já era segunda-feira, madrugada.

o domingo passou num tiro.

os olhos não queriam fechar,

nem as bocas se calarem.

descíamos em direção à tutóia,

em busca de mais álcool barato,

filosofando a vida, juventude, amor e sexo

já em tonalidade enebriada.

fazia muito frio aquela noite.

ela enfeitava o cinza das calçadas com um suéter de cor celeste.

parecia feito pelas mãos de uma vó.

com mais cerveja em mãos, mais filosofia,

contemplava nossa insignificância sobre aquele viaduto:

prédios bem altos, a imensidão da 23 de maio debaixo dos nossos pés,

aquele organismo incessante deflagrado pela fluidez do trânsito.

ela quebrava o silêncio e falava dos grafites nos muros altos,

de como eles eram bonitos.

os goles de cerveja iam aos poucos terminando,

as bocas ficando menos eloquentes.

ao calar-se por completo deu as costas pro corrimão e me olhou convidativa.

sorvi com prazer aquele beijo, molhado e quente,

com gosto de cevada,

participando do organismo urbano,

sem mais palavras,

pois a cidade não fala.

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