Quando retornei ao Planeta Natal, contei tudo sobre o planeta (com exceção da presença de Lazuli) a minha Diamante.

Como era de se esperar, ela não ficou muito feliz com o fato de eu não ter terminado meu trabalho no Kepler 22-b, porém, não insistiu no sermão e pediu que eu não me distraísse dessa vez.

Sua Pérola veio até mim e me deu as informações necessárias para minha próxima missão: Kepler 20-e. Nada mal. Não era tão distante do da missão anterior, eu poderia fazer os dois em uma viagem fácil fácil.

Voltei à minha nave e marquei o mesmo percurso que ela havia feito dias atrás.

Adentrei a atmosfera do 22-b quando um punho de água atingiu minha nave e a fez despencar no vasto oceano.

Incrivelmente, eu tinha me esquecido que Lazuli era muito protetora quando se tratava do seu planeta. Agradeci que a nave era a prova de som e ela não me ouviu gritar enquanto a nave girava até atingir a água e boiar, me fazendo dar de cara com o painel de comando.

Massageei minha gem. Ela não tinha rachado nem nada, apesar de que eu duvidava que ela permanecesse intacta mais uma vez.

Não conte isso à Lazuli!

Apertei o botão para que a porta abrisse. Analisei ao redor e vi que Lápis me observava ao longe.

— Sou eu, Lazuli! — berrei com as mãos ao redor da boca e pulei até a parte sólida mais próxima.

— Eu sei! — ela retrucou da mesma forma.

Ha ha, que engraçado.

Me agachei e estava recolhendo algumas partículas mais maciças do solo quando ela se aproximou e pousou do outro lado da pequena ilha rochosa, andando até mim.

— Por que voltou? – O tom dela demonstrava que não estava feliz em me ver.

— Obrigada pela cordialidade, anotarei isso no meu próximo diário de bordo. – Me permiti sorrir de lado e a olhar com a sobrancelha arqueada.

Ela manteve a expressão séria — Por que está aqui?

— Preciso escolher uma amostra do solo. Já estou indo embora — voltei meu olhar para o recipiente onde eu recolhia a amostra, guardando-o em minha gem e levantando em seguida.

— Ótimo.

— Ótimo – repeti. Ela pareceu suavizar a expressão e olhou para o horizonte, ignorando minha presença – Então... O que estava fazendo?

— Não te interessa. — curta e ríspida.

— Justo – comentei — Não que te interesse, mas eu recebi uma nova missão em um planeta próximo – Ela não reagiu — Você não vai se livrar de mim tão fácil.

— Que pena — ela suspirou e voltou o olhar para mim. De repente, achei que ela tinha visto Diamante Rosa atrás de mim — EU SABIA!

— Sabia do quê?

— O seu visor. Está rachado. Eu consegui! Do que você duvidava mesmo? — Ela cruzou os braços e ergueu o queixo.

— Está nada. — passei as mãos pelo meu visor e notei que a parte de baixo estava rachada. Como não vi isso antes e troquei antes que ela visse? — Buraco de minhoca!

De repente, ouvi um som esganiçado. Só então percebi que ela estava rindo.

— Esse é o seu xingamento? Adorei. Como é mesmo?

Enrubesci. A ignorei e antes que eu me desse conta estava jogando o visor longe.

— Meu visor não conta como uma parte da forma física! Quer saber? Eu vou embora. — me virei e comecei a andar em direção a nave.

— Espera! — uma coluna de água me impediu que eu entrasse na nave. Me virei e ela pareceu sem jeito, abraçando a si mesma – Eu estava construindo. É isso que eu estava fazendo.

— Não estaria mais para desconstruir? — perguntei e ela me lançou um olhar mortal – Ok. Construindo. Continue.

— Eu construí para ocupar meu tempo. Como pode ver, não há muito o que se fazer por aqui. Chega uma hora que até meus poderes me entediam.

— Bom, eu adoraria ajudar a colocar um sistema de reconhecimento de voz em sua construção, ou um sensor de presença, ou um holograma de Pérola, melhor, um holograma meu para que você sempre se lembrasse de mim.

— Não é preciso muito que eu lembre de você quando xinga falando “buraco de minhoca”.

— Ah, qual é! — reclamei, mas isso só a fez voltar a rir.

— Vem. Eu te mostro. – ela segurou em minha mão e antes que pudesse processar, eu estava a metros do chão, voando.

Bem, se você considera estar pendurada na mão de uma gem que tentou acabar com você diversas vezes como voar...

Chegamos a uma pequena parte de construção erguida. Era pequena e simples, feita do mesmo material que o solo. Nada mal para uma Lapis Lazuli.

Me esforcei para não dizer isso em voz alta.

— Quando eu visitei a Terra, percebi que os seres lá viviam em habitações como esta. E mesmo que não tenhamos o mesmo organismo que eles, achei interessante ter um lugar onde pudesse descansar e esquecer dos problemas.

— Bem, um de seus problemas está bem aqui – apontei com o polegar para mim mesma – E ele irá adentrar seu paradeiro do sossego e instalar um holograma dele para que você nunca se esqueça. – Sorri provocativa e pude notar ela corar.

O ambiente por dentro era aconchegante e escuro, com apenas a abertura de porta deixando entrar um pouco de luz. Apesar de não descansar muito, tenho certeza que com alguns ajustes aquele lugar ficaria perfeito para.

— É bem legal aqui dentro — opinei – Se você deixar, eu posso realmente te auxiliar a deixar esse lugar melhor. Já pensou em instalar uma claraboia no teto? Tenho certeza que tem muitas constelações bonitas no céu daqui...

— Por mim tudo bem – ela murmurou encostada no batente da porta – Mas você não tem que partir pra sua próxima missão?

— Bem... Sim. – contei, tentando disfarçar o desânimo. Seria mais divertido estar ali do que explorar um novo planeta.

Um silêncio se instalou.

— Então... Eu vou. Nos vemos por aí – sorri, passei por ela e observei minha nave ao longe. Grunhi.

— Eu vou com você – olhei para ela sem entender – Digo, não só até a nave. Com você até o planeta.

— Por que faria isso?

— Você não quer que eu vá? – ela novamente cruzou os braços.

— Eu quero! — levantei a voz – Eu quero... Só achei que você não fosse mais sair daqui.

— Achou errado. – ela se permitiu sorrir — Se segura.

E antes que eu pudesse perguntar “o quê?”, ela me segurou pelo pulso e me levou até a nave.

Eu poderia dizer a ela que eu conseguia voar com meus realçadores. Entretanto, eles ainda estavam em fase de teste e além do mais, era até legal sentir a adrenalina depois do susto enquanto voava com ela.

Ela me deixou próxima da porta e entrou logo depois de mim.

— Pelo exterior achei que fosse menor — comentou enquanto varria os olhos pela nave.

— Achou errado – retruquei ligando os painéis e acreditei que ela estava sorrindo.

Tracei a rota que faríamos colocando a coordenadas que me foram dadas no painel e decolamos. Lapis manteve o silêncio em toda a viagem, apenas analisando o universo. Ela parecia concentrada e decidi não interferir.

Ok, talvez eu tenha a observado por alguns minutos sem que ele notasse. Ela me intrigava, afinal. Uma Lapis Lazuli que não terraformava e preferia a própria companhia... Decidi que iria descobrir mais sobre ela. Decifrá-la.

— Quanto planetas você já conheceu? — Ela quebrou o silêncio.

— Algumas dezenas – contei — O seu foi o meu primeiro tão distante assim.

— Ah. – e ela voltou a ficar em silêncio.

Analisei o manche que eu segurava.

— Se me permite perguntar...

— Não. – interrompeu.

Seria mais difícil do que eu pensava.

Conforme eu me aproximava do planeta, podia perceber que era totalmente distinto do anterior: não possuía atmosfera, as temperaturas deveriam ser consideravelmente maiores por estar mais próxima de sua estrela 20-b e o solo era totalmente rochoso, sem nenhuma chance de haver água ali.

Pousei a nave na parte mais plana e menos instável e saí depois de Lazuli.

—É... Interessante – disse, analisando ao redor.

— Não sabia que gostava de lava também – comento, recolhendo uma amostra do solo e da lava que formava afluentes por toda a superfície do planeta até uma grande bacia de plasma quente e avermelhado.

— Não gosto – ela me observa por uns instantes – Bismutos gostam.

— Você já conheceu alguma Bismuto?

— Não.

— Nem eu, apesar de que nossos jardins de infância costumam ser feitos em ambientes assim – estendo o braço mostrando o planeta que nos cerca.

— Legal – ficamos um tempo em silêncio – Vou explorar para lá. – ela aponta com o polegar para atrás dela e tenta voar, mas as asas evaporam.

— A superfície aqui tem mais de mil graus Kelvin, você não consegue usar suas asas aqui – expliquei.

— É. Eu percebi – ela me fita com raiva e bufa – Ok, vou ir andando, para que você consiga fazer seu diário não sei do quê – e assim sai andando.

Eu tinha até me esquecido. Dobrei o antebraço para perto e comecei a gravar meu diário de bordo, detalhando e afirmando que aquele planeta seria ótimo para jardins de infância de Peridots e outras gems da corte Amarela.

Termino e procuro por Lazuli. Começo a estranhar por não conseguir vê-la em nenhum lugar.

— Lazuli? — grito. Espero. Nada. Repito.

Nada de novo. Começo a caminhar na direção em que ela foi olhando para todos os lados. Ela não teria ido muito longe em tão pouco tempo só andando, e não havia a menor chance dela ter saído voando.

— Cuidado! – ouço a voz dela ao longe. Volto meu olhar na direção de onde a ouvi e parei de andar. Ela tinha acabado de me alertar antes que eu desse o próximo passo e caísse no mesmo penhasco que ela.

— Você está bem? — grito e ela afirma também gritando. Deve ter uns 10 metros de profundidade nos separando – Como você conseguiu cair aí?

Ela pareceu ofendida – Da mesma forma que você teria caído se eu não tivesse te avisado. Na verdade, nem sei porque te avisei.

Grunhi.

— Calma, vou ver o que posso fazer – conto. Observo ao redor e meus realçadores. É. Era a única forma. Suspirei e me joguei.

Antes que eu alcançasse o chão, os dedos dos meus realçadores começaram a girar rapidamente como se fossem as hélices de um helicóptero. Pousei no chão e só então percebi a expressão de Lazuli. Um misto de surpresa e raiva.

— Você podia voar e NÃO ME CONTOU?

— Não achei que fosse importante. Ademais, eu ainda estou trabalhando neles... – explico, separando e juntando meus dedos-hélice.

Ela me fitou por uns segundos, provavelmente imaginando me esgoelar, mas só suspirou.

— Tá. Nos leve de volta lá em cima e depois para o meu planeta. Já deu disso tudo.

— Posso dizer uma coisa?

— Não.

— Você sem poderes fica mais legal – disse sem me conter. Ela ameaçou me bater e me protegi com meus braços – Ei, se me bater eu não te levo lá pra cima! – me atropelei nas palavras, mas ela pareceu entender e bufou.

— Vai logo.

Me contive para não rir e segurei na mão dela, usando a outra mão para nos levar de volta para cima.

Assim que pousamos, ficamos de mãos dadas por mais uns instantes. Quando percebeu, ela se soltou e começou a andar na frente.

Voltamos à nave e decolamos. Sem nenhuma palavra, mas muitos sentimentos.