Era curioso como tudo tinha mudado naquele castelo, ainda sim, tudo permanecia igual. As paredes, uma vez destruídas estavam todas no lugar, o Salão Principal que uma vez testemunhou a queda do maior bruxo das trevas de todos os tempos estava imaculado com gigantescas árvores de Natal em seus quatro cantos, neve caindo do céu enfeitiçado e alguns poucos alunos espalhados pelas mesas de suas casas.

Draco caminhou até a mesa da Sonserina e sentou próximo à extremidade onde não havia alunos. Era estranho estar de volta, era como voltar para casa depois de muito tempo e perceber que as coisas continuavam as mesmas, mas não você. Ele se sentia deslocado, solitário. Havia sido um dos únicos alunos do sétimo ano a voltar para concluir os estudos após a batalha de Hogwarts.

Agora, especialmente para os alunos do último ano, as aulas eram dadas de forma particular em horários em que eles podiam escolher, de acordo com a disponibilidade de cada professor. Isso lhe dava mais tempo livre e dessa forma conseguia se dedicar aos seus estudos avançados para se tornar professor no futuro. Mas, consequentemente, isso lhe dava mais tempo para refletir sobre sua situação atual.

Com seus pais e antigos amigos em Azkaban tudo era esmagadoramente melancólico. Entre os poucos que não foram condenados pelo Ministério existia uma nuvem permanente de culpa, pesar e luto, assim como aquela que o rondava. O preço de ter estado do lado errado da Guerra era cobrado todos os dias, o tempo todo. E ele próprio era seu maior cobrador.

Ao olhar ao redor, os poucos pares de olhos que enchiam o salão o olhavam com medo e receio. E, por mais que tentasse ignora-los, o sentimento de julgamento o acompanhava. Era merecido, ele sabia. E por esse motivo ele gostaria de fazer mais do que só ficar regurgitando esse remorso por si mesmo e pelas coisas que fez. Por isso seu objetivo para se tornar professor de Hogwarts, gostaria de ensinar para as novas gerações tudo o que não pode e não escolheu ser quando teve a chance.

x

Uma espécie de buraco parecia afundar em seu peito, um vazio enorme. Hermione nunca tinha se sentido tão só em toda a sua vida. Harry e Rony estavam passando as festas de final de ano na Toca com a família e por mais que Molly a havia chamado e eles eram como uma segunda família para ela, Hermione achou que esse era um momento só deles, para se recuperarem das perdas.

Então, aqui estava ela, uma das únicas de seu ano a voltar para concluir o sétimo ano, com os pais Obliviados e sem perspectiva nenhuma de recuperação e, sozinha, absolutamente sozinha.

A verdade é que nenhum Natal jamais seria igual aos anteriores, não sem seus pais. Não sem as famosas tortinhas de frutas da sua mãe e sem as histórias tipicamente natalinas que seu pai contava toda véspera da Natal antes do relógio bater meia-noite. As lágrimas caiam de seu olhos ao pensar que nunca teria isso de novo. E o buraco no peito parecia aumentar cada vez mais.

Depois de mais uma vez secar as lágrimas, Hermione decidiu descer para a Ceia de Natal no Salão Principal, talvez ver outras pessoas ajudasse um pouco a sair de sua bolha de sofrimento.

x

Draco estava tão perdido em seus pensamentos que quase não a notou entrar no Salão, seus cabelos estavam presos para cima e, mesmo de longe, ficava evidente que ela esteve chorando há pouco tempo.

É claro que ele sabia que ela também havia retornado para o último ano, eles já haviam se esbarrado pelos corredores e na biblioteca, nos intervalos das aulas particulares. Eles se limitavam a acenos de cabeças cordiais e saudações verbais esporádicas. Mas disso, para vê-la na Ceia de Natal de Hogwarts deixava tudo mais paupável, e cruel. Draco lembrava dela sempre passar as festas de final de ano fora de Hogwarts, com os pais. E agora eles não se lembravam mais dela.

Draco engoliu em seco, sentindo um nó em sua garganta e uma sensação horrível passar pelo seu corpo, arrependimento. E agora, por mais que ele tentasse, não conseguia parar de encara-la.

Ao olhar ao redor Hermione levou um pequeno choque pela quantidade de pessoas que haviam ficado para as festas. Ela nunca havia ficado antes, mas sabia que Hogwarts continuava relativamente cheia de alunos nessa época do ano. Então, como um balde de água fria a lógica por trás disso lhe ocorreu, era o primeiro Natal pós-guerra, era óbvio que todos queriam estar junto de suas famílias e daqueles que amavam para celebrar os sobreviventes da guerra e honrar os que se foram.

Talvez ter descido para a Ceia não tinha sido uma boa ideia, ela agora olhava para o seu suco de abóbora com vontade de sumir, mas sem energia para fazê-lo. Mas algo a mais lhe incomodava, ela olhou ao redor mais uma vez e o viu no final da mesa da Sonserina. Draco Malfoy. Ele a observava sem discrição alguma. Mas é claro que ele também havia ficado para o Natal, os pais dele estavam presos em Azkaban. Era fato, ninguém gostava de passar o Natal sozinho.

Sem conseguir comer alguma coisa Hermione se levantou da mesa e decidiu que iria aproveitar o ar livre. Talvez isso realmente a ajudasse. Sem perceber que os olhos de Draco Malfoy ainda a acompanhavam, caminhou para fora do Salão Principal em direção ao Lago Negro.

Foi só quando Hermione já havia cruzado a porta do Grande Salão que Draco percebeu que talvez a tivesse encarado por mais tempo do que deveria. Ponderou por poucos minutos se deveria se levantar e ir atrás dela, mas antes que tivesse chegado a alguma conclusão já tinha se posto de pé e estava caminhando na mesma direção da estudante da Grifinória.

Draco não precisou procurar por muito tempo ao sair para o jardim já que, apesar da neve, Hermione estava sentada embaixo de uma árvore encarando o Lago Negro. Sem saber muito bem como se aproximar sem a assustar tentou pisar firme na neve para que ela ouvisse seus passos. Assim que ela olhou em sua direção com curiosidade ele declarou mais alto do que havia planejado:

“Peço desculpas, Granger. Minha intenção não era ficar encarando.”

Ela continuou lhe observando por um momento antes de acenar com a cabeça e voltar sua atenção para o Lago.

Sem saber como continuar a interação e com receio de dizer o que queria dizer de verdade, respirou fundo e expressou:

“Eu sinto muito pelo o que aconteceu com os seus pais, sinceramente.” — e olhou para os próprios pés, porque não se sentia corajoso o suficiente para encará-la naquele momento.

Mas se ele a olhasse veria que o semblante de curiosidade havia se transformado em sincera surpresa.

Com a voz um tanto embargada Hermione respondeu:

“Eu também sinto muito pelo o que aconteceu com os seus.”

Draco a olhou e por mais que ela parecesse sincera em suas palavras ele soltou uma risada contida antes de murmurar:

“Você não precisa ser gentil nesse nível. Eles fizeram por merecer…”

Mas antes que ele pudesse acrescentar algo, Hermione balançou a cabeça em negativa e continuou:

“Estou sendo sincera, Malfoy. Perder os pais em qualquer circunstância é doloroso, então eu realmente sinto muito.”

Ele encarava o Lago durante o pequeno sermão e dando-se por vencido, agradeceu:

“Obrigado.”

Indeciso se deveria simplesmente ir embora sem dizer mais nada, Draco ficou parado até que Hermione perguntou sem olhar em sua direção:

“Você quer se sentar?” — agora foi a vez dele a olhar surpreso. — “Ninguém deveria passar o Natal sozinho.” — explicou ainda sem encara-lo.

Sem se permitir ponderar sobre o convite Draco se abaixou e sentou a uma certa distância dela. Ambos passaram a observar, em silêncio, a Lula Gigante mexer seus tentáculos fora da água.

Após poucos minutos, sem conseguir se conter, Draco começou a rir. Hermione o olhou sem entender.

“O que é tão engraçado?”

Draco se virou para ela e apontou para a Lula, narrando em seguida:

“Durante o 1º ano eu cheguei a perguntar ao meu pai se eu arranjaria problema com Dumbledore caso entrasse no Lago para nadar com a Lula Gigante.”

Hermione balançou a cabeça sem acreditar e soltou uma risada fraca.

“O que seu pai respondeu?”

Draco parou de rir e revelou:

“Ele me deu uma bronca dizendo que eu não era mais criança para fazer perguntas idiotas.”

“Mas você só tinha onze anos.” — Hermione argumentou de cenho franzido.

Draco concordou balançando a cabeça e voltando sua atenção ao horizonte.

“Sinto muito por sua infância ter sido difícil dessa maneira.”

Com a parte de trás de sua cabeça encostada na árvore Draco virou o rosto para olhar genuinamente para Hermione.

“E eu sinto muito por muitas vezes ter sido o motivo da sua ter sido pior ainda.” — declarou.

Hermione virou em sua direção e sorriu.

“Obrigada por dizer isso.”

Um silêncio confortável caiu sobre os dois.

“Esse não é o pior Natal que já tive.” — Hermione enunciou. — “Ano passado, nesse exato momento, eu estava com Harry em Godric’s Hollow e por pouco não fomos mortos por Nagini e Voldemort.”

Draco não falou nada, mas ela podia sentir os olhos dele a estudando antes dele também relatar:

“Voldemort e os Comensais estavam praticamente hospedados na Mansão nessa época do ano, o ar exalava tensão e perigo. Eu vivia constantemente com me…”

Então, a lembrança de Hermione deitada no chão de sua sala de estar sendo torturada por sua tia lhe invadiu a mente e as palavras ficaram entaladas em sua garganta. Antes que pudesse processar o que dizer para Hermione, sentiu a mão dela tocar em seu braço, um toque suave, mas firme.

“Eu quero que você saiba que eu não te culpo pelo o que aconteceu.” — garantiu.

Draco sorriu de forma triste e alegou:

“Mas eu sim. Eu deveria ter feito algo, qualquer coisa. Mas tudo o que eu sabia naquela época era como ser um covarde.”

Hermione não respondeu de imediato, ao invés disso voltou seu olhar para frente, apesar de sua mão ainda continuar sobre o braço dele.

“Agora eu entendo seu papel na Guerra. Você foi uma criança ensinada a odiar quem era diferente. E quando teve a oportunidade para fazer algo fora do que foi doutrinado, as únicas opções eram ver sua família morrer ao ir para o lado certo ou se camuflar no lado que já não te representava.” — dissertou e depois o encarou novamente. — “Você simplesmente fez o que precisava fazer.”

Agora Draco a encarava sem conseguir pensar em nada para debater o argumento. Ele não via as coisas dessa forma, ainda achava que poderia ter se oposto contra Voldemort, pensando em um jeito, aceitado ajuda da Ordem da Fênix, feito algo certo. Mas a surpresa era ouvir que Hermione não pensava assim.

“Sabe, Malfoy, eu realmente espero que um dia você consiga se perdoar. Que consiga ficar em paz consigo mesmo.”

Draco estava exposto, completamente. Não sabia o que falar e nem como agir. Só conseguia ficar parado, imóvel. O peso da leveza das palavras de Hermione caindo sobre ele como a neve que ficava mais forte a cada instante. Então, Hermione levantou de súbito tirando ele de seu transe.

“Está ficando cada vez mais frio, acho melhor eu entrar.” — ela anunciou.

Draco concordou sem dizer nada e também se levantou.

“Você se importaria se eu te acompanhasse até a entrada da sala comunal da Grifinória?” — ele perguntou ao mesmo tempo em que parecia muito empenhado em tirar a neve de suas vestes.

“De forma alguma.”

Então, lado a lado eles caminharam. Nenhum invadindo o silêncio do outro, mas ambos com seus corações um tanto mais leves do que no início da noite.

Chegando em frente ao quadro da Mulher Gorda Draco se inclinou e depositou um beijo na bochecha de Hermione quando ela se virou em sua direção para, possivelmente, lhe desejar uma boa noite, mas antes que ela dissesse algo ele sussurrou em seu ouvido:

“Feliz Natal, Hermione.”

E então, se virou para ir embora. Mas então sentiu uma mão lhe puxando e de repente os braços dela estavam ao seu redor lhe dando um abraço.

“Obrigada por ter feito essa noite ser um pouco mais suportável. Feliz Natal.” — agradeceu.

E antes que ele pudesse pensar em retribuir o abraço ela já estava entrando pela passagem da Sala Comunal.

Então só lhe restou ficar ali, sentindo o rastro de perfume dela, com um sorriso sincero nos lábios e sentindo os seus ombros perderem um pouco do peso que carregavam há tanto tempo.


Notas finais
Obrigada pela leitura e até o próximo capítulo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.