— Oi! — Cecília proferiu ao parar na porta da sala de Daniel.

— Ei, Cecil! Chega aí. — Ele disse, virando-se em sua cadeira giratória para em direção dela, agora parada em frente a sua mesa.

— Queria me ver?

— Sempre. Senta aí. — Ela sentou em uma cadeira em frente a mesa dele enquanto ele respirava profundamente. — Cecil. — Ele a chamou e ficou em silêncio por alguns segundos, encarando-a. Sentia-se um canalha por estar prestes a ter a conversa com ela, a garota de olhar tão ingênuo a sua frente. — Não quero que se preocupe, tá?

Oh não. Ela desfez o sorriso que tinha em seus lábios e sua expressão mudou para, contrariamente ao que ele pediu, preocupada.

— O que foi? O que aconteceu? — Ela perguntou, ansiando por respostas. Se ansiedade tivesse nome, se chamaria Cecília Meyer.

— Eu não deveria tá te falando isso, tá? — Ele pareceu diminuir o volume da voz. — A empresa não anda bem das pernas, ouvi falar de possíveis cortes.

— Ah. — Apesar de parece que havia entendido, em verdade ela não entendia o que isso se relacionava a ela. — E...?

— Acontece que quando se fala em cortes, os últimos a entrarem são os primeiros a saírem.

Ele a encarou, esperando para que o entendimento finalmente a atingisse. Ela ficou séria, sua expressão inalterada. Será que ela entendeu?

— Eu vou ser demitida?

Ela entendeu.

Cecília quase que não consegue esconder o pequeno desespero que lhe atingiu ao pronunciar as palavras.

— Não, não. Só estou dizendo que você foi uma das últimas a entrar, e eu vou tentar evitar qualquer demissão na empresa, mas...

— Mas eu posso ser demitida. — Completou.

Ele a encarou, seu semblante entre o receio e o pesar.

— Como andam as coisas pra você?

— Como assim? — Na cabeça dela, tudo o que se passava era "demissão, demissão, demissão".

— Sua situação financeira. Como está?

Ela o olhou por alguns instantes.

Ela está comendo Clube Social para cortar gastos. Como será que está a situação financeira dela?

— Indo.

"A lugar nenhum" ela queria dizer, mas não disse.

— Olha, se precisar...

— Tranquilo. Eu tô de boas. — Ela o cortou, um sinal de que não queria falar do assunto.

— Tá, mas se precisar, agora ou depois caso as coisas não deem certo, sabe que pode contar comigo, né?

Ela o olhou.

Tão empático. Tão simpático. Tão bonito. Tão cheio de compaixão.

— Eu sei. — Respondeu por fim, forçando um pequeno sorriso. — Era isso?

Ele suspirou pesado.

— Era.

— Posso ir então?

— Pode.

Ela levantou rapidamente, saindo da sala sem olhar para trás.