releitura A FELICIDADE DE ELISA
1 Capítulo 1
Ela era magra, alta, pele alva e de cabelos excessivamente lisos, negros como a noite. Ela possuía o que qualquer criança que gostava de histórias gostaria de ter: um pai rico e dono de livraria.
E como esta bela menina aproveitava. E algumas crianças ainda não sabiam aproveitar, em época de festas quando todos trocavam presentes ela sempre aparecia com livros, aqueles de várias páginas que nem toda criança gostaria de ganhar.
Não era por maldade. Ela era uma menina doce completa de bondade e beleza. Mas as meninas de sua idade não se conformavam com tal beleza, o que gerava inveja e inimizades. Eu era Elisa, uma simples garota observadora, que parava em frente a livraria do seu pai todos os dias. Inveja e inimizade eu não sentia, comigo foi diferente, eu a admirava e percebendo que eu amava livros assim como ela, ela resolveu se aproximar.
Em um dia ensolarado a menina linda me chamou para conversar e me emprestou um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. Era um livro que só ela poderia pagar, jamais eu teria dinheiro para comprar. Disse-me que eu passasse pela sua casa quando terminasse de ler este e que outro maravilhoso quanto ela iria me emprestar.
Eu ali numa cidade do interior do Paraná, sem condições de pagar por um livro daquele e ninguém entenderia o porque de um bela menina me presentear. Cada dia que passava mais páginas daquele livro eu lia e, quanto mais lia queria termina-lo para na casa da menina outro livro buscar.
A bela menina tinha uma ideia, queria me tornar leitora apaixonada assim como ela. Aquele livro grosso eu terminei de ler e fui correndo pelas calçadas na casa dela contar. Um livro, dois livros, três livros...
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Um livro após outro pôde me emprestar. E neste dia eu iria buscar As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Chegando lá sua mãe se surpreendeu, que gesto lindo sua filha havia acabado de fazer. Ela disse toda encantada para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.”
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa que era a felicidade. A maior felicidade para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era Elisa e a felicidade.
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