Começa assim: Ron e Harry dividem um baseado em um corredor qualquer de Hogwarts. Eles vão ser pegos por Severus Snape em cerca de quarenta minutos, mas isso não importa, não quando os lábios do menino menor tinham um gosto tão irresistível e sua cintura magra — Harry tinha medidas de invejar qualquer modelo, que ele mantia com a ajuda da anorexia que os Dursleys o ensinaram a desenvolver — parecia se encaixar tão perfeitamente nas mãos maiores de Ron.

Ele odeia todo aquele clichê sobre maconha ser a porta de entrada, mas mesmo ele precisa admitir que foi ali, naqueles baseados compartilhados e beijos roubados, que Ron percebeu que não precisava se sentir um merda o tempo todo.

Ele percebe isso e é aí que começa sua queda.

Hermione empresta seus remédios para ansiedade quando a voz de sua mãe insiste em berrar em seus ouvidos, mesmo nos cômodos mais silenciosos, sobre como ele não era bom o suficiente. (Bill tinha que ser o melhor, Charlie tinha que ser tão bom quanto, Percy se sufocava em sua própria perfeição, Fred e Jorge precisavam se esforçar mais, Ron nunca era o suficiente e Ginny era sempre demais, merda, ela não podia ser menos ela? — Mas essa não é uma história sobre os irmãos dele)

Lee Jordan o olha criticamente, mas lhe entrega a cartela de comprimidos trouxas contrabandeados com apenas um leve arrependimento pesando em seus ombros — que cresceria e se tornaria um de seus monstros quando Fred e Jorge descobrissem, quando fosse tarde demais.

E então, Ron não se sente mais um merda o tempo todo. Harry e Hermione, embora preocupados, não o julgam. Não quando ele pula mais refeições do que as faz e ela não dorme por dias, se entregando a sua compulsão-obssessiva de ser a melhor de todas. Ron não se sente mais um merda o tempo todo e a vida é ligeiramente melhor.

Até que, você sabe, não seja mais.

Até que o corpo frágil e maltratado por anos de abuso e negligência de Harry não aguente mais e colapse, até que ele enterre Hermione ao seu lado dois meses depois, vítima de sua própria culpa, até que ele roube todos os comprimidos sobressalentes e gaste todo seu dinheiro e consuma tudo o que colocarem na sua frente e beije um milhão de rapazes morenos de olhos verdes e dance com um milhão de garotas de cabelos cheios e sorrisos sagazes e faça um milhão de pequenas linhas em banheiros sujos e em seus braços agora cheios de cicatrizes. Até que sua mãe o encontre semi-vivo em um beco ao lado de sua cafeteria favorita.

Até que, você sabe, ele decida melhorar.

Ele faz isso por Harry e Hermione. Ele vai a todas as consultas, ele segue todos os cronogramas, ele obedece todas as regras. Ele sorri e diz que está melhor, seu corpo se recupera mas sua alma não, ele volta a comer e sonha cada vez menos com cinturas finas e cheiro de pergaminho.

E ele está melhor. Ele está melhor. Ele precisa estar melhor. Por Harry, por Hermione.

Ron tem 15 anos e é um viciado em drogas. Ele tem 18 e é um viciado em recuperação. Ele tem 22 e é um ex-viciado.

Ele leva flores ao túmulo do amor da sua vida e ao de sua outra metade, ele cuida de bichento e toma chá com sua mãe, ele vai à terapia semanalmente e aos treinos de sua irmã quase que diariamente, ele vai a alguns encontros que sempre acabam com ele enxergando Harry nessas pessoas, ele vai à bibliotece e engole o choro toda vez que alguém que o lembra demais à Hermione passa por ele.

Ele cobre suas cicatrizes com tatuagens, ele se ressente de cada um de seus irmãos, ele odeia sua mãe e seu pai em seus piores dias, ele beija mais morenos de olhos verdes, ele consegue um emprego, ele aprende sobre todas as coisas favoritas de Neville, ele continua sóbrio, ele ainda ama Harry, ele ainda sente falta de Hermione, ele ainda tem vontade de vomitar toda vez que sente cheiro de álcool, ele ainda se despreza, ele ainda dorme demais e come mais ainda.

Ele ainda não sabe quem é, mas Ron tem 22 anos e está sóbrio. É tudo o que importa.

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