não há mais nada para mim aqui

1 Morrendo, gritando, afundando, submergindo


Notas iniciais
antiga, escrita em um lapso de loucura. até eu confundo-me ao lê-la e não sei se, por vocês, será considerada boa. mas confundir tornou-se um passatempo para mim. apesar da escrita estar ainda mais simples que o normal, espero que gostem.

não desejarei um bom dia — portanto não deseje um para mim.

eu quero dizer, não é como se eu fosse alguma personificação do estereótipo falsificado de emo que você ainda vai encontrar bastante por aí; o dia simplesmente não está bom e não preciso que você deseje o impossível para mim — eu o faço demasiadamente bem sem ajuda, obrigada —, mas quero dizer que não é como se minha intenção com algo assim — essa carta — fosse fazer você olhar para mim, porque você não vai, e é por isso que estou fazendo isso, porque sei que você não vai olhar novamente, e talvez eu não queira que você olhe.

bom, hoje de manhã eu estava simplesmente dando replay em algum episódio qualquer da noite anterior ou a anterior à aquela, mas você sabe disso, porque sempre fizemos isso juntos nas manhãs de domingo e eu estava fazendo isso porque era domingo e era manhã. e em algum momento de breaking bad, eu olhei para o lado e quase perguntei “você acredita nisso?”, mas o fato é que não havia ninguém ali para acreditar em coisa alguma e não havia coisa alguma para ser acreditada — em algum tipo de reflexo lembrei que ninguém tinha discutido mais cedo comigo, exigindo de algum modo tão estarrecido que sempre me fazia rir e me dizendo para pegarmos o notebook e vermos kuroshitsuji de uma vez, porque simplesmente não queria ver aqueles programas americanos babacas e sem fundamento.

eu quase ri do aborrecimento de todos aqueles resmungos, até notar que eles foram trazidos pelo vento morno e levados pela brisa fria.

algum tempo depois eu segui para a cozinha e peguei uma série de panquecas, e um garfo meio torto e uma faca pouco afiada — sempre fora você aquele que ia no supermercado em busca de comida, mobília e tudo mais, acho que ainda espero que você volte do mercado com tudo aquilo que eu me recuso a ir comprar —, e eu não me lembro de ter começado, mas em algum espaço de tempo imerso em segundos minutos horas e dias que eu não me importo em contar, havia panquecas em toda minha bancada — elas tinham boca, olhos e chantilly no que seria um nariz, elas estavam sorrindo para mim, então eu as comi, porque não consegui sorrir.

você sempre sorria quando desenhava rostos nas panquecas — e vê-las não era doloroso quando seu sorriso estava lá. mas de que isso importa? nada, nada, nada, nada, nada. eu estou morrendo, gritando, afundando, submergindo, e então tudo de novo.

porque não havia ninguém sorrindo e não mais panquecas para sorrirem de volta — e sim, elas estavam com um gosto dolorosamente magnífico, muito bem, obrigada.

e então eu fui dormir e acho que até acordar eu não havia notado que não havia mais ninguém lá — em breve serão dois anos dormindo sozinho, vivendo sozinho, sempre sozinho, e acho que ainda não admiti para mim mesmo que não tem ninguém ali. mas tipo, acordei e olhei para o lado vazio da cama, e droga, droga, seu perfume estava lá, entende? e quando eu acordei, juro por o que um dia fomos, que senti seus braços ali e você falou meu maldito nome — mas tomar consciência de que você não ia voltar jamais me fez chorar como uma criança que busca pela mãe pelas ruas — e aquilo foi estúpido, então pode se sentir culpado, a culpa é sua, ouviu? porque, diabos, eu estou afundando.

então eu saí — porque aquela casa me fazia doente, como você fazia e faz — e me sentei em um banco de cerâmica desconfortável de um parque enquanto via umas crianças aí em uma gangorra e uns idiotas aí se beijando no canto, ali, sabe, na macieira, aquela cujas frutas costumávamos surrupiar — e as maçãs eram tão absurdamente doces; seus lábios também eram, mas eu não tive a oportunidade de confidenciar isso a você.

o fato é que tinha um menininho que eu só notei depois — ele tinha seus cabelos cor de fogo e demorei até notar que os seus olhos azuis, e já que mencionei-os, acho que também nunca te contei o quão lindamente clichês eles são? pois são, e eu os amava incondicionalmente — falando com uma sombra enquanto balançava e ria, e tinha umas garotas — maquiagem demais, cérebro de menos — olhando-o estranho, cochichando rindo e apontando, mas ele não as olhava.

caralho, ele era você.

eu pisquei três vezes e ele não mais ali estava — mas a sombra continuava no chão, a risada ainda ecoava na minha cabeça, e o céu substituía seus olhos assim como as folhas mortas e alaranjadas substituíam os cabelos.

acho que uma hora depois eu estava comendo sanduíche de atum, mas eu não sei ao certo porque tinha gosto de miséria e não de comida, então eu só mastiguei e engoli sem respirar como você me dizia para fazer quando eu tomava remédios amargos — e você sabe o que? não funcionou.

mas foi só quando eu vi os exercícios da escola — se você estivesse aqui estaria cursando o terceiro ano comigo, e poderíamos zoar os pirralhos porque é só isso que se faz quando se está na idade em que eu estou e você poderia estar — jogados e rabiscados, e os únicos cujas perguntas possuíam uma resposta tinham seu nome nela, milhares e milhares de vezes. e, merda, eu estou afundando.

precisei de um tempo para descobrir que eu fazia aquilo todo dia, que eu sempre pensei todas aquelas coisas, que todo dia eu me dava conta de que você não estava mais lá — como eu podia simplesmente esquecer e relembrar todo dia? todo maldito dia; céus, eu vivo uma mentira há dois anos e é tudo culpa sua.

não há mais nada para mim aqui, você disse nove dias antes de fazer o que fez, me beijou nove horas antes de fazer o que fez, e a ponte tinha nove metros — sua obsessão por esse número era doentia, mas acho que você amou a maioria das coisas assim, era seu modo de amar, sabe? eu amava isso quase tanto quanto amava você. mas o fato é que você se foi e agora restou o nada para mim, também. sim, eu estou afundando.

no dia em que nos conhecemos — era primavera, o céu estava azul — você me perguntou o motivo de uma casa tão grande para uma só pessoa, e eu disse que não tinha mais ninguém, e olhei para você e acho que meus olhos sorriram porque lembro que você pareceu temeroso, e então fez questão de repetir uma série de vezes — talvez nove? — que era egoísta e iria me decepcionar, eu não acreditei, você tentou, mas eu não cedi. (comecei a afundar naquele momento)

olhe onde estamos. olhe o que eu fiz, watashi no ai.

o mundo sempre fora assim tão irônico? e eu apenas era cego demais? ou o destino resolveu que minha vida era um divertido jogo recentemente demais para que eu pudesse ter percebido?

você se foi porque não havia nada aqui para você, e deixou o nada para mim durante toda a eternidade — quando terminaria minha eternidade, então? porque nada dura para sempre e eternidades são intermináveis, mas se o interminável também acaba quando acabará o meu?

você, ao pular, não pensou por um único segundo na dor que me causaria? um dia você tinha dito, em um sussurro em meu ouvido enquanto eu te abraçava porque o vento que vinha da janela e atingia-nos na cama era frio demais — não, o pijama não era o suficiente —, que gostaria de morrer antes de mim, porque a dor de me perder seria pior que a morte. eu lhe mandei calar a boca, e ao ver que você não o faria, calei-me por minha própria conta — e sim, o beijo foi muito bom.

eu estou afundando.

o fato é que, sim, você morreu antes de mim, e sim, a dor de lhe perder é pior, muito pior, que a de morrer. e você não pensou, nem em um único segundo, na dor que eu sentiria ao perder você, pensou?

ah, desculpe-me, esqueci dos nove avisos. você é egoísta.

— rabiscos de tinta preta —

estou submerso em descrença, as águas já tomaram meus pulmões, a paz já me deixou e não acho que algum dia serei capaz de voltar a sentir —o que quer que seja — porque eu estou afundando em um mar escuro e morto, repleto de você, mas talvez eu simplesmente não queira submergir.

talvez, um dia, você simplesmente me puxe de volta — você já o fez uma vez, de qualquer forma.

há um pequeno bichinho ali, acho que é um vagalume

(quando éramos pequenos costumávamos nos questionar porque não havia nenhum onde moramos, mas você não deve se lembrar)

teria ele vindo apenas para morrer comigo?

— rabiscos onde outrora seria um nome, porque meu nome é minha existência e sem você não possuo nenhuma —

Notas finais
oh, sim, eu sei que letras maiúsculas são deveras importantes. mas isso é uma carta, de um garoto insano para outro ainda pior, um ser humano que pouco se importa com a própria existência, então por que eu deveria representá-lo como alguém que se preocupa na perfeição da gramática daquilo que ele escreve?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!