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1 Capítulo único
Notas iniciais
Uma risada estridente e lunática invade os seus ouvidos. Ao fundo, um grito agonizante.
Sua visão está borrada, tudo que consegue ver são luzes e manchas.
— Onde você achou essa espada? Me diga agora!
Uma dor... Vem do seu braço. Sua pele parece que vai se dilacerar.
E, então, você percebe: o grito vem de você.
Hermione Granger-Weasley acordou assustada. Seu coração acelerado e o suor em seu corpo indicavam que tivera um pesadelo. De novo. Quando ela olhou para o outro lado da cama no quarto escuro, encontrou Ronald dormindo. Ele tem mesmo um sono de pedra. Tudo bem, melhor assim. Não precisava preocupá-lo só por causa de um sonho ruim.
Hermione saiu de debaixo do lençol e se levantou devagar para não fazer barulho. O mais silenciosamente possível, andou pela casa até chegar à cozinha, onde pegou um copo d'água.
Era sempre assim quando o trabalho estava muito estressante. Ela simplesmente não conseguia dormir direito. Assim que seus olhos se fechavam de cansaço, seu sono era invadido por pesadelos. Às vezes, sobre seus prazos e demandas. Outras vezes, sobre Rose e Hugo. E, de vez em quando — ou cada vez mais frequentemente — sonhava com a sua época de guerra.
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— Você parece acabada — comentou sua assistente, Joanne Smith, ao colocar uma pilha de documentos sobre a mesa dela.
— Experimenta ser Ministra da Magia só por um dia pra você ver — retrucou. Hermione não costumava ser sarcástica, mas a privação de sono já estava afetando seu temperamento.
A rotina no Ministério se tornou um caos desde que, durante uma investigação de tráfico de objetos mágicos, encontraram o que sobrou da taça de Helga Hufflepuff, que deveria estar bem protegida no Departamento de Mistérios. Uma investigação mais profunda acabou revelando que um grupo neopurista vinha crescendo há meses na surdina — e, pior, arquitetando planos em prol da supremacia puro-sangue. Como se não pudesse piorar, um dos aurores encarregados do caso deixou escapar informações para o Profeta Diário, que publicou uma longa matéria alarmista, exaltando os ânimos da comunidade bruxa.
Agora, Hermione tinha que tranquilizar a todos de que estava tudo sob controle. Os objetos foram apreendidos, os suspeitos haviam sido devidamente interrogados e em breve começariam os julgamentos. Nada com o que se preocupar.
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A coletiva de imprensa não ocorreu bem. Hermione permanecia enjoada e distraída, definitivamente não foi o seu melhor desempenho — e a relevância do assunto só tornavam as coisas piores. A Ministra nem saberia dizer em que ponto a clareza escorreu de suas mãos. Quando deu por si, suas mãos tremiam como nunca mais havia acontecido e ela se perdeu na própria fala. Encerrou as perguntas de jornalistas o quanto antes e retornou ao seu gabinete.
Pediu a Joanne para não deixar ninguém perturbá-la, fechou a porta e sentou-se. Ela estava cansada e com náuseas. Ainda assim, por mais fatigado que seu corpo estivesse, a sua mente parecia um turbilhão de pensamentos, incapaz de deixá-la descansar. Hermione tomou uma dose de Poção Revigorante.
Está tudo bem, vai ficar tudo bem. E até acreditava nisso por um tempo.
Por fim, quando sentiu que a poção fez efeito, dedicou o resto do expediente a trabalhos burocráticos que poderiam ser executados mecanicamente. Ela nunca faltaria com as suas obrigações.
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A Poção do Sono que bebeu assim que chegou em casa fez efeito. Hermione finalmente dormiu a noite inteira e acordou muito mais disposta. Pelo menos alguma coisa tinha que dar certo. Até realizou suas tarefas matinais com uma leveza atípica — normalmente ela seria apenas prática.
Embora os burburinhos das recentes notícias ainda estivessem fortes, o trabalho foi um pouco mais fácil pela manhã. Conseguiu se blindar bem. Hermione era muito boa nisso. Ao meio-dia, foi almoçar com Harry num restaurante trouxa perto do Ministério.
O ambiente era elegante: paredes bem decoradas, pratos e talheres finos e uma música de fundo agradável. O atendimento, entretanto, era péssimo. Não que Harry tenha notado, pois nunca notava. Contudo, Hermione sentia a diferença de tratamento. A forma como a expressão do garçom se fechava quando se dirigia a ela e a relutância que ele teve em aceitar que seria ela quem pagaria a conta daquela vez. Não soube dizer se era por misoginia ou por racismo — já percebera há muito tempo que essas coisas por vezes se manifestavam de maneira entrelaçada e velada. Mas era capaz de sentir as agulhadas em seu corpo, discretas e dolorosas.
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Desespero. Você não pode contar. Não pode fazer isso.
— Sangue-ruim imunda!
Dor. Cada novo corte te deixa mais perto do limite.
Mas não pode contar, não pode.
Você nem ao menos ouve o feitiço, porém o sente em todas as suas células. Seu corpo está em chamas. Seus ossos parecem que se quebram, se curam e então se quebram novamente. Seus pulmões são comprimidos. Você não tem fôlego ou força para gritar, mas o berro em seu cérebro é atordoante.
Quando Hermione conseguiu se situar, estava sentada na cama de casal, suas roupas estavam pegajosas e o seu corpo inteiro latejava. Sua dor era quase tão real quanto seu sonho fora.
— Mione, o que foi? Você está bem? — sob a luz do abajur, Rony lançou um olhar preocupado e a envolveu em seus braços — Você gritou enquanto dormia...
Sua garganta estava seca e a sua cabeça, zonza, de modo que Hermione demorou alguns segundos para responder.
— Foi só um pesadelo...
Ronald expressou compreensão, afinal, ele mesmo já passara por isso. Deixou a esposa após um afago em seu braço e foi buscar-lhe um copo d’água. Seu marido era acolhedor à maneira dele, mas às vezes ela precisava de palavras...
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Na manhã seguinte à noite mal dormida, Hermione recebeu uma carta de Hugo. Quem sabe isso vai me deixar mais leve? Ledo engano. O seu filho mais novo reclamava sobre seu colega, Tiberius Nott, que afirmava que um dos motivos da crise na comunidade bruxa era a implantação dos Direitos Trabalhistas dos Elfos Domésticos e que estes seres deveriam continuar como estavam antes, conforme a natureza deles.
A primeira ministra se lembrou de todo o esforço que teve para levar adiante as suas ideias do F.A.L.E. quando trabalhava no Departamento de Regulação e Controle de Criaturas Mágicas. Muitos de seus colegas não a levavam a sério, sob a falsa premissa de que os elfos domésticos gostavam da vida que levavam ou de que essa era a função orgânica deles.
Entretanto, Hermione também se recordava das histórias que a sua avó materna lhe contava sobre a escravização dos povos africanos. De como sua tataravó que vivia nas Américas ficou grávida do seu “dono” e entregou a própria filha a pais adotivos para preservar-lhe o futuro. De como os escravizados eram usados como máquinas, maltratados como se fossem descartáveis e comercializados como mercadoria. De como a Igreja Católica deturpou preceitos religiosos e difundiu na população motivos — motivos! — para justificar o trabalho escravo.
E, agora, o uso da mão de obra escravizada de elfos domésticos estava em pauta numa das conversas do seu pequenino. Colocada em pauta por um garoto de linhagem puro sangue, cujo pai era um Comensal da Morte.
Por mais que fosse uma mulher forte, foi mais do que a Granger-Weasley pudesse aguentar. Ela não era indestrutível, afinal, embora se empenhasse muito para isso. Desde a revelação do grupo neopurista, já eram semanas e semanas de choques, gatilhos e pancadas invisíveis.
Hermione queria dizer que já tinha vivenciado tudo isso e que tinha superado, logo não seria tão afetada dessa vez. No entanto, ali estavam os sintomas novamente. Uma parte de si estava surpresa: aquela que conseguiu ser convencida pelos seus constantes esforços em afirmar que tudo estava bem.
Não havia como as fortes palpitações em seu peito passarem despercebidas. Era ensurdecedor. Seu corpo não havia sido projetado para suportar o turbilhão de pensamentos que preenchiam a sua mente. Ela precisava andar, fazer algo, contudo a dor latente do desespero era paralisante.
Por fim, ela sucumbiu.
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