“ – mãe eu sou gay! ’’

18 Capitulo 16 Um tempo para pensar II


“Mishinatta jibun jishin ga

Oto wo tatete kuzureteitta

Kizukeba kaze no otodake ga…”

Minha mãe e eu não conversamos muito depois daquele escândalo. Tentávamos puxar assunto, mas simplesmente não estávamos legal.

Eu estava arrumando minhas malas quando ela entrou.

— Sabe, você não precisa ir. — disse ela encostada na porta. A barriga da minha mãe estava enorme.

— Preciso. Talvez quando eu voltar as coisas estejam melhor entre a gente.

— Duvido que mude sendo que você não vai fazer nada. — ela entrou e fechou a porta.

— E o que você esta fazendo pra mudar? — disse a ela.

— Estou tentando agir como antes. — disse ela alterada.

— Talvez você precise de novas atitudes. — esbravejei. Os olhos dela estavam cheios de lágrimas.

— Será? Esta fugindo pra não me enfrentar, esta largando nosso problema nas mãos do tempo ao invés de cuidar dele você mesmo... Estou tentando te aceitar, eu te amo, mas parece que não importa o quanto eu demonstre afeto você continuará vendo apenas um demônio... — ela saiu de perto de mim e foi até a porta. — Seja feliz.

A despedida não foi muito acalorada, eu e minha mãe ainda estávamos sentidos um com o outro então foi tudo muito ríspido entre nós.

A faculdade era bem grande e a diferença entre calouro e veterano eram bem perceptíveis, nós novatos estávamos impressionados com o lugar enquanto os veteranos acostumados de tal forma que já nem percebiam mais a beleza do lugar.

Quando cheguei ao dormitório me deparei com um garoto médio de porte pequeno, cabelos negros ondulados na altura dos ombros, vestido com uma calça jeans desbotada e um moletom preto do Iron Maiden.

— Oi. — disse ele.

— Oi. Qual o seu nome? — perguntei.

— Shintaro e o seu? — os olhos dele eram bem puxados e usava óculos.

— Addae, você por acaso é japonês? — talvez isso tenha soado um pouco indelicado, mas foi apenas curiosidade.

— Sim e você seria o que?

— Sou ateniense, mas meus pais são de etnias diferentes.

— Quais? — perguntou ele.

— Mãe brasileira, pai americano, mas e você?

— Os dois são japoneses.

— O que você vai cursar? — perguntei.

— Engenharia mecânica e você?

— Web designer.

Demos de ombros e fomos arrumar nossas coisas.

Foi numa festa de boas vindas que realmente me descobri, que tive a certeza. Shintaro e eu havíamos nos tornado bons amigos. Fomos a festa de boas vindas juntos, estava irada, música aturável, comida de montão, nos fartamos na mesa de doces, do nada cinco veteranos nos cercaram.

— E ai? — disse um grandalhão ou melhor o grandalhão do meio, todos eles eram anormalmente grandes.

— Oi. — respondi.

— As mocinhas estão se divertindo? — perguntou outro.

Fiquei em silêncio. Estou vendo que essa noite promete.

— Não ouviu o que ele disse? — intimou o “menor”, ainda parece enorme pra mim.

— Desculpe pensei que fosse responder senhora. — ironizei. Pode vim que hoje eu estou louco pra dar umas porradas.

— Como disse?

— É surda? — respondi.

O do meio puxou os cabelos de Shintaro. Que absurdo porque não batem em mim? Dei um murro na cara do maldito, ele cambaleou para trás e caiu em cima de outro grupo veterano, ao que parece são outros idiotas pois começaram a discutir, os demais se meteram e “o circo fechou”, começaram a se bater, eu e Shintaro voltamos para o dormitório sem que eles percebessem. Com o coração a mil, desnorteados pela adrenalina, nos beijamos.

— Desculpe! — disse ele apavorado.

Puxei ele de volta e nos beijamos mais uma vez. Dormimos na mesma cama, mas nada demais aconteceu.

Um mês depois começamos a namorar, só para ver se ia dar certo e deu muito certo. Foi no final do ano, quando já estava totalmente embriagado pelo amor que lembrei do que estava por vir. Apresenta-lo aos meus pais será algo desconfortável.

"A letter home

And I know we don't speak much

And we both know I'm not keen to

But I think there's things I've left unsaid

I'm okay don't worry

I wish I'd been a better kid

I'm trying to slow down

I'm sorry for letting you down."