verde/prata

8 Início, IV: Natal


Dominique

— Domi, où es-tu?

Dominique reconheceu a voz que a buscava antes que a dona abrisse a porta de seu quarto. Sentou-se na cama do antigo quarto de Bill, abrindo um sorriso no rosto, e viu Julie no batente da porta, olhando-a com expectativa. Tinha os cabelos loiros mais longos do que nunca, quase na altura da cintura, e parecia mais magra do que a última vez que se viram. Seu rosto, entretanto, ainda era o mesmo de sempre, em formato de coração e com as bochechas altas, iluminado pela alegria do reencontro.

— Julie!

A ruiva levantou-se e foi até a porta, abraçando a prima longamente.

— Ok, ça suffit. Não precisa me sufocar. — Julie brincou, desvencilhando-se dos braços apertados da outra — Senti sua falta também.

As duas eram melhores amigas desde que podiam lembrar. Cresceram juntas, mais próximas uma da outra do que de suas próprias irmãs, se separando somente aos dez anos, quando tia Gabrielle mudou-se de volta para a França para que suas filhas estudassem em Beauxbatons como ela havia feito.

A distância mudou a dinâmica da relação entre as primas, mas não enfraqueceu a conexão que tinham. Elas trocavam cartas regularmente e, quando se encontravam — o que acontecia todo ano rigorosamente nas férias de Natal ou no verão — sentiam como se nada tivesse mudado.

Elas passaram cerca de duas horas no quarto, confidenciando as últimas novidades de suas vidas e atualizando-se sobre o que tinham feito desde a última vez que se viram. Julie estava deitada de barriga para baixo na cama, com as pernas balançando no ar, quando Dominique narrou o que havia ocorrido no último encontro que tivera com Scorpius Malfoy nas masmorras.

— E como você se sente? — a loira questionou, visivelmente animada — Está interessada?

Dominique deu de ombros.

— Eu não sei, Juliette. — respondeu, usando o apelido carinhoso pelo qual a família da mãe lhe chamava — A verdade é que eu nem o conheço.

Antes que recebesse um argumento, um conselho ou o que quer que a prima tivesse elaborando para o momento, a porta do quarto se abriu. James enfiou a cabeça para dentro do quarto, os cabelos cacheados bagunçados pelo vento.

— Ei, Julie. Oi, Nicky. — cumprimentou, chamando Dominique pelo apelido que ele mesmo inventou e que ela já havia deixado claro que não gostava. — Jules, você quer se juntar a nós para uma partida de Quadribol? Se você aceitar, vamos conseguir fechar dois times de cinco.

A francesa lançou um olhar para Dominique, que acenou despreocupada com a cabeça. A conversa das duas poderia continuar em outro momento.

— Claro. Vou trocar de roupas e descer em um instante.

***

Quadribol era só uma das coisas que James e Julie tinham em comum, e os dois haviam se aproximado nas últimas vezes que ela viera visitar os Weasley. Dominique frequentemente os via conversando baixinho ou trocando olhares que pareciam dizer mais do que ela conseguia perceber. Em certos momentos, ela percebia que eles silenciavam ou mudavam de assunto quando alguém chegava. Entretanto, a ruiva preferia não pressionar a prima para contar-lhe nada, porque acreditava que se algo acontecesse, Julie se sentiria confortável o suficiente para tomar a iniciativa de dividir.

Dominique estava sentada na sombra de uma grande árvore do jardim, observando a família jogar ao pôr-do-sol. Ela nunca foi admiradora de Quadribol, mas achava bonito observá-los naquele momento, entre risadas estridentes e arremessos quase inofensivos de balaços. James acertou um tiro preciso em Albus quando ele estava a centímetros de capturar o pomo e o irmão mais novo teve que debater-se para manter o equilíbrio sobre a vassoura, o que deu a Lily o tempo que ela precisava para alcançar a bolinha dourada primeiro.

James, Julie e Fred largaram as vassouras no chão, comemorando a vitória e ainda falando sobre as jogadas, e sentaram-se no pé da árvore em volta de Dominique.

— Se você quiser, Nicky, eu posso te ensinar a jogar também. — James sugeriu, com um sorriso irônico. — Assim você não precisa ficar só assistindo. Acho que daria uma boa artilheira, se você for rápida.

Dominique balançou a cabeça com veemência, porque aquela ideia era absurda.

— Obrigada, James, mas meu lugar é nas arquibancadas. — ela replicou.

— Infelizmente, na torcida errada. — James observou, chutando para longe uma pedra próxima.

***

O Natal passou como todos os anos, com A Toca apinhada de gente e a avó Molly enchendo todos os filhos e netos de mais comida do que era possível dispor sobre a mesa. Dominique ganhou dela um par de meias tricotadas de beleza duvidosa, que ela vestiu com carinho para agradar a avó. Seus pais lhe presentearam com uma linda capa nova, verde-esmeralda, e até mesmo Julie lhe entregou um colar ornado com um pingente pequeno, em formato de gota. A loira tinha um exatamente igual no peito.

— É pra mantermos o contato, mesmo à distância. Se você quiser falar comigo, é só segurá-lo assim — ela mostrou, tomando a sua pedra entre os dedos. O colar na mão de Dominique esquentou em resposta e sua coloração mudou de prateada e fosca para um branco brilhante.

O resto das férias foi-se com uma rapidez indesejada. Com Julie n’A Toca, James e Fred passavam mais tempo por perto, fazendo-lhes companhia, e Dominique se sentia bem com aquela aproximação, porque se via mais leve e feliz quando a prima estava presente. Os quatro dividiam momentos e conversas sentados pertos da lareira até a hora de ir dormir. James e Fred pareciam menos piadistas nestas ocasiões.

No dia em que partiria de volta para a França, Julie chamou Dominique para conversar.

— Tem algo que preciso contar. — ela confessou, puxando a prima para sentar-se na cama ao lado dela.

— O que foi?

— Já faz alguns dias que… Fred e eu estamos, hum… — Julie parecia muito hesitante, mas tinha um brilho animado no olhar. — Eu não sei muito bem o que estamos fazendo, na verdade.

— Fred?!— Dominique indagou, uma oitava mais alto do que gostaria, o que lhe rendeu um “shhh!” exasperado. — Está bem, desculpe. Mas o que aconteceu entre vocês?

— Nós nos beijamos, algumas vezes. Nada de mais. Mas ele é gentil comigo, e eu acho que gosto dele também.

Dominique encarou a prima, ainda absorvendo a informação e tentando suprimir a imagem de Fred palhaço que tinha em sua mente, transformando-o no garoto alto de ombros largos e pele escura que ele havia se tornado depois da puberdade.

— Isso é ótimo, Juliette. — a ruiva concluiu, com alegria sincera — Eu não esperava. Achei que você tinha interesse em James.

A sobrancelha de Julie franziu com a surpresa.

— James?

— Sim. Eu vi vocês conversando e trocando segredos.

Os cantos dos lábios da loira se curvaram para cima com repentina compreensão, mas ela conteve o sorriso.

— Oh, non. Você entendeu tudo errado, Domi.

Antes que Dominique pudesse perguntar o que aquilo significava, Julie começou a fazer sua mala, fazendo-a prometer que escreveria quando voltasse a Hogwarts.