permanentemente azul
1 Eu fiquei rosa e preto e azul por você
Notas iniciais
i tried to do handstands for you
but everytime i fell for you
i'm permanently black and blue, permanently blue for
you
— chairlift
♡
Seis mil oitocentos e cinquenta e três quilômetros separam o Japão da Austrália. Seis mil oitocentos e cinquenta e três quilômetros recobertos pelas ondas calmas do oceano Pacífico, pela água cristalina batendo na areia da praia de incontáveis ilhas. Você sabe o nome da maioria delas — Papua-Nova Guiné, Fiji, Polinésia, Tuvalu e tantas outras. Às vezes você pega um mapa e fica estudando somente aquele pequeno pedaço que interessa há você. Afinal, o que há entre o Japão e a Austrália?
Seis mil oitocentos e cinquenta e três quilômetros separam você e Rin. Seis mil oitocentos e cinquenta e três quilômetros separam você há meses, meses que você por enquanto consegue contar com uma só mão. São cinco, ao todo, desde a última visita, no recesso de dezembro a janeiro. Cinco meses desde que Rin encheu a ponte de seu nariz de beijinhos — beijinhos de borboleta! —, desde que ele te abraçou no meio da rua, na frente de todos os seus amigos, porque você estava tremendo de frio. Cinco meses desde que ele teve que lhe segurar pela gola do casaco para impedir que você entrasse no mar de roupa e tudo — você estava com a roupa de banho, é claro, mas Rin não precisava saber disso.
A distância era grande demais para você. Seis mil oitocentos e cinquenta e três quilômetros faziam um buraco no seu peito, no lugar exato que Rin deitava a cabeça para ouvir o barulho do seu coração quando vocês decidiam assistir um filme — que, dai a César o que é de César, vocês nunca assistiam de verdade; ou ele acabava dormindo, roncando baixinho contra sua pele, ou subia e te beijava até que você tinha que empurrá-lo para conseguir respirar.
(rin era como a água, sempre te deixando sem ar, sempre circundando você — e você, mesmo sem saber, sempre orbitou ao redor dele)
Você nunca ouviu falar de que alguém fora nadando do Japão até a Austrália. Nesse quesito, então, você seria o primeiro; estampando as manchetes com Japonês Apaixonado Nada Até a Austrália para Visitar o Namorado. Você não ligava de aparecer em machetes — você só queria ver Rin outra vez, seu sorriso de dentes pontudos, seus cabelos vermelhos e os olhos cor de romã madura que você nunca vira em mais ninguém. Você queria deitar com ele no chão e ouvi-lo falar e falar e falar enquanto você apenas escutava, memorizando cada palavra que saía dos lábios dele, cada vez que olhava a cabeça para você e falava Ei, Haru, você 'tá prestando atenção? E você respondia com um singelo sim, porque palavras não eram seu território. Palavras não eram a água, e os olhos de Rin enquanto ele traça seus lábios com a ponta dos dedos, e os beijos salpicados pela ponta do seu nariz.
Você aperta o casaco com mais força contra o peito. Rin o esquecera contigo desde a primeira visita, mas você nunca se importou em devolver. Não quando você podia vesti-la e sonhar que era Rin te abraçando pelas costas, que dessa vez era você quem estava encostado contra o peito dele, ouvindo seu coração bater contra as costelas. Você fecha o zíper e deixa que as mangas largas ultrapassem seus braços, como se estivesse usando um suéter gigante, e fecha os olhos.
Você pensa na água, em Rin, na próxima visita que será daqui a mais ou menos um mês; seus dedos formigam de ansiedade e você, mesmo depois de todo esse tempo, ainda se sente um tanto quanto perdido.
Você nunca sentiu isso por outra pessoa.
O casaco é quente como os braços dele na sua cintura e você está quase adormecendo, quase sonhando com a Austrália e uma praia deserta na sua frente quando seu celular apita. Na tela iluminada, você pode ver uma notificação de mensagem. Seu coração bate mais rápido — você se sente uma garota de colegial quando o assunto é Matsuoka Rin.
eu tô com saudade haruuuu; você lê, letras pequenas desenhadas na tela do aparelho. Você sorri, os sorrisos sinceros que você reserva para ele, para o seu namorado, para Rin. Você o ama.
E você nunca foi bom com palavras, mas por Rin você é capaz de qualquer coisa, por mais clichê que soe.
Eu sinto sua falta também, Rin.
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