Não havia escolha.

O garoto se viu em meio à névoa cinzenta que, juntamente com o silêncio interrompido apenas por seus passos no chão arenoso, dava a impressão de que ele estava dentro de uma tempestade do deserto.

Os dedos tateavam nessa espécie de quadro onde escorria pó sem cor, mas não parecia haver nada ali – Talvez devesse abrir mais os olhos, pensou.

Sua vista ardeu, reclamando – O ar ali, se é que havia, era seco o suficiente para que cada brisa fosse um golpe de areia no rosto. Entretanto, de fato ele conseguiu enxergar mais que antes. Uma casa. Outra casa – Dor, e duas ou três piscadas. A silhueta de uma igreja ao fundo. Uma cidade. Não havia destino, então a melhor ideia talvez fosse, de fato, atender às necessidades básicas de sobrevivência — como respirar.

O garoto cambaleou até a casinha branca mais próxima e bateu à porta. A cidade estava deserta, por certo, e a certeza deu-lhe a ideia de checar se a mesma porta não estaria aberta, apenas para procurar algum tipo de abrigo. As janelas quebradas e as portas retorcidas contavam histórias entediadas de abandono e isolamento. Naturalmente, era a proteção perfeita.

Estava aberta e, agora com um sorriso prepotente no rosto, ele lentamente usou a porta para escorar e virar seu corpo para dentro da casa. Terminando de valsar com o pedaço de madeira e fechando a porta teatralmente na frente de si mesmo, ele soltou um suspiro.

Aparentemente sem nada, exceto por uma mesa marrom e, repousando sobre ela, uma caixa de fósforos parcialmente encoberta na penumbra, a casa tinha não muito mais iluminação que seus arredores. Frestas no teto e consequentes vórtices de pó abafavam a respiração ou qualquer som que pudesse ser ouvido, demarcando exatamente até onde a luz chegava com o frenético movimento dos pequenos farelos de ennui.

Mas havia uma sombra atrás da mesa, conforme o garoto anotou mentalmente depois de perceber que móveis e lustres — em particular a sombra desses objetos — não são muito comumente dotados de olhos, quanto menos grandes, castanhos e preguiçosos. A garota, que parecia estar atrás da mesa desde sempre, lançou o primeiro olhar de censura, comprimindo os olhos inquisitivamente. Ele parou, fitando as feições daquela que, naquele momento, reconhecia. Não sabia, entretanto, de onde.

“Sua mente é como uma caixa de fósforos” – Ela começou – “Você pode escolher memórias, pode escolher sonhos, pensamentos, segredos que quer queimar por uns poucos segundos, antes que se apaguem.”

Ele pegou a caixa em cima da mesa e, rodando-a na palma da sua mão, desviou os olhos da garota pela primeira vez para tentar fazer com que aquela caixa dissesse alguma coisa mais que a menina.

“Cada palito” – Ela continuou – “representa uma experiência sua. Tudo na sua mente que esteja ligado a certo fato está guardado. E agora você tem a chance de apagar o que quiser.”

Ele abriu a caixinha e pegou um fósforo. Como ele esperava, não havia nem mesmo como os minúsculos pedaços de madeira terem inscrições ou marcações sobre a passagem de sua vida que estava inserida ali, mas as memórias começaram a simplesmente brotar em sua mente. Sua primeira viagem, com um ano de idade, para uma cidade particularmente fria e chuvosa, onde as praias eram talvez tão cinzentas quanto o lugar onde ele estava naquele momento. Na verdade, ele pensou, as lembranças eram dele olhando as fotos da viagem em álbuns de família e riu-se da ideia de conseguir lembrar de eventos tão longínquos e mesmo insignificantes. Logo depois, a visão da minúscula casa deu lugar à imagem dele mesmo chorando enquanto lia um livro de conteúdo indefinido. Podia se lembrar do motivo do choro – medo de que seus pais morressem algum dia –, mas não conseguia se recordar do que estava lendo. Provavelmente, um livro religioso.

O importante era que, quando parou pra pensar, o garoto não viu correlação alguma entre as duas lembranças. Tinha a certeza de que os dois fatos não haviam ocorrido no mesmo dia, sequer na mesma semana, muito possivelmente até em anos diferentes. Intrigado com a falta de sentido daquilo, e ainda examinando o palito que tinha nas mãos, perguntou sem levantar os olhos:

“É só isso?”

A interlocutora não esboçou reação alguma, ficando apenas parada. Serenamente, ela acompanhava os movimentos curiosos do garoto sem mover um músculo da face. Percebendo que ela nada diria, ele apenas ponderou que eram duas memórias distintas, totalmente inúteis e não faria diferença deixá-las ali. No entanto, o medo da morte dos pais não havia sido uma sensação exatamente confortável na época – embora totalmente superado – e, além do mais, ele não sabia como aqueles fósforos funcionavam. Mais por curiosidade que por remorso, ele riscou o fósforo.

O tempo até sentir os olhos arregalarem, serem afundados até a parte de trás da cabeça serem fundidos com o cérebro foi simplesmente curto demais para o garoto sequer raciocinar o evento. Um grito surdo ecoou dentro dos pulmões, mas só ali. Quando voltou a si com a impressão de ter levado um soco em cada face e as duas estarem convergindo para o nariz, ele olhou para os lados e sorriu um sorriso antes aturdido que alegre. Tentou avaliar se a sensação era prazerosa ou não, mas seus pensamentos estavam desconexos demais para conseguir julgar.

“Seu maior medo ainda é o de seus pais morrerem?” – A garota perguntou, de súbito, mas ainda com a voz plana e calma.

Ele demorou um tanto para entender do que ela estava falando. Mais em um raciocínio puramente matemático de achar a incógnita que falta para completar a equação do que pela intuição, percebeu que aquele pequeno mecanismo funcionava, pois não se lembrava de ter algum dia sentido medo de ver os pais mortos. O pequenino pedaço de madeira em sua mão direita estava quase totalmente preto, retorcido e quebradiço, e exalava o cheiro característico do queimado, de que ele gostava desde criança. Por isso, ficou apreciando o próprio torpor em vez de responder à pergunta. A garota, sem se sentir ofendida, apenas olhava, meneando censuras com as pálpebras vez por outra.

Eventualmente ele notou e se sentiu embaraçado por deixar a garota esperando. Assim, decidiu pegar logo mais um fósforo.

Ele aguardava as lembranças pipocarem em sua mente, mas nada veio. Em vez disso, apenas uma vontade quase incontrolável de acender o palito logo apenas para sentir de novo o aroma da fumaça. A simples sugestão mental do cheiro em seu olfato o deixava desnorteado, mas sua parte sensata ainda conseguiu refrear essa ânsia por um tempo.

“Por que não tem nenhuma lembrança nesse aqui?” – Perguntou, os dedos ameaçando desobedecer à sua ordem de esperar e, parecia-lhe, até mesmo tremendo.

“São apenas seus vícios. O cheiro da fumaça, mesmo, por exemplo.” – A menina respondeu com alguma rouquidão na voz paralizante. Depois de uns poucos segundos de pausa, acrescentou – “Aí também estão todas as suas mínimas… Frescuras.”

O garoto riu, mas foi uma daquelas risadas falhadas e tremulantes. Começou a se lembrar de coisas absolutamente irrelevantes que o deixavam incomodado, como lavar a louça em casa, pessoas usando óculos escuros – especialmente em lugares fechados – e gente que lhe deixava curioso. Talvez, se eliminasse esses pequenos inconvenientes de sua cabeça, seria uma pessoa mais receptiva e simpática, não seria? Talvez fosse… Não, claro que seria. Só precisava sentir o cheiro de madeira queimada de novo.

Novamente a sensação de ter ficado desacordado por horas e acordado em segundos. Dessa vez, porém, havia sido tanto menos impactante, e já de imediato conseguia organizar as imagens que lhe vinham à cabeça. O odor vindo do fósforo queimado não lhe causou reação alguma, e então ele se sentiu a pessoa mais estúpida do mundo. Estivera tão ansioso para fazer o que eliminara a mesma ansiedade... bem, não importava. Ao menos, conseguia se lembrar de fotos de seus amigos com óculos de sol sem espumar de raiva.

Ele olhou para a garota que ainda estava à sua frente, imóvel como sempre, entediada como sempre, esperando como sempre. Ela nem precisou dizer nada ou dirigir-lhe outro olhar para que ele pegasse o próximo na caixinha.

Uma música invadiu seus ouvidos de dentro para fora. De onde vinha? De sua própria cabeça, é claro, mas onde a tinha ouvido da primeira vez? Não conseguia identificar. Era instrumental e tão suave quanto uma música pode ser, com as notas cuidadosamente ritmadas do piano , com o espaço de tempo entre as notas ser igual para todas, colocando em harmonia até mesmo a flutuação errática da poeira. Entertanto, simplesmente não se lembrava do canto de onde a tirara. Talvez sua origem houvesse sido esquecida junto com o primeiro palito? Enquanto se esforçava para se lembrar, entretanto, uma imagem explodiu em sua testa e, feito sangramento, começou a substituir a melodia.

Ele acordando em uma cama de casal, o travesseiro branco sujo apenas pelos primeiros raios duros da manhã. Tão iluminados quanto, ou ainda mais, estavam os cabelos de uma pessoa que lhe dirigia um olhar sereno e da mais pura ternura, que aparentemente estivera esperando pelo seu despertar apenas para poder afagar-lhe a cabeça. Não saberia, naquele momento, precisar a identidade do ser ao lado ainda que visse suas feições claramente. Apenas sabia que a amava igualmente.

Abruptamente, essa sequência de sensações agradáveis foi trocada por outra cena: Ele mesmo em um campo de batalha, atravessando com uma lança prateada qualquer pessoa que tentasse se aproximar. Seus movimentos eram rápidos e faziam a arma parecer feita de papel, tamanha a destreza com que ele a manejava. Os rostos das pessoas que vinham para a morte certa – surpreendeu-se em notar, aproveitando que os movimentos pareciam automáticos o suficiente para deixar a mente livre – eram de pessoas que ele odiava ou que lhe haviam ofendido em alguma ocasião. Era definitivamente uma sensação de glória.

“O que é isso?” – Com os olhos perdidos, de olhos desfocados, embora centrados na cabeça do fósforo, e um sorriso de boca aberta que mal lhe comprimia as bochechas, ele perguntou.

“Você sabe.”

Ele realmente sabia. Só fazia toda a questão do mundo de não admitir. As palavras começaram a martelar sua mente, atrapalhando sua visão da cena em que ele podia tudo. Pouco a pouco, as imagens foram se esvaindo e deram lugar à frase que ele não suportou mais guardar para si mesmo. Suas bochechas doíam e esse foi, para ele, o único sintoma de que ainda estava sorrindo.

“Nostalgia do que nunca aconteceu.”

“Devaneios” – Ela completou, parecendo finalmente se divertir – “que você costuma ter. Geralmente, antes de dormir, escutando músicas ditas relaxantes no fone de ouvido. Aparentemente, você só é feliz quando sonha acordado com essas coisas, às vezes absurdas. Profecias do que poderia ser, do que poderia ter sido. Diálogos onde todas as falas são suas. Sabe, coisas que nunca aconteceram… E nunca vão acontecer.”

O sentimento de vergonha por que o garoto passava naquele momento só podia ser exprimido, ironicamente, pelo seu próprio nó na garganta. Ele engoliu em seco várias vezes, para se distrair da vontade de virar a cara para si mesmo. Aqueles eram seus sonhos mais secretos, onde ele mesmo se permitia não fazer sentido, onde ele se fazia alguém confiante e onde tudo dava certo. É muito fácil lidar com o irrealismo dos sonhos quando se está sozinho.

De qualquer forma, nada mais importava, a não ser deletar para sempre aqueles absurdos, aqueles paliativos, aqueles sonhos estúpidos que não enganavam ninguém, frutos de uma mente infantil.

Sentiu algo quente dentro do peito, dessa vez. Ele quis se convencer de que tal calor não era nada menos que a chama do fósforo queimando seu sentimento de culpa por ser tão imaturo. Foi sua última sensação antes de apagar.

Agora havia sido um pouco diferente. Ele acordou, de fato. Sua mente trabalhava calculando tempo, projetando horas ou dias desconexamente. Estava deitado, e ao abrir os olhos não viu mais do que uma brisa cinza que desdenhava dele.

Estava fora da casa novamente. A caixa de fósforos, entretanto, continuava em sua mão e o último queimado ainda exalava fumaça. Levantando-se, ele viu que a também a cidade havia desaparecido, embora o aspecto de tudo ainda parecia melancolicamente propenso à solidão. Ele se sentia bem, embora houvesse lacunas em sua mente onde deveria haver lembranças dele se deitando na cama todos os dias. Satisfeito, ele pegou mais um fósforo.

“Tem certeza?” – A voz da menina surgiu em sua cabeça. Parecia vir de longe ou do nada e ela definitivamente não estava ali em presença. Porém, ele ainda possuía o controle sobre sua mente na forma de pólvora e fogo e, por isso ou apesar disso, não precisava dela.

“Claro que tenho, idiota.” – Ele rosnou dentro de sua cabeça, fechando os olhos como se isso fosse necessário à telepatia entre os dois.

Não menos que dez segundos se passaram até que lhe viesse o nada. Cenas, gostos, sonhos. Nada. Apenas uma angústia que só durou introspectivamente até ela chegar.

Com o rosto impassível e o resto do corpo inerte, ela andava como se estivesse levitando. Trespassava os olhos pelo garoto para o garoto com profundo desprezo, já que você sussurra. você suspira. você chora. você odeia. você ama. você mal sabe. você não sabe. Não confia em si mesmo, mas também... quem poderia? você abraça os próprios joelhos, com um frio que só você sente, e ninguém se importa. você mente para si mesmo, dizendo em voz alta que pode sair dessa por si só, que não queria ninguém que te amasse como você se odeia. E você é só um troféu. Tudo isso que você sente não é menos do que um prazer aos outros, pois é por eles. você quer gritar, é claro, mas tem medo que esse peso na sua mente saia junto com esse grito, tem medo de ser finalmente compreendido. Afinal, é tudo que você tem, não é? Sem isso, você se considera normal, como qualquer um que você despreza por não ser doente como você. Então, você disfarça essa sua maldita carência. você apenas gosta de ser o palhaço de que todos riem e por quem ninguém chora. você gosta de achar que sofre como um idiota, apenas para usar de desculpa para sua inércia e suas lágrimas de fraqueza. você é uma escória. você é um câncer. É escravo dos seus sonhos ridículos, mas ninguém se importa com eles ou tampouco quer se importar. você não tem o direito de ser olhado com carinho. você merece o inferno que se faz sentir. você se desespera. Queria que suas nostalgias imaginárias fossem reais. você é insanamente indefeso. Especialmente contra você mesmo.

E sumiu.

O silêncio raciocinava pelo garoto, que na verdade estava como morto, sentindo-se cair na névoa espessa. A ideia, como a neblina, pairava dentro de sua mente, mas ele não sabia se deveria.

O mundo não era. Nada faz sentido. Nada é. O fósforo devia ser aceso e imediatamente ser colocado dentro da caixa aberta, junto das outras memórias tristes e vazias, que nunca valem a pena. A vida… não é boa.

Todos os palitos dentro da caixa como que explodiram, ao entrarem contato com a pequena chama do sentimento mais cruel. Mas

Não havia escolha.

O garoto se viu em meio à névoa cinzenta que, juntamente com o silêncio interrompido apenas por seus passos no chão arenoso, dava a impressão de que ele estava dentro de uma tempestade do deserto.

Os dedos tateavam nessa espécie de quadro onde escorria pó sem cor, mas não parecia haver nada ali – Talvez devesse abrir mais os olhos, pensou.

Sua vista ardeu, reclamando – O ar ali, se é que havia, era seco o suficiente para que cada brisa fosse um golpe de areia no rosto. Entretanto, de fato ele conseguiu enxergar mais que antes. Uma casa. Outra casa – Dor, e duas ou três piscadas. A silhueta de uma igreja ao fundo. Uma cidade. Não havia destino, então a melhor ideia talvez fosse, de fato, atender às necessidades básicas de sobrevivência — como respirar.

O garoto cambaleou até a casinha branca mais próxima e bateu à porta. A cidade estava deserta, por certo, e a certeza deu-lhe a ideia de checar se a mesma porta não estaria aberta, apenas para procurar algum tipo de abrigo. As janelas quebradas e as portas retorcidas contavam histórias entediadas de abandono e isolamento. Naturalmente, era a proteção perfeita.

Estava aberta e, agora com um sorriso prepotente no rosto, ele lentamente usou a porta para escorar e virar seu corpo para dentro da casa. Terminando de valsar com o pedaço de madeira e fechando a porta teatralmente na frente de si mesmo, ele soltou um suspiro.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.