the only noise

10 O último dia de paz


A noite foi tensa para todos, fato nítido no clima pesado que os acompanhou durante a primeira refeição do dia. O silêncio era quase sufocante, incomodou Kiba que alternava olhares discretos entre Kankuro, Gaara e Temari, essa última parecendo extremamente aborrecida. Não sentia um pingo de fome, a tensão era quase palpável.

— Vamos? — Kankuro afastou o prato intocado — O hospital te espera.

— Kankuro — Temari avisou — Essas suas piadinhas são péssimas.

— Não foi uma piadinha, nee-nee — ele debochou — Pela escala, hoje é dia de levar Kiba para visitar os pacientes do hospital.

A mão de Temari tremeu visivelmente antes que ela soltasse o talher sobre a mesa. Queria acreditar que aquela inocência na resposta era real. Todo o histórico do irmão do meio desfazia qualquer esperança. A noite anterior foi um teste para os nervos, ela ficou tão atenta quanto Gaara, para interferir caso necessário, ainda que sua presença Beta não fosse detectável.

— O hospital não é apenas no período da tarde? — Kiba questionou de sobrancelhas franzidas.

— Sim, mas pensei em te levar para a feira de novo. Ontem não vimos nem metade dela. Pensei em gastar essa primeira semana passeando por lá — ali estava a simpatia de Kankuro outro a vez, a presença familiar de quando o conheceu em Konoha. Cada vez mais parecia que o havia dois Kankuros! Se Kiba não estivesse perto durante essas “mudanças” acreditaria que aquele Alpha tinha um irmão gêmeo...

— Eu queria comprar uns livros — Kiba suspirou afastando o prato também intocado, já ficando em pé para sair da mesa.

— Conheço um lugar muito bom — Kankuro imitou o gesto de levantar-se — Você vai gostar.

— Tenham um bom dia — Temari desejou.

— Sem dúvidas — Kankuro cruzou as mãos atrás da cabeça, enquanto saia da sala de refeições — Os dias são sempre ótimos.

Os problemas de verdade só apareciam durante a noite...

—--

Naquela manhã não passaram pelo pombal. Kiba não precisava enviar nenhuma carta, por isso foram logo para a cidade. Enquanto percorriam a distância que separava a casa do centro da vila, Kankuro acabou tocando em um assunto delicado.

— Você está tenso demais, relaxa, moleque.

— Não estou tenso. Só não dormi direito — Kiba devolveu com pouca paciência. Então pareceu se dar conta de que não era muito esperto provocar aquele Alpha que tinha indícios de desequilibro bem naquele local onde Gaara ou Temari poderiam interferir ao seu favor.

Kankuro deu uma pequena risada ao sentir o desconforto depois das palavras impensadas e malcriadas. Divertiu-se com a criaturinha impulsiva que tinha ao lado e parecia falar primeiro pra depois refletir nas consequências. O jeito daquele Ômega tinha lá seu charme.

— Pergunte — jogou a palavra ao ar.

— Não entendi — Kiba rebateu.

— Não faça joguinhos, sei que tem muitas coisas que quer saber. Então aproveite e pergunte.

Kiba sondou a expressão do homem que caminhava ao seu lado. Seria uma provocação? Não queria dar corda para se enforcar. Quanto do que Gaara lhe contou era sigiloso? O Kazekage não pediu segredo de nada ao final das revelações! Poderia perguntar coisas intimas e delicadas assim?!

Ficou confuso. Nunca foi de fazer rodeios antes! Sempre foi de pensamento rápido e língua afiada! Mas era a primeira vez que convivia com um Alpha que...

— Você matou um Ômega — por fim se ouviu falando, a acusação saindo sem que fosse planejado.

— Foi um acidente — Kankuro suspirou — O que mais Gaara te contou?

— Não sei de nenhum detalhe. Ele também me disse que foi prisioneiro na guerra e que está proibido de chegar perto de qualquer Ômega de Sunagakure. Mas ontem na feira... caralho, não sei se deveríamos estar tendo essa conversa.

— Ontem na feira eu interagi com Ômegas que trabalhavam nas tendas — não foram muitos, talvez apenas dois. Mas ambos trataram Kankuro com serenidade, até mesmo cordialidade por reconhecer o irmão do Kazekage.

— É. E todo mundo foi bem legal com você, tipo, até acredito que matou por acidente, porque se você fosse um serial killer não estaria andando por aí, não é? Tem coisa que não tá fazendo sentido nessa história...

Kankuro riu um pouco do desabafo efusivo e recebeu um olhar ofendido de volta.

— Eu matei um Ômega por acidente — ele respirou muito fundo — As condições foram... atípicas. O Conselho concordou em manter o caso sigiloso desde que eu aceitasse não me envolver mais com Ômegas do nosso país. Mas não é como se eu não pudesse dar “bom-dia” ou conversar com funcionários. Logo a guerra veio e abafou ainda mais essa história.

Deu de ombros ao narrar o fato. Não queria entrar em detalhes, não precisava dizer que estava tendo sexo com um Ômega que adorava certas práticas um tanto controversas...

Aquele rapaz tinha experiência em certos fetiches, Kankuro não. Quando o Alpha aceitou tentar o que o amante sugeria sequer imaginou o resultado desastroso. Asfixia durante o sexo. Foi intenso, muito, muito intenso. Quando o clímax passou, Kankuro se deu conta de que segurou o pescoço do Ômega com força demais e a asfixia que deveria aumentar o prazer causou a morte do jovem.

Os membros do conselho da vila, tradicionalista em todos os sentidos, ficaram horrorizados. Não tanto pela morte do infeliz, mas pelas condições em que o sinistro se deu. Deduziram que seria um golpe para a imagem de Sunagakure que o irmão do Kazekage se envolvesse em tais fetiches depravados. Foi por conveniência que aceitaram varrer tudo para debaixo do tapete e se conformaram com a proibição de Kankuro de se aproximar de outros Ômegas. Que o homem realizasse suas fantasias sujas com um Beta, que ao menos era mais forte.

Além disso, sabia que uma escolta secreta o seguia durante o dia. Eram ninjas excelentes na arte de camuflagem, que controlavam cada passo dado por Kankuro no instante em que ele saia da própria casa. Por isso ele dizia que os dias eram seguros, porque aqueles guerreiros o abordariam e impediriam de cometer um deslize. Já durante a noite não havia essa “proteção”. Era durante a noite que sofria graves crises. Pesadelos medonhos, onde resquícios do cativeiro voltavam para assombrá-lo e a tortura que devia ficar no passado o feria de novo e de novo. Noites das quais nem sempre se lembrava, pois a mente se protegia com apagões de longos períodos...

Kiba assistiu algumas mudanças leves na expressão fácil de Kankuro, assim como pequenas ondulações na energia Alpha. Talvez tivesse ido longe demais nos questionamentos. Ele queria respostas, Gaara foi superficial na narrativa, o que só o deixou curioso e em dúvida sobre como agir. Por outro lado, a melhor opção era sempre ir direito na fonte. Ou seja, tirar a verdade de Kankuro.

Se esse ato abalasse ainda mais o psicológico do Alpha, evitaria cavar muito, mesmo ele tendo dado abertura para questionamentos. Mais de uma vez teve a sensação de que interagia com um Kankuro adverso do que conhecera em Konohagakure.

— Às vezes parece que tem dois Kankuros — Kiba acabou sussurrando sem querer, finalizando em voz alta os pensamentos assustadores que estava tendo.

Ouviu o homem rir de um jeito esquisito:

— Dois Kankuros?! — debochou, rindo um pouco mais, para irritação de Kiba. O Ômega ia reclamar quando sentiu algo estranho. E a risada cortou-se de repente — Mas só um quer brincar com você...

O coração de Kiba disparou no peito e a boca ficou seca, enquanto aquela sensação de dualidade voltava com força total. E desaparecia igualmente rápida, quando o Alpha apontou para frente.

— Chegamos. Vou te mostrar um sebo ótimo, onde você pode encontrar até edições raras de livros variados.

Kiba passou a língua pelos lábios, tentando umedecê-los, mas não conseguiu. Conformou-se em seguir o outro, querendo compreender o que acabara de acontecer, mas ciente de que não conseguiria. Precisava montar um quebra-cabeças cujas peças mais importantes estavam faltando.

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A passagem pelo sebo foi uma experiência empolgante até mesmo para Kiba que não era um fã ardoroso de leitura. Ele comprou alguns exemplares de livros escritos por autores de Suna, querendo conhecer aventura de personagens criados no deserto.

Aproveitaram a proximidade de um restaurante para fazer o almoço. Nenhum deles comera nada no café da manhã. O apetite veio com força total! Kiba comeu e repetiu, muito satisfeito com o ótimo sabor da culinária sunaense.

E então o hospital. Kiba foi apresentado ao local onde uma cena parecida com a do Orfanato se repetiu. Kankuro o deixou na porta com a promessa de estar ali ao fim do dia e Kiba foi apresentado ao diretor, que já sabia de sua ajuda.

Acolher os doentes foi menos pesado do que o Ômega esperava. Ele imaginou que teriam feridos de guerra ali, mas, evidentemente, pelo tempo em que os conflitos terminaram esses pacientes já haviam sido tratados e a alta foi recebida. Por esse motivo encontrou apenas os pacientes ocasionais que padeciam de enfermidades cotidianas.

O hospital era grande e moderno, surpreendeu Kiba por parecer mais avançado tecnologicamente do que o de Konoha. Deduziu fácil que não conseguiria visitar todas as alas em um único dia por semana. E nem precisaria! Como o lugar tinha dois funcionários Ômega, certas áreas já eram atendidas, como a pediatria e a oncologia. Com a ajuda de Kiba poderiam dar mais atenção à Ala Médica, onde os paciente recebiam visitas dos Ômegas com mais raridade.

Kiba conheceu pessoas amáveis e fragilizadas, acamadas mas com esperança de logo ficarem saudáveis e voltarem para casa. Foi uma experiência gratificante, tão rica quanto a visita ao Orfanato.

Quando o dia chegou ao fim, tinha uma sensação incrível de dever cumprindo, e orgulho de si próprio por captar várias vezes nas interações como sua presença fez bem aos pacientes.

O bom humor era tão grande que nem lembrava mais das ressalvas causadas pelas atitudes de Kankuro até então, indo de encontro ao Alpha que o esperava, já narrando com detalhes as maravilhas que viveu no trabalho humanitário.

Ambos voltaram para casa, rumo ao que seria a primeira das piores noites que Kiba passaria naquele país.

Notas finais
Aaaaah tenho esse capítulo digitado desde o ano passado! Mas esqueci de postar, perdoem. Agora o próximo... /foge
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.