— Boa tarde. Vê quatro pães de queijo, por favor. — Pediu a soldado à moça da padaria.

Ela olhou para os outros salgados, pareciam apetitosos. Viu uns docinhos, brigadeiros e beijinhos, quindim e morangos cobertos com chocolate. Hmm... delícia.

— Mais alguma coisa? — Perguntou a moça da padaria.

— Não, obrigada.

— Disponha.

A soldado pegou o pacote com os pães de queijo e se dirigiu ao caixa. 14 reais. Ela tirou umas notas pequenas e entregou à mulher do caixa. Pegou os pães de queijo e saiu da padaria.

A viatura estava do outro lado da rua. Ela olhou para um lado, sem carros vindo, olhou para o outro, carros vindo longe. Atravessou rapidamente e, enquanto abria a porta de trás da viatura e entrava, viu um rabo de cavalo castanho ao longe.

Acomodou-se no banco traseiro e entregou o pacote com os pães de queijo para seu colega faminto ao lado.

— Pão de queijo. — Seu colega sentado no banco do passageiro na frente arriscou um palpite, muito correto.

— Um pra cada um. — Ela disse, sem desviar o olhar da garota indo em direção desconhecida.

Seu colega começou a dirigir, devagar, na mesma direção da garota. Ela não ia dizer nada, ia ser discreta, mas... estava escurecendo rápido a esse horário e a garota estava indo para uma direção duvidosa. Eles já meio que estavam em uma região duvidosa. Mas aonde ela estava indo era mais duvidoso ainda.

— Dobra a esquerda na próxima. — Pediu ao colega que dirigia, soando como uma ordem.

— Fora da rota. — Ele avisou.

— Vira ali. — Ela mandou mais uma vez.

— Viu algo suspeito? — Perguntou seu colega ao seu lado.

— Não sei.

— Como assim, não sabe?

— Só segue. — Ordenou, e como sempre, foi atendida.

Seu colega que conduzia a viatura seguiu suas ordens, indo mais atrás da garota de rabo de cavalo indo em direção duvidosa.

— É aquela garota? Ela é suspeita? — Seu colega no banco do passageiro perguntou, olhando para a garota após aparentemente perceber que era ela quem estavam seguindo.

— Não.

— Então o que? — Perguntou seu colega ao lado.

— Vai seguindo que eu digo quando parar.

E foi obedecida. Porque a soldado Schimidt era sempre obedecida. Ela tinha voz, ela tinha postura, ela tinha autoridade. Eles eram os caras, os machos, mas ela botava ordem na casa. Sempre foi assim. Eles a respeitavam. Porque ela era foda. E sabia disso.

O rabo de cavalo continuou indo para uma direção duvidosa. Onde diabos Cecília Meyer estava indo? Ela não morava para o outro lado, no centro? Será que se mudou? Sem falar nada? Por que não falou nada? Porque elas não se falavam há... semanas. Dã!

A garota era interiorana. Encontrou-a por acaso nos primeiros dias. Na fila da padaria. Não sabia nem como fazer um pedido direito. Em vez de ficar irritada com a demora dela, a soldado se sensibilizou. Ela parecia mais perdida que cego em tiroteio.

— Pega a direita na próxima.

No dia seguinte, encontrou-a novamente. E no outro dia, e no outro. Quando viu, virou hábito. A garota fez perguntas sobre a cidade. Onde tem farmácia? Onde tem mercado? Como que pego o ônibus? Qual bairro devo evitar? Como desliga o registro do apartamento? Conhece um encanador bom, barato e de confiança?

— Muito fora da rota.

— Continua.

Quando viu, a soldado fez o impensável. Passou seu número para a garota. Não devia, não era protocolo, não era seguro, não a conhecia, mas... ela parecia confiável, parecia precisar de alguém confiável, e... ela parecia decente, simpática. Bonita. Precisando de ajuda. Então, a soldado a ajudou.

— Para ali na frente. — Ordenou quando viu a garota se enrolar para pegar algo dentro da bolsa. Baixou o vidro do seu lado. — Cecília! — A garota pareceu se assustar, depois procurou em volta e enfim a encarou. — O que tá fazendo?

— O que? — Ela perguntou, confusa, aproximando-se do meio-fio e olhando para os lados antes de atravessar a rua e parar junto da porta da viatura.

— O que está fazendo aqui? — A soldado perguntou novamente.

— Eu moro aqui...?

— Desde quando?

— Eu me mudei tem pouco tempo.

A soldado olhou para o prédio. Decadente do lado de fora. Num bairro perigoso. Essa garota estava fodida.

— Fica esperta, essa área é perigosa.

— Cheio de roubo. — Proferiu o colega soldado ao lado da soldado.

— Tá bom, obrigada. — Ela agradeceu pelos alertas. — Tchau.

Despediu-se com um pequeno sorriso... constrangido, será?