rEVERSE - O conto da primeira estrela
6 O lobo é a ovelha e a ovelha é o lobo
Notas iniciais
(Sakura) — O lobo é a ovelha e a ovelha é o lobo
Eu deveria saber que havia algo errado no momento em que entrei com Syaoran aos berros na sala, não tinha porque me preocupar, afinal era apenas mais um dia normal. Senti-me incomodada ao ver quando todos na sala se calaram com a nossa chegada. Ai tinha historia no meio. Meu deus, eles tinham descoberto nosso segredo, e agora, todos já sabiam. Alguém deve ter me visto entrando no banheiro feminino por acidente.
Imediatamente, todos trataram de ocupar as mãos ao me ver cruzar os braços e mandar meu melhor olhar zangado. Sinceramente, essa era a minha melhor imitação de Syaoran. Adorava como ele era tão mal encarado, que chegava a afastar conversas alheias.
Depois das primeiras aulas, perto dos armários, avistei de longe meu corpo ambulante e Kamui com um braço barrando seu caminho. Eu sabia que era arriscado deixar os dois conversarem, já que as conversas de Kamui às vezes eram meio irritantes – até mesmo para uma garota – ainda sim, me diverti a beça com a cara de irritação de Syaoran.
Ele esfregava as têmporas enquanto kamui falava compulsivamente, sem tentar disfarçar sua frustração. Eu realmente adorava quando conseguia deixar o chinês com aquela cara em nossas brigas, era sinal de que havia saído por cima. Mas era meio estranho acordar e se olhar no espelho, vendo que aquela cara agora era minha.
Por sorte, meu armário era bem afastado dos dois, Syaoran havia me feito decorar a senha do cadeado – assim como muitos outros números. Eu espiava por traz da portinhola. Kamui colocou um dos braços entre a cabeça de Syaoran, que grudou nos armários, devido à proximidade. Ele estava com uma cara azeda.
Comecei a rir instantaneamente. Poderia ter ficado ali a tarde toda com aqueles dois, mas uma garota passou por mim, me olhou com uma cara esquisita e depois correu. Lembrei que Syaoran Li nunca ria. Eu devia estar parecendo um lunático.
Syaoran me viu e veio em minha direção.
—Precisamos fazer alguma coisa a respeito desse cara – comentou ele baixinho, me puxando pelos corredores. Kamui agora olhava para nos com uma gigantesca cara de fúria. Ele esmurrou o armário, fechando-o com força e saiu batendo os pés.
—O que ele tem de errado?
—Ta tudo errado, Sakura! – disse Syaoran passando as mãos pelos cabelos, bagunçando as mechas castanhas que antes eram minhas. Era um habito que ele não fazia por mal, mas eu já tinha pedido para parar, pois era minha imagem que ficava parecendo uma bruxa – eles estão errados, nos estamos errados. Tá tudo de cabeça para baixo!
—Calma, o que foi que aconteceu?
O sinal bateu antes que ele pudesse me contar. As pessoas encheram os corredores correndo para suas aulas, os armários ao redor ficaram lotados de gente pegando seus materiais e eu não conseguia ouvir mais a voz de Syaoran. Ele pegou meu colarinho e me puxou para baixo, obrigando a me curvar. Por algum motivo, mesmo sendo minha própria voz, senti um calafrio percorrer minha espinha até os pés. Eu só não sabia se isso era bom ou ruim.
—Aqui não! Por hoje, temos que ficar distantes um do outro, não me procure nos intervalos. Em casa conversamos!
Ele olhou ao redor e eu percebi que havia pessoas nos observando. Elas fingiam que estavam mais ocupadas e saiam andando. Como se as coisas não pudessem ficar mais estranhas.
Para Syaoran falar era fácil, ele estava cercado de amigos – que eram meus – e não se sentia tão solitário. Quanto a mim, eu era completamente ignorada. Sentia inveja de seus almoços em conjunto, das conversas de menina e das maluquices de Tomoyo. Sentia falta de tudo isso.
Estava me acostumando a aguentar as coisas dessa forma, mas me incomodou o fato de Syaoran não estar falando comigo, pois ele era o único que eu conversava na sala. Balancei a cabeça para tirar essas ideias da cabeça.
Ele não me abandonaria no meio dessa confusão mal resolvida, não é?
Todas as vezes que eu olhava ou tentava falar com ele, simplesmente virava o rosto e me ignorava, voltando a falar suas amigas. Parecia que tínhamos voltado a ser o que éramos antes, mas de corpos trocados. Minha raiva começou a subir e eu já estava perdendo a paciência.
Comecei a enxergar tudo como se fosse um filme com uma cena feliz e eu o telespectador. Todos ao redor faziam alguma coisa, rindo com alguém, enquanto as coisas ao meu redor simplesmente não se movimentavam.
Passei o restante do dia observando suas costas. Ele estava sentado ao lado de Tomoyo, encurvado sobre algumas atividades da aula. Até mesmo sua postura ainda denunciava que havia algo errado comigo. Vi Tomoyo perguntar se ele precisava de ajuda. Estávamos na aula de matemática, eu sempre precisava de ajuda, mas Li automaticamente recusou, pois já havia resolvido tudo. Novamente aquele mês, Tomoyo fez uma cara de confusão, sentindo-se um pouco triste. Como queria contar para ela sobre toda essa confusão para me ajudar a esclarecer ideias e pensamentos. Tinha medo de que nossa amizade se afastasse, pois eu conhecia a personalidade de Li.
Não deixei de pensar as piores coisas possíveis, mesmo sabendo que não devia. Syaoran estava roubando minha vida de mim ou coisas parecidas. Eu estava com ciúmes. Teria que ficar presa em seu corpo para o resto da vida, enquanto ele levava a minha.
Sem paciência, antes que me desse conta, encurralei ele entre uma carteira, com meus braços ao seu redor. Eu era maior, e estava me aproveitando disso.
—Qual é o seu problema, porque não fala mais comigo?
Ele gaguejou sem saber o que responder. Balançou as mãos e depois empurrou meu peito. Seu olhar dizia tudo. O que diabos você esta fazendo? Ele olhou ao redor, reparei que todos estavam prestando atenção em nós. Minha raiva apenas aumentou. Quantas pessoas intrometidas haviam nessa escola?! Era minha vez de puxar Syaoran da sala, mesmo sabendo que a aula estava prestes a começar.
****
—Eu sabia que você era impulsiva, mas dessa vez, você estragou tudo! – brigou ele.
Eu batia o pé, me perguntando como ele podia estar tão relaxado.
— o que foi que eu fiz? Foi você que começou a agir todo estranho.
— Sakura, eu falei que em casa conversávamos, estava fazendo isso para seu próprio bem!
—Você esta aproveitando – gritei eu – está gostando de ter amigos, já que você era tão fechado que não conseguia fazer nenhum. Esta no meio de uma família amorosa, ao contrario daquela casa vazia.
Por um momento eu achei que estava exagerando, que minha raiva tinha subido e eu perdido a cabeça. Mas então Syaoran hesitou e desviou o olhar, sem desmentir tudo o que eu havia falado.
—Eu quero meu corpo de volta Syaoran! – disse, sem perceber que eu estava chorosa.
Eu estava sentindo muita raiva, tanta que minha garganta queria fechar e chorar, mas não daria esse luxo. Syaoran estava sério. Eu aguardava ele gritar de volta e me xingar, como sempre fazia, mas ele disse tranquilamente.
—Eu sei que esta sendo difícil. Desculpe. E sei que você esta se sentindo sozinha. Me desculpe por pedir uma coisa dessas. Mas é para seu próprio bem.
Cega de raiva e lembrando todos os almoços em grupo e historias que eles compartilhavam em sala, imaginando Li chegando em minha própria casa, fingindo ser eu, enquanto tinha que ficar isolada, sem amigos e família, senti alguma coisa quebrar dentro de mim. Syaoran havia roubado minha vida.
—Então me devolva meu corpo!
Empurrei-o com força, esquecendo-me que agora habitava o corpo de um homem. Ele caiu de costas, batendo a cabeça na parede, fazendo um som nada bonito. Meu sangue gelou e logo me arrependi. Ele segurava a cabeça, esfregando a parte dolorida com as duas mãos.
—Me desculpe...Me desculpe! – não estava acreditando no que eu havia feito, não tinha noção de minha força, poderia ter machucado Li seriamente – eu não sabia que eu....
Como uma bomba em minha cabeça, tudo estava rodando de uma vez só. Meus antigos amigos, minha família que eu não via há um bom tempo, a falta de Tomoyo e Li. Mas ainda assim, não era culpa dele, e eu o havia machucado.
Sei que era covardia, mas sai correndo antes que eu pudesse encara-lo nos olhos.
****
Fiquei a tarde perambulando pelos corredores, evitando qualquer inspetor, professor ou aluno. Andei pela biblioteca, fui para as salas de estudo e fiquei um tempo no banheiro, chorando como uma criança e me arrependendo de ter machucado Li. Subi para o terraço, vendo o por do sol, esperando o sinal bater. Não queria que vissem Syaoran Li chorar, como homem, ele deveria ter orgulho e eu manteria isso por ele. Queria voltar e pedir desculpas. Não estava acreditando que tinha falado tudo aquilo na cara dele. Eu pelo menos tinha amigos e família, Li sempre foi sozinho. Eu entendia seu lado de aproveitar minha vida, pois eu estava vivendo a sua e já estava cansada.
Olhei para o céu, que em um dia muito ruim, estava estranhamente bonito. Havia algumas nuvens, que se moviam lentamente de acordo com o vento, mas estava limpo, com um tom meio rosado e roxo. Era hora do crepúsculo. Brilhando intensamente, havia uma única estrela no céu, a primeira estrela da noite.
Rezei para ela, pedindo para que tudo se resolvesse e acabasse bem para mim e para Syaoran. Eu havia sido egoísta. Percebi que todas as noites, ele ia para casa dele e preparava a comida para que eu não ficasse com fome, já que não sabia cozinhar. O bento que eu comia nas horas de intervalo era de meu pai, reconhecia o gosto, ele trazia para mim e fazia o seu próprio. Mesmo em uma situação como essa, quem estava sendo cuidada era eu. A criança mimada da historia era eu. Syaoran não tinha família no japao, morava sozinho e não tinha amigos. Era natural que ele começasse a gostar de uma coisa que nunca teve. A egoísta era eu.
****
Voltei decidida a pedir desculpas a Li. Estava meio nervosa e envergonhada, imaginando que ele nunca mais iria me ajudar agora. No momento, não tinha ninguém, não queria que ele virasse as costas para mim também.
O sinal havia batido, todos estavam em seus armários guardando seus materiais. Syaoran não devia ter ido embora ainda. Não devia estar olhando meu caminho, pois senti meu ombro esbarrar em alguém e pedi desculpas. Uma mão grande apertou meu ombro, me empurrando para traz. Tive apenas tempo de vislumbrar a mão voando para meu pescoço e apertando meu colarinho.
—Voce de novo?! Eu já avisei que se mexesse comigo novamente iria apanhar, não é?
Eu não conseguia falar, pois um rapaz de dois metros de altura apertava a gola de minha roupa tão forte que praticamente me enforcava.
—Eu vou arrancar seus dentes, Syaoran!
Me dei conta de que ele falava com Syaoran, não comigo. Me lembrei vagamente do garoto, ele e Syaoran haviam brigado, levando dois professores para separa-los, era um dos participantes do concelho de classe. Há muito tempo atrás, saiu um boato que Syaoran havia roubado dinheiro de viagem da sala, a turma acabou trabalhando o dobro para arrecadar mais fundos, mas já era tarde demais.
—Você não aprendeu nada com a ultima vez? Já falei para não cruzar comigo nos corredores comigo.
—Que eu saiba – disse eu com muita dificuldade – os corredores são públicos.
—Tá dando uma de engraçadinho de novo, né! – ele me empurrou contra a parede mais uma vez, me fazendo perder o ar e tossir.. Minha mente girava tentando encontrar uma maneira de fugir.
Olhei ao meu redor, as pessoas apenas ficavam paradas, observando a cena. Alguns fofocavam, enquanto outros riam e filmavam, mas ninguém se moveu para ajudar ou chamar ajuda. Apenas observavam com sorrisos no rosto, esperando a lenha pegar fogo. Senti um desespero imenso ao ver o grandalhão levantar o punho. Eu estava assustada.
—Você sempre foi um otário – dizia o garoto em voz baixa, com o rosto tão perto que dava para sentir seu hálito enjoativo – mesmo quando disse que podíamos dividir parte do dinheiro, você recusou e ainda brigou comigo por conta disso. Perdi minha namorada por sua culpa, ela ficava jogando na minha cara que nunca ficaria com um cara que apanha para baixinhos como você. Eu fiquei mal visto entre as pessoas.
—Foi você!
Minha mente entrou em um frenesi por um instante, repassando tudo em minha cabeça. Fora ele quem apontara o dedo primeiro, relatando para os professores e diretor da escola. O dinheiro nunca passo nas mãos de Syaoran.
Era obvio, Li havia brigado com esse cara por conta disso, mas dessa vez, eu estava em sua pele, e diferente de Li, eu não sabia lutar.
—Voce sempre foi um mané, triste e solitário. Ninguém quer você aqui chinês.
Olhando para aquelas bochechas gordas e dentes tortos que falavam mal de Syaoran, deixei minha raiva subir e fiz a primeira coisa que veio em minha mente, um chute bem encaixado entre as pernas do grandalhão em minha frente.
—Quem é você para falar dele, hein?– disse eu, o vendo encolher de dor – você é um idiota como todos os outros!
Senti que estava falando mais para mim do que para ele. Pensei em sair correndo, mas por algum motivo, queria que Syaoran saísse muito legal dessa cena, na frente de tantas pessoas. Fiz o que ele faria, bufei, coloquei as mãos nos bolsos tranquilamente e sai andando, lutando muito para não correr desesperada e que o gordinho demorasse para se recuperar.
Mas como eu não era Syaoran, era obvio que minha sorte iria por agua abaixo. O grandão levantou, com as pernas meio tortas devido à dor, e avançou em mim. Eu sabia que iria morrer.
Esperei receber um impacto no rosto, mas senti uma terrível dor no estomago e o ar faltar. Cai de joelhos, com as mãos dobradas ao redor do estomago, tentando respirar, mas o ar não entrava. Nunca havia recebido um soco no estomago antes, o corpo de Syaoran era forte, mas eu não estava preparada para brigar com alguém do porte dele.
Usando a parede de apoio, tentei me levantar, mas ainda estava sem ar. Ele sorria e estralava os dedos, preparando-se para o próximo soco. Minha mente havia entrado em pânico, eu só conseguia assistir em choque ele se aproximar. Seu punho era duas vezes maior que meu nariz.
Ele preparou outro soco, dessa vez eu sabia que viria no rosto – coloquei os braços na frente, numa tentativa inútil de me proteger, mesmo sabendo que estava sendo ridícula, mas era a única coisa que vinha em minha mente.
Fechei os olhos, sentindo lagrimas de frustração.
Um vulto pequeno passou voando pelos corredores, tão rápido que o grandalhão nem viu o que o acertou. Ele cambaleou para trás, com as mãos nos rosto, uivando de dor.
—Meu nariz! Quebraram meu nariz!
Olhei para Syaoran, que estava parado a alguns centímetros de distancia de nós dois. Por um rápido momento fiquei feliz, mas ele estava com uma postura diferente. Seu olhar me dava calafrios, afiados mais do que de costume. Não dava para dizer de quem ele estava com raiva, de mim ou do grandão. Ele parecia que estava prestes a caçar duas presas tolas e palitar os dentes.
Syaoran esperou o rapaz olhar diretamente para ele, o garoto rugiu de raiva e avançou como um touro, mesmo sem considerar que era uma garota em sua frente. Li fez algo que eu jamais faria em minha vida. No momento certo, ele agarrou o braço grosso do menino, que mais parecia um tronco de uma arvore e o jogou por cima do ombro com uma facilidade assustadora. Ele retorceu seu braço e esperou o grandalhão parar de se debater. A presa foi dominada pelo predador em questões de segundos.
O chinês se abaixou dolorosamente, torcendo o braço do rapaz, e murmurou alguma coisa, soltando com toda a tranquilidade do mundo. Pela primeira vez, Syaoran parecia mais ele mesmo do que eu, seu olhar era tão penetrante que assustava. Era normal acharem que ele era o cara mal encarado.
Ele caminhou em minha direção, os punhos fechados e os olhos furiosos. Tive quase certeza que de que me bateria também. Mas antes que ele chegasse perto, o grandalhão levantou.
—Cuidado! – gritei.
Não precisou dizer duas vezes, Syaoran virou tão rápido, encaixando um soco no rosto do rapaz que ele caiu de vez. Eu não sabia que meu corpo tinha tamanha agilidade e força para nocautear um cara daquele tamanho. As pessoas ao redor olhavam assombradas.
Li estava com muita raiva, dava para ver isso em seu olhar. Ele voltou-se em minha direção novamente, com passos firmes. Fechei os olhos quando ele levantou a mão, me encolhendo para receber um tapa, mas ele apenas me puxou para outro lugar, nos afastando daquela multidão em volta de um estudante desmaiado.
As aulas haviam acabado, então lá estávamos nós novamente na sala de musica. A sala estava meio escura, pois o sol já estava terminando de se por, iluminando apenas um terço do ambiente. Syaoran entrou e fechou a porta.
Eu não sabia o que dizer ou fazer. Talvez ele tenha me trazido ali para me bater e não ficar com a reputação ruim depois, por estar apanhando para uma garota. Sabia que deveria pedir desculpas, mas minhas pernas não paravam de tremer. Eu estava com medo de uma baixinha – e essa era eu mesma.
—Me descul....
Syaoran avançou e de medo eu quase cai para tras. Mas ele não me bateu, como eu esperava. Pulou, jogando seus braços ao redor de meu pescoço e me abraçou.
Eu estava atordoada, perguntando se aquilo era o que eu estava imaginando. Ele não me enforcou nem nada, mas me abraçou. Ele estava me abraçando! Meu peito estava a mil, meu corpo de repente estava grande demais, com braços e pernas desajeitados, meu estomago parecia uma bola de ping pong, batendo de um lado para outro.
_Me desculpe!
Não entendia porque Li estava se desculpando. Eu havia agido como uma criança, deixando a cabeça subir e ficando irritada facilmente. Tudo bem que ele poderia não me bater, mas imaginei que iria exigir pelo menos uma desculpa.
—O que você disse foi verdade! Eu estava mesmo aproveitando uma parte de sua vida. Diferente do que eu imaginava, seus amigos pessoas boas e sua família é muito divertida – disse ele sem me soltar – mas em nenhum momento eu pensei em deixar você para trás ou tomar seu lugar. Me desculpe por você ter que aturar tudo isso. Eu sei que não esta sendo fácil.
Senti as lagrimas descerem e não tentei impedir. Eu pedi desculpas, gaguejando e engasgando com minhas próprias lagrimas, pois eu sabia que quem deveria pedir desculpas era eu, por ser uma pessoa tao egoísta. Ele tinha sofrido esse tempo todo e agora eu compartilhava de sua dor. Abracei Syaoran de volta e me desculpei inúmeras vezes.
****
—Você é muito cabeça dura, olha só para sua mão? – disse eu, analisando a mao ferida de Syaoran enquanto estávamos sentados no banquinho do piano.
—O que eu queria que eu fizesse? Ele te deu um soco no estomago. Fiquei com tanta raiva que esqueci que estava no seu corpo.
Senti meu peito se aquecer com aquilo, segurei a vontade de abrir um sorriso. No momento em que Syaoran apareceu, havia ficado aliviada por um instante, antes de começar a pensar que ele iria me matar.
Ele baixou a cabeça analisando a ferida. Não era muito grande, mas a cara que fazia parecia que ele tinha uma fratura exposta.
—Está doendo tanto assim? – perguntei.
—Não, mas... – ele segurou a mão, fechando os dedos um no outro – É seu corpo, Sakura. Usei força demais. Desculpe.
Novamente, senti um calafrio percorrer minha espinha, descendo pelas pernas e subindo novamente para o estomago. Eu devia estar adoecendo. Achei fofo da parte de Syaoran se preocupar comigo, mesmo eu não sentindo nada.
—Obrigada Syaoran – Me senti mal por só agradecer. Estava me sentindo culpada pelo passado, eu havia discutido com Syaoran, colocando a culpa do roubo do dinheiro nele. Fiquei imaginando como foi a briga entre os dois no passado, ficou em minha cabeça a facilidade com que Syaoran derrubou o brutamontes mesmo sendo tão pequeno – não se preocupe comigo, estamos igualados agora.
Disse eu me referindo ao empurrão brusco que dei nele.
—Mas sou eu que tenho que pedir desculpas. Agi feito uma criança sem pensar em você. Me desculpe por falar tudo aquilo. – dei uma pausa ponderando se continuava falando ou não – ele comentou sobre o caso do dinheiro da turma. Me desculpe por ter acusado você injustamente.
Quando acusaram Syaoran, todos me incentivaram a falar com ele, pois eu era a única que tinha coragem de bater a sua altura. O procurei e exigi que devolvesse o dinheiro. O encontrei no terraço, com as roupas rasgadas devido a briga que tinha acabado de acontecer, Syaoran ficou suspenso por duas semanas. Mas parando para pensar novamente naquele encontro no terraço, ele estava perdido em pensamentos, com os ombros caídos e cansado, sujo de terra e sangue. Estava triste.
—Ele queria roubar o dinheiro, mas eu acabei pegando ele no flagra. Quando ameacei contar, ele queria que dividíssemos, para eu não dedurasse para ninguém. – comentou Syaoran, dedilhando as teclas do piano, brincando com os dedos para se distrair – mas quando recusei, ele tentou usar o lado da força. Deu no que deu.
—Não fui diferente de ninguém, fui como todos os outros, e fiz a mesma coisa agora. Falando idiotices pra você. Você me perdoa?
Ele riu, aumentando o ritmo das notas, o que teria dado ótimos pontos nas aulas de musica se eu tocasse daquela forma.
—Eu também não falei coisas carinhosas para você nesses últimos anos.
Parei para apreciar o conjunto de notas que ele estava fazendo, tudo com apenas uma das mãos.
— desde quando você toca piano? Nunca aparece nas aulas de musica.
Ele endireitou a postura, mantendo as costas eretas, e estalou os dedos, levantando-as na altura dos olhos. Tocou as teclas tão rápido que me assustei, sua mão mantinha uma velocidade incrível, produzindo uma musica suave e melancólica. Mantinha os olhos fechados, com um rosto calmo, como se a musica do piano fosse a única coisa que aliviasse nossos sofrimentos naquele momento.
Eu nunca iria imaginar que Syaoran pudesse ser tão bom em alguma coisa, ele estava em um nível profissional totalmente diferente de alguém da escola. Era melhor até do que a professora, que sempre ralhava com ele por chegar ao final da aula..
—Syaoran
Ele apenas resmungou, olhando para as próprias mãos no piano, que estavam estáticas agora.
—Voce é horrível!
Ele despertou de seus pensamentos, olhando para mim com uma cara engraçada e começamos a rir. O céu já havia escurecido completamente, a pouca iluminação que entrava vinha dos postes de luz do campo de futebol que ficava ao lado da sala, geralmente ligados quando anoitecia.
—Sakura
—Eu!
—Somos amigos agora, ok?
Assenti, feliz por ver que esse garoto em minha frente não era quem eu imaginava. Eu não o conhecia, mas agora via que ele podia ser um bom amigo. Ao mesmo tempo, fiquei um pouco triste, pois assim como eu, todos tinham uma impressão errada de Syaoran. Me senti culpada por ficar com pena dele toda ver que o via.
_Me desculpe por ter pedido para nos afastarmos – disse ele – eu estava andando preocupado, pois as pessoas estão comentando demais como estamos juntos. Mas havia e esquecido que Syaoran Li é odiado por muitas pessoas da escola.
—Como assim as pessoas estão comentando?
—Voce não percebeu? Eles acham que estamos namorando!
Fiquei em silencio, sentindo minhas bochechas pegarem fogo. Ainda bem que a sala estava escura, pois assim ele não poderia ver como eu havia virado um tomate. Lembrei de como ninguém fez nada para me ajudar quando eu precisava. Ou de como haviam acusado Syaoran injustamente – mesmo eu tendo feito a mesma coisa – de como tudo virava historia na boca do povo.
—Deixem que pensem, não me importo mais! – eu havia falado baixo, mas sabia que ele tinha ouvido, me senti um pouco constrangida – somos amigos, afinal, isso vale mais.
Ele riu e levantou a mão, fechando o punho.
—Trégua?
—Trégua!
Disse eu, batendo meu punho no dele.
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