marasquino

1 me obrigue a beber, pra eu desmaiar


Notas iniciais
isso não foi planejado. eu juro.
mas eu gostei???
p.s.: muitas tentativas frustradas de romantismo e neologismo. desculpem por isso.

vicio, phill veras, é uma boa melodia para ouvir enquanto ler.

美 (bonita) combinado com 桜: cerejeira.

mio.

um dia pensara não ser capaz de amar: ele ama.

um dia imaginara não ser capaz de entregar-se: ele, por completo.

um dia sonhara não ser capaz de desistir: nunca.

foi em uma semana primaveril que conheceu mio. dois palmos menor, roupas listradas, sorriso acanhado, não sóbria o suficiente. ele lembrou de seu rosto, mesmo que fosse um rosto comum (para um asiático). ela carregava consigo um copo de plástico branco, com as bordas manchadas de batom rosa chiclete. ela nem notou sua existência. ele também não disse “oi”.

três dias depois, no metrô, ocupando mais espaço do que deveria ocupar (tudo bem que os bancos estavam praticamentes vazios, mas ainda assim parecia errado para ele — tão educadamente correto — colocar os pés nos espaços desocupados).

enfim, mio estava lá. ele descobrira seu nome através de eric (ou felipe). desenhava em um caderninho estupidamente brilhante, ele só conseguia ver traços borrados em tinta negra sobre os papéis amarelados e finos. passou um bom tempo em pé, próximo a porta, esgueirando seu olhar para a esquerda, procurando a figura simplória que era mio. foi numa dessas espiadas que ele percebeu que ela o espiava. enrubesceu. mio sorriu (acanhada).

— adachi, né? — mio perguntou, enquanto levantava e guardava o sketchbook na mochila cromática. a moça do metrô dizia algo sobre terem chegado na estação.

— é — ele estava bem calmo.

— eu te vi na festa — ela estava bem calma.

— eu também — ambos não estavam tão calmos.

as portas se abriram.

— tenho que ir. — adachi disse. ela fez ‘okay’ com o polegar.

as portas se fecharam e o metrô levou mio para seja lá qual era seu destino.

…

(indeterminados dias/meses/anos depois): o destino de adachi foi ir a uma doceteria, na quarta à tarde, inverno. o cachecol cafona teimosamente se desvencilhava de seu pescoço. ele andava pelas ruas agitadas da capital (uma qualquer pela terra afora, uma onde asiáticos são comuns), taciturnamente.

o sino tocou quando ele entrou. cardápio. senha da wi fi. não demorou muito o moca era servido. não demorou muito a atendente pediu monotonamente o cartão dele. não demorou muito ela sorriu e disse: volte sempre. ela sorriu, acanhada. para adachi, aquela mini lembrança daquele mini sorriso durou muito tempo (talvez não tanto).

ele não se lembrava seu nome, teve que olhar para o crachá: mio.

— próximo.

adachi frequentava aquela doceteria religiosamente.

…

um dia, ela perguntou o nome dele: ela se lembrou. mais ou menos.

um dia, ele se apoiou no balcão e pediu o número dela: ela riu.

dois dias após esse dia, ela deu seu número pra ele.

— não respondo de madrugada.

— ok.

ela realmente não respondia de madrugada. ele decidiu mandar de tarde. ela demorava muito tempo respondendo e ignorava os emojis de coração dele.

mio, às vezes, era tão frívola quanto seus frozen iogurtes de morango (os quais adachi sempre pagava). adachi, várias vezes, era tão amoroso quanto seu animal de estimação (um poodle número dois, nomeado em homenagem a odin). odin não era tão amoroso quanto adachi, na verdade.

…

mio inventou de plantar tomates na varanda do apartamento dele. ela não era muito boa com plantas, logo os tomates apodreceram. ela nunca quis plantar mais nada.

odin latia para a cadela da casa ao lado que estava no cio. mio e adachi tentavam cozinhar panquecas já que eles compraram lasanha de microondas fora da validade, pela terceira vez. (na primeira foi adachi que vomitou a noite toda. na segunda, mio teve de levar odin para o pet shop). o lugar (o famigerado apartamento) era espaçoso, praticamente vazio, com móveis solitários e arranjos de natal e caixas de mudança esquecidos. adachi comprou licor de cereja para mio naquela noite, ele bamboleava a cintura ao som de yung lean e ela sabia as partes do rap de cor.

ambos sorriam abobadamente.

…

mio não tinha um clitoris. mas mio era mio. a, A, aaaaaa, A mio. e ele não se importou. (sim, foi estranho e ele foi pego de surpresa, mas estava tudo bem? estava tudo bem). mio era mio, de saia, de calça, de cabelo curto cor de amêndoas, de cabelo longo cor de amêndoas. adachi estava feliz. muito feliz. absurdamente feliz.

mas sua família absurdamente infeliz (e rica) não. mio chorou muito depois daquele jantar fatídico, em uma sexta qualquer de um mês qualquer e — bem — esquecido. adachi mandou seu irmão, seu pai e sua tia se fuder.

foi a primeira vez que adachi realmente abraçou mio (foi aquele tipo de abraço que é o abraço, carregado de significados, de pertencimento, de juras, de apego, de eternidade, de reciprocidade, de carinho… de licor de cereja, de lágrimas salinas, de eu te amos implícitos)

…

— acho que cê é meu novo personagem de videogame favorito — era mio, parcialmente alegre, parcialmente serelepe, parcialmente viciada em overwatch. estava agarrada/pendurada no pescoço de adachi, que tentava, frustradamente, aprontar o café da manhã. ele emitia ‘aham’s e ‘claro claro’s frequentemente. agora ele só era um palmo mais alto que ela. — adaaaaachi — ela cantarolava. ele não conseguiu não sorrir. — me gusta tu mais do que eu gusto de hanzo — ela não cantarolava. a torrada tava queimada. ele não conseguiu não beijá-la.

— tu não tem cura.

ela deu de ombros e foi-se embora para o tapete (mais conhecido como seu ateliê), rascunhar lugares imaginários e namorados altos demais. ela desenhava. a tinta borrou. ele não conseguiu não se sentir feliz.

…

quantos meses? muitos.

quero me descobrir.

quantos ‘bom dia’? centenas.

você também deveria fazer o mesmo.

quantas cerejas estragadas?

eu te amo.

adachi não sabia fazer nó de gravata. e se sabia, sabia muito mal. hoje era cinzenta, amanhã turquesa, depois de amanhã mostarda… nunca cor de cereja. depois de algum tempo, ele aprendeu a cuidar de tomates, a desfazer as caixas, a ver a validade de lasanhas — apesar de, então, já ser um cozinheiro em tanto. uma garrafa de marasquino pela metade sempre o encarava na calada da manhã, da noite, da tarde, da madrugada… ele aprendeu a ignorar.

adachi sabia fazer muitas coisas. e se pudesse, teria escolhido não saber fazê-las mais.

…

em um desencontro, eles se encontraram. era uma semana primaveril. mio não usava listrado nem carregava um copo de plástico, sóbria demais, amendoada sob a luz de um lustre.

ela ficava terrivelmente bem em vestidos. ele ficava ridiculamente bem em jeans e camiseta amassada.

— hm, tempão né? — ela não estava calma.

— é… — ele não estava calmo.

olho no olho, sorriso e sorriso, risada e risada acanhada. ambos estavam calmos.

ela viu o mundo. ele se viu. eles se viram, e tudo parecia ter mudado. e isso era bom.

…

— aquela garrafa…

ele emitiu um ‘hm’ enquanto deslizava o zíper do vestido.

— que que tem?

ele provavelmente trocou de perfume. ela usava o mesmo perfume.

— cê não tomou.

— tu disse pra não tomar, ué.

um novo perfume se formava.

…

e continuaram assim: as manhãs rotineiras, as noites trambiqueiras, as idas e vindas e desavindas. mio e adachi, amargamente e docemente encantados (descobrindo a si mesmos, descobrindo um ao outro), embalados em um abraço, um pé de tomate novo, odin subindo na cama, apelidos imaturos, ele dançando, ela rimando, e uma garrafa de marasquino (o licor de cereja favorito deles).

uns dias: eles amaram.

Notas finais
:3
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!