A Vita MedCare Insumos Médico-Hospitalar e Veterinário tinha um ótimo RH. Daniel, um homem de pele negra, barba e bigode bonitos e que usa óculos, faz do RH ótimo. Ele era atencioso, engraçado e o tipo de pessoa que todo mundo quer ter por perto.

Não foi mistério ele ter conquistado Cecília logo de cara. Ele agiu naturalmente com ela, não deu aberturas para além do relacionamento profissional. No início. Mas ele viu nela... uma coisa. Alguma coisa. Ela era engraçada, tímida e perdida.

Não o tipo de idiota, mas era ingênua. Um pouco incomum, ele diria. Estranha. Ela era do interior, mas não falava tão estranho quanto ele imaginava. E ela se comportava bem na cidade grande, aparentemente. Mas era... perdida.

Estava sozinha, na verdade. E se perdia facilmente em pensamentos, facilmente no trabalho e facilmente na cidade grande.

Uma batida na porta aberta.

— Oi. — Cecília disse, dando um pequeno sorriso. — Queria me ver?

— Sim, senta aí. — Ele disse, sinalizando para uma cadeira em frente a sua mesa.

Ela se aproximou e sentou com as mãos apoiadas nas coxas. Seu olhar correu pela mesa dele, organizada, com cadernos de anotações, muito profissional, até uma xícara com um possível café com leite ele tinha.

— Eu esqueci de falar que já podemos conversar sobre os contratos da OrtoPet...

— Deixa isso pra outra hora. — Ele disse de forma a não ser rude. — Quero falar com você sobre outra coisa. — Ele apoiou os antebraços na mesa e entrelaçou os dedos, olhando-a com um sorriso suave no rosto. — Como você está?

— Eu estou bem. — Ela disse, com um pequeno momento de hesitação, estranhando a pergunta, provavelmente. — E você?

— Bem. Mas como você está? — Ele repetiu a pergunta, com um tom diferente dessa vez. — Conseguiu se adaptar bem?

— No que?

— Na cidade. Na empresa.

— Ah, sim. Quer dizer... indo.

Ele a observou por um momento. Ela não estava “indo”. Ao menos, não a lugar algum.

Cecil, eu tenho observado você. — Ele falou em voz baixa, estranhamente não soando estranho. Ele a chamou por um apelido, pelo apelido que só duas pessoas a chamaram na vida. — Notei que você está trabalhando horas extras seguidamente.

— Bem, é, mas...

— Você tem batido ponto?

— Sim, sim... quer dizer, quando eu fico para mais ou não saio de meio dia, eu não bato, mas eu fico trabalhando...

— Não, nem deve bater se estiver trabalhando. Mas o que quero dizer é que você está trabalhando além da conta. Entende? — Ela nada disse, parecia... constrangida, será? — Você tem almoçado aqui?

Hesitação.

— Sim.

— Mesmo?

— Sim.

— De verdade?

— Sim, Dani.

— E o que tem almoçado? Compra comida de algum lugar?

Hesitação.

— Eu geralmente não tenho muita fome. — Mentira! — E quando tenho, como um Clube Social.

— Um Clube Social?

— Sim.

— Clube Social não sustenta, Cecil.

— Sustenta sim.

— Não, não sustenta.

— Bem, eu como e estou sustentada. — Ela deu uma risadinha, tanto de nervosismo quanto pela tentativa de piada.

Ele a encarou. Um olhar de piedade, de compaixão, um olhar de “eu vou te chamar para almoçar comigo todos os dias a partir de agora”.

— Você está com problemas? — Ele indagou depois de um tempo.

— Que problemas? — “Tantos, qual deles quer sabe?”.

— Financeiros, pessoais...?

Hesitação.

— Cidade nova é complicado, né? — Lançou, sua mente criativa finalmente trabalhando rápido para dar respostas furtivas. — Mas a situação vai estabilizar agora. Estou terminando de pagar umas contas.

— Certeza?

— Uhum.

— Se precisar de...

— Eu to bem. As coisas estão melhorando agora. — Mentira! — Obrigada por se preocupar.

Ele a olhou mais um pouquinho, em silêncio, tentando ler sua postura. Ela não queria estar ali, queria encerrar a conversa.

E ele queria que ela estivesse ali e não encerrasse a conversa. Porque ele queria a ajudar. Porque ele gostava dela. Porque ela era legal, empática. Bonita. E estava perdida. Sozinha. Ele queria que ela não estive perdida, sozinha.

— Era isso? — Ela indagou, por fim.

— Era.

— Já posso ir?

“Não”.

— Pode.

— Certo, até mais, Dani.

— Tchau, Cecil.