Miley tinha uma forte aversão a hospitais: ambiente, o cheiro de étil, tudo era desagradável e quase assustador. Mas, naquele dia, era inevitável. Nick estava internado havia algumas semanas. Estava desenganado pelos médicos e sabia que, a qualquer momento, iria morrer. Exatamente por isso pediu ao irmão Joe que avisasse à moça que desejava vê-la pela última vez. Miley, apesar de todo o ressentimento, não poderia recusar um último pedido. Afinal de contas, que tipo de pessoa deixa o namorado agonizar sozinho numa maca fria? Está bem, na verdade, era um ex namorado, mas os dois tinham uma ligação muito forte, já que fora um namoro de quase três anos. O relacionamento terminara de uma forma bastante problemática, mas ainda restava um pouco de carinho no coração de cada um. Foi esse resto de carinho que arrastava Miley para o hospital naquela tarde.
Respirando fundo e tentando parecer bem, a morena atravessou a porta de vidro do Hospital Central de Chicago e aproximou-se da recepção.
—Bom dia.— ela disse a recepcionista.—Jonas, Nicholas, por favor.
A moça da recepção digitava o nome computador. Miley batia os dedos no balção, nervosa. Só queria que aquilo acabasse logo.
—Quarto 503, no quinto andar.
—Obrigada.— ela respondeu, e saiu dali para o elevador. Enquanto não chegava lá, passava um batom vermelho e arrumava o cabelo, queria ficar bonita. Logo tinha chegado no quinto andar, atravessou o corredor imenso. Enquanto caminhava, e seu salto das botas fazia um eco irritante no chão, ela recordava os velhos tempos de três anos antes, quanto era tão fácil e simples. Por que precisou complicar? Aquilo tinha mesmo que fazer parte do relacionamento? Seja lá a razão, o fato é que tudo o que ligava os dois era o que, um dia, eles tiveram. Nada mais.
Quarto 495...
Quarto 500...
Quarto 501...
Quarto 502...
Quarto 503. Era aquele.
Com as mãos trêmulas, segurou a maçaneta de metal e abriu vagarosamente a porta. O quarto era simples, mas tinha lá o seu charme, se é que um quarto de hospital poderia ter algum. Com passos lentos, Miley se aproximava da cama de Nick, que dormia tranquilo, para o alívio dela. A moça não queria mostrar o quanto se sentia vulnerável ao vê-lo daquele jeito, tomando soro pelas artérias, com um medidor de batimentos cardíacos conectado ao seu pulso. Após estender a mão e retroceder algumas vezes, finalmente tomou coragem e acariciou o rapaz nos cabelos cacheados e castanhos. Que saudades ela tinha de quando passava horas fazendo cafuné, entrelaçando os dedos naqueles cachinhos! Era realmente uma pena que ela fazia isso sob aquela circustância. Sua consciência pesava demais para demostrar um afeto maior.
—Miley...—Nick bocejou vagarosamente, pegando a moça de surpresa. Ele reconheria aquele toque em qualquer lugar. Ao fitar os olhos claros da moça, esboçou um leve sorriso.—Você veio...
—Eu não poderia deixar de vir..—ela sorriu involuntariamente, sentando-se na cama. — Como está? — Ela sabia que ele não estava bem, mas parecia educado perguntar.
—Com você, nem parece tão ruim. — ele sorriu, pegando na mão de Miley, que afastou o braço rapidamente.
—Estou tão feliz por você estar aqui, comigo....
—Isso não é nada. É o mínimo que eu podia fazer, depois de você sofrer tanto por minha causa....— ela respondeu, séria. Não queria demostrar, mas seu coração ainda pulsava por ele de uma certa forma. Isso tornava tudo mais difícil e doloroso.
—Eu não quis terminar por sua causa, Miley....—ele disse, tentando sentar na cama, mas não conseguia se mexer direito. Estava fraco demais e permaneceu imóvel.
—Você tinha se cansado de mim, Nick. Foi o que disse.
—Eu disse que o nosso namoro havia perdido o sentido, não que tinha me cansado.
—Que diferença faz?
—Eu sempre vou querer estar com você, seja como namorada, seja como amiga.
—Agora é meio tarde pra isso..—ela retrucou, mantendo-se firme.
—Eu sei, mas antes tarde do que nunca.
—Verdade..Mas, não pense que gosto de você ainda.
—Tem todo o direito, ainda mais depois do que eu fiz....
—O que você fez..?
—Nunca te contei, mas...Miley, eu terminei com você por que...achei que tinha me apaixonado pela minha amiga, Jordan.
—Jordan Pruitt?—ela indagou, incrédula.— Aquela colega sua da aula de piano?
—É. — ele suspirou, estarrecido. —Fiquei com ela durante a confraternização do Ano-Novo. Foi um ato totalmente impulsivo, mas significou tanto que eu me senti muito mal por esconder aquilo de você. Eu já não me sentia o mesmo no nosso namoro, e achei melhor terminar antes que você se machucasse.
Miley, sem pensar muito, se levantou da cama, e deu algumas voltas no quarto enquanto ouvia Nick. Se ele já não estivesse a um passo de morrer, teria batido nele usando seus golpes de judô. Mas, segundos depois, respirou o mais fundo que podia, e se voltou para ele.
—Tudo bem. — Ela finalmente tinha dito.
—Como 'Tudo bem'...? — ele indagou, incrédulo.
—Você vai morrer, Nick. Eu é que não vou passar o resto da vida guardando mágoa de alguém que se foi. E, pra falar a verdade, no fundo eu já sabia disso.
—Sabia...?
—Por isso que eu demorei tanto pra te ver. Eu ainda estava triste e não sabia se você iria confessar.
—E agora...?
—Agora estou bem. Era só isso que eu queria ouvir.
—Eu cometi um erro, Miley. Eu te juro. Pra ser sincero, eu nunca gostei da Jordan.
—Então, por que traiu?—ela disse, menos áspera, sentando novamente na cama.
—Só queria sentir o gosto de algo diferente. Nada mais. Eu não pensei pra fazer isso. Por isso doeu tanto. Se eu tivesse parado pra pensar, por um mísero minuto, nem estaríamos assim.
—Mas agora estamos.
—Me perdoa..?—ele perguntou, com um olhar cansado, tentando segurar a mão de Miley. Ela olhou para a mão dele estendida, para os olhos castanhos abatidos, e se rendeu.
—Perdôo, sim.—ela finalmente sorriu, segurando a mão dele com firmeza.
—Obrigado. Sei que vou morrer, mas — ele disse, tentando recuperar o oxigênio. Sentia o corpo cada vez mais fraco, e já era difícil respirar — vou te guardar pra sempre no meu coração.
—Quando estiver no céu, olhe pra baixo, de vez em quando.
—Tá, eu prometo. — ele sorriu.
—É minha hora de ir.
—Miley, por favor, não me deixe sozinho...— ele implorou, ofegante —estou morrendo..
—Não posso ficar mais do que isso. — ela contestou, desapontada. — Vão me tirar daqui em instantes.
—Está bem. Eu...eu te amo, Miley.—ele respondeu, com esforço, mas sinceridade.
—Eu te amava, Nick.—ela confessou, se aproximando mais dele. Miley não sabia se tinha sido sincera, mas não queria dizer o contrário. — Mas isso vai acabar a qualquer momento. — ela continou se aproximando dele.
—Então, só me beije..antes de ir embora—Ele implorou. Miley pensou por um instante, e não disse nada, apenas aproximou o rosto de Nick até tocar levemente os lábios dele. Nick estava fraco, mas usou a pouca força que tinha para corresponder ao beijo. Mais frio do que romântico, foi um beijo leve e delicado, e ao mesmo tempo profundo para ambos. Assim que os lábios se partiram, ela se afastou para ir embora, quando uma dor tomou conta de seu peito. Sabia que não estava lá para isso, não para ser piedosa, mas para dizer uma verdade que precisava ser revelada apenas a ele.
—Eu também preciso te contar uma coisa.—ela disse, de repente, ao se voltar para ele.
—O quê?!—ele indagou, curioso.
—Sabe por que está morrendo, não é?
—Sim, estou envenenado. Mas por que...
—Pois bem. — ela interrompeu. — Sabe quem te envenenou?
—Não.
—Sabe por que eu te perdoei?
—Por que eu vou morrer, não é?
—Sim. E só vai morrer por que... eu te envenenei. — ela respondeu, finalmente.
—Você?!
—Entenda, Nick. Eu fui fiel à você. Eu te dei tudo. E você me trai. Não tive escolha! — ela dizia, ora com frieza, ora com descontamento. —Me perdoe, assim como eu te perdoei. Ora, você vai morrer, não vai pro céu magoado comigo, está bem? Agora que estamos empatados, eu posso ir embora em paz. Nós dois podemos ir embora em paz. — Ela terminou, fechando a porta devagar. Havia sido muito difícil dizer, mas ela havia conseguido. Agora, finalmente, estava com a consciencia limpa, e ainda manteria a imagem de Nick que sempre tivera: vivo, com os olhos meigos, a voz macia, o beijo delicado. E o melhor: Aquele seria um segredo deles dois. Um segredo selado até a morte.
Fim.
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