Notas iniciais
Mais um surto noturno, nada novo sob o sol.
Esse nasceu de uma poesia que eu fiz, meses atrás! Achei que tinha algum potencial para ser ficção, então construí a história ao redor.
Espero que gostem!

“Eu sou o fantasma que assombra teus escritos.

Fico vagando pelas entrelinhas, nas curvas das letras C, pingando sobre as letras I. Gosto de soprar minhas loucuras pelas margens dos teus parágrafos, e deixar minhas marcas naquele espacinho entre uma estrofe e outra. Eu sou o leitmotiv, o tema que se repete em todas as suas prosas, a estrutura que se vê em todos os versos — e sempre se vê que sou eu a tese das tuas redações.

Não sei se te contaram, mas eu sou a aura da tua poesia.

Você passa horas digitando e apagando, procurando inspiração, mas só tem eu. Você passa horas riscando e apagando e borrando e desistindo, e eu deixo meu eu em toda folha de papel que você amassa e atira fora, porque não era boa o bastante. E, sempre, sempre sou eu, assombrando, quando finalmente é boa o bastante.

Eu sou o fantasma que assombra sua prosa.

E eu vim degustar poesia.”

Seu olhar passeou pelo pedaço de papel colorido em sépia, correndo pelas curvas da tinta escura que desenhava cada letra. Em um suspiro frustrado, concluiu: não conseguia sequer arriscar o nome do autor. Não via ninguém naquela caligrafia praticamente perfeita! Meramente notara um pequeno empoçamento de tinta numa curva, como se em algum momento a mão que segurava a caneta parasse, hesitante — mas isso foi tudo, e era o único traço humano no bilhete. Notou apenas porque não conseguia parar de reler.

Não fazia ideia de quem pudesse ter escrito.

O corpo reclinou para trás, e deixou o papel descansando na escrivaninha. Cobriu os olhos com o braço, se perguntando quem seria a aura da sua poesia, o fantasma da sua prosa. Não era pretensão demais dizer algo assim pra um escritor sem sequer assinar? A ideia era que ele soubesse imediatamente quem havia escrito? Porque, sinceramente, não achava que essa musa existisse de fato.

Ficou encarando o teto por um momento. Era perda de tempo pensar tanto em algo banal, num mero bilhete passado por baixo da porta. Tinha um manuscrito para finalizar, correções pra fazer, e-mails pra responder e um editor para contactar o mais rápido possível! ...Ah, se ele soubesse que estava perdendo tempo com algo do tipo…

...Seus devaneios se interromperam pelo som do telefone. Endireitou a postura na cadeira, e olhou o visor: “Problemático”, era o nome do contato. Claro, o editor. Óbvio que ele era invocável! ...E claro que ia levar algum tipo de bronca, pra variar!

— Juro que respondo seu e-mail daqui a pouco, Ricardo. Deixa só eu…

— Como se eu fosse acreditar nas suas juras, seu enrolão! — A voz rouca soou do outro lado da linha, acompanhada de um suspiro. Problemático. — O que você ficou fazendo a manhã inteira?

— ...Coisas importantes? — Arriscou. Não colou, também.

— Me engana que eu gosto! Tomás, eu sinto na minha alma quando você tá procrastinando. Meu corpo simplesmente sabe!

— Ah, é?

— É, sim! É meu sexto sentido!

— Você fica todo arrepiadinho e tem calafrios enquanto me imagina no meu quarto, jogado na cama sem fazer nada? Eu acho que isso tem outro nome, Ricardo. Digo, Senhor Editor Ricardo Gonçalves! — Riu sozinho da própria piada, mas não ouviu risada do outro lado da linha. Com sorte, tinha feito as bochechinhas dele ficarem rosadas!

Não é que a rigidez e perfeccionismo do editor fizessem dele uma pessoa chata de se conviver. Profissionalmente, ele era mesmo muito sério. Mas, se não fosse, Tomás provavelmente não teria publicado metade dos livros que tinha no mercado. Era um procrastinador profissional, e precisava de um perfeccionista profissional para ajudá-lo a entregar resultados no fim da quinzena.

O jeitinho dele, na verdade, o fazia muito divertido de conversar. Podia provocar, brincar e encher o saco dele só pra vê-lo se irritar, ou ficar desajeitado. Era um homem sério, mas, mais que isso, era um homem tímido. Era reservado simplesmente porque não parecia ser muito bom lidando com emoções — era o que teorizava, pelo menos, como o escritor que era.

— Pra variar, eu vou fingir que não ouvi sua piadinha. — No entanto, sua voz parecia constrangida o bastante pra provar que havia ouvido, sim. — Olha, eu sei que você acha a parte de edição a mais chata, mas não é tanta coisa assim. Suas primeiras versões ficam cada vez melhores com os anos!

...E as vezes ele dizia as coisas mais doces.

Sorriu, sozinho em seu quarto.

— Valeu, Ricardão. Prometo que vou responder seu e-mail!

— ...Se não responder, encho você de mensagem. Não duvide!

— Honestamente, não duvido de mais nada! Você fica cada vez mais maluco a cada projeto! Um dia desses vai aparecer aqui em casa pra bater na minha porta até eu te responder! — Tomás não sabia bem porque isso não havia acontecido até aquele dia. Huh!

— Não me dê ideias, Tomás… — Riu, deixando ar escapar pelo nariz, e voltou a se recostar na cadeira. Imaginava que tipo de loucuras não teria que lidar se ainda fosse plantar ideias na cabeça dele. — ...Vou desligar. Ao contrário de certas pessoas, eu trabalho muito!

— Ai, meu coraçãozinho! Essa doeu, Ricardão…

— Se eu não te pressionar, você não faz nada. Sinceramente, você deveria aumentar suas dedicatórias pra mim nos seus livros. Algo bem extenso, tipo umas dez páginas, só pra mim!

Desde sua primeira obra, o nome do seu editor aparecia nas primeiras páginas, nos agradecimentos. Ele até que tinha razão, apesar da pose! De fato, ele merecia todo tipo de parabenização pelos puxões de orelha diários. Imaginava as horas que ele passava lendo e relendo as coisas que escrevia, apontando correções, pensando na obra como um todo. Ele dedicava horas pensando nos mínimos detalhes — as vezes em coisas que nem mesmo o próprio autor havia pensado antes.

A mente vagou no conceito por um momento.

Talvez o fantasma que assombrava seus escritos não fosse uma musa.

Talvez fosse algo mais parecido com um mentor.

— É, tem razão!

— ...Eu tenho? Essa é nova!

— Claro que tem! — …os olhos correram pela folha de papel. A aura, o tema, a ideia, a razão. — Eu provavelmente não conseguiria fazer nada sem você, Sr. Ricardo Gonçalves. Você é o fantasma que assombra meus escritos!

O silêncio do outro lado foi quase desconcertante. Ou havia dito algo lunático, ou havia acertado em cheio. Nunca pensou que fosse algo que ele fosse capaz de dizer, escrever, entregar… Mas não conseguia pensar em outra pessoa. A respiração contra o telefone fazia seu peito acelerar.

Será que ele estava em casa, na sua mesa organizadinha, com o rosto cor de pitanga, pensando em como responder? Será que estava trabalhando em alguma cafeteria do centro da cidade, com seu café com leite e (muito) açúcar, tentando disfarçar o constrangimento em público?

Sorriu com o pensamento.

— ...Ricardão?

— A-Ah! ...É, eu… Acho que eu sou, de certa forma… — Ele limpou a garganta, claramente sem jeito. Bingo. — ...Então… Não me enrola, ok? ...Eu quero o seu melhor.

— Claro! Nada menos que isso!

— ...Boa tarde, Tomás.

Viu uma oportunidade nas entrelinhas.

No espacinho entre o fim da sentença e a margem do parágrafo!

— Espera!

— ...Diz.

— Que tal discurtirmos o e-mail pessoalmente, mais tarde? E um cafézinho?

A respiração. O coração acelerado.

— Por mim, tudo bem.

— Perfeito, então. Boa tarde, Ricardo.

Eu sou o fantasma que assombra sua prosa.

E eu vim degustar poesia.

...E um café mais tarde, talvez.

Notas finais
essa foi muito óbvia e clichê, mas quem não adora um clichê óbvio fluffy, né?
Pergunta da vez: você conhecia a palavra leitmotiv?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!