Notas iniciais
eu sei que as notas de capítulo vão parar de existir em breve, mas
OI!! Eu terminei de ler Dom Casmurro ontem, e achei necessário trazer a glória de Bentinho x Escobar aqui. Também me inspirei nas histórias de Jem Doe, que carrega o shipp aqui no Nyah! ♥
Não escrevo fanfic tem muito tempo, normalmente eu posto originais. Vamos ver o que rola!

As manhãs no seminário eram todas as mesmas, quietas e monótonas. Sentavam-se à mesa os seminaristas e faziam suas orações antes de comer, todos os dias, do mesmo jeito, sempre. Café preto e pão quente.

Bentinho, toda manhã, e deus o perdoasse, divagava — pensava na casa de Mata-Cavalos, na mãe sem o filho único, em José Dias e seus superlativos, na família e em Capitu. Sempre, sempre pensava em Capitu em suas orações matinais. Mas, quando abria os olhos, não havia nada. Nem casa, nem mãe, muito menos Capitu e seus olhos de ressaca. Era só o seminário, a mesa de madeira escura, os padres e rapazes.

Dentre os rapazes, Escobar.

Com o passar das semanas, entretanto, passou a se acostumar com a visão dos olhos claros de Escobar, e seu jeito fugitivo. Ele dividia a ternura de seu olhar antes de desviá-lo, e partiam o pão no confortável e sonolento silêncio que vinha com o nascer do sol, sentados de frente um para o outro.

Dia após dia, após suas orações, era Escobar que lhe enchia a visão. Por vezes, havia deixado a doçura de seu olhar atravessar a maresia do início da manhã, e conversavam sobre qualquer coisa. Sobre livros, sobre filosofia e deus e cânticos e professores e tudo e nada, no arrastar do desjejum.

Dividiam o pão.

Sorriam, na pequena santa ceia de dois.

Todas as mesmas manhãs, todas iguais.

Mas Bentinho notou, por acidente, que menos pensava no olhar da amiga. E, sol após sol, eram nos olhos de Ezequiel que ele pensava mais. Inconscientemente buscava simbologias para explicá-los, mas não sabia se conseguia. Se os de Capitu eram a força das ondas, arrastando areia, consumindo o litoral e se chocando nas rochas da praia, que seriam os de seu amigo?

Seriam lagos? Tão reservados, calmos, mas profundos? Seriam rios, correndo, fugindo, descendo de montante a jusante, se distanciando ao seu próprio ritmo? Não sabia, mas se via pensando mais e mais à respeito, e não tinha certeza se devia se preocupar.

Se rios fossem, o único caminho era montanha abaixo. Dos olhos, ele foi se perdendo no resto de seus traços. Vez ou outra abria um dos olhos enquanto deveria rezar, mas era a face de Escobar sua nova religião — mas não ousaria pensar algo assim. Se atentava ao nariz, maxilar destacado, o queixo, as orelhas, os fios de cabelo escuro que ainda tocavam seu rosto, apesar dele penteá-los para longe.

Os lábios.

Prestou tamanha atenção neles que se sentiu culpado.

Fechou os olhos e rezou um pouco mais, prometendo mais ave-marias que nunca pagaria, provavelmente.

Mas estava tudo igual, e esse era seu mantra. E as manhã eram todas iguais. E eles dividiam o pão igual, e sorriam um para o outro igual. E quando Escobar lhe dizia o quanto o apreciava, dentre todas aquelas pessoas, era igual. (Igual a quê? De quem mais ouviria algo assim, que não sua mãe, ou dos exageros do agregado? Nem Capitu lhe disse algo parecido, apesar da promessa que trocaram, e ele tentava não pensar).

Quando os dedos tocavam os dele por acaso, sobre a mesa e na premissa de pegar pão, ele não tinha certeza se era o mesmo de antes. Talvez Escobar também não fosse. E se arriscava a olhá-lo nos olhos e concluía: José Dias falava a verdade. Que olhos dulcíssimos tinha ele!

E, ainda que arredios, às vezes tinha certeza que aqueles olhos conseguiam ver através de Bentinho.

— As manhãs são tão quietas aqui, não são, meu amigo? — lhe sorriu Escobar, os pés próximos aos dele debaixo da mesa.

Não fez nada além de concordar.

Que tinha contra o sorriso decorando lábios tão bonitos?

Contra olhos de lagos profundos e rios perenes?

Era só mais uma manhã como todas as outras — calma, frente à presença do rapaz.

Notas finais
espero que tenham gostado ♥
explicitem suas teorias sobre dom casmurro
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!