one shot Mútua mudez
1 Mútua mudez
Compor se tornou uma atividade difícil desde quando comecei a fazer isso sozinho neste quarto. Estou aqui, com estas partituras repletas de notas vazias, tentando em vão tocá-las, já que não consigo parar de olhar para a cama que está aqui ao lado. Parece que foi ontem que estávamos ali; você em meus braços falando sobre como achava lindo meu modo de tocar, e eu bobo perguntava se era lindo meu modo de tocar o violão ou o seu corpo; e você ria e me chamava carinhosamente de tonto. Ah, como era linda sua risada! E sua voz então? Era voz de uma mulher decidia, que mandava e desmandava quando e em quem queria; você sempre soube que mandava em mim. E seus cabelos, sempre tão macios e perfumados, como me aprazia sentir o cheiro dos seus cachinhos. Falando neles, outro dia achei um fio perdido em minha fronha. Acha que consegui fingir que ele não estava ali? Caí em prantos de novo. Esqueci de mencionar, minha nova rotina é estar em prantos por conta da saudade que sinto de você.
Quando eu olho pra essa cama, eu lembro de todo o tempo de felicidade que tivemos juntos. Me lembro da primeira vez que te trouxe aqui. Naquela noite você estava ensopada pela chuva que tinha tomado. Lembro da camisa que te ofereci pra vestir depois do banho, você ficou linda nela. E lembro que foi por causa dela que te apresentei Led Zeppelin, que você tanto gostou. Foi naquela noite também que nos amamos pela primeira vez, que você dormiu comigo sorrindo tranquila. Que eu senti que éramos feitos pra dar certo. Você, eu e ninguém mais.
Você sabe o quanto eu sou ruim com datas. Mas daquela data eu nunca me esqueci. Era fim de tarde, você me ligou dizendo que queria conversar. Pensei que você tinha decidido que se mudaria de vez pro meu apartamento, que diria que quer se casar comigo e ter uma família, ou até que queria fazer uma tatuagem mas queria que eu fizesse também. Quando perguntei o assunto, você me disse que precisava ser pessoalmente. Não me preocupei, apenas disse que você poderia vir. Quando você chegou me tratou de modo imparcial; não me beijou nem me abraçou. Pensei que algo ruim poderia ter te acontecido. Como sou tolo, algo ruim estava prestes a acontecer comigo. Você se sentou junto comigo no sofá e foi me dizendo sobre como você estava mudando, sobre como seus interesses estavam mudando. Como seus sentimentos estavam mudando. Na hora eu não entendi onde você queria chegar com isso, foi quando você me disse com a voz mais suave que já tinha ouvido: “Gabe, não podemos mais ser um casal. Obrigada por tudo viu.” E ela se levantou antes que eu pudesse dizer algo. Ela sorriu e disse que o mundo é pequeno, que certamente nos encontraríamos de novo. Ela virou e se foi, e eu fiquei mudo. Demorei a entender que você tinha ido, pra sempre mas quando entendi, chorei inconsolavelmente. Ali acabou uma história de amor que era pra dar certo, uma história de amor que tinha gerado muitas canções e melodias; as nossas canções e melodias que compunhamos juntos.
Já tem três meses que estou assim. Leciono de modo frio, toco melancólicamente o violão e no fim do dia volto pro meu apartamento na esperança de ter ver de volta. Esperança que morre quando o encontro vazio. Sempre que tento compor, olho pra minha cama e o violão emudece. Tão mudo quanto eu, quando naquele fim de tarde, te vi partir.
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