os dois trocaram olhares, encarando-se em silêncio, os olhos cheios de lágrimas — Nós conseguimos!
— Conseguimos. — Ela confirmou, os dois rindo como crianças enquanto voltavam a abraçar-se.
Epílogo:
A sensação agridoce não deixava a boca do estômago de Bella.
Num luxuoso vestido branco com pedrarias incrustadas, a agora oficialmente rainha dos reinos de verē e Chriems Glacium observava Alice escolhendo a música certa para a virada secular.
A tranquilidade dos últimos dias, com a desistência — ela sabia temporária — dos Noxvra e seus aliados garantira a paz nos reinos.
Ela sorria após a ceia, notando sua nova família divertindo-se, envolvidos em suas conversas e danças. Ninguém notou quando Edward guiou Bella para fora do salão cheio do castelo, transportando-se com certa dificuldade pelos beijos, até o ponto mais alto da torre do castelo de Vere.
Ela encarou de frente a beleza dos reinos em sua totalidade; nos últimos dias o mundo voltara a estabelecer-se como antes. Uma lágrima solitária escorreu de seus olhos quando a visão voltou-se ao reino humano; era difícil deixar de lembrar que, sendo rainha, atravessar as muralhas significava o fim do tratado entre todos os povos e a deusa.
Sentiu os braços de Edward embalando-a num abraço, os olhos fixos nos dela enquanto enxugava a lágrima no rosto dela com uma lambida — Eh! — o resmungo de Bella, seguido do riso, ainda meio fungando, fez-se soar mesmo com os gritos de contagem regressiva que os convidados faziam no salão.
Sob a luz das brilhantes estrelas eles dançaram enquanto, com calma, sentiam a magia envolvê-los pelos segundos que as estrelas coloridas pareciam explodir no céu.
A magia renovando-se por todos os reinos quando ele sussurrou, no pé do ouvido de Bella — Ninguém jamais amou alguém tanto quanto eu amo você, Bella. — Beijou-lhe os galhos pintados pela magia em seu ombro, as mãos escorregando pelas costas de sua rainha enquanto a guiava numa dança lenta noite afora.
Fale com o autor