O sentimento que Alicia teve naquele momento foi de pura raiva. À medida que se afastava da universidade, sem rumo, tudo dentro dela parecia se embaralhar. Havia um vazio, um eco. Os últimos resquícios de esperança de ter um Paulo mais sincero, comprometido e sério – aquele que ela sempre idealizou – evaporaram-se como fumaça.

Só então percebeu onde estava: na praça próxima ao seu apartamento. Queria chorar, gritar, queria voltar e bater no Paulo até toda a angústia e mágoa saírem de dentro dela. No entanto, apenas se sentou em um banco degradado pelo tempo, marcado com riscos de caneta deixados por adolescentes que frequentavam o lugar. Finalmente pôde respirar, e só então notou que sua respiração estava ofegante.

— Que merda, Paulo… — pensou, com os olhos marejados. — Será que nunca fui boa o suficiente?

Amar tem suas vantagens e desvantagens, e ao pensar nas discussões dos últimos dias, tudo o que conseguiu sentir foi cansaço. Estava exausta. Se lembrou o porquê de iniciar aquelas discussões.


Flashback


A banda deles havia tocado na sexta-feira no bar do Cando, próximo à universidade. Toda a turma estava lá: Mário, Marcelina, Bibi, Kokimoto — o baterista —, Valéria e até Davi, que raramente aparecia nesses encontros. Também estavam Daniel e Carmen, Adriano e Laura... e, claro, Luna e Jaime. Todos conversando, rindo. Mas, de repente, ela se deu conta: cadê o Paulo? Ninguém o tinha visto. Ele simplesmente foi embora. Não falou com ninguém. E a deixou ali.


Ela percebeu os olhares discretos dos amigos. Sentia vergonha, raiva, confusão.

— E aí, galera! O show foi muito bom. A Luna canta demais! — Jorge chegou animado, cumprimentando todos e sentando ao lado de Alicia. Jorge, de todos, era o mais próximo dela — seu melhor amigo, quase um irmão. Era quem puxava sua orelha nos momentos difíceis e dava os conselhos mais certeiros. Ele a abraçou.


— Ué... cadê o Paulo? — perguntou, a encarando.

— Não sei... — respondeu com um sorriso sem graça.


Jorge suspirou, encarando-a com aquele olhar que dizia tudo sem precisar de palavras: "Tá na hora de tomar uma atitude". E Alicia sabia que, no fundo, ele estava certo.


— O Paulo logo volta — disse Marcelina, tentando aliviar a tensão, mas sem convicção nenhuma.


— Mas e aí, Koki, como tão as coisas? — Jorge mudou de assunto, tentando quebrar o clima.


— Ih, cara, tamo levando!


— Fiquei sabendo que você tá com uma certa ruivinha... — disse Jorge, abraçando Bibi, que estava do seu outro lado.


Bibi revirou os olhos como se fosse um segredo que ela e Kokimoto estavam ficando.


— Não enche, Jorge! — reclamou, arrancando risadas discretas do grupo.


— Ah, e vocês não sabem da última... A Margarida tá voltando. — disse Valéria


Margarida e Jorge haviam namorado há um ano. A turma nunca soube exatamente o que aconteceu, só que ela foi embora de repente e depois avisou que precisava de um tempo. Durante meses, Jorge evitava até ouvir o nome dela. Alicia teve que insistir muito para que ele falasse sobre isso, mas ele nunca contou os detalhes. Só disse que foi um grande otário e que tinha perdido uma pessoa maravilhosa.


— Sério? Que bom, né... — respondeu Jorge, tentando disfarçar a emoção. Mas Alicia sabia que ele não estava preparado para esse reencontro.


—vocês não sabem da última... — comentou Jaime, mudando o foco da conversa.


O papo continuou, recheado de risos e brincadeiras. Alicia, tentando esquecer, sobre o sumiço que Paulo novamente deu, acabou bebendo demais. Jorge teve que levá-la para casa.


FIM DO FLASHBACK


Agora, sozinha no banco da praça, Alicia se lembrou de tudo com dor no peito. Estava cansada de se doar, de esperar que Paulo mudasse, de fingir que aquilo era normal. Pela primeira vez, pensou em si mesma. Talvez fosse hora de parar de tentar consertar os outros e cuidar de si.

Levantou-se lentamente e foi para casa. Tomou um banho demorado, colocou seu pijama favorito e pegou um pote de sorvete no congelador. Assistiu a alguma série qualquer, tentando distrair a mente. Mas o sono não veio fácil naquela noite. Quando finalmente adormeceu, já era madrugada.

No dia seguinte, acordou cedo. Estava com os olhos inchados, mas com algo diferente no peito. Um incômodo bom. Uma decisão silenciosa havia sido tomada. Ela ainda o amava, sim. Mas precisava aprender a se amar mais.

Paulo, por sua vez, não conseguiu dormir. Ele havia Andado pelo campus o dia inteiro tentando acha-la, para consertar o que nem tinha sido culpa dele. Ao ver Alicia pela manhã, tentou se aproximar. Mas ela passou por ele com um olhar firme. Direto , sem olha-lo.

Alicia estava na entrada do bloco de sua sala quando o viu. Paulo, parado próximo à cantina, olhos baixos, mãos nos bolsos, visivelmente ansioso. Ao vê-la, ele veio em sua direção como se cada passo fosse um alívio — ou um castigo.


— Alicia, por favor... — ele começou.


Ela levantou a mão, cortando o início do discurso.


— Você tem exatamente um minuto pra me dizer alguma coisa que valha a pena escutar.


Paulo engoliu em seco.


— Eu não te traí. Aquilo com a Luna... foi um impulso dela. Eu estava mal, falando sobre a gente, que essa situação estava me matando ... e de repente ela me beijou. Eu juro, eu nem sabia como reagir. Fiquei em choque.

Alicia sorriu, amarga.


— Eu sei. Eu vi, Paulo. Do outro lado do pátio. Eu tava indo pra minha aula.


O rosto dele empalideceu. Ele tentou se aproximar, mas ela recuou um passo.


— Você ficou lá. Parado. Não empurrou ela. Não se afastou. Ficou ali... como se fosse normal.


— Eu congelei! — ele rebateu, quase desesperado. — Eu tava tentando entender o que tava acontecendo. Eu não queria aquele beijo! Eu nem retribuí!


— Você não fez nada, Paulo. E isso já diz tudo. O silêncio também grita, sabia?


Havia uma pausa pesada entre os dois. Um abismo de mágoas mal curadas.


— Eu te amo, Alicia. — ele disse, num fio de voz, como uma súplica. — E eu sei que estraguei tudo, mas… eu quero consertar. De verdade. Me dá essa chance. Me deixa provar que eu posso ser melhor.


Ela ficou em silêncio por alguns segundos. Um vento gelado passou, fazendo seu cabelo escapar do coque. Os olhos de Alicia, úmidos, enfrentaram os dele com firmeza.


— Você quer me provar isso agora?


Ele assentiu com força. — Sim.


Então, como se a urgência fosse maior que o medo, Paulo se aproximou e, antes que ela pensasse em afastá-lo, segurou seu rosto com as duas mãos e a beijou.

O beijo não foi calmo. Foi um desabafo. Um grito silencioso. A boca dele procurou a dela com desespero e intensidade, como se buscasse recuperar tudo o que estava escapando. Alicia sentiu as mãos dele trêmulas, segurando-a com doçura, mas também com necessidade. Ela correspondeu por alguns instantes, os olhos fechados, afundada naquele velho abrigo que o corpo de Paulo era pra ela. As línguas se tocaram com urgência, e ela sentiu o gosto amargo de uma saudade que nunca deveria ter existido.

Mas então ela se afastou.


— Esse beijo foi tudo o que a gente foi, Paulo: intenso, confuso, bonito... e cheio de dor.

Ele tentou falar, mas ela ergueu a mão outra vez.


— Chega. Eu te amei demais. Ainda amo. Mas amar você tem me ferido mais do que curado. Eu mereço mais. Eu mereço paz.


Ela se virou e saiu, deixando Paulo parado, imóvel.

Após a saída de Alicia, Marcelina se aproximou devagar.


Ela tinha assistido à cena inteira de longe, do corredor lateral. Não tinha ouvido tudo, mas tinha visto o suficiente. O beijo, o afastamento, a expressão partida de Alicia… e agora o Paulo ali, parado, com cara de quem percebeu tarde demais.


— Você é um idiota. — disse Marcelina, cruzando os braços. Sua voz estava firme.


Paulo virou o rosto devagar. Não havia raiva nos olhos dele. Só tristeza.


— Eu sei...


— Não. Você não sabe. — cortou ela, se aproximando. — Sabe por que não sabe? Porque se soubesse, não teria deixado a Alicia implorar por um pingo da sua atenção esse tempo todo.


— Eu amava ela... amo. — murmurou Paulo.


— Amava? O problema é esse, Paulo. Você sempre achou que amar era suficiente. Que dizer "eu te amo" justificava todas as suas ausências, todas as vezes que você sumia ou fingia que não via a dor dela. A Alicia esperou tanto por você… e quando finalmente teve coragem de se colocar em primeiro lugar, você aparece com promessas que chegam tarde.


Paulo abaixou a cabeça. A voz de Marcelina era como uma faca bem afiada. Cada palavra cortava um pouco mais.


— E sabe o pior? — ela continuou — Eu sempre torci por vocês. Eu quis acreditar que você era o cara certo. Mas hoje? Hoje eu vi com meus próprios olhos que a Alicia merece alguém que realmente a mereça. E esse alguém não é você.


Ela deu um passo para trás, o encarando uma última vez.


— Aprende, Paulo: às vezes, o amor da nossa vida vai embora... porque não somos o amor da vida dela.


E saiu. Deixando Paulo sozinho com o peso do que perdeu.

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Mais tarde naquela noite, Marcelina bateu na porta do apartamento de Alicia.


Alicia abriu com os olhos inchados e um pote de sorvete na mão. Não disse nada. Só deu espaço pra amiga entrar.


Marcelina a abraçou sem dizer palavra. Um abraço longo, apertado, cheio de silêncio e cumplicidade.


— Você fez o certo. — disse baixinho. — Você finalmente se escolheu.


Alicia sorriu fraco, lágrimas escorrendo.


— Dói. Mas ao mesmo tempo... parece que tirei um peso.


— Porque tirou. Agora é sua vez de viver por você. E só por você.


Elas se sentaram no sofá, Alicia entregou uma colher pra amiga, e dividiram o sorvete como duas garotas que sabiam: aquele era o início de uma nova fase.

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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.