sempre haverá recomeços?
1 Sera o fim?
O sol de fim de tarde dourava os corredores da Universidade Federal de São Paulo. A nova fase da vida havia começado para os ex-alunos da Escola Mundial. Agora adultos, cada um trilhava seu caminho acadêmico, mas os laços do passado ainda os uniam com força.
Alicia Gusman, 22 anos, estudante de Psicologia, estava parada em frente ao prédio de música, braços cruzados e expressão fechada. Paulo Guerra, agora com 23, vestindo uma camisa preta com os botões abertos até o meio do peito e mochila jogada de lado, tentava argumentar com o mesmo ar arrogante de sempre — um charme perigoso que confundia qualquer um. Especialmente ela.
— Você sumiu ontem. De novo — ela começou, a voz baixa, mas firme. — Eu só quero clareza, Paulo. Eu não sou mais aquela menina que aceitava migalhas da sua atenção! — respondeu ela, os olhos faiscando. O fim da aula trouxe com ele mais do que cadernos fechados e corredores esvaziados. Trouxe a gota d’água.
— Você tá me cobrando algo que nem você sabe se quer, Alicia! — ele disse, impaciente
— Não, Paulo. Eu não sei. Porque você nunca me inclui em nada. Você some, ignora minhas mensagens e aparece depois como se nada tivesse acontecido. Como se eu tivesse a obrigação de continuar aqui. Esperando.
Paulo franziu o cenho, claramente irritado.
— Poxa, Alicia, de novo isso? Eu já falei que eu sou assim. Eu não fico de melosidade o tempo todo. A gente tá junto, mas... você quer transformar isso em quê? Casamento?
— Não, eu quero RESPEITO! — a voz dela saiu alta, firme, chamando a atenção de algumas pessoas que passavam. Ela respirou fundo, tentando se controlar. — Eu só quero saber que eu sou parte da sua vida. Que você me leva a sério. Mas não! Você prefere viver como se ainda tivesse 15 anos, como se fosse um adolescente rebelde. Paulo, olha ao seu redor! As pessoas cresceram. Evoluíram. Você parou no tempo.
Ele desviou o olhar por um segundo. Machucava ouvir aquilo, mas era verdade. E, no fundo, ele sabia.
— Então o que você quer de mim, Alicia? Que eu mude tudo? Que eu vire o Daniel da Carmen? Ou o Mario com a Marcelina?
— Exatamente! — ela rebateu, os olhos marejando, mas sem desviar o olhar. — Você já olhou pra sua irmã com o Mario? Eles são parceiros. Se apoiam, crescem juntos. Você acha que eu não vejo o jeito como ele trata ela? Com cuidado, com presença, com compromisso. Eu mereço isso também, Paulo. Eu não quero mais pedaços seus. Eu quero o todo, ou nada.
O silêncio caiu entre eles por alguns segundos, como uma nuvem pesada prestes a desabar.
— Você... tá dizendo que quer terminar?
— E oque eu vou terminar paulo? que temos? — e mais uma vez o silencio reinou , paulo nunca sabia oque falar quando esse assunto nos rodeava — eu só tô dizendo que não aguento mais ser a única tentando. O nosso “quase” já passou do prazo de validade. Ou você cresce, ou eu vou embora. E dessa vez, não vou olhar pra trás.
Ela se virou e saiu, deixando Paulo parado, com a expressão travada entre raiva e arrependimento. Pela primeira vez, ele sentiu medo, medo de perdê-la. Não era a primeira discussão, mas era a mais séria. Paulo não queria admitir que também sentia medo — não do amor, mas da entrega. Alicia, por outro lado, cansara de esperas e de promessas não cumpridas.
Do outro lado do campus, sentados sob uma árvore, Marcelina Guerra observava o irmão com preocupação. Ao seu lado, Mario Ayala, agora estudante de medicina veterinária, tentava distraí-la.
— Você sabe como o Paulo é...Mas com a Alicia, é diferente — ele disse, estalando o dedo e apontando para a cabeça. — Eles têm essa conexão maluca. Tipo a gente.
Marcelina sorriu de leve, encostando o ombro no dele.
— A diferença é que a gente já se encontrou. Eles ainda estão se procurando.
O assunto Paulo e alicia tinhas muitas camadas onde eles não podiam opinar a não ser os próprios, por isso Mario mudou de assunto, sabia que Marcelina tinha receio que alicia desistisse de Paulo e aquilo a afligia, e Mario como um bom namorado tentaria protege-la, até dela mesma se fosse preciso.
— Então o filhote de capivara mordeu a tua luva? — ela perguntou, rindo da história que ele contara.
— E quase levou meu dedo junto! — respondeu Mario, com expressão dramática, olhando para seu dedo que estava enfaixado — Mas era só medo. Coitado, foi resgatado de um terreno cheio de entulho. Tava assustado.
Marcelina parou e o encarou com ternura.
— Você tem um coração enorme, Mario. Eu admiro muito isso em você.
— Eu só tento fazer minha parte. Ajudar quem não tem voz, sabe? — disse ele, encolhendo os ombros. — Os animais não pedem nada, mas dão tudo. Às vezes, eu acho que a gente devia aprender mais com eles.
Ela segurou a mão dele.
— E eu aprendo com você. Todos os dias.
Mario sorriu, puxando-a com carinho para perto.
— Quando eu tô com você, tudo faz mais sentido. Não é só sobre cuidar dos bichos... é sobre construir algo que dure. Algo real.
Eles se abraçaram ali mesmo, em meio às árvores, sem pressa. Um tipo de amor que não gritava, mas acolhia. Que não machucava, mas somava.
E, à distância, Alicia observava — ainda com a expressão pesada da discussão com Paulo estampada no rosto. Ela não invejava Marcelina. Mas doía não ter aquilo.
Doía se dar demais e receber de menos.
O som abafado dos pedais da bateria ecoava pelo estúdio improvisado dentro do centro cultural da universidade. A banda havia marcado ensaio para as 19h, mas Paulo chegou mais cedo. Ele não conseguia parar de pensar no que Alicia havia dito horas antes.
“Você parou no tempo.”
Essas palavras ecoavam mais alto que qualquer solo de guitarra.
Com os olhos fixos no violão, Paulo dedilhava acordes desconexos. A melodia, se é que existia uma, era triste. Dispersa. Pela primeira vez, ele sentia que a máscara de autoconfiança estava caindo — e o que restava era confusão.
Kokimoto entrou minutos depois, os fones pendurados no pescoço, carregando a case da guitarra com uma mão e um pacote de salgadinhos com a outra.
— Ei, Guerra... chegou cedo. Tá tudo certo?
Paulo não respondeu de imediato. Só soltou um suspiro cansado.
— Eu briguei com a Alicia. De verdade. Foi feio dessa vez.
Kokimoto se aproximou, sentando-se ao lado do amigo na caixa de som velha que usavam como banco.
— De novo? Achei que vocês estavam se entendendo melhor ultimamente.
— Eu também. Mas, cara... ela quer um negócio que eu não sei se consigo dar. Ela quer... compromisso. Constância. Ela quer que eu seja tipo o Mario com a Marcelina. E eu... — ele passou a mão no cabelo, frustrado. — Eu não sei se eu sei ser esse cara.
Koki ficou em silêncio por alguns segundos, depois falou com a calma que lhe era natural.
— Paulo... você sempre foi o mais cabeça dura do grupo, mas também foi o que mais sentia, mesmo sem admitir. Cê ama a Alicia?
Paulo hesitou, mas a resposta veio firme.
— E talvez eu ame mesmo.
— Então para de fugir disso como se fosse um problema. A Alicia tá exausta porque sente sozinha num relacionamento que ela não sabe nem oque é. E ela não tá pedindo um anel, cara. Tá pedindo presença. Cumplicidade. Coisa que, desculpa, você tem com a banda, com a gente, até com a Luna, mas não com ela. Paulo abaixou a cabeça. A verdade machucava.
— Ela Disse que eu parei no tempo.
— E talvez tenha parado mesmo. Mas isso não significa que você precisa ficar parado. Crescer não é virar outra pessoa, é virar a melhor versão de quem você já é. E se você ama ela, tem que mostrar isso de um jeito que ela reconheça. Do jeito dela. E, principalmente, com ações.
O silêncio ficou entre os dois por alguns instantes, até Jaime entrar, todo atrapalhado, com a cantora Luna logo atrás — uma jovem animada, de voz marcante e sorriso fácil.
— Oi, gente! Bora animar esse clima aí! — disse Luna, já testando o microfone.
Paulo forçou um sorriso e pegou o baixo.
Mas por dentro, algo havia mudado.
Pela primeira vez, ele estava disposto a crescer. Não por obrigação, mas porque não queria perder a única pessoa que fazia seu coração bater fora do ritmo.
A madrugada passou arrastada.
já no seu apartamento Alicia ficou em silêncio no quarto, encarando o teto. Sua mente girava em círculos, voltando sempre para o mesmo ponto: “Por que ele não consegue ser o que eu preciso?”
Ela havia dito tudo, cada palavra com o peso de meses de frustração contida. Mas o que doía mais era o silêncio que veio depois. O vazio de uma resposta que nunca vinha.
Na manhã seguinte, Alicia acordou com os olhos inchados e a alma pesada. No caminho para a faculdade, caminhou em silêncio ao lado de Valéria e Carmen. Nem o vento fresco do campus universitário aliviava a dor que queimava em seu peito.
As cinco estavam reunidas novamente no refeitório, Alicia cabisbaixa, apoiando o queixo sobre os braços cruzados na mesa.
— Eu tô me sentindo ridícula, sabe? Como se tivesse apostado em alguém que nunca existiu — ela desabafou.
— Você apostou no que ele podia se tornar — respondeu Bibi. — Mas ele não correspondeu. Isso não é ridículo. É humano.
Marcelina, até então calada, suspirou.
— Gente... não me odeiem, mas eu preciso dizer isso. O Paulo... ele cresceu vendo o amor como um jogo. Ele teve os mesmos pais que eu, e eles não foram exemplo de afeto. Ele aprendeu a se proteger sendo o “engraçado”, o “difícil”, o “livre”. Não é desculpa, mas talvez explique.
— E quem cura os traumas da Alicia enquanto ele aprende o alfabeto emocional? — rebateu valeria, dura.
— Ela tá esgotada, Marcelina. A gente ama o Paulo, mas ele não pode continuar tratando os sentimentos dela como se fossem temporários — disse margarida.
Marcelina abaixou os olhos, derrotada.
— Eu sei. E dói dizer isso, mas... meu irmão tá perdendo a melhor pessoa que ele já teve na vida.
As aulas começaram e o grupo se dispersou. Alicia, mais introspectiva que nunca, foi para a aula. Ao sair do bloco, seus olhos automaticamente procuraram por Paulo — um reflexo que ainda doía. E foi então que ela viu.
Ali, no meio do pátio principal da universidade, Luna, a vocalista da banda de Paulo, o agarrava pela camisa e o beijava.
Foi rápido. Foi impulsivo. E foi o suficiente.
Paulo ficou estático, confuso, e Jaime gritou um “Luna, o que você tá fazendo?!”, mas já era tarde.
Alicia congelou.
Ela não chorou.
Não fez escândalo.
Apenas levantou o queixo, ajeitou a alça da bolsa no ombro, e virou-se com elegância, indo embora sem dizer uma palavra. A dor latejava em sua garganta, mas ela se recusava a dar espetáculo. Se era isso que Paulo queria, o fim... o fim ele teria.
— Alicia! — Jaime correu atrás de Paulo, esbaforido. — Cara, ela viu! Ela viu tudo!
Paulo sentiu o chão desaparecer sob seus pés.
— Não... não... — murmurou, arrancando-se das mãos de Luna, que agora tentava justificar o gesto.
— Eu só queria ajudar, te consolar... eu...
— Você não entende nada! — ele gritou, com os olhos arregalados. — Eu amo a Alicia!
Ele saiu correndo pelo campus, atravessando corredores, pátios, salas, como se pudesse reverter o tempo. Mas Alicia já não estava mais lá.
continua...
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