sobre o áureo e a tempestade.
1 01. Encontro
Notas iniciais
n’uma cidadela perdida dentre o correr da eternidade, as crenças tornaram-se estórias profanas. o rebanho d’O senhor corrompeu-se diante de pedras preciosas e deuses de barro. conquanto, sua presença cresce dentro de um profeta. dizem que este presenciara a magnitude de seu poder sob uma oliveira há não muito.
eles dizem muito.
( e o poder divino nada mais é que terrores e conflagrações. )
(...)
as veredas que findam em templos repletos em cânticos de louvor e destruição não pertencem à um ser como ele. ínfimo. indigno. infiel graças à realidade em que crescera. revés feito carne morena e cabelos cacheados. todavia, o áureo transborda por seus olhos grandes —— famintos em graça. um carneiro d’O criador afeiçoado pelo horror oriundo de seus mensageiros. ‘ todo anjo é assustador ’ é o que dizem por aquelas ruelas de mármore e perdição. inda assim, os pés descalços pisam n’aquele solo sacro, os tecidos verdes que cobrem-lhe o corpo são singelamente erguidos, as pulseiras emitem ruídos que, por ele, mal são percebidos diante do fascínio.
fascínio este, causado por outro que pisava sobre aquelas pedras negras se fossem suas. cada uma. e não apenas aquelas pedras. aquele outro teria todas as terras e fortunas se o quisesse.
os lábios coloridos com o sangrar de sementes de romãs moviam-se n’uma língua célere, lindíssima —— única. sangue vertia por feridas abertas, manchando as vestes cerúleas já gastas e revelando partes da pele clara. dedos alheios percorriam as paredes, manchando as representações de cristo ali cuidadosamente pintadas. o vermelho transforma-se em dourado. o escarlato está também cuidadosamente colorindo todos os cabelos daquele profeta. sob suas unhas. nos anéis que usa. ele é todo contradições e arte.
o garoto que ao profeta observa não pode descrever, mas dele sente uma candura surreal. era então aquele o profeta? o receptáculo da voz divina? como um tolo santo, permaneceu imóvel observando o outro garoto. eles eram demasiado jovens —— o escolhido e o que ao escolhido contempla.
contemplava.
os perfumes de mil ervas, mel e sangue logo invadem os sentidos aguçados do observador. o profeta fita-lhe com orbes de todas as cores e cor alguma. é um enigma, taciturno e letal. aparenta-lhe carregar os céus nas mãos, derrotado, e também pronto para tornar-se imperador. é o humano e sujo digladiando-se com o divino. dourado e divino.
o simplório mortal ansiava em falar-lhe. a fome emanava de suas feições angulosas demais para sua idade. não sabia o que acontecia em seu intrínseco, mas os ruídos de suas pulseiras cresciam, suas mãos trêmulas. moveu seus lábios duros e escuros. sequer houve-lhe átimo para pronunciar-se.
“eu apenas falo com anjos,” disse-lhe o escolhido, iluminado, saindo em passos que não permitiam-no em seguí-lo.
era incapaz em acreditar, o garoto que invadiu a terra sagrada, que os anjos são terror. não quando comunicavam-se com tão bela criatura.
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