the only noise

3 Interlúdio 01 - Sombras que brincam na escuridão


Notas iniciais
Pegadinha do Malandro...? Não, né? A postagem é séria. Já a autora...

Começou como um sonho. Até virar um pesadelo.

Um pesadelo do nível mais terrível, aquele cujas sensações são vividas e se confundem com a realidade. Por segundos incontáveis, todo horror estava de volta. Tinha até mesmo sensação de dor, tão forte talvez, que isso o arrancou do sono e o jogou na realidade. Gritou, não pela primeira vez na noite. A garganta ardeu pelo esforço repetido.

Atordoado, Kankuro moveu-se na cama, embolado no lençol úmido de suor e acabou indo ao chão. Tentou levantar-se, mas ao apoiar as mãos no chão sentiu as mãos esmigalhadas pelos golpes do inimigo. Sensação paralisante que durou menos do que um segundo. Arfando em desespero, ergueu os braços e moveu os dedos de forma desordenada.

Estava bem. Estava tudo bem.

— Água — sussurrou com a voz rouca.

Apoiou-se no criado-mudo com dificuldade, para se por em pé. Os movimentos embotados, ainda sob efeito do pesadelo, saíram desastrado. Esbarrou no vaso de cerâmica que continha água e o derrubou, junto com outros objetos que estavam sobre o móvel. O som de quebradura ecoou alto no quarto. Fez o garoto se encolher um pouco, temendo ser o barulho de um jutsu indefensável. Deu-se conta de que o temor era infundado. Voltou ao que era mais urgente: a sede.

— Não!

Desesperado, voltou a cair de joelhos no chão, tentando juntar a água que o assoalho absolvia com rapidez. A única coisa que conseguiu foi cortar as mãos nos cacos e fazer sangue escorrer. Nem sentiu a dor dos ferimentos. Só queria a água. Precisava da água.

Foi apenas um sonho. Estão todos mortos. Foi apenas um sonho. Estão todos mortos. Eu matei todos eles!!

A mente frágil repetia como um mantra. Ele fugiu, escapou com vida. Se vingou de cada um de seus inimigos, aqueles homens que quebraram seu corpo e sua mente, tentando destrui-lo.

E a guerra seguiu adiante. E então matar ajudava a manter os monstros presos em suas jaulas. Mas a guerra acabou. E o alivio da paz que veio com o fim era apenas ilusório.

Na cabeça de Kankuro, todos os pensamentos viviam em guerra.

— Aquele som! O único som... aquele som. Não importa, queriam... queriam me aniquilar, mas eu sou mais forte — desistiu de tentar pegar água do chão. A sede era implacável, lembrava-lhe os dias mais sombrios da guerra.

Os olhos notaram algo a mais no chão, parcamente iluminado pela luz da lua que trespassava a janela.

Era seu remédio.

Odiava aquele recurso. Não o tomava a maior parte do tempo e vivia bem assim. Apenas na parte mais aguda de uma crise, por falta de opção, cedia. Quando suas alucinações eram tão fortes que tinha medo de mergulhar no pesadelo realístico a tal ponto que sua mente acreditasse ser a realidade e nunca mais conseguisse voltar para a sanidade.

Somente assim aceitava tomar o remédio.

Conseguiu pegar três dos comprimidos espalhados com as mãos tremulas. Jogou-os na boca, triturando-os com os dentes, porque achava que assim agiriam mais rápido. A sensação de dissociação era a pior parte sua mente se acalmando, mas sentindo como se estivesse em uma casca oca, como se o corpo não estivesse conectado com a mente. Como se fosse uma marionete...

Fez uma careta pelo gosto forte e amargo. A boca secou ainda mais. Os fragmentos mastigados desceram arranhando a garganta fragilizada.

— Não importa. Eu salvei meu irmãozinho, não é Gaara? Eu salvei você... — a frase soou baixa, rouca, direcionada a ninguém em especifico, terminando em uma risada desvairada, insana. Kankuro não tinha condições de se aperceber de nada além da mente caótica.

O remédio fez efeito quase instantâneo. A dose tripla relaxou todos os músculos de seu corpo, urinou sem se dar conta. Apenas desabou no chão, por cima dos cacos de cerâmica e do sangue. Acolhido pela paz que apenas a inconsciência pode dar.

Do lado de fora do quarto, Temari aguardava o desfecho da situação. O braço apoiava-se na parede e descansava a testa sobre ele. Os olhos ardiam de choro contido.

Tinha sido arrancada da cama pela primeira onda de medo a fluir pelo vinculo. Depois veio o desespero e o rancor. Nessas horas agradecia a decisão de Gaara de ter se mudado para aquele prédio grande e distante do centro da cidade onde poucos shifters seriam afetados pelo descontrole de um Alpha em posição de controle. O desequilíbrio do Pack seria monstruoso.

Pra ela, a parte mais difícil era não poder entrar no quarto e consolar o irmão. Sabia por experiências anteriores que se aproximar de Kankuro na recente confusão mental de um pós-pesadelo era um risco muito grande.

Não podia fazer nada, a não ser aguardar.

A risada meio enlouquecia a colocou em alerta, ainda que sua essência Beta estremecesse e desejasse fugir dali, o instinto primordial de sobrevivência quase vencendo. Quase. Os laços entre os irmãos eram fortes.

Por isso ficou firme na vigília, até que sentisse tudo se acalmar e deslizar para o mais completo silêncio.

— Graças aos céus — suspirou — Isso será um desastre, Gaara. Você precisa parar de fazer as vontades dele, de encobrir todos os erros!

Podia sentir a presença do caçula parado ao final do corredor. Ele chegou pouco tempo depois dela, igualmente trazido pelo vínculo que os unia.

— Temos que tentar — sua voz tinha um tom de derrota. Não era fácil mediar o comportamento de Kankuro com a realidade em que estavam.

— Um Ômega não pode curá-lo — nesse ponto Temari arrumou a postura e afastou-se da parede, para encarar Gaara — Kankuro está além de qualquer salvação...

Sua voz tremeu ao final. Não era fácil dizer isso de um dos irmãos que viu crescer, mas a verdade tinha que ser encarada. Não conseguiam fazê-lo beber os remédios de modo ordenado. A personalidade quebrada no cativeiro, quando Kankuro foi capturado e feito prisioneiro, tomava conta por completo. Mal reconheciam o irmão a quem amavam.

E se o Ômega conseguisse curar Kankuro, fazê-lo voltar ao que era... como ele reagiria com tudo o que aconteceu durante sua fuga e após voltar para Sunagakure, com as mãos manchadas não apenas pelo sangue inimigo, mas de companheiros e aliados? Como ele agiria sabendo de tudo que tiveram que fazer para que ele não fosse preso e julgado, pois ele só parecia encontrar paz quando causava em outros a dor que havia sentido?

Haveria algo a se salvar na mente e no coração do irmão que ambos amavam?

— Não temos certeza disso — Gaaga não desviou do olhar incrédulo de Temari — Ômegas são capazes de milagres. Kankuro não pode chegar perto de um dos nossos Ômegas, então quando ele deu a ideia de requisitar um de Konoha, tive esperanças.

— Vai depositar um peso muito grande nos ombros desse garoto — ela cruzou os braços e se abraçou — Você sabe porque Kankuro teve essa crise, não é?

Gaara concordou com um aceno de cabeça. Tinha negado o pedido do irmão de dividir o quarto com o Ômega. O enviado de Konoha teria seu próprio espaço, um quarto afastado do de Kankuro pelo de Temari. Ela ficaria, literalmente, entre eles.

A negativa mexeu tanto com os instintos do Alpha, que resultou nesse terrível pesadelo.

— Reconstruir Sunagakure não significa apenas remontar prédios — Gaara virou as costas para voltar para o próprio quarto — É uma tentativa desesperada, mas temos que arriscar. Não vou abandonar Kankuro uma segunda vez.

Temari assistiu o rapaz se afastando, enquanto angustia apertava seu peito. Gaara parecia disposto a arriscar as relações com Konoha para salvar um fio de sanidade no irmão. Suspirou. Conseguia agir de modo mais duro com ele, mas se Kankuro insistisse, mesmo ao pedir o maior dos absurdos, acabava cedendo. O remorso pesava-lhe sobre os ombros e tornava cada passo a frente quase impossível de ser dado.

— Não foi sua culpa, Gaara. Você sequer imaginava que ele ainda estava vivo.

— Eu sei.

Porem saber e sentir são duas coisas completamente diferentes.

A garota não disse mais nada. Descruzou os braços e observou a porta do quarto de Kankuro. Tudo estava em silêncio nos últimos minutos. Paz fluía pelo vinculo a tempo o bastante para que ela reunisse a coragem necessária para entrar no quarto.

Verificaria as condições em que estava o irmão. Se preciso fosse, o ajeitaria. Não pela primeira vez, certamente nem pela última. E o colocaria para dormir com toda a dignidade.

A guerra tinha acabado, uma guerra curta e devastadora, que deixou perdas irreparáveis e feridas incuráveis. E Kankuro, infelizmente, era vitima de ambas as opções.

Notas finais
Adeus e obrigada pelos peixes! HA!