.medo

1 (reais e concretas)


tem todas essas músicas que eu gostaria de ter escrito — e eu continuo me perguntando se eu teria tido essa capacidade, no momento certo, com a caneta em mãos. e eu também gostaria de falar por metáforas inteligentes ou lembrar todas as regras da gramática.


não há nenhum assunto que eu domine completamente ou desejo que faça com que meus dedos se movam com mais velocidade que o necessário. eu nunca fui do tipo que é único e minha coleção de segundos e terceiros lugares é deprimente aos olhos do meu avô e uma vitória aos olhos do meu pai.


mas eu posso soltar curiosidades inúteis em momentos inadequados, você sabia que os polvos têm mais de um coração? eu continuo segurando risada em funerais e as leis de Murphy até que fazem sentido — junto com o maldito pão.


ainda há esses devaneios onde me entrevistam e eu digo como pensei no poema certo enquanto lavava a louça, mas tudo o que eu havia rimado era —ado e —endo, mas nada que fizesse com que eu continuasse rindo. toda essa história de bom humor pode ser marketing e eu não quero uma página na internet com as minhas dez melhores frases.


porque eu tenho me preocupado com o futuro enquanto mantenho o pé direito no passado, então toda essa minha tentativa de ser mais do que já sou, mesmo sendo menos do que já eram, faz com que meus olhos doam e a miopia seja a desculpa perfeita para manter as folhas e o lápis dentro da gaveta.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!