tudo que ficou para trás foram meus passos no chão
1 único — você pode ficar com meu império de poeira.
Notas iniciais
tudo que ficou para trás foram meus passos no chão
único — você pode ficar com meu império de poeira
(para moon, porque nessa vida a única coisa importante é ter livros para cuidar, cachorros para amar e pessoas por quem se encantar.)
Você pode ficar com o cachorro, mas eu vou levar o gato. Você pode ficar com aquele sofá — aquele amarelo — que eu sei que você adora, mesmo que ele seja absolutamente horroroso. Mas tire suas mãos da cafeteira — é minha, não largo, não divido. Entre nós dois, eu sempre fui o único que bebia café. Você preferia chá. Eu sei que você adorou aquele quadro com aquela paisagem invernal que compramos no verão passado, em Veneza, então é sua. Não quero nada que me lembre daquele verão terrível. Tinha tanto mosquito que eu achei que ia morrer. Mas aquela pintura — aquela com paisagens gregas — é minha. Definitivamente, é minha. Você detesta história, e eu amo, nada mais justo que ela fique em minha posse. Nada menos que óbvio.
Pegue o conjunto de by Text-Enhance\">sobremesa, é seu mesmo, foi um presente pra você. Eu te dei, mas não quero de volta. Não quero nada que eu te dei. Nem os bichos de pelúcia, nem as roupas, nem aquele by Text-Enhance\">perfume que se brincar ainda estou pagando as prestações. Fique com tudo. Jogue no lixo, se quiser. Não quero nada de volta.
Quanto às coisas que você me deu, é problema meu. Ainda estou decidindo o que eu vou fazer com elas. Mas garanto, nas cartas eu botarei fogo. Não sou de curtir nostalgia, vou acabar com tudo, reduzir tudo a cinzas, para que eu não tenha para onde correr quando a saudade bater. Não vai existir nada.
De tudo que é de fato seu, só quero a camisa azul. Considere como uma recordação. Ficamos juntos muito tempo, eu posso queimar tudo — eu vou queimar tudo —, mas mesmo assim ainda não posso te apagar. Então, que assim seja, dê-me a camisa azul. Talvez eu durma com ela algumas noites. Talvez.
Leve os travesseiros, mas me deixe os cobertores. As noites andam frias, e eu nunca dormi com travesseiro mesmo. Você sempre sentiu calor com temperaturas absurdas para a existência humana, então você não vai sentir nem falta.
Quanto a nossas fotos, pode ficar com todas. Absolutamente todas. Não quero nenhuma — talvez, só talvez, eu volte para pegar aquela do Natal retrasado. Quando passamos com a minha família. A que fica emoldurada na sala. A camisa, a foto, um bocado de lembranças. Isso é tudo que eu vou levar de você.
Eu quero guardar só aqueles bilhetinhos que ficavam na geladeira. Pregados. Os coloridos, que nós grudávamos com imãs. Vou enfiar tudo numa caixa, uma caixa bem lacrada, uma caixa azul — você sempre adorou azul —, e escrever bem grande “coisas que eu devo esquecer”. Vou guardar no sótão — na minha nova casa, eu vou ter um sótão — e nunca mais a abrirei. Depois, quando eu me cansar da camisa, da foto e das lembranças, colocarei tudo junto. E esquecerei.
Eu sei que eu não vou ter mais ninguém que me acorde de madrugada com uma flor roubada de algum jardim qualquer, mas de todos os meus problemas, esse é o menor. Por favor, largue a cafeteira. Já falei que ela é minha. Largue-a. Estou falando a sério.
Você pode ficar com todas as memórias e com todas as obras de arte — menos aquela pintura da paisagem grega (ou seria romana?) — e eu vou ficar com a esperança de que um dia eu serei feliz de novo. Mais feliz do que eu fui com você. Eu definitivamente vou ser mais feliz com outra pessoa do que eu fui com você, porque nem é difícil.
Vou sentir sua falta. Principalmente, quando as noites ficarem frias e eu sentir falta do travesseiro. Talvez eu compre outro. Pra suprir a saudade.
De qualquer forma, espero que você encontre consolo no sofá amarelo, na paisagem invernal e nas fotos das viagens que fizemos ao longo do tempo. Eu vou encontrar consolo nas cinzas que eu farei se tornar tudo que me lembrar você, garanto.
De certa forma, vamos todos ser felizes outra vez. Como nós não éramos mais há muito tempo.
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