Notas iniciais
vi. porque o amor, enquanto a vida nos acossa
Seis meses depois, a ideia “maluca” de Jason continuava a funcionar muito bem.
Não que Nico não vá ao Mundo Inferior uma vez ou outra, porque Perséfone sempre gosta de visitas e no final das contas, era uma madrasta simpática até demais para uma deusa. Mas agora ele nunca passava mais de uma semana lá — toda a bagunça do pós-guerra já havia sido resolvida mesmo. Já começava a tornar-se normal ver o italiano passeando por Nova Roma de braços entrelaçados com Hazel, patrulhando a Linha Pomeriana com Rhoda e Honda ou treinando todas as tardes com Reyna e até mesmo com outros campistas. Parecia que depois de treinar com Aquiles, Patrócles, Alexandre e Hipólita — para citar alguns — ele se tornara um bom professor.
Assim ele foi indo e indo, com Jason sempre sorrindo por suas costas, e aos poucos o Acampamento Júpiter transformou-se no lugar que ele pensava como seu lar — aquele pequeno apartamento num prédio a de dois andares que Reyna dera para ele, ao lado da padaria predileta de Hazel. Ele estava começando a ver o que fizera Hazel se apaixonar por Frank, Honda estava ensinando-o como criar um pequeno jardim sem matar todas as flores e Rhoda ia para sua casa todas as noites, sem falta, e sempre levava algum jogo para que ele aprendesse. Vale ressaltar que ele descobriu jogar razoavelmente muito bem — valia tudo para ver a filha de Marte rindo como uma maluca ao matar os inimigos.
O único passo que lhe faltava — segundo a grande fonte de sabedoria que era Jason Grace — era “sair das sombras”, como ele gostava de dizer. Todas as (muitas) vezes em que ele tentou fazer com que Nico visse sua sexualidade como algo totalmente normal — e se era normal, não havia motivo para esconder, certo? — foi recebido com sonoros não, seguidos de vários nunca, de jeito nenhum, nem pensar e afins.
Mas Jason Grace não desiste.
E ele inevitavelmente entrava nesse assunto todos os dias. Ele mostrava a Nico todas as pessoas do acampamento que não eram heterossexuais, além de lhe explicar um monte de novos termos e nomes que deixaram o moreno quase tonto de tanta informação — o italiano demorou um pouco para entender o conceito de genderqueer —, tudo para mostrar a liberdade que existia na atualidade para ser quem você realmente é. Nico ignorava-o. Seu principal argumento era que, ao contrário das crianças ali, ele e Hazel tinham nascido por volta de 1940, e portanto tinham uma certa dificuldade em aceitar algo que desviasse dos padrões conservadores.
(mas ei, estamos vivendo agora, certo? 1948 está lá atrás)
Um dia teria que abrir o jogo — ao menos ele tentava usar as gírias mais comuns que ouvia — com a irmã, e sabia disso. Só estava tentando adiar o momento o quanto fosse possível.
— Porque não tenta encontrar um assunto diferente agora? — disse o moreno. Os dois estavam sentados na primeira fileira da arquibancada do Coliseu, observando os campistas que começavam a esvaziar o local. A primeira sessão de treinamento havia terminado há pouco, mas logo o espaço estaria cheio outra vez. Jason e Nico eram os instrutores do dia, graças à insistência de Reyna.
— Sempre que eu falo de algo importante, você deflete com sarcasmo — o loiro suspirou — Vamos ver se você tem a capacidade para responder algo simples: quer ir ao Acampamento Meio-Sangue comigo?
A pergunta quase o fez cuspir toda a água que estava tomando. Quase. Nico di Angelo se recompõe rápido.
— Para fazer o que lá? Ficar o tempo todo preso no meu chalé? Segurar vela para você e Piper? Acho que uma visita ao submundo cairia melhor agora, obrigado — Nico respondeu em meio às risadas de Jason, que achava engraçado ver o moreno tentando falar como um adolescente do século XXI.
(verdade seja dita, achava fofo)
— Na verdade, eu tenho que falar com Quíron sobre o andamento do programa de integração entre os acampamentos. Vou passar uns três dias lá, porque tenho que ver Leo também; o engraçadinho passa o tempo todo trancado naquela oficina, mas ainda tem a coragem de dizer que eu o troquei por você — ele riu. — Aliás, não se preocupe com Piper. Nós... Nós terminamos há alguns meses.
Eles o quê?
— Vocês o quê? Como assim? Terminaram há meses e você não contou para ninguém? Hazel vai ficar culpada por ter falado tanto sobre ela com você nessa última semana. — Ele nem queria imaginar a reação da garota. — Você nem parecia... Sei lá, triste ou abalado ou algo do tipo.
— É complicado — Jason disse, olhando para as mãos enquanto ia mexendo nas unhas — Resumido para você: ela disse que tinha medo de que eu gostasse dela por causa do charme, entende? E também tem o problema de que eu não sou o mesmo Jason das lembranças dela; não sou o cara que ela ama. — Pausa para respirar. Ele passou a olhar diretamente para o garoto ao seu lado. — Eu fiquei triste, claro, mas eu a entendi. Até decidi vir para cá mais cedo do que esperava. Lembra daquela semana em que fiquei jogando vídeo games com Rhoda o tempo todo? Ela é a única que descobriu. — E disse a Nico que Jason tem uma péssima mira.
Era informação demais para Nico engolir assim.
— Eu sinto muito, acho. Não sei o que dizer nessas horas.
— Sem problemas, garoto — o loiro sorriu. — Eu já estou bem agora. Às vezes até fico pensando se não estava realmente sob o efeito do charme. — Seus olhos se voltaram para o céu. — Mas vamos fazer um acordo então: eu conto isso para Hazel e digo para ela não se sentir culpada se você contar a ela que é gay. Feito?
— Vai ter que esperar bastante.
— O conhecimento sobre meus relacionamentos amorosos dificilmente vai fazer alguma diferença na vida dela, certo? — seu sorriso era decididamente maroto. Algumas garotas já começavam a entrar no Coliseu; a segunda sessão de treinamento estava prestes a começar — Vamos indo?
Nico mal o ouviu. Em sua mente, um turbilhão de pensamentos se agitavam e rodopiavam freneticamente, indo de encontro uns aos outros. Se todos aqueles campistas ali no Coliseu estavam felizes em viver em sorrir do jeito que eram, porque com ele teria de ser diferente? Jason dissera-lhe que o importante é o agora, e não o ano em que ele nasceu. Não seria ótimo poder gritar para todo mundo ouvir sem que ninguém pudesse apedrejá-lo? E se alguém não gostasse ele poderia simplesmente rir e mandá-lo procurar uma vida para não se importar com a dos outros. Quão belo seria ver as palavras saindo de sua boca por vontade própria, sem nenhum Cupido para fazê-lo jogar para fora tudo o que ele escondia?
Já estava tudo ali, na ponta da língua, apenas à espera do momento em que ele percebesse que, francamente, isso não mudava nada nem coisa nenhuma. Ele ainda seria Nico di Angelo e Hazel ainda seria a irmã que ele resgatara da inércia eterna. Ela ainda o amaria.
— Você pode cuidar deles por enquanto? — disse, levantando-se. A decisão fora enfim tomada. — Eu preciso falar com Hazel.
— Mas hoje é nosso dia... Espera aí. — Jason olhava para Nico com algo nos olhos que parecia puro orgulho. — Agora?
— Eu cansei de adiar tudo. Te vejo no jantar, Grace. — E saiu correndo, com a respiração descompassada e o coração batendo forte no peito. No portal de entrada, ainda se virou e gritou:
— Se algo der errado, a culpa é sua!
Jason não lhe desejou boa sorte. Não era necessário.
(ele confiava em nico di angelo)
Hazel, como o italiano esperava, estava saindo da padaria que tanto amava. Seus cachos cor de canela eram visíveis mesmo de longe. O garoto, suado de correr e treinar e de pura ansiedade — de tanto que os pulmões clamavam por ar — pôs a mão no ombro da irmã quando a alcançou, para chamar sua atenção. Quando ela se virou, ele disse (ou melhor, arfou):
— Vem comigo, Hazel. — Foi o máximo que conseguir falar de uma vez só.
A morena parou com o cupcake na metade do trajeto até sua boca. O que teria acontecido, ela pensou, para deixar o irmão daquele jeito?
— Você não deveria estar no Coliseu agora? — Ela começava a demonstrar preocupação — O que aconteceu?
— Só vem comigo, tá bom? Vem comigo, por favor — ele repetia.
Ela apertou a mão dele — estava tão fria — e seguiu-o. Nico andava rápido, quase correndo, e Hazel ia aos tropeços atrás do irmão. As poucas pessoas que passavam na rua não conseguiam disfarçar os olhares.
A mão de Nico estava tremendo. Ou melhor, todo ele estava tremendo.
O pequeno prédio vermelho flanqueado por colunas romanas estava logo à frente. Subiram correndo os dois lances de escada, ofegantes, e chegaram ao apartamento 203, onde Nico morava.
Era tudo simples ali — quase que espartano. As únicas decorações eram alguns retratos que ela tinha obrigado o irmão a comprar. O sofá era forrado com couro preto, um pouco desgastado nos braços. Foi ali que ela sentou.
— Agora que você me arrastou até aqui, pode me contar o que houve? Você deveria estar treinando com Jason agora — ela perguntou enquanto Nico foi à cozinha beber um pouco de água. Tão rápido quanto pode, ele voltou e sentou-se no assento ao lado dela. Olhava para as mãos com aflição, como se o que estava prestes a falar lhe custasse a sair da garganta.
— Eu só preciso que você me escute. — Já começava a se arrepender — Queria te contar algo, mas... Eu não sei... Não sei como dizer e não quero que você me entenda errado.
Ela pôs o dedo indicador em seus lábios, e com sua mão livre pegou a do irmão para acalmá-lo.
— Só começa por onde achar melhor, Nico. Prometo que vou te entender — ela disse, tentando transmitir o máximo de segurança que conseguia.
— Certo — ele disse, e inspirou profundamente antes de continuar. — Você se lembra do dia em que Pierre disse que a Susan queria sair comigo e você me disse para correr atrás dela?
— Você disse que a levou para o restaurante no Fórum e que ela era fútil e irritante, sim, eu lembro. Dakota concordou com você.
— Eu não saí com Susan — ele desabafou.
— Você mentiu para mim? — Hazel parecia não acreditar. — Para todo mundo? Por que você iria fazer isso?
— Por que eu não queria, entende, não queria falar com ela porque não queria namorar ela. Nem com... Com alguma outra garota. Eu não gosto de garotas, Hazel — ele disse como as palavras estivessem presas dentro dele há mais de séculos e só agora ele podia dizê-las sem medo. Eu não gosto de garotas, Hazel.
(eu não gosto de
garotas)
— Eu sou... Como foi que Jason disse? — Ele teve que se esforçar para lembrar a palavra no meio das tantas que o loiro o ensinara. — Gay, eu acho. É isso que eu queria te dizer.
(era muito buscar por aprovação nos olhos dela?)
Hazel sinceramente não sabia o que dizer. Ela lembrou-se das pessoas em Nova Orleans, falando aquela palavra e depois cuspindo como se fosse algum veneno que lhes corroia os dentes e a alma. Do mesmo jeito ela ouvia os brancos pronunciarem “negra” quando a viam, como se fosse uma maldição, um castigo que Deus jogara aos homens de bem graças a sua cobiça, a sua inveja. Olhavam para ela como se nela estivesse a razão para a desordem do mundo, para a desgraça de todos. Mas ela não era um castigo.
Tampouco era Nico.
E se Theon e Robb, da primeira coorte, só andavam de mãos dadas e eram mais felizes do que qualquer alma viva naquele acampamento, não deveria ser nada de mal, certo?
(certo, hazel — deixa teu irmão ser feliz)
Então ela tentou fazer de tudo o mais natural possível.
— Ah é? Puxa Nico, que legal. — Tentando era a palavra chave aqui — Você podia ter contado antes, mas tudo bem. Era só isso? — se esforçou para esconder o sorriso que teimava em querer aparecer em seus lábios.
— Só isso? — o moreno repetiu incrédulo. De tudo o que ele imaginara para esse momento, a reação de sua irmã foi algo que ele nunca sequer pensou que fosse assim. — Você não vai, você sabe, chorar e gritar e ficar com nojo de mim?
(parece que as pessoas cuspiam veneno em veneza também)
— Por que eu ficaria? — ela fingiu não saber — Eu não vejo ninguém com nojo de Alexandra e Melinda quando elas se beijam em todo lugar. Por que seria diferente com você?
(francamente, di angelo — já basta ser filho de hades e ter nascido na década de 40
nem tudo é diferente com você)
E dessa vez, quando Nico olhou para ela — quando ele olhou para ela de verdade — Hazel sentiu vontade de chorar, só um pouquinho. Nico olhava para ela como se ela fosse o que há de mais bonito no universo — como se ela fosse uma supernova.
Mas ela engoliu as lágrimas, deu-lhe um beijo na testa e foi para a cozinha fazer duas xícaras de chá.
(devia ser coisa de família, gostar tanto assim de chá de laranja)
x
v. é simplesmente uma onda alta sobre as ondas
Um mês mais tarde, Nico se viu aceitando o novo convite que Jason lhe fizera para ir ao Acampamento Meio-Sangue.
Aliás, aceitar é uma palavra muito forte. Em meio ao décimo pedido consecutivo do loiro, ele se lembra de murmurar eu só vou porque você vai morrer caso contrário e de reclamar em italiano sobre a infinita insistência — e babaquice — do filho de Júpiter.
Com a viagem já acertada, o que lhe restou foi resmungar sozinho. Jason só alongaria sua estadia lá porque levaria Nico junto, o moreno tinha certeza disso. Os três dias se transformaram em uma semana da qual o loiro não estava disposto a abrir mão de maneira alguma — e sim, o italiano poderia simplesmente viajar nas sombras quando quisesse, mas não queria que ninguém ficasse lembrando-o disso depois. Além do mais, Jason estava realmente feliz naquele momento — e ele sorria e sorria e sorria — e Nico não queria ver tristeza naqueles olhos e saber que a culpa era dele; não queria que o filho de Júpiter achasse que era muito cedo, que ele estava forçando demais.
(você está indo rápido demais na direção errada, rindo com os olhos em chamas, você disse: "não estamos todos?")
Uma semana no acampamento não será nada de mais, Hazel disse enquanto bagunçava-lhe o cabelo. E ele se deixou levar por ela. Ainda assim, é válido dizer que quando Jason chamou Tempestade na entrada do Túnel Caldecott, ele quase desistiu — quase. O loiro insistia em não viajar pelas sombras, com o argumento de que isso deixaria o filho de Hades cansado demais logo no primeiro dia. Nico, como sempre, achou tudo muito desnecessário, mas contentou-se em sentar atrás de Jason no pégaso.
Ele se arrependeu, no final das contas.
A ventania soprando incessantemente na direção deles assim que os três levantaram voo faziam com que suas roupas e seus cabelos o chicoteassem; passar por entre montanhas sempre lhe dava calafrios; sem falar, é claro, que seus pés simplesmente não estavam no chão e que ele nem arriscara olhar para a terra sem que fosse tomado por uma ânsia de vomitar. Pelo menos não está chovendo, ele pensou.
(pelo menos ele passou o tempo todo com os braços enlaçados na cintura de jason grace)
E ainda assim eles conseguiram chegar ao acampamento grego antes do pôr do sol, quando ainda podiam ver os campos de morango de onde estavam no céu. Parecia que os ventos não eram assim tão lentos quanto ele já acreditou, mas Nico estava ansioso para desmontar de Tempestade, em qualquer lugar que fosse. Ao lado do pinheiro de Thalia e do dragão Peleu, que estava dormindo, os dois desceram. Com um carinho em seu focinho, Jason dispensou seu pégaso. Ele não parecia chateado por ir — talvez o tal odor de Nico afetasse até mesmo criaturas feitas de vento.
— Então, aqui estamos — Jason disse, em frente ao portão de entrada. Parecia satisfeito por ter trazido o moreno até ali. — Você quer ir comigo à Casa Grande?
— Eu vou arrumar minha cabine primeiro, faz muito tempo que ninguém entra lá. Depois disso não sei o que vou fazer — ele deu de ombros.
— Te procuro depois que terminar com Quíron, então.
Os dois já estavam na frente da Casa Grande. Nico agradeceu internamente por não ser necessário ali. O olhar que o Sr. D lhe deu, vestido com sua famosa camisa de seda e estampa de leopardo, era uma simples prévia das boas vindas que estava por receber.
Enquanto ia para o chalé de Hades, foi inevitável não reparar no lugar. Era primavera, e apesar de serem poucos os campistas nessa época do ano, ele podia ouvir os gritos raivosos dos filhos de Ares vindos da quadra de vôlei e as filhas mais novas de Deméter correndo por entre os campos de morangos. Esperou passar despercebido ali, mas Connor Stoll saiu do jogo por um minuto para correr atrás dele e perguntar onde esteve durante tanto tempo a mesmo tempo em que Travis acenava para ele ao fundo. Ao contrário do que o italiano queria, sorriu. Era bom — era ótimo — saber que alguém ainda se lembrava.
(era ó-t-i-m-o)
Logo depois de atravessar o rio, Nico começou a correr no caminho para sua cabine — não teria tempo para arrumá-la. Abriu a porta com força, jogou a bolsa que trouxera no lado de dentro e tentou fechar o chalé antes que o grande vulto negro que vinha em máxima velocidade em sua direção.
— Sra. O’Leary, não! — ele gritou, mas o cão infernal já estava pulando para cima dele. Nico di Angelo foi direto ao chão e, ao mesmo tempo em que sentiu uma dor lancinante subir-lhe pela coluna, também pode perceber que Sra. O’Leary começou a lamber cada centímetro de seu rosto.
— Me deixa levantar, garota, vamos. Eu prometo brincar com você, ok? — Nico disse. Ao ouvir a palavra brincar algo dentro dela parecer estalar, como se tivesse recebido uma injeção de pura glicose. De imediato, ela saiu de cima do moreno apenas para dar alguns passos na direção da Arena, com a língua de fora e balançando extasiadamente a cauda, esperando que o filho de Hades a seguisse. Nico se levantou e ela começou a correr na mesma hora, com o semideus em seu encalço. Mas ela estava bem a sua frente, e foi por isso que ele não parou antes, não virou para trás e correu para sua cabine ou foi se esconder na Casa Grande junto com Jason. Alguém o tinha visto antes.
— Sra. O’Leary! Vem garota, seu brinquedo está aqui!
(aí ele ouviu aquela voz
aquela voz)
Um garoto com cabelos bagunçados e olhos verde mar — verde mar — começou a correr na direção dos dois enquanto continuava a gritar para o cão infernal que agora saltava animadamente, sem saber para que lado deveria ir ou qual dois garotos era o mais divertido.
(e nico não diz o nome dele porque tem medo e doía e doía e talvez vá doer de novo, vá trazer aquela sensação de que tem algo preso na sua garganta, tem algo preso na sua alma e a pressão vai esmagar seus pulmões e ele vai se afogar justo agora quando está nadando para a superfície e pode ver Jason estendendo-lhe a mão)
— Ei Nico! Você nunca avisa quando vai aparecer, huh? Se soubesse, tinha até dado uma festa, já que a última você perdeu! — ele sorria como se não houvesse outra coisa a se fazer no mundo. — Mas nem precisa se explicar pra mim, o Peter Pan me avisou que seu pai te chamou com urgência. Só acho que ele deveria ter escolhido um horário melhor.
(e o seu sorriso brilhava e seu riso contagiava todo o acampamento, desde a sra. o’leary até as águas do estreito de long island, mas
não era como antes.)
Porque se antes ele sorria como se sua boca fosse repleta de estrelas prontas para entrar em combustão e fazia com que o resto do planeta parecesse escuro como o fundo do oceano, se as constelações ficavam loucas para que todos as vissem estampadas nos dentes dele e se antes doía e apertava o coração — agora seu sorriso era só sorriso e ponto. Era só uma constelação — só Perseus e sua chuva de meteoros — que brilhava e brilhava muito, mas não o suficiente para que Nico tivesse que desviar o olhar. E não doía.
(não doía, talvez, porque seus olhos voltaram a ser verdes como água marinha)
— Foi bem urgente, sim — Nico respondeu, sem suar frio. — Eu tentei mandar algumas mensagens de Íris — sem hesitar —, mas o sinal é péssimo lá embaixo — sem sentir medo.
Ele fazia carinho no focinho da Sra. O’Leary, mas olhava para Percy, para seus cabelos e seus olhos e seu sorriso de uma maneira que nunca antes fizera. Era bom — era ótimo. Percy sorria e Nico sorria junto.
— Bem — o filho de Poseidon falou enquanto passava a mão pela cabeça —, que bom que você resolveu passar aqui. Já estava prestes a ir te buscar no submundo, sabia? — E não era nenhuma brincadeira — Devia passar mais tempo aqui em cima. Essa garotona mesmo — ele apontou para o cão infernal que salivava ao seu lado — estava morrendo de saudade de você. — E bastou isso para que ela encontrasse desculpa mais do que suficiente para lamber outra vez os cabelos do filho de Hades.
— Eu estou ficando por aqui, agora. No Acampamento Júpiter, quero dizer. Reyna me emprestou um lugar para ficar em Nova Roma. — Cinco horas longe de lá e já sentia falta da filha de Bellona. Tudo culpa de Jason Grace e suas ideias.
— Ótimo! Você pode ficar em Nova Atenas quando tudo estiver pronto! — disse Percy, apontando para um lugar onde não havia nada. Ao perceber o olhar confuso de Nico, ele explicou. — Ela está bem ali, ó. É que todo mundo ‘tava tão animado que o Sr. D deu um jeito deixar a cidade invisível até que tudo esteja acabado.
— Ele não parece ter mudado muito.
— Nem me fale — Percy disse, e suspirou. — Ei, quer ir comigo até a Arena? Podemos brincar um pouco com a Sra. O’Leary e depois você podia me ajudar a treinar os campistas, né?
Parecia tentador ficar com o garoto que ele tentou afastar por tanto tempo sem que o sangue subisse as suas bochechas cada vez que o filho de Poseidon observava-o de relance. Mas ele tinha dito a Jason que o esperaria em seu chalé.
(e o filho de júpiter acharia que ele havia fugido outra vez)
— Eu vou pra lá mais tarde. Disse para Jason que esperaria ele aqui.
— Ah, então você veio com— ele parou de repente, e os dois olharam para a esquerda ao ouvirem um grito vindo de longe. — Ei, Super Homem, estamos te esperando!
Jason vinha correndo da Casa Grande. Quando alcançou os três, deu um abraço em Percy e fez um rápido afago atrás das orelhas de Sra. O’Leary. Só então ele olhou para Nico.
(porque ao vê-lo conversando daquele jeito com percy, pensou que trazê-lo até ali poderia ter sido uma má ideia; mas não havia nada naqueles olhos ônix que mostravam que Nico ainda explodia por dentro cada vez que via o filho de Poseidon)
E então ele sorriu, aliviado — com suas duas fileiras de dentes tão brancos que doem. Nico mal conseguia olhá-lo.
— Esperando para que? — o loiro perguntou. — Eu queria ter vindo mais cedo, mas Quíron tinha um monte de questões.
— Vem pra Arena com a gente. Temos que brincar com a Sra. O’Leary e treinar os campistas depois. Só não fiquem encabulados se eles pedirem autógrafos para vocês — Percy disse —, são celebridades por aqui — e piscou um olho para Jason.
— Eu nunca perderia uma oportunidade de ganhar de você na frente dos outros, Ariel.
Os três semideuses foram rindo e brincando até chegarem à Arena, com o cão infernal fazendo o chão tremer na frente deles.
Percy ia na esquerda, Jason na direita e Nico no meio dos dois babacas.
Não doía nada.
x
iv. mas quando a morte vem tocar a porta
Como sempre acontece com Nico di Angelo — ao menos, isso é o que ele acredita — nada pode ficar bem por muito tempo.
Ao contrário do que ele imaginava, a vida no Acampamento Meio-Sangue era quase tão boa quanto a que ele levava no Acampamento Júpiter. Percy sempre aparecia e convidava-o para treinar os campistas, Jason aparecia todos os dias para conversar e os irmãos Stoll regularmente o arrastavam para a quadra de voleibol. Além disso, Leo pareceu ter perdido o medo em relação ao filho de Hades, e não eram raras as tardes que eles passavam juntos no chalé de Hefesto tentando descobrir como o latino poderia voltar à Ogígia — talvez o italiano até pudesse viajar nas sombras até lá, mas não tinha vontade de tentar. Também aproveitou para esclarecer à Annabeth os boatos de que ele estivera apaixonado por ela — se ao menos fosse verdade — não porque ele se incomodava por isso, mas sim porque não queria que ela agisse de maneira cautelosa em relação a ele.
(porque toda essa coisa, como ele mesmo descrevia, todo esse momento de ter amigos reais pela primeira vez era sinceramente ótimo)
Piper também parecia ser simpática, mas tendia a afastar-se dos dois visitantes. Talvez Jason ainda doesse nela — e Nico sabia exatamente como era. Os olhos do loiro ainda brilhavam de um jeito diferente quando ele falava da garota, mas agora era um tom mais saudoso do que apaixonado — Piper fora sua amiga antes de tudo.
A única decepção ali era que parecia haver uma falha com as mensagens de Íris. Todas as noites ele tentava se comunicar com Hazel, mas sem sucesso. Era no mínimo estranho — a deusa nunca lhe falhara, nem no Mundo Inferior. Ele esperava que fosse apenas uma interrupção no sinal local ou algo parecido. Percy disse que às vezes isso acontecia. Uma pena — a irmã ficaria animadíssima em ver Nico feliz ali também.
Logo, não é nenhuma surpresa quando, depois de terminada a partida de vôlei que ele estava jogando com Clarisse, Jason lhe dá o anúncio que ele já esperava.
— Quíron organizou uma missão, soube? Para investigar o que está acontecendo com Íris — o loiro disse, ao mesmo tempo em que estendia uma toalha de rosto para Nico. Os dois começaram a se afastar da quadra. O filho de Júpiter parecia preocupado.
— Percy me disse que isso acontece, mas eu suspeitei que algo estava errado — respondeu o moreno, depois de usar a toalha para tirar o suor das mãos e do rosto. O sol brilhava forte naquele dia. — Íris não deixaria o sinal suspenso por tanto tempo, não aqui no acampamento. E obrigado — ele agradeceu, referindo-se à toalha que usava então para secar os cabelos, antes presos num desleixado rabo-de-cavalo.
— O Sr. D disse que algo deve estar errado com a deusa, e não com o sinal. Eu não sei se você reparou, mas já faz algum tempo desde que tivemos um arco-íris .— Ele passou as mãos pelo cabelo para ajeitá-lo. Eles andavam em direção as duchas, e Jason ia com o olhar para o chão e as mãos nos bolsos, enquanto Nico andava leve e despreocupado.
— Mais alguma coisa? — o menor indagou, e o loiro endireitou a espinha e olhou-o com surpresa, como se de alguma forma ele tivesse sido pego no flagra. Parecia tudo tão atípico dele, mas continuou em silêncio.
O filho de Hades então parou bruscamente, interpondo seu corpo entre Jason e o resto do caminho.
— Jason? — ele perguntou, estreitando os olhos. — Mais alguma coisa?
— Eu sei que te prometi que só passaríamos duas semanas aqui, mas — e nisso ele beliscou a ponte do nariz antes de continuar — eu vou participar dessa missão. Quíron me escolheu.
Agora era claro para Nico o porquê de ele estar tão estranho. Mas diferente de Jason, o que o preocupava naquela notícia não era o tempo que os dois levariam voltar à Nova Roma, nem mesmo o que teria acontecido com a deusa para que tudo aquilo acontecesse. O que o levou a morder os lábios foi a preocupação com os integrantes da missão — um deles, em especial.
(mas ele não seria nico di angelo se deixasse que percebessem isso)
— Como assim “Quíron me escolheu”? Ele não pode te forçar a participar disso, Jason — lembrou ele, tentando passar sua preocupação por indignação. — Vocês ao menos tem uma profecia? Ela explicita que você tem que ir, por acaso? — o moreno começava a usar os braços para gesticular, como sempre fazia nos momentos de nervosismo.
— Não, nada — o loiro percebeu os movimentos do outro; estava assustado também. — Nico — ele sussurrou, segurando os braços do italiano em suas mãos largas. Dessa distância era possível ver a velocidade com que o peito do italiano subia e descia. — Não vai ser nada complicado, juro. — Ao menos ele estava sendo sincero. — Já temos uma profecia, sim, e Quíron achou melhor que eu fosse justamente para dar início àquele projeto de integração dos acampamentos. Eu não poderia resistir à iniciativa que eu mesmo estou resolvendo, né? — e tentou dar um sorriso confiante, mas nem precisou ver as sobrancelhas arqueadas do moreno para saber que não tinha conseguido. — Vou tentar não demorar, e de qualquer jeito, você está se dando muito bem por aqui mesmo. — Agora era só tentar mudar de assunto o mais rápido possível — Quem diria que todos os meus planos “idiotas” dariam tão certo, huh? — piscou com um olho só.
— Nem tente, Grace — o moreno retrucou, pondo as duas mãos em seus quadris. — Quem vai com você nessa missão? — só esperava que não restasse para Jason a tarefa de defendê-los o tempo todo.
— Travis Stoll e Lou Hellen. Quíron preferiu que nenhum filho de Íris fosse, já que não sabemos o que aconteceu.
Pelo menos com a equipe Nico não precisava se preocupar.
— Eu conheço Travis, mas... Quem é Lou Hellen?
— Uma filha de Hécate, acho — Jason respondeu, dando de ombros. — Ela deve ter uns 14 anos. É a primeira missão dela — ao ver o italiano revirar os olhos, ele continuou — Não se preocupe, Travis vai salvar todos nós no final. Só temos que deixar os bolsos fechados — sorriu.
— Eu confio nele, ao menos — Nico murmurou, mas também tinha um sorriso no rosto. Saiu da frente do loiro, e os dois continuaram o trajeto até as casas de banho. Não que ele estivesse menos preocupado; só sabia que não podia fazer mais nada.
— Tenho que ir para a minha cabine — Jason disse assim que os dois chegaram as duchas. — Ainda tenho que arrumar minha mochila, e conversar com os outros dois sobre a missão. — Pôs as mãos nos ombros de Nico, por cima da blusa suada como estava, e olhando para as claras sardas que o menor tinha ao redor do nariz antes de subir para seus olhos, sussurrou — A partida está marcada para o nascer do sol de amanhã. Eu adoraria que você fosse lá me dar um abraço de boa sorte. Ou até um beijo, quem sabe. — Ele estava tão perto que Nico pôde ver as pupilas dilatadas e o leve rubor em suas bochechas claras.
(tão perto que se fecham meus olhos com teu sonho)
E deu-lhe as costas e foi embora, assim, quase correndo dali. Sem esperar de Nico uma resposta, uma concordância, nada. Era como se estivesse com medo de saber a reação do moreno, com medo de ter passado dos limites que ele lentamente vinha tentando diluir.
Aliás, foi bom ele ter saído desse jeito. Nico odiaria que Jason pudesse vê-lo ali, ainda parado em frente ao banheiro, mais vermelho do que os morangos do acampamento.
(e quente — quente pelo corpo todo)
Tudo o que lhe restou foi encarar aquilo como uma brincadeira — o que não era algo que o loiro faria, não sobre esse assunto — para que o calor não aumentasse ainda mais e piorasse tudo. Tomar um banho bem gelado também ajudaria.
Enganou-se: nada adiantara para tirar a cena de sua cabeça. A respiração de Jason batendo em seu rosto, a intensidade de seu olhar. Parecia algo saído de filmes de adolescente que ele assistiu com Hazel. Conseguia se distrair por cinco ou dez minutos antes que as imagens voltassem — teve que se esforçar para não passar o dia inteiro com o rosto corado.
O único que percebeu algo diferente — e maldito seja ele — foi Percy, depois do treino. Nico culpou o esforço que fizera, mas o filho de Poseidon não largou a hipótese de que era tudo devido aos incansáveis olhares que uma das filhas de Hipnos mandou para o italiano durante todo o tempo.
Foi apenas à noite, quando já estava deitado em sua cama, que o moreno pode esquecer daquilo por algumas horas. Tudo o que ele pensava ali era quanto tempo faltava para que a missão começasse; a preocupação lhe atingiu como um caminhão em alta velocidade. Era tão diferente da primeira vez que ele tinha visto alguém sair do acampamento — fora Bianca, há alguns anos. Naquele tempo, Nico ainda era um menino facilmente impressionável, e fascinado por ver seu jogo preferido, Mitomagia, ganhar vida.
Mas Bianca nunca voltara.
E ele nem poderia mandar mensagens para Jason e saber o que estava acontecendo.
Como já era de se esperar, o filho de Hades não conseguiu dormir, mesmo na escuridão de seu chalé. A noite toda se passara enquanto ele ficava girando o anel de caveira por entre os dedos e olhando para a janela em busca do sol nascente.
(e ele queria que esse momento nunca chegasse)
Quando um pequeno fio de claridade começou a entrar por entre as cortinas ele logo pulou da cama e foi trocar de roupa — não queria que ninguém o visse com o pijama do Batman que Hazel lhe dera de presente. Aproveitou para lavar o rosto também; talvez ajudasse a esconder o fato de que passou a noite inteira em claro.
O longo caminho até a Casa Grande foi feito sem que ele pensasse em outra coisa. Só se importava em chegar lá antes que os três partissem — ele realmente queria desejar boa sorte a Jason.
Assim como outros campistas, pelo que pôde ver. Connor estava do lado do irmão, Lou Hellen passou correndo por sua frente com uma mochila cor-de-rosa nas costas, e mesmo de longe ele podia ver os cabelos castanhos de Piper presos numa trança ao lado de Jason. Era a primeira conversa de verdade que os dois tinham desde o término do namoro, há quase seis meses.
Os dois pararam de conversar quando o viram se aproximando. Jason estava sorrindo, fazendo com que tudo ao seu redor brilhasse mais que o sol nascente. Piper também sorria, mas era algo pequeno, contido. Nico só esperava não ter interrompido nada demais. Chegando mais perto, pode ouvir o cochicho da garota na orelha do loiro.
Eu te disse que ele viria.
Ela deu um passo para trás e foi conversar com Quíron, enquanto Jason continuava a olhá-lo, surpreso com sua presença.
— Desmancha essa cara, Grace — Nico tentou parecer indiferente. — Você me pediu para vir, não lembra?
— Claro que lembro. Eu só... — ele hesitou. — Só não esperava.
— Por quê? — exigiu o moreno. — Achou que eu não me importava?
O centauro começou a chamar os campistas para entrarem na van de Argos. Os irmãos Stoll se abraçaram antes que o mais velho começasse a descer a colina. Nico engoliu em seco.
— Não brinque comigo daquele jeito, Jason — ele sussurrou, quase como uma súplica, desviando o olhar do loiro.
— Eu não estava brincando — ele confessou, enquanto colocava sua mão sobre o cotovelo do menor. — Dizem mesmo que um beijo faz milagres — Argos buzinou para ele. — É a minha deixa. Tenta não ir para o submundo, tá? Juro que não demoro.
Com um aceno de mão para Piper, ele começou a descer colina abaixo. O olhar que a garota lançou para Nico mostrava que ela ainda esperava algo mais de sua parte.
— Vai — ela encorajou-o. — Ainda dá tempo — e foi aí que ele começou a correr.
O loiro ainda não tinha chegado no meio do caminho quando o viu correndo atrás de si. Os outros podiam esperar mais um minuto, ele decidiu, enquanto Nico o alcançava.
— Um beijo de boa sorte, não é? — ele perguntou ao chegar onde Jason estava, com as bochechas vermelhas, mas com toda a coragem que consegui reunir dentro de si. — Isso é para você não brincar comigo de novo — e pondo-se nas pontas dos pés, o menor apoiou as duas mãos nos ombros do loiro e encostou os lábios na sua bochecha, enquanto o maior enlaçou os braços por suas costas e trouxe-lhe para um abraço apertado.
— Boa sorte — Nico disse, baixinho, e sentiu ainda mais pressão sobre suas costelas. — Promete me mandar uma mensagem quando tudo der certo?
— Prometo — Jason concordou, deixando que o moreno colocasse as plantas dos pés no chão mais uma vez. Deu um leve beijo em sua testa antes de soltá-lo do abraço. — Me espera — sussurrou, antes de seguir caminho.
Nico ficou parado ali até ver a van desaparecer estrada adiante. Ainda assim, a sensação do beijo continuava em seus lábios, espalhando-se por todo o seu corpo.
De cima da colina, Piper olhava para ele e sorria.
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