um passo...

1 Capítulo Único


Minha cabeça dói.

Se eu soubesse como impedir isso, não pensaria duas vezes antes de tentar. Mas como calar essas vozes, apagar essas imagens e desaparecer com esse sentimento? Onde escondem a mágica para que eu possa resolver esse martírio? Como se existisse algo assim...

Esses pensamentos me assombram, atormentando-me a cada misero segundo em que permaneço consciente, agarrando-se nas entranhas de minha mente fraca. Adormeço com a esperança de um momento de paz, inútil, infelizmente, pois há os pesadelos que aterrorizam minhas noites mal dormidas.

Isso reside em mim, não existe maneiras de negar. Já tentei.

Ainda tento.

Um dia se torna uma semana que se torna um mês... repetindo e repetindo até que eu me perca no tempo. Alguns dias são bons, divertidos e me fazem esquecer. Outros nem tanto e eu sinto eles me arrastarem cada vez mais fundo.

O sol se abre e sempre traz com ele seus raios de luz, isso é fato. Mas o que é isso comparado a imensidão do abismo em minha frente? A luz do sol não atinge as profundezas de um oceano, e aquele estava completo de incertezas. Não há nada ali, nada que eu possa ver, pelo menos. Então porque ele me atrai tanto?

Não há som, nem luz, nem um fundo visível. No entanto, esse abismo parecia se conectar com a massa negra que fervilhava dentro de mim, puxando-me em seu encontro.

E quando o abismo externo se conecta com o interno não há como fugir; uma parte de mim compreende isso.... enquanto a outra tenta esquecer – sem sucesso.

Se eu ceder, o que isso significaria? Que não tenho forças para continuar ou que apenas busco a calma?

Um passo...

O que me impede? Sei a resposta, e é por isso que ainda resisto.

Há sempre um lado perdedor em uma guerra. Por mais bravamente que se lute, sempre tem um perdedor. E o pesar da derrota, uma bagagem que outro terá que carregar; uma corrente pesada.

Um passo... e o que? Tudo irá desaparecer? Flutuarei naquele abismo enquanto o meu próprio desvanece?

Ou irei me engolfar de tal modo que a única coisa que me permitiria fazer seria continuar a cair e cair e cair, sem nunca alcançar um fim, eternamente atado à um ciclo sem esperanças?

Mas não é assim que me sinto agora?

O que mudaria, então?

Seria essa a chance de calar o abismo ou apenas uma vã esperança gerada pelos meus profundos desejos?

Enquanto fito o abismo diante de mim e busco abrandar o que me consome, não consigo resolver estas questões que me afligem. Assim sei que ali elas permanecerão, fustigando-me. Assim sei também que esse sentimento irá retornar, mais rápido do que eu gostaria, e em uma intensidade que me fará perder o fôlego. E me verei ali, mais uma vez, encarando o abismo. Tão próximo que eu até mesmo sinto o ar correr pelas pontas de meus dedos em direção ao vazio.

Um passo... e algo terminaria, disso tenho certeza.

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