Notas iniciais
Para Verena, de sua grande chata que te adora bastante.

[música da fic (os trechos inseridos ao longo da one são dela): http://www.youtube.com/watch?v=EDEEzS7OV2k]

paredes de gelo queimam lentamente

Veja o que eu fiz,

essa ponte está em chamas.

Islands — The XX

O mundo deixou de fazer sentido há muito tempo. Vocês sabem (todos sabem) que suas almas se perderam em meio à lama de algum dos buracos do caminho. Mas qual foi a pedra na qual vocês tropeçaram que fez com que elas — as almas — simplesmente caíssem no chão? Perdidas para todo o sempre?

Vocês nunca falaram sobre. Talvez vocalizar fosse tornar tudo real demais. Não deixou de doer, entretanto. Acho até que nunca o vai. Essa traição (quem é que a executou primeiro?) é como um machucado que nunca vai cicatrizar. Sempre sangra, sempre faz com que o sangue — negro, tudo é negro, negro e vermelho — escorra e ensope o seu coração tal qual seria se ele explodisse, assim, repentinamente. (Dir-se-ia que ele já explodiu).

E mesmo que você nunca se lembre (nunca, nunca, nunca se lembre) da dor, mesmo que por um milagre isso se torne possível, mesmo assim a ferida ainda vai estar lá. Pulsando. Gritando e batendo e mordendo e dizendo olhe para mim e lembre-se da tua miséria.

Como uma folha que caí no outono e nunca deixa de planar.

X

eu não posso ir ao oceano

eu não posso dirigir pelas ruas à noite

eu não posso acordar pela manhã

sem você na minha mente

X

Tudo começou simples, como as grandes coisas da vida sempre começam. Ele era uma criança boba, você também. Nenhum de vocês dois sabiam nada sobre a estrada que teriam que percorrer alguns anos depois (como, diga-me, como poderiam saber?) e lobos e leões e veados coroados não eram mais que desenhos em livros de história. Não eram mais que um fantasma distante que ria com a voz do vento.

Lulas gigantes eram só um estandarte e Ilhas de Ferro era só um lugar.

Parecia que seria assim para sempre.

Poderia ter sido assim para sempre.

(Mas não foi).

X

eu nunca quero te ver infeliz

X

Você nunca sequer parou para olhar para trás. Tem medo de se arrepender. É um medo tolo, passageiro, fugaz como o toque de uma borboleta, mas ele está lá. E você finge que ele é mais forte do que é para mascarar a certeza — aquela certeza que você finge com tanta veemência que não existe — de que nunca (nunca nunca nunca) se arrependeria de absolutamente nada, nem que passassem mil anos.

Não importo o quê — ou quando — ele faça, você ainda vai estar lá, silenciosamente esperando que tudo se trate de um pesadelo bobo.

X

eu facilitei pra você

entrar e sair da minha vida?

X

Você acorda assustado todas as noites, e sua esposa — não uma nortista, como você sempre achou que seria, mas uma mulher com os mesmos cabelos negros — sempre se revira na cama sem abrir os olhos. Você pensa que ele — Theon, sempre Theon, ele nunca sai da sua cabeça — provavelmente te puxaria pelo braço para de volta para a cama, mas ela nunca faz nada. Ela te dá espaço sem saber que isso é a última coisa na lista do que você precisa.

Você é perseguido constantemente pelo riso daquele fantasma feito de vento da sua infância.

(Quem diria que ele era o próprio destino?)

X

e quando você se foi beijou meus lábios

você disse que nunca nunca esqueceria essas imagens, não

X

Ele sempre te deu vários tipos de beijos — divertidos, excitados, animados, felizes, amedrontados — mais de uma vez, mas o de despedida você só ganhou um, em toda a sua vida. E a ironia é que você nem sequer sabia (não sabia mesmo?) de que aquele beijo provavelmente seria o último que ele despejaria em seus lábios. Se soubesse, talvez você não o tivesse deixado ir? Ou talvez você soubesse — sim, você sabia — e simplesmente queria fazer a coisa certa — por ele, para ele — pela primeira vez na sua vida? Porque Theon não era seu refém — nunca foi — e tinha todo o direito de tomar suas próprias escolhas, você pensou. Mas se você soubesse profundamente, soubesse simplesmente sabendo, talvez você mandasse a coisa certa às favas. Se você tivesse pedido, ele teria ficado. Se você tivesse pedido, ele teria desistido da ideia.

Mas você não pediu.

X

andamos juntos na rua cheia de gente

você pegou minha mão e dançou comigo

imagens

X

Você, de certa forma, amava as mãos de Theon. Eram macias, mas masculinas, e doces de uma forma que você não sabia que simples mãos pudessem ser. Para você, tudo em Theon sempre foi doce como as laranjas sanguíneas que você comeu uma vez, há muito tempo. E apesar de você nunca ter visto o mar — você nunca quis ver o mar —, você tinha a sensação que o toque da água no seu rosto seria igual — bem igual, totalmente igual — as mãos de Theon.

E você ainda não havia se decidido se gostava disso ou não.

(Nunca se decidiu).

X

adeus, meu quase amante

adeus, meu sonho sem esperança

X

Quem você pensava que era para ir contra o destino? Contra a verdade? Contra o próprio deus?

Você passou sua vida perseguindo a realidade, a verdadeira existência imutável. Perseguindo fatos e consequências, perseguindo motivos para seguir em frente. E talvez essa tenha sido a sua ruína. Talvez essa necessidade de saber como quando por que ainda acabaria te matando, ele te disse uma vez.

E, olhando agora, de fato, matou.

X

estou tentando não pensar em você

você não pode apenas me deixar?

X

Às vezes (você não sabe) ele lembra com carinho dos dias cheios de neve e calor e sexo que vocês passaram em Winterfell. Às vezes — geralmente quando as coisas ficam difíceis — ele fantasia que vocês nunca saíram de lá, que nada mudou e nada nunca vai mudar, fantasia que tudo é sorrisos e vermelho e negro e neve de verão.

Mas fantasias são só isso. Fantasias.

X

você me cantava canções de ninar espanholas

a mais doce tristeza em seus olhos

truque inteligente

X

Houve um tempo em que vocês eram só Robb e Theon. Parece que foi há muito tempo — não foi —, mas ele aconteceu. Foi um tempo de corridas e brigas de espada e cavalgadas inocentes. Foi um tempo de toque. Mãos, ombros se roçando, sorrisos que ninguém prestava atenção. Foi um tempo que antecedeu o próximo — o último — passo no relacionamento de vocês.

Foi um tempo bonito que, apesar de você evitar lembrar, existiu.

X

a ponta dos seus dedos pela minha pele

as palmeiras balançando com o vento

X

Não foi planejado. Aconteceu, simplesmente, você dizia, quando ele — Theon, sempre Theon — perguntava quem começou o quê. Era uma tarde de neve — uma tarde como todas as outras —, ele sorriu daquele jeito sugestivo e foi demais. Aconteceu, simplesmente.

Bocas roçando, olhares excitados, toques apavorados, a porta trancada e as roupas longe, bem longe.

Aconteceu, simplesmente.

X

eu deveria saber que você me traria dor?

quase amantes sempre trazem

X

Eu não sou nenhum rei do norte!, você sentiu vontade de gritar para todos — para ele, principalmente para ele — quando eles te proclamaram um título que você não queria. E quando ele se curvou — se curvou para você, justo você — a sensação foi de estar sendo dilacerado.

Ele não devia se curvar para você. Ninguém devia se curvar para você. Você não era rei de coisa nenhuma.

Mas eles — ele — achavam que sim.

X

até logo, meu romance sem sorte

X

O mundo deixou de fazer sentido há muito tempo.

Só que sobrou para você encarar isso.

X

então você se foi e eu estou assombrado

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!