Notas iniciais
espero que gostem

— Porque o que você tem não é só uma simples tontura… você vai ter um bebê — disse Cláudia.


...


Mansão Bracho


— Não, vovó Piedade, foi só uma maneira de dizer — respondeu Laura, impaciente.


— Ótimo. Porque se eu descobrir que meu neto teve alguma coisa com aquela maldita, eu não vou suportar. A história mudaria por completo — disse Piedade, séria.


— O advogado me falou sobre o cheque de dois milhões — comentou Laura, mudando de assunto.


— E eu sei que vale bem mais do que as ações do Rodrigo, mas você merece. Assim poderá seguir sua vida — respondeu Piedade.


— Eu não aceitei. Com a morte do Rodrigo, eu fiquei muito sozinha… e a senhora também. Ainda mais com Carlos Daniel morando na Espanha. Eu não quero nada, quero apenas ficar aqui com a senhora — disse Laura.


— Obrigada, minha filha. Você será uma ótima companhia — disse Piedade, segurando a mão dela.


Marcos apenas observava tudo em silêncio, com um pequeno sorriso nos lábios.


Casa de Menores


Paulina começou a chorar enquanto colocava a mão na barriga.


— Você vai ter um filho… e essa criança tem um pai. Quem é ele, Paulina? — perguntou Cláudia.


— Eu não sei… não me lembro — respondeu Paulina, chorando e levando as mãos até a cabeça.


— Você precisa tentar lembrar do que aconteceu naquele dia.


Paulina respirou fundo antes de começar a falar.


— Eu tinha ido ao mercado para minha mãe. Já era noite, mas como eu sempre andava por ali, não tive medo. Quando estava voltando, percebi que um homem vinha atrás de mim.


”Então comecei a andar mais rápido… mas ele veio atrás. Depois comecei a correr. Entrei na capela da igreja e fechei a porta. Escorei com algumas coisas, mas ele arrombou a porta.”


As lágrimas desciam sem parar pelo rosto de Paulina.


— Ele me agarrou… começou a me tocar… me beijar… eu pedia para ele parar, mas ele não parava. Rasgou minha roupa…


Ela começou a tremer.


— Depois disso ficou tudo escuro. Eu não lembro de mais nada. Só vi o rosto dele de manhã, quando acordei… e ele estava morto. Mas eu não matei ele… eu não lembro de mais nada… — disse desesperada.


— Calma, Paulina… — disse Cláudia, tentando confortá-la.


— A única coisa que eu sei é que ele foi o único homem que me tocou… eu não quero um filho desse homem — disse Paulina, chorando.


...


Oito meses depois


— AAAAAI! — gritava Paulina fazendo força.


Ela estava entrando em trabalho de parto.


— Força, Paulina! Você consegue! — dizia Cláudia.


— Tá doendo muito, Cláudia! — chorava Paulina.


— Só mais um pouco! — incentivava a médica.


Paulina fez toda força que conseguiu.


Paulina narrando


Com apenas mais uma força… ouvi um choro.


Era o meu bebê.


Meu filho tinha nascido.


— É um menino lindo, Paulina. Parabéns — disse a médica.


Cláudia o pegou no colo.


— Eu quero dormir… estou com sono… — falei sem olhar para a criança.


— Espera, Paulina. Olha seu filho antes de ir para o quarto — pediu Cláudia.


— Não quero… eu não consigo… — respondi.


Naquele momento eu não seria capaz de olhar para ele.


— Deixa ela descansar. Mais tarde ela vê o menino — disse a doutora.


...


Horas depois


Hospital


Eu estava acordada olhando para o nada.


Minha dor parecia não ter fim.


Agora eu teria que viver com a prova viva do meu pesadelo… uma criança que não tinha culpa de nada.


— Olha, Paulina, quem veio te visitar — disse Cláudia entrando no quarto com o bebê nos braços.


Eu não conseguia olhar.


Sabia quem estava com ela.


— Paulina, eu sei que é difícil. Mas essa criança não tem culpa de nada. Acima de tudo, ele é seu filho. Não importa o que o pai dele fez… ele tem seus olhos. Parece muito com você — disse Cláudia, tentando convencer Paulina.


Eu continuei sem olhar.


Eu sabia que aquela criança não tinha culpa… assim como eu também não tinha.


E, bem ou mal, ele era meu filho. Precisava de mim.


Mas eu estava ferida demais.


Tinha muita dor dentro do meu coração.


— Olha, Paulina… ele é tão pequenininho. Precisa mamar — disse Cláudia, balançando o bebê que não parava de chorar.


Meu coração me traiu naquele momento.


Pela primeira vez senti vontade de acalmar aquele pequeno ser.


O famoso amor de mãe, que mesmo sem eu admitir já existia dentro de mim, falou mais alto.


Então olhei pela primeira vez para meu filho.


Tão indefeso.


Tão pequeno.


E claramente com muita fome pelo tanto que chorava.


— Segura, Paulina… seu filho — disse Cláudia colocando ele nos meus braços.


Quando o peguei, toda rejeição que eu sentia se transformou em amor.


Um amor tão grande que me fez esquecer tudo ao redor.


E como mágica, ele parou de chorar.


Passei a mão em seu cabelinho e beijei sua testa.


— Ele é lindo… e muito pequenininho. Parece uma boneca — falei segurando sua mãozinha.


— E como vai se chamar? Já escolheu um nome? — perguntou Cláudia.


— Vai se chamar Miguel — respondi sorrindo.


— Lindo nome. Combina com esse anjinho. Agora dá de mamar para ele, eu vou sair para deixar vocês mais à vontade — disse Cláudia saindo do quarto.


— Meu filhinho… — falei acariciando o rostinho dele.


— Prometo que vou te amar muito, apesar de tudo isso.


Então coloquei ele para mamar.


...


Mansão Bracho


Durante aqueles meses, Carlos Daniel veio apenas uma vez visitar a avó.


Ele ainda sofria muito pela morte do irmão e havia jurado que a assassina dele pagaria pelo que fez.


— Fiquei sabendo que aquela maldita deu à luz hoje — comentou Piedade.


— Pra senhora ver… ela era uma qualquer. Nem deve saber quem é o pai daquela criança — disse Laura irritada.


...


Casa de Menores


Um mês depois


Cada vez mais Paulina se apegava a Miguel.


E sofria só de pensar que logo teria que se separar dele.


Paulina narrando


Eu estava trocando Miguel quando Cláudia entrou dizendo que minha irmã tinha chegado.


Terminei de trocar ele e fui encontrar Amanda.


— Paulina, minha irmã… que saudade! — disse Amanda abraçando ela.


— Também senti sua falta… você sumiu — respondi.


— Estou trabalhando demais.


— Eu entendo.


Continuei balançando Miguel nos braços.


— Mas eu vim conhecer meu sobrinho. Que coisa mais linda! Posso pegar ele? — perguntou Amanda.


— Claro.


Entreguei Miguel para ela.


Conversamos por algum tempo.


Então percebi que Amanda parecia estranha.


— O que foi? Você tá com uma cara preocupada.


Amanda respirou fundo.


— Paulina… eu recebi uma proposta de trabalho. E aceitei.


— Que bom! Fico feliz por você — respondi sem entender a expressão dela.


— Eu vou ganhar muito bem… vou trabalhar em Miami.


— Tão longe assim? — perguntei triste.


Depois do meu filho, Amanda era tudo que me restava.


— Sim… e eu gostaria de fazer uma proposta para você.


— Que proposta?


— Me deixa levar seu filho comigo. Logo você vai ter que se separar dele… e eu sou a única família que você tem.


Uma lágrima caiu pelo meu rosto.


— Levar o Miguel pra tão longe…


— Se você não entregar ele para mim, vai ter que entregar para um abrigo. E talvez nunca mais veja seu filho de novo.


Aquilo me destruiu por dentro.


— Não precisa responder agora. Eu vou semana que vem. Pensa com calma — disse Amanda devolvendo Miguel para mim.


— Agora eu preciso ir. Tenho que arrumar algumas coisas para a viagem. Se cuida.


Amanda abraçou Paulina, acariciou a cabeça de Miguel e foi embora.


Voltei para o quarto pensando em tudo que ela tinha dito.


— O que foi, Paulina? Por que essa cara? — perguntou Cláudia.


Então contei tudo.


— Paulina… eu sei que dói, mas Amanda está certa. Ela é sua única parente. Você pode entregar Miguel para ela… ou para um abrigo.


Cláudia suspirou antes de continuar.


— Com Amanda, você sabe que poderá reencontrar seu filho quando sair daqui. No abrigo, existe o risco de nunca mais vê-lo.


— Eu sei… mas é difícil pra mim — respondi chorando.


A ideia de viver sem meu filho me assustava.


...


Os dias passaram.


E, por mais que doesse, eu sabia que ficar longe de mim talvez fosse o melhor para Miguel.


Amanda cuidaria bem dele.


— Paulina, sua irmã chegou — avisou Cláudia.


Mansão Bracho


— Carlos Daniel, meu neto! Que bom que você ligou! — disse Piedade atendendo o telefone.


— Vovó, que saudade.


— Ainda não acredito que você vai voltar.


— Já estou terminando a faculdade. Faltam apenas dois meses. Quando eu voltar, vou assumir a fábrica — disse Carlos Daniel.


— Que bom, meu neto. Eu sempre quis que a fábrica fosse administrada por você e Rodrigo… mas agora sobrou apenas você.


Casa de Menores


— Então, Paulina… você já tem uma resposta? — perguntou Amanda.


— Já… você pode levar Miguel — respondi deixando uma lágrima cair.


— Que bom que aceitou. É a melhor escolha a se fazer — disse Amanda triste pela irmã.


Beijei meu filho e o abracei bem apertado.


Aquele corpinho tão pequenininho…


— Eu te amo, meu filho… — falei ainda abraçada com ele.


— Cuida bem dele, Amanda. E me manda fotos para eu acompanhar o crescimento dele.


— Pode deixar. Vou te manter informada de tudo.


— Fala sempre de mim pra ele… mas não diz que eu estou presa.


— Não vou dizer nada. Vou cuidar dele como se fosse meu filho.


Passei a mão no cabelinho dele.


— Tchau, meu amor… eu te amo. E quando eu sair daqui, vou correr para te encontrar. Nunca mais vou me separar de você.


Amanda começou a chorar.


— Paulina… eu prometo pagar o melhor advogado que eu puder para você sair logo daqui. Eu te amo muito. Fica bem.


Cinco anos depois...