releitura A Felicidade Clandestina
1 Capítulo 1
FELICIDADE CLANDESTINA ( rescrita) por Lurdes Correa
Amália à Protegida pela Felicidade
Clarice Lispector
Ela era gorda, baixa, bochechuda e de cabelos excessivamente crespos, meio castanhos. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse. Mas não tinha o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai pobre, e batia nela todos os dias.
Pouco aproveitava. Era de dar do daquela menina : até para aniversário, em vez de pelo menos um presente, ela tomava uma surra do pai. Ainda por cima ficava de castigo, onde morávamos, era numa favela , e muitas vezes não tinha nem o que comer. Ela escrevia com letra estremecida palavras pedindo socorro. Mas o pai dela era cruel. Ele era pura maldade, fumando cigarro.
Como essa menina devia sofrer, nós éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Tínhamos pais bons, não eram ricos, mas se esforçavam para não deixar faltar nada. Na minha ânsia de ajudar, eu nem notava as humilhações e grosserias a que ele me submetia: continuava a implorar-lhe que ele deixa-se a menina ir na minha casa para estudar.
Até que veio para ela o mal dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como eu tinha, As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E, como o pai não queria comprar para ela. Disse que eu passasse pela minha casa no dia seguinte para nós estudar . Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança de felicidade: eu não via a hora de poder ajudá-la.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava numa casa como eu,e sim numa favela. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia tomado uma surra do pai, menina estava toda roxa, e que eu voltasse no dia seguinte. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a preocupação de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a esperança de poder ajudar, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto daquele homem era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo.
Para ouvir a resposta calma: a menina não estava , que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo. E assim continuou.
Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto aquele sádico não fosse preso . Parecia que ele gostava de fazer a filha sofrer para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela me dizia: pois eu não posso ir nem na escola, mas você vem de manhã, de modo que o emprestei o livro para menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa ouvi ela apanhando do pai novamente, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora estava brava, mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas o teu pai bate em você quando eu saio de casa trabalhar e não deixa você ir para a escola!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada do marido que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de seu marido era desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que,finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha seu pai não vai te bater mais: você vai escola, agora mesmo ele vai preso. E para mim: E você pode ir estudar na casa dela quanto tempo quiser.
Entendem? Valia mais a justiça: é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer. Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim ela ia na minha casa estudar. Acho que eu não disse nada. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que aquele senhor não ia bater na minha amiga. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu coração pensativo. Chegando em casa. Horas depois pensei no bem que tinha feito, mais indo comer pão com manteiga. Mas criava todas expectativas para aquela amizade ser protegida pela felicidade. A felicidade sempre ia nos proteger . Parece que eu já pressentia que teria uma amiga para sempre. Eu vivia no ar. Eu era Amália.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o coração tranqüilo se sentindo protegida pela felicidade , . Não éramos mais meninas : éramos amigas para sempre.
(LISPECTO R, Clarice. Felicidade Clandestina. In: Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1999).
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