Notas iniciais
Demorei a finalizar porque o tamanho físico não me parecia justo quanto a intensidade do significado. Mas felizmente pude superar rs.

Eu sei lá quantas vezes me peguei pensando em Pedro durante os primeiros meses, só sei dizer que foram muitas e inevitáveis vezes.

O seu olhar, que vai além das janelas, além das ruas, além das casas; que sobe ao céu azul, e percorre as nuvens me deixava intrigado. O seu corpo à minha frente, mas o queixo apontado para fora desse ônibus faz com que minha cabeça nunca fique vazia.

Esse mesmo ônibus, todos os dias, é tomado por pessoas com visões diferentes. Ele atravessa a cidade levando mentes cansadas de volta para suas casas, ao final do dia, e quando entrei nele pela primeira vez pude analisar seus fiéis passageiros durante o longo percurso que eu recorreria a partir daquele dia. Devo admitir que, sim, vi Pedro, mas seus costumes não chamaram minha atenção em um primeiro momento.

Foi durante a metade da segunda semana de aulas que, voltando para casa, enquanto entrava no ônibus e passava pela cobradora percebi o garoto sentado sozinho nos primeiros bancos. Ele carregava um livro de poesia aberto nas mãos, mas seus olhos não corriam sobre as palavras. Passei por ele e me sentei mais ao fundo sem deixar de observá-lo, o que me deixou intrigado foi o fato de não baixar o olhar, uma vez sequer, para as páginas durante todo o trajeto. Essa cena tornou a se repetir durante dias a fio. Um livro, um panfleto, uma caixa, um celular, outro livro (ou talvez o mesmo). Um ciclo sem fim de objetos ignorados.

Quando as folhas pararam de cair e o chão foi varrido por ventos cortantes, eu me vi preso em uma lanchonete. O ponto de ônibus era do outro lado da rua, mas somente pessoas extremamente corajosas enfrentariam aquela chuvarada impiedosa. Eu me mantive no time das pessoas que preferem pedir um café. Não achei que veria a cena a seguir: olhos grudados em uma grande xícara de chocolate quente nas mãos, e olhos fechados quando a xícara tocava os lábios.

Me pus ao seu lado e quando seus olhos tocaram os meus percebi o quanto brilhavam.

— Não tem ninguém sentado aqui, né?

— Não… — seu olhar me acompanhou enquanto puxei a cadeira e me sentei na sua frente. Não vi, mas pude sentir.

Ele olhou para o lado rapidamente e voltou a me encarar.

— Oi, eu sou o Rodrigo — sorri.

— Oi, eu sou o Goku — disse rindo e então me senti constrangido por começar a conversa com tamanha animação — Pedro — sua voz era calma e seu sorriso mal era notado.

— Nossa, tá chovendo muito — tentei desconversar olhando para a rua.

— Pois é, tá mesmo — Pedro não ousou olhar a chuva como eu tinha previsto que faria, ele simplesmente continuou a beber seu chocolate quente.

— Você tá começando o curso esse ano também?

— Não. Ano passado.

— Eu comecei agora, sabe, não tava conseguindo passar... — ri de nervoso e ele finalmente me olhou.

— Qual curso você está fazendo? — Sua repentina curiosidade me deixou alegre e sem motivos me peguei animado com nossa aproximação.

— Engenharia Física.

— O binômio de Newton é tão belo como a Vênus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso.

— Como?

— Álvaro de Campos — sorrindo ele tomou o que sobrava do seu chocolate quente e levantou pegando sua pasta de cima da mesa — a chuva deu uma acalmada e o ônibus já está vindo. Não vai querer perder ele nessas condições, né?

Não foi preciso mais chuvas, nem chocolates quentes, nem Fernando Pessoa para que nós continuássemos em contato. Mas foi com uma quantidade razoável de intervenções pelo campus e uma troca de números para que, enfim, cultivássemos uma singela amizade. Amizade essa que só veio a crescer.

Pude notar nesse meio tempo, o olhar de Pedro que caía sobre as coisas durante nossas viagens, e olhar que ele tinha sobre elas nos momentos que conversamos. Os olhos de Pedro vão muito além do que é presente, do que é agora; sua visão é abrangente, e isso basta para descrevê-lo.

— Ciências Sociais é um partidão, só que tipo, a literatura não muda o mundo mas muda as pessoas, e as pessoas mudam o mundo. Eu quero escrever. Quero escrever sobre a jeito que eu penso, e quero que isso chegue às mãos das pessoas. Acessibilidade e eficiência.

A cada dia eu ficava mais convencido de que o modo que Pedro via o mundo era meu declínio.

— O seu olhar sobre tudo — conclui olhando em seus brilhantes olhos castanhos.

— Tipo isso — ele falou sorrindo como da primeira vez que conversamos, mas logo foi desaparecendo com a proximidade que ganhamos.

O sol estava se pondo e as pessoas restantes no ônibus já tinha perdido o interesse em nossa amizade há muito tempo. Nos últimos bancos, a mercê de qualquer olhar curioso, porém pouco ligando pra isso, meus lábios tocaram os seus. Foi um minuto de pura entrega, foi natural como nunca descrito. Senti seu sorriso, e foi um tocar de testas que me fez perceber o quanto tudo aquilo era real. Logo depois ele se foi, eu o vi pela janela com as mãos nos bolsos da frente das calças enfrentando o vento que bagunçava seus cabelos, os enroscando com os fios do cachecol verde escuro. E eu estava perdido.

A partir dali nossos momentos juntos deixaram de se resumir a ônibus, encontrões nos corredores e lanchonetes.

Eu achei que tinha o conhecido até então.

Ledo engano.

O tempo passa e eu não sei contá-lo; as semanas são segundos e os momentos são eternidade. Pedro acredita no amor, na transcendência, na evolução. As pessoas não aceitam conscientização como resolução de problemas, mas as informações acessíveis e de forma compreensível de acordo com tempo e lugar são, para Pedro, a grande sacada do desenvolvimento da humanidade. Se Jesus com sua humildade e simplicidade criou multidões ao seu redor, por apenas proferir palavras, contando histórias e incentivando a reflexão dos valores, dando exemplos a partir de suas atitudes, e defendendo suas teses; e depois dele vieram outros que causaram também tamanha comoção, Paulo, Lutero, Luther King, Buda, Confúcio, Platão, Simone de Beauvoir, Darwin, Galileu, Einstein, Henry Ford, Gandhi, Napoleão, Hitler, Freud; por quê então, um de nós, não pode se tornar o próximo a fazer a diferença para o mundo, com essas mesmas atitudes?

Uma vez, enquanto estávamos deitados sobre minha cama depois de uma longa noite, ele permanecia com um pequeno sorriso observando o teto e as sobras na janela, eu não pude desgrudar meus olhos de uma pequena tatuagem em sua clavícula. Era o traço de uma pequena flor e por mais simples era perfeito. A nossa relação tinha se tornado perfeita. Tudo era completo. E a gente superou todo e qualquer obstáculo. Sei que às vezes quero um conselho, mas nenhuma das pessoas sente o que eu sinto ao seu lado, nem entende as coisas que eu entendo. Eu já me vi perdido. E agora eu me encontrei. Percebi que me encontrei quando percorri a ponta dos dedos por sua clavícula, e de alguma forma tudo fez total sentido.

A cada dia eu o vejo diferente, seus olhos buscam os meus e hoje eu não tento mais interpretá-los, hoje eu os vivo.

Claro, que não tomo como pura verdade tudo e qualquer coisa que ouço, hoje sou eu que não canso de procurar, além das janelas, além das ruas e além das casas meus próprios olhares sobre tudo. Mesmo que o meu tudo esteja à minha frente e eu não me canse de olha-lo.

E tem sido incrível.

Notas finais
Sei que quando escrevi senti como se tudo fizesse total sentido. Quando revisei percebi que nem tudo são rosas. Daqui algum tempo, quando voltar a ler o que escrevi, vou achar um grande amontoado de amadorismo. Mas mesmo assim, servirá de base para as próximas, e de forma alguma vai deixar de ser especial.
Tudo tem um pouco de mim.
Espero que gostem ♥

Imagens que serviram de inspiração:
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29 de maio
19:35
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!