Notas iniciais
olá! um aviso rápido, que vale pra fic toda: nessa história, nós tomamos um milhão de liberdades em relação à etnicidade dos personagens, e apesar de isso não ser o foco, vai aparecer ocasionalmente nos próximos capítulos. achei que era importante fazer um disclaimer especialmente no caso do james (que, nessa fic, seguindo um headcanon bastante popular, é hindu e é filho de mãe indiana-tamil e de pai branco), porque por mais que tenha um esforço de pesquisa nosso pra não fazer besteira escrevendo ele, é importante apontar que nenhuma de nós é dessa etnia, e nenhuma de nós realmente conhece a experiência de ser um filho de imigrantes no reino unido. então, se alguém aqui souber mais que nós, sintam-se a vontade para nos corrigir quando qualquer erro aparecer :) dito isso, aproveitem! — K

Eu estreito os olhos para a tela, questionando o que eles lêem. Isso mudaria tudo. Não é possível que ThePensieve seria tão descuidada com a caracterização de um personagem tão importante? Porque Hero não diria isso algo assim para Henry, diria? A não ser que eles estejam se direcionando para um plot romântico… não. Não, não, não, não. Isso não pode acontecer. Eu não escrevi páginas e páginas de fic Hechard para isso acontecer. Isso é inaceitável. Ela vai se ver comigo e

(Isso foi alguém batendo na porta?)

e sinceramente eu sei que ela leu todos os meus rants no Twitter E no Tumblr sobre como Hero/Henry não funciona, ela não me trairia de forma tão baixa e absurda e

(Ok, isso definitivamente foi alguém batendo na porta e me gritando)

isso não vai ficar assim. Abro um novo arquivo no bloco de notas do celular e começo a digitar, compelido por todo o fogo do ódio acumulado no meu coração, anotações para a review que eu faria, mais tarde, sobre aquele capítulo, e que eu esfregaria furiosamente na cara de ThePensieve — ou, ao menos, o quão furiosamente alguém pode fazê-lo por meios virtuais.

A porta do quarto se escancara, e eu preciso proteger os meus olhos contra a luz repentina vindo do corredor.

“Eu nem sei porque eu me incomodei em bater na porta primeiro,” Padfoot diz, atravessando o quarto sem hesitação e escancarando as cortinas. Eu morro por dentro por alguns segundos, completamente cego.

“Aaaaaaaahnghg,sd,?” eu pergunto. É uma tentativa de ‘o que aconteceu???’, mas as primeiras palavras do dia antes do primeiro café sempre são um pouco difíceis pra mim.

“O que você tá fazendo? O seu pai disse que a gente tinha que sair faz 20 minutos. Você nem se vestiu ainda?”

Antes que eu possa efetivamente responder, Sirius arranca meu cobertor de cima de mim, e sinceramente, a minha única reação é suspirar, porque é claro que ele faria isso. Eu deveria saber que, desde o momento em que Sirius entrou pela porta de casa, eu não teria direito a nenhum minuto de paz.

“Por que ele quer ir embora tão cedo,” eu pergunto, mas soa mais como “poacnbora kans cedo”. Ainda assim, depois de tantos anos tendo que lidar com a minha inarticulação matinal, Sirius sabe exatamente o que eu disse.

“Não sei. Mas por algum motivo seus pais acham que eu tenho mais autoridade pra conseguir te acordar do que qualquer um. O que é verdade. Mas,” ele diz, e se senta ao meu lado, aproveitando o espaço livre de uma cama muito maior do que precisa ser. “Vamos, levanta. Não vou perder o café da manhã por sua causa.”

Eu bocejo enquanto me esforço para levantar. Anteriormente apoiado no meu peito, meu celular cai no meu colo quando me sento, e Sirius o apanha antes que eu possa reagir. A tela está desbloqueada, mas não que isso importe — o desgraçado conhece todas as minhas senhas.

Parte de mim quer tentar pegar o celular de volta, mas só consigo reunir energia para encará-lo com alguma irritação. “Merda, spoiler,” ele murmura, quando vê as minhas anotações, e se apressa a voltar para o navegador, onde a nova edição de HP ainda está aberta. “Já terminou de ler?” ele pergunta, voltando apressadamente para o início. Eu me levanto e espreguiço.

“Não. É um capítulo muito longo. Ela deve ter aproveitado para fazer um maior nas férias.”

Não que ThePensieve aparentemente saiba fazer capítulos curtos. É de se esperar que, com o trabalho envolvido em escrever um roteiro e traduzi-lo em desenho, ela preferiria publicar HP em doses homeopáticas, mas não; a autora sempre tem história demais para contar, e cada nova edição vem com pelo menos 20 páginas de desenhos detalhados, cenas dramáticas de página inteira, e pelo menos um cliffhanger de matar o coração.

Sirius se deita na minha cama e começa a ler, enfiando os sapatos nos lençóis sem qualquer tipo de consideração com a pobre da faxineira que lidaria com a sua bagunça depois. Eu vou direto para o banheiro, e o tempo para que eu tome banho, escove os dentes e me vista é o suficiente para que Sirius termine de ler o capítulo e disparar um spoiler na minha cara. “Sua namorada matou o Connor Daubney no final do labirinto.”

Bom, poderia ser pior.

“É, eu imaginei. Ela não faria as Provas Triarcanas parecerem tão perigosas se não fosse para alguém morrer.”

“Aw. Qual é o ponto se eu não destruir completamente a sua diversão?” ele diz, levantando para me devolver o celular enquanto saímos do quarto. “Espera. Você pegou o pendrive, não pegou?”

Aceno que sim. “Deixei no carro ontem, junto com as nossas malas.”

“Nice. Ah, e Moony ligou. Ele disse que vai ter que guiar os primeiro-anistas, de novo, e depois ele tem negócios de monitor na cabine da Evans, então…”

“...ele encontrou uma forma de distrair Evans, e temos as primeiras horas de viagem com o corredor livre. Ótimo.”

Sirius franze a testa. “Eu queria mais dizer que eu vou ficar solitário e triste e abandonado e seria ótimo se você ignorasse um pouco a sua namorada pra me dar atenção, mas tudo bem. Isso também, eu acho.”

Ele ergue os braços de forma dramática enquanto entramos na copa, e eu rolo os olhos, rindo. Conforme nos aproximamos da mesa de café da manhã, a atenção dos meus pais se voltam para nós, meu pai abandonando o seu ultrapassado jornal impresso, minha mãe sorrindo animada enquanto indica que Sirius sente do seu lado.

“Por que acordou tão tarde, querido?” amma pergunta, e eu penso em reclamar que ainda são nove da manhã, e que não existe qualquer necessidade de sair tão cedo — e também penso em explicar a verdade, onde eu fiquei até três da manhã organizando os próximos capítulos do meu space opera AU de HP. Mas eu só dou de ombros.

“Acho que eu só não estou ansioso para ir embora,” digo, enquanto sirvo meu chá. Não é mentira, tecnicamente, mas está longe de ser o tipo de resposta sincera que mães costumam esperar.

Mas funciona — ela sorri, e logo volta a sua atenção para Sirius. É óbvio que ela tentaria aproveitar o máximo de tempo possível com o seu recém adquirido filho.

O café da manhã corre com uma fachada de tranquilidade. Amma é genuína como sempre, enchendo a mim e Sirius de perguntas sobre os nossos planos para esse ano e, bondosa e angelical como ela é, fica genuinamente intrigada e interessada em tudo o que temos a dizer. Meu pai, por outro lado, só nos observa, e eu sinto seu olhar sobre mim como um laser, embora tente me distrair o máximo possível com a comida.

Aparentemente, estamos todos indo juntos para King’s Cross. Amma vai nos levar, já que a estação está no caminho de seu ateliê (ela é artista plástica, dessas famosas que entram em brigas muito públicas por patentes de tinta e tons muito específicos de preto), enquanto que papai vai para o gabinete na direção oposta. Ele continua calado no caminho para a garagem, enquanto ela continua tagarelando.

Meu pai me para no meio das escadas, dois degraus abaixo de mim, e mal percebendo, eu arrumo os óculos e a postura diante do seu escrutínio aparentemente calmo.

“James,” ele começa, subindo um degrau para colocar uma mão quente no meu ombro. É estranho, mas ele não se acostumou em nada com a minha altura recém-adquirida, e o gesto é desajeitado, apesar de bem-intencionado.

Ele me encara nos olhos, azuis e tão diferentes dos meus, e sorri levemente — é o seu sorriso convincente de parlamentar, e meu estômago revira com a expressão tão ensaiada. “Você se lembra da conversa que tivemos, no início do verão?”

Não consigo segurar uma careta. “Sim,” respondo, simplesmente, e de repente a mão dele parece tão mais pesada. “Vou pensar no que disse, pai.”

Ele não parece satisfeito. “Estou contando com você, James. A vaga no gabinete é uma oportunidade única, e eu já conversei com alguns professores de Oxford. Escute os meus conselhos, e o seu futuro estará traçado por você.”

Ah, não é esse um prospecto perfeito?

Eu forço um sorriso. “É claro, pai. Estou escutando.”

Ele me observa, com a sua constante expressão bondosa, mas parece que ele tenta ler os meus pensamentos. Antes que ele possa dizer qualquer coisa, no entanto, a voz estridente de amma o interrompe.

“Monty? Cadê você?”

“Estamos indo!” ele diz, e me dá as costas, terminando de descer as escadas em um piscar de olhos.

Na frente da minha mãe, ele se despede de mim e de Sirius com abraços calorosos e sorrisos gentis. Ele vai embora primeiro, com o seu mais carismático sorriso, e entramos no carro de amma, com seus bancos manchados de tinta e o cheiro de lavanda impregnado no ambiente.

Ela liga o rádio e, com exceção da voz monótona do locutor de notícias, tenho silêncio pela primeira vez naquela manhã. Sentado ao meu lado no banco de trás, Sirius apanha o seu celular, que percebo, com um olhar de relance, ter aproximadamente dois milhões de mensagens não lidas de Remus. Ele imediatamente sorri, sinceramente, não a expressão simpática que ele apresenta aos meus pais, e é tão puro que sou forçado a desviar o olhar, ainda que sorrindo — às vezes, as interações entre eles pertencem apenas à eles, e eu sinto que não devo me intrometer demais.

Ao invés, apanho o meu próprio celular, e me decepciono imediatamente. Tenho mais de 300 mensagens não lidas, a maior parte delas na conversa do time de futebol da Grifinória, e a outra parte na nossa conversa em grupo, onde Remus ajudava, pela sétima vez seguida, um Peter perdido no caminho para King’s Cross.

Abro a conversa com ThePensieve, só para ter certeza. Às vezes celulares erram, e não notificam mensagens novas. Mas não há nada novo, e a decepção me invade, logo seguida por preocupação. Será que ela acordou a tempo? Ela parece ser o tipo de pessoa organizada demais para acordar atrasada quando isso é uma questão de vida ou morte, mas mesmo assim… para tudo há uma primeira vez, e diferente de Richard Wheeler, eu duvido que o pai de ThePensieve tenha um Ford Anglia voador e mágico para transportá-la até a escola.

Como um adolescente (o que eu sou) numa comédia romântica (onde não estou), tamborilo os dedos na tela bloqueada, pensando no que dizer. Talvez mandar alguma coisa só a atrapalharia. Talvez seja melhor esperar ela falar comigo primeiro — é bem provável que, em uma manhã tão ocupada, ela só se irritaria com mensagens desnecessárias que só serviriam para a distrair.

Ao meu lado, alguma coisa que Remus enviou faz Sirius soltar uma risadinha, como se ele tivesse cinco anos de idade. “Meu Deus, tenha alguma piedade de nós, pobres mortais solteiros”, reclamo, rindo, e ele me chuta, num ritual que já é de praxe, mas a interação me inspira a desbloquear a tela e digitar, apressadamente, conforme minha mãe estaciona em frente à King’s Cross.

[ChudleyCannons 09:43] e um bom dia para vc. será que nos veremos hoje?

Hm. Talvez o tom passivo agressivo não seja a melhor opção, mas motoristas desesperados já estão buzinando ao nosso redor para liberar a vaga, e aperto “Enviar” sem muitas possibilidades de revisão.

Seja o que Deus quiser.

Saímos os três do carro, batendo as portas e correndo para apanhar as malas. Amma nos abraça, e nos aperta um pouco mais do que o normal. Ela segura Sirius pelos ombros e o encara nos olhos, expressão solenemente séria.

“Cuide do Jay. Se precisar, o obrigue a comer e dormir direito. Me liga se qualquer coisa acontecer, e eu vou correndo,” ela diz, e eu não escondo a ofensa na expressão. Desde quando Sirius é o responsável entre nós dois? Somos igualmente imprudentes!

“Pode deixar, Euphemia,” ele responde, orgulhoso, e ela sorri. Desde que se conheceram, ela fez questão que Sirius sempre a tratasse exclusivamente pelo primeiro nome.

“Tenho que ir, ou vão forçar o carro pra fora daqui,” ela diz, antes de se voltar novamente pra mim. Ela ergue uma mão até o meu rosto, bem mãe, e fica na ponta dos pés para me deixar um beijo na testa. “Estou tão orgulhosa de você. Tenho certeza que esse ano vai incrível.”

Não sei bem o que dizer. Eu suponho que é emocionante para ela, me ver começar o último ano do ensino médio — o último ano antes que eu tenha que virar, oficialmente, um Adulto™. Não tinha parado pra pensar nisso ainda, mas agora os olhos escuros dela estão brilhando com a ameaça de lágrimas, e é um pouco assustador.

Tento dar um sorriso tranquilizador, mas não funciona muito bem e ela só nos dá tapinhas no braço enquanto praticamente nos empurra para dentro da estação.

“MANDEM UM BEIJO PRO REMUS!” ela grita, logo antes de entrar de volta no carro. Como sempre, ela nem sequer menciona Peter — e, sinceramente, não faço ideia do porque. Ele sempre é tão educado e simpático com ela, mas por algum motivo ela não confia nele de jeito nenhum. Vai entender.

Rapidamente nos perdemos no fluxo absurdo de pessoas, ilhados com as malas gigantes. Sirius se voluntaria para buscar carrinhos, e eu me apoio em uma das malas, desviando minha atenção para o celular. Leio as mensagens no grupo do time (que é majoritariamente memes e áudios que eu não queria ouvir), ignoro todas elas e pergunto a disponibilidade de todos para uma reunião. Abro a Marauders, e pelo que as mensagens indicam, Peter chegou são e salvo no trem.

[Moony 09:49] @Prongs @Padfoot cadê vcs

[Prongs 09:50] chegamos na estação

[Prongs 09:50] @Padfoot tá pegando os carrinhos

[Prongs 09:50] pfvr deixa um lugar pra mim na janela

[Moony 09:50] pra vc ficar sendo dramático olhando a paisagem a viagem inteira pensando na sua namorada? idts

Estou pronto para reclamar, quando Sirius volta, quase atropelando um exército de crianças no caminho. Arrumamos nossas malas e partimos, com pressa, para a plataforma, já cheia de adolescentes. Felizmente (talvez), Sirius tem uma aura particularmente assustadora para os novatos — ele se esforça bastante para parecer um integrante de uma banda de punk-rock, e isso é extremamente positivo para abrir caminho por uma multidão de crianças nervosas e impressionáveis. Mais cedo do que o esperado, estamos dentro de uma cabine, Peter afundado em um cochilo profundo demais para nos notar, e Remus sumido.

Meu celular vibra no bolso assim que arrasto minhas malas para dentro, e é com pressa vergonhosa que eu o retiro do bolso:

[ThePensieve 09:59] e por que não? não me diga que vc largou a escola!!!

Não consigo segurar uma risada, e Sirius me encara. O ignoro.

[ChudleyCannons 09:59] ha-ha

[ChudleyCannons 10:00] vc sabe o que quis dizer

[ThePensieve 10:00] ;)

[ThePensieve 10:00] ttyl. cheguei na estação.

[ChudleyCannons 10:02] então é vc que tá atrasada

[ChudleyCannons 10:02] eu já embarquei

[ChudleyCannons 10:03] godspeed

“Eu preciso de ajuda aqui!” Sirius reclama, em grunhidos, enquanto tenta colocar a mala, sozinho, no bagageiro. Jogo o celular no banco e vou ao seu resgate.

Assim que terminamos de arrumar todas as malas, nos jogamos nos bancos, e imediatamente pego o meu celular, que vibra com novas mensagens assim que encosto nele.

“Você não consegue ficar cinco minutos sem falar com a sua namorada?” Sirius reclama, enquanto pega o próprio celular, claramente mandando alguma mensagem para Remus.

[ThePensieve 10:12] obrigada pela torcida

[ThePensieve 10:13] ainda procurando um carrinho, entretanto

[ChudleyCannons 10:15] nesse ritmo vc vai perder o trem

[ChudleyCannons 10:15] pls don’t

Não precisamos esperar muito para que Remus apareça — ainda que seja por acidente. Ele está andando pelo corredor, passos pesados e impacientes, olhando para dentro de cada uma das cabines com uma expressão perfeitamente blasé, que denuncia alguma irritação. Quando o seu rosto pálido surge na janelinha, ele logo desvia o olhar, mas retorna com os olhos arregalados, escancarando a porta e fazendo Sirius pular do banco. O cochilo de Peter permanece abençoadamente imperturbável.

“O que diabos você está fazendo aqui?” Remus reclama, colocando os braços na frente do corpo para impedir Sirius de abraçá-lo. Ele soa como se estivesse falando do tempo lá fora, mas é bom o suficiente para que Sirius hesite.

“Não fui eu...? O que foi que eu fiz dessa vez,” Sirius pergunta, e depois de alguns segundos de expressão incrédula, Remus simplesmente suspira, e desvia o olhar para mim.

“Oi, James,” ele diz, estendendo uma mão para um cumprimento, que eu seguro, aproveitando-a para me levantar e o apertar num abraço que o levanta do chão alguns centímetros. Sirius encara, e lhe lanço o meu melhor olhar de “hahaha o seu namorado me abraçou e te ignorou hahahHAHAHaha”.

“Oi, Remus,” respondo, quando o largo de volta no chão. “Que besteira o Sirius fez dessa vez?”

Ele suspira, retornando a sua atenção à Padfoot. “Eu avisei que você deveria ficar na cabine do lado da dos monitores. Você confirmou que lembrava não faz nem quinze minutos. Se você tá aqui, é pra ficar longe da minha atenção, ou da Lily, o máximo de tempo possível. O que significa que você tá aprontando alguma coisa pra deixar o meu dia ainda mais ocupado.”

Sirius me encara, e eu o encaro de volta. Eu rio nervosamente, “Hahahaa, de onde você tirou isso, Moony? Que absurdo. Nós nunca faríamos nada pra te atrapalhar. É o último ano, nós sabemos que você tem mil vezes mais trabalho nessa viagem, e...”

“Eu nunca disse que você estava envolvido,” Remus me interrompe, expressão perfeitamente neutra. Eu gaguejo, e ele suspira. “Só… peguem as suas coisas. Rápido,” ele ordena, com um gesto, e logo se distrai ajudando Sirius e conversando com ele naquela voz suave e gentil que só serve quando estão sozinhos (ou fingindo que estão sozinhos, como eu infelizmente sei bem).

Fica sendo a minha função acordar Peter, e o cutuco na perna até que acorde, de um jeito que faz parecer que ele só estava fingindo dormir para escapar de possível drama. Típico. "Hey!" ele exclama, com o sorriso mais falso que eu já vi na minha vida. "Há quanto tempo vocês estão aqui? Por que não me acordaram?"

Minha resposta é um dar de ombros, e um breve resumo da situação. "No fundo, isso tudo é culpa sua. Ei, Moony, isso é tudo culpa do Peter. Ele que escolheu a cabine!"

"Sim, mas você me disse para pegar uma cabine perto da cabine de controle e o mais longe possível da cabine dos monit- AI!"

Chutar a canela de Peter é inútil — Remus já está me encarando, simultaneamente me julgando e tentando parecer decepcionado. Eu sorrio, colocando todo o meu carisma no gesto, mas não adianta muito. Ele suspira e rola os olhos, exausto.

"Olha, foda-se. Eu não sei o que você estão planejando, mas desde que não envolva uma outra guerra de paintball, eu não tenho nada a ver com isso. Da última vez, eu tive que esfregar a tinta de todas as cabines, e ainda por cima um primeiro-anista que foi atingido era alérgico e os pais dele quase me processaram," ele reclama, enquanto ajuda Sirius a empurrar as malas dele de volta para o corredor.

"E o senhor," ele completa, quando terminam, enfiando o dedo no peito de Sirius. "Vou chamar a Lily para pegar o seu passe pessoalmente. Não vai te impedir de fazer nada, mas pelo menos assim a McGonagall não tem como me culpar por qualquer coisa que você explodir."

"Você é tão compreensivo! É por isso que eu te amo," Sirius diz. Todos nós rolamos os olhos em uníssono, exaustos, mas Remus está corando e segurando um sorriso, e eu não poderia estar mais feliz de vê-lo tão satisfeito.

"Vamos logo pra cabine, por favor? Eu quero ir no carrinho de doces," Peter reclama, tirando as palavras da minha boca, e Remus assente, gesticulando para que Sirius ande logo.

Eu abro espaço para que Peter vá na minha frente, e checo o celular antes de sair. ThePensieve nem leu minha última mensagem, e eu franzo a testa, preocupado. Digito com uma mão, o mais rápido que posso, enquanto empurro as malas para fora.

[ChudleyCannons 10:27] n me diga que vc caiu nos trilhos e morreu isso seria mt trágico

Obviamente, eu me atrapalho no processo e fico pra trás. Lá na frente, Sirius está fazendo Remus rir, e Peter está bocejando, claramente não prestando muita atenção na conversa. Apresso o passo, alcançando-os antes que o carrinho de doces, vindo da outra direção, me atropele.

Enquanto arrumamos as malas no bagageiro, Peter nos conta sobre o seu verão e os traumas horríveis pelos quais passou cuidando da sua tiavó Betsy em sua casa muito obviamente amaldiçoada no interior da Cornualha. Enquanto ele descreve com impressionante detalhe um dos fantasmas que enfrentou com um cabo de vassoura, preocupação me toma de novo, e tiro o celular do bolso. De novo, ela sequer visualizou -- apesar de estar online. Hesito por alguns segundos (porque ninguém gosta de pessoas grudentas), antes de digitar mais um pouco.

[ChudleyCannons 10:35] se bem que se vc tivesse caído nos trilhos eu n ia ficar sabendo até as manchetes de jornal

[ChudleyCannons 10:35] ia ser uma forma horrível de descobrir quem vc é

É uma tentativa bastante medíocre de parecer casual e despreocupado, e eu encaro a tela por alguns segundos, visualizando as manchetes dramáticas: “Autora de webcomic viral morre atropelada por um trem; testemunhas revelam que ela estava ocupada demais respondendo as mensagens de texto de um idiota para ver por onde estava andando.” A imagem mental me faz soltar um barulho incomodado enquanto volto a guardar o celular. Peter percebe meu desconforto, e me lança um olhar inquisitivo.

"Você ainda está falando com aquela garota?"

Pigarreio. "Tentando, pelo menos. Ela está atrasada pro trem, provavelmente correndo demais para me responder."

"O quê? Você está sendo rejeitado? Por uma garota?" ele diz, simultaneamente incrédulo e triunfante. Eu devo parecer ofendido, porque todos eles riem, mas Peter me dá uns tapinhas de consolo no ombro. "Todos nós passamos por isso. Bem vindo ao clube."

"Eu não. Ninguém nunca se atreveria a me rejeitar," Sirius contribui, muito solidário. “E eu duvido que Rem tenha sido rejeitado também, ele é perfeito.” Remus responde assentindo, expressão solene.

Incrível. De repente, eu estou na mesma categoria que Peter em assuntos românticos. Parabéns, James; você realmente venceu na vida.

Sou salvo de maior chacota quando meu celular vibra, mas não me ajudo muito quando solto um "A-ha!" e puxo o celular imediatamente do bolso.

[ThePensieve 10:43] e vc ia ficar sem saber o final de HP

[ThePensieve 10:44] deveras trágico, realmente

Sorrio como um idiota — mas, no fundo, espero que ela não realmente ache que o meu único interesse está em HP. Não que meu interesse não esteja vastamente baseado em HP, mas...

[ChudleyCannons 10:44] ah, ela está entre nós!

[ChudleyCannons 10:44] bem vinda de volta ao mundo dos vivos, alteza

Enquanto eu digito, Remus segura Sirius pela mão e o leva consigo para fora da cabine. Eu e Peter vamos atrás, enquanto os dois seguem na direção da cabine dos monitores, tentando desviar do grupo crescente de alunos do segundo ano se acumulando ao redor do carrinho de doces. Como um profissional, Remus impede dois pirralhos de roubar barras de chocolate sem sequer levantar a voz, e abre a porta da cabine dos monitores com a tranquilidade de quem não acabou de impedir dois delinquentes de vitimizar uma inocente vendedora ambulante.

Peter já se distraiu com o carrinho de doces, e está essencialmente pegando um de cada item. Decido acompanhá-lo, comprando algumas barras de chocolate e um saquinho de minhocas ácidas — mas com a lista de compras nada modesta de Peter, eu preciso esperar a minha vez para ser atendido, e apanho o celular para me distrair. Eu provavelmente deveria dar uma olhada nas notificações, que se acumulam, de grupos da St. Fillian, de comentários em fanfics e de asks no Tumblr, mas. Abro de novo a conversa com ThePensieve, e.

Ah.

Ela visualizou e não respondeu.

Ah.

Ok.

Tudo bem. Essas coisas acontecem. Deus sabe o quão ocupada ela deve estar. Não tem nada de errado. Todo mundo visualiza e não responde. Não tem nada de anormal nisso. Tá tudo bem. Tá tudo ótimo. Eu começo a digitar, mas Peter me interrompe, e o susto me faz deslizar os dedos e acidentalmente mandar um emoji de golfinho.

“James?” Ele parece preocupado. “Cara, tá tudo bem? Você ficou pálido de repente.”

Eu pisco algumas vezes, e olho de volta para o celular, encarando a mensagem ignorada. “Ela não está me respondendo,” eu digo, voz muito mais triste do que eu tinha pretendido — até passo a mão no cabelo, tentando parecer casual sobre a coisa toda, mas parece mais que eu estou prestes a chorar um pouquinho.

Há um silêncio prolongado demais, e ergo os olhos para ver Lily Evans me encarando, como se aquele fosse o melhor dia da vida dela. Ah, maravilhoso. Remus e Sirius estão claramente tentando não rir, e são só as palavras de Evans que me impedem de voar no pescoço dos dois.

“Óculos novos, Potter?” ela questiona, parecendo presunçosa. Eu ajeito os óculos por reflexo, e sinto meu rosto esquentar pateticamente — obrigado, amma, por me dar pele escura o suficiente para que ninguém perceba.

“Minhas lentes estavam me dando alergia,” respondo automaticamente, guardando o celular. Por que eu disse isso? Ela não precisa saber. Eu não devo satisfação à Lily Evans. Ajusto minha postura, tentando parecer minimamente digno, e sorrio o tipo de sorriso arrogante que sempre serve para irritá-la. “E você tem reparado em mim, é, Lily?”

Ela parece querer morrer e me ignora, voltando a sua atenção para Remus — o que interpreto como um sinal da minha vitória. Volto a minha atenção para a moça do carrinho, pagando pelos meus doces, e pego o celular novamente enquanto Sirius está sendo uma pessoa ridícula.

[ChudleyCannons 10:57] ops

[ChudleyCannons 10:57] meu dedo escorregou

[ChudleyCannons 10:57] foi mal

[ChudleyCannons 10:57] espero que emojis de golfinho não tenham nenhum significado obscuro hahahaa

Encaro a tela por algum tempo, buscando alguma outra coisa para manter a conversa fluindo. Reclamar de alguma coisa do último capítulo? Mas eu ainda não terminei de ler. Fazer alguma piada sobre algum professor? Não, talvez ela não goste desse tipo de coisa. Mas a minha preocupação não dura muito, porque logo estamos sendo escoltados de volta para a cabine, Sirius se esforçando para explodir os nervos de Evans (que, eu suspeito, está simplesmente fingindo que ele não existe) enquanto eu estufo a boca com chocolate.

Nos acomodamos, e Remus acompanha Lily, triunfante com o passe de Sirius, para a patrulha, enquanto o maquinista anuncia que o trem está prestes a partir. Sirius rouba metade do meu chocolate, e observa o corredor pela janela da cabine, se virando de volta para nós quando julga seguro.

“Ok, o plano continua. Só precisamos esperar até que eles voltem para a cabine, o que não deve demorar. Wormtail, você checou o que eu te pedi?”

Peter assente, “O painel de controle não estava trancado quando eu cheguei, mas achei a chave e escondi. Ainda está na cabine do maquinista, então ninguém roubou nada, mas…”

Sirius sorri com orgulho, e se vira para mim. “Prongs, você trouxe o ouro?”

Sorrio, e vou até o bagageiro, pegando um pen drive de um dos bolsos externos da mala e entregando para ele. “Assim, eu não tenho certeza se o código não vai fritar o sistema do trem inteiro e nos deixar naufragados no meio das Highlands, mas…”

Eles me encaram, preocupados.

“...não vai. Eu não sou tão bom assim. É só uma playlist, por Deus.”

Sirius solta um suspiro aliviado, e logo a sua expressão é a personificação da travessura.

“Prontos para deixarem essa viagem um pouquinho mais divertida?”

Notas finais
um pequeno glossário, caso hajam dúvidas: amma = mãe idts = 'i don't think so' ('eu acho que não') ttyl = 'talk to you later' ('falo com você depois') godspeed = boa sorte se tiverem quaisquer outras dúvidas, fiquem à vontade para comentar e estaremos felizes de esclarecer! esperamos que vocês estejam pegando as referências à harry potter na webcomic da lily, inclusive. até a próxima, daqui duas semanas! ;) — K