t e m p o r á r i o
9 O Alerta
— Oi! — Cecília proferiu ao parar na porta da sala de Daniel.
— Ei, Cecil! Chega aí. — Ele disse, virando-se em sua cadeira giratória para em direção dela, agora parada em frente a sua mesa.
— Queria me ver?
— Sempre. Senta aí. — Ela sentou em uma cadeira em frente a mesa dele enquanto ele respirava profundamente. — Cecil. — Ele a chamou e ficou em silêncio por alguns segundos, encarando-a. Sentia-se um canalha por estar prestes a ter a conversa com ela, a garota de olhar tão ingênuo a sua frente. — Não quero que se preocupe, tá?
Oh não. Ela desfez o sorriso que tinha em seus lábios e sua expressão mudou para, contrariamente ao que ele pediu, preocupada.
— O que foi? O que aconteceu? — Ela perguntou, ansiando por respostas. Se ansiedade tivesse nome, se chamaria Cecília Meyer.
— Eu não deveria tá te falando isso, tá? — Ele pareceu diminuir o volume da voz. — A empresa não anda bem das pernas, ouvi falar de possíveis cortes.
— Ah. — Apesar de parece que havia entendido, em verdade ela não entendia o que isso se relacionava a ela. — E...?
— Acontece que quando se fala em cortes, os últimos a entrarem são os primeiros a saírem.
Ele a encarou, esperando para que o entendimento finalmente a atingisse. Ela ficou séria, sua expressão inalterada. Será que ela entendeu?
— Eu vou ser demitida?
Ela entendeu.
Cecília quase que não consegue esconder o pequeno desespero que lhe atingiu ao pronunciar as palavras.
— Não, não. Só estou dizendo que você foi uma das últimas a entrar, e eu vou tentar evitar qualquer demissão na empresa, mas...
— Mas eu posso ser demitida. — Completou.
Ele a encarou, seu semblante entre o receio e o pesar.
— Como andam as coisas pra você?
— Como assim? — Na cabeça dela, tudo o que se passava era "demissão, demissão, demissão".
— Sua situação financeira. Como está?
Ela o olhou por alguns instantes.
Ela está comendo Clube Social para cortar gastos. Como será que está a situação financeira dela?
— Indo.
"A lugar nenhum" ela queria dizer, mas não disse.
— Olha, se precisar...
— Tranquilo. Eu tô de boas. — Ela o cortou, um sinal de que não queria falar do assunto.
— Tá, mas se precisar, agora ou depois caso as coisas não deem certo, sabe que pode contar comigo, né?
Ela o olhou.
Tão empático. Tão simpático. Tão bonito. Tão cheio de compaixão.
— Eu sei. — Respondeu por fim, forçando um pequeno sorriso. — Era isso?
Ele suspirou pesado.
— Era.
— Posso ir então?
— Pode.
Ela levantou rapidamente, saindo da sala sem olhar para trás.

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