the Room
1 Prólogo
“Ei, taxi!”, chamei enquanto decidia se o que estava prestes a acontecer deveria ser feito ou não. Já estava desolado com todo aquele acontecimento e pensava se era hora de dar fim a história ou se deixaria minha família descansar.
Aquele taxi não parou para mim, apenas o xinguei já que além de tudo estava estressado e chovia, mas um segundo, que não consegui identificar de onde viera, parou. O vidro era escuro e não consegui ver o motorista, apenas lhe disse “Rua San Dimonis, bairro...”, não precisei completar e ele, com uma voz áspera, respondeu que sabia onde ficava.
De algum modo, isso me inquietou, mas eu estava tão absorto em meus pensamentos que acabei não dando atenção. Talvez fosse pelos acontecimentos anteriores que me abalaram de tal modo que também não dei tanta importância ao estado daquele veículo, o qual nenhuma pessoa em sã consciência jamais entraria. O banco estava sujo e haviam coisas que pareciam preservativos e cigarros, ambos usados e o primeiro ainda possuía resíduos. O odor era mais desagradável que de um banheiro público que possuísse fezes espalhadas, e era isso que pude ver no solado, próximo a um sutiã e outras peças íntimas sujas de tudo o que era possível, além de um molhado no lado oposto de onde eu estava sentado que se estendia até o chão. Quem dera saber o que aconteceu ali antes de mim ou mesmo o que havia embaixo de onde eu estava sentado. Por causa da pouca luminosidade, não pude ver de forma clara quem conduzia o carro, apenas que era um senhor franzino, praticamente esquelético, de meia idade.
O carro começou a se mover e eu olhava as horas em meu celular, já eram dez horas. E pensar que em apenas dois meses atrás eu possuía uma família feliz e bem realizada. E agora, depois de tudo o que descobri, só quero um fim pra isso. Ódio, desespero, vingança, angústia, arrependimento, sede de morte, era tudo o que eu era agora. Meu nome é Derek Wilson e não possuo mais vida.
Tentei pensar em outras coisas para me distrair nestas últimas horas, mas era algo difícil. Foi então que percebi que o carro estava passando por lugares que eu nunca havia visto, mas acabei pensando que seria um atalho que o motorista conhecia. Até que então ele falou comigo:
– É a sua vez...
Eu me assustei com esta fala e quando estava pronto para respondê-lo a pouca luz que entrava no carro desapareceu e a escuridão tomou o lugar. Parecia que eu estava de pé, mas ainda sentia o carro andar, quando, ao longe, pude enxergar um garoto, em torno de seis ou sete anos, olhando um penhasco com uma senhora. Eu já sabia o que ia acontecer, já ouvira esta história antes. O menino então a empurrou e só pude ouvir o grito e logo o som do corpo lá em baixo ecoando pelo penhasco.
A cena então mudou, mostrando adolescentes sentados conversando e fumando em um beco, quando do meio destes um garoto se levantou com um faca e começou a esfaquear o rosto de uma garota que também se encontrava lá. Os amigos, então com medo e sem saber o que fazer, ficaram parados encarando o garoto armado que nada fez. Então um fogo, que pude sentir o calor mesmo estando longe, se iniciou queimando a todos.
E pela terceira vez comecei a ver uma cena desesperadora. Muito mais do que as anteriores. Desta vez o palco era uma guerra em um local ermo e bem árido com vários e enormes arames farpados pelo chão. A fumaça de poeira produzida pelas explosões e tiros naquele chão arenoso preenchiam o local e era quase impossível ver alguma coisa. Dentre alguns atiradores estavam alguns presidiários algemados sentados e encostados em uma parede, tentando ficar abaixados para não serem atingidos. Quando, próximo a eles, uma serpente acinzentada saiu do chão e seu corpo começou aumentar de tamanho e sua cabeça a tomar forma meio humana. Seus olhos vermelhos encararam os algemados que tentaram fugir daquela serpente. O demônio então abriu a boca liberando uma espécie de gás que fez com que os corpos dos presidiários secassem até o osso e seu tamanho fosse reduzido, além de queimá-los ainda os mantendo vivos. Aquele som de sofrimento era exalado por essas criaturas em que foram transformados. Do mesmo modo da fumaça, uma espécie de ácido foi jogado e então engolidos pela criatura serpentóide, a qual após fazer o mesmo com os soldados que se encontravam próximos, retornou para o antro de onde viera.
– Ravieer te espera.
Recobri a consciência e o carro já estava parado em frente à minha casa. Desci e ao virar para pagar o motorista, o veículo sumira.
Corri então ao armazém para terminar o que havia começado. Havia lá um galão de combustível que eu guardava pra colocar na caminhonete caso necessitasse e que as vezes utilizada nos equipamentos da casa. Peguei-o e levei a entrada da casa.
– É agora que tudo isso acaba.
Entrei e sem olhar pra trás comecei a espalhar pela o combustível por todos os cômodos, quando ouvi um o som de um rugido vindo da adega. Sabia o que me esperava e por isso continuei a preencher toda a casa o líquido. Sala, quartos, cozinhas, logo todos os locais estavam prontos para serem queimados; mas não fui na origem do som, que continuava cada vez mais alto.
Quando, de repente, um fogo se alastrou pela casa, um fogo que não havia sido provocado por mim. E aquelas chamas me envolveram. E com um sinal da cruz gritei:
– Saia daqui, demônio! Volte para onde você nunca deveria ter saído! Destruirei este lugar!
– Cale a boca! Você não é nada e nem possui nada que possa me impedir — surgiu uma risada assustadora seguida de uma voz com resposta ao que eu havia dito.
E tudo ficou escuro.
Eu estava deitado, sentia corpo arder como fogo, mas não haviam chamas. Mal levantei quando senti uma lâmina atravessar meu corpo e senti meus braços e pernas serem amarrados e em seguida puxados. Na minha frente encontrava-se algo que não consegui reconhecer a forma, era cinza e uma chama negra queimava ao seu redor. Seus olhos flamejantes me encaravam. Gritei, mas nada adiantava, nem aliviava, um mínimo que fosse, a dor. Debatia-me, mas era tudo em vão; até que meus membros foram separados... e meu corpo caiu, era questão de tempo pra eu estar morto, vazio, sem sangue. Quando alguém com um lamina atravessou minha cabeça e recobri a consciência. Meu corpo estava em chamas e cai, não conseguia mais me mover. A casa inteira estava em chamas e suas enormes vigas caiam em cima de mim.
Amanheceu, meu corpo estava queimado no centro da sala e um forte cheiro de gasolina preenchia o local. A casa estava inteira e não havia nenhum sinal de incêndio. Eu estava morto.
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