mamãe, o que é divórcio?
1 uma mulher cansada
Notas iniciais
cuidem-se, fiquem em casa, se possível. lavem bem as mãos.
boa leitura.
Aquele dia tinha sido mais longo do que Sakura esperava. Tsunade, médica diretora do Hospital-Geral de Konoha, estava de férias e a Uchiha estava a substituindo no cargo e, aparentemente, o caos havia se instaurado no nosocômio.
Um surto de virose lotou a sala de espera da emergência do hospital e uma internação compulsória de um homem com esquizofrenia paranóide em surto terminou com um enfermeiro de olho roxo e uma janela estilhaçada no setor da saúde mental, sem falar na gestante que os residentes não atenderam a tempo e acabaram realizando o trabalho de parto no corredor.
Sim, Sakura estava exausta e o hospital estava de pernas para o ar. Parecia provocação do destino colocá-la em tamanha saia-justa quando sabia que Tsunade a estava testando para indicá-la ao cargo de diretora do hospital quando se aposentasse.
A vontade que sentia era de se encolher em posição fetal no canto mais escuro de seu consultório e fingir que a sua existência era uma ilusão, porém precisava buscar Sarada na escolinha.
Largou o jaleco de qualquer jeito sobre a cadeira de escritório e encaixou a bolsa debaixo do braço. Os relatórios da traumatologia ficariam para amanhã e Sakura estava convicta que nenhum argumento de Shizune a faria mudar de ideia (mas, para garantir, evitaria passar nos setores que Shizune tinha por hábito vigiar).
Quando chegou no estacionamento e entrou no SUV, após higienizar as mãos com álcool em gel, permitiu-se parar por alguns segundos, escondendo a cabeça entre os braços apoiados no volante, e derramar algumas lágrimas de frustração. Ninguém precisava presenciar seu momento de fraqueza e tampouco Sakura precisava de qualquer consolo. Era uma mulher adulta e dona de si, bem como não era do tipo de dar satisfação.
Buscou o pacote de lenços que mantinha na bolsa e secou os olhos, assoando o nariz. Checou o reflexo no espelho retrovisor e buscou um corretivo líquido na bolsa para disfarçar a vermelhidão ao redor dos olhos e nariz.
Ligou para a residência de seus sogros e avisou que buscaria a filha na escola, ouvindo o disfarçado tom de julgamento de sua sogra do outro lado da linha, a qual discursava sobre como Sarada ficaria muito feliz que a sua mãe a buscasse na escola.
Sintonizou na mesma rádio de sempre, que tocava as músicas que mais gostava, e apreciou como o movimento na avenida principal estava calmo. Chegar na escola de Sarada não levou mais do que quinze minutos, o que lhe daria oportunidade de fazer compras no supermercado antes do horário de maior movimentação — hipótese que classificou como uma vitória pessoal naquele dia miserável.
Estacionou na frente da escolinha e interfonou, aguardando que a recepcionista autorizasse sua entrada. A nova professora de Sarada, Jesse, era uma jovem holandesa sorridente e simpática, de rosto fino e nariz pequeno, de sotaque forte e mãos extraordinariamente habilidosas. Sakura afeiçoou-se com a moça logo de cara, quando apresentou-se aos pais e presenteou a todos com biscoitos — que Sakura comeu com café no plantão logo mais tarde naquele mesmo dia e precisou pedir a receita à garota.
Jesse se mostrou contente com a sua chegada e disparou a atualizar Sakura sobre as peripécias da sua pequena criança de cabelos escuros. Sarada ainda não tinha visto a mãe, visto a sua empolgação em colorir um desenho de girassol de lápis azul celeste.
— Ela está progredindo muito, sabe? Estávamos até cogitando adiantá-la para a turma seguinte, mas consideramos que talvez ela pudesse se sentir deslocada, ainda mais sendo metade do ano letivo…
— É, ela sempre fala sobre os coleguinhas, acho que não será muito proveitoso, ela sentiria muito a falta deles — Sakura ponderou e quando Sarada ouviu a voz da genitora, ergueu a cabecinha, balançando os cabelinhos negros e lisos, com um sorriso que, por pouco, não atingiu as orelhas. Abandonou o desenho multicolorido e exclamava “mamãe” a cada passo que dava na direção desta até agarrar as pernas de Sakura. — Oi meu amor — a mulher acariciou seus cabelos e voltou a atenção à professora. — E eu queria saber, ela tem perguntado muito por Sasuke? Ele viajou de novo e ela parecia bem chateada nesses últimos dias.
Jesse pareceu inibida com a pergunta, enfiando as mãos nos bolsos traseiros da calça jeans.
— No início do mês, no horário da saída, sim, ela perguntava muito pelo pai e chorava bastante quando seu sogro vinha buscá-la. Mas, nos últimos dias, tem estado mais calma e mais receptiva, acho que ficou mais triste porque estava já tinha acostumado com o pai vindo buscá-la.
— É, deve ser… — Sakura pediu a Sarada buscasse sua mochila e lancheira. — Não quero tomar mais seu tempo Jesse. Ainda preciso ir ao mercado e dar um banho nessa artista — agachou para ficar na altura da filha, pegando seus pertences e brincando com as mãozinhas pintadas de canetinhas hidrocor.
— Que isso, Sakura. A senhora sabe que estamos a disposição.
Sakura ainda precisou esperar Sarada se despedir dos coleguinhas e do prédio da escola, acenando e mandando beijos a todos, antes que pudesse encaixar a pequena na cadeirinha no banco de trás do carro, afivelar os cintos de segurança e higienizar as mãos desta com álcool gel.
— O que você vai querer ouvir hoje? Disney?
— Sim! — Sarada exclamou e Sakura agradeceu. Estava saturada das demais músicas infantis e as playlists de músicas da Disney no Spotify estavam salvando seu bom humor matinal. Qualquer Let It Go que fosse era muito mais agradável sonoramente que aquele maldito Baby Shark.
Sarada agitava as mãozinhas e admirava a paisagem pela janela. Era primavera e Sarada anunciava em voz alta as cores das flores. Desde que Sasuke percebeu o quanto a criança apreciava a natureza, o casal sempre optava pelo caminho mais longo de volta para casa, pois atravessavam a avenida mais arborizada da cidade.
Sakura estava estranhando o silêncio da menina. Sarada estava prestes a completar quatro anos de idade e suas perguntas eram incontáveis e insanáveis. Havia começado de forma simples, perguntando sobre as razões pelas quais chovia, passando pela famosa “porque o céu é azul” e chegando ao ápice, perguntando o que torna seu pai, homem, e sua mãe, mulher. Sasuke se viu enrascado quando Sarada o perguntou sobre isso, Sakura ainda ria sozinha da lembrança.
Parou num semáforo vermelho e checou rapidamente uma mensagem que Shizune enviou no whatsapp, mas não era caso de vida ou morte, dispensando a notificação, então, estava emocionalmente despreparada para a pergunta de Sarada:
— Mamãe, o que é divórcio?
Foi necessário uma buzina do carro de trás para que Sakura retomasse os sentidos, pisando no acelerador do carro automático de forma brusca.
— Sarada, onde você ouviu isso, meu bem? — tentou restabelecer a aparente tranquilidade.
— Ouvi a “pofessora” falar sobre a tia Ino e o tio Sai, que eles ‘tavam se divo… Divo… “Divociando” — a palavra embolou a língua da criança, mas Sakura se viu mais atrapalhada que Sarada.
A mulher sinalizou com o pisca que adentraria no mercado e prendeu o ticket do estacionamento entre os lábios enquanto procurava uma vaga para estacionar o carro.
Desligou o motor e abaixou o volume da música do filme de Moana, sobre o olhar inquiridor da própria filha.
Sakura sabia muito bem sobre o que a professora falava.
Ino era sua amiga de faculdade e colega de trabalho, uma excelente infectologista e era casada com Sai desde o final da faculdade. Todas as amigas da época a aconselhavam sobre ser algo precipitado, porém quando Ino coloca uma ideia na cabeça, não há argumentos suficientes para convencê-la do contrário.
A possibilidade do divórcio veio ao conhecimento de Sakura há alguns meses atrás, quando a ideia apenas pairava nos pensamentos de Ino em confidências trocadas no vestiário num final de um plantão exaustivo.
O casamento estava desgastado e Sai parecia completamente desinteressado na relação. Ino não sabia se era em razão da dificuldade que o artista enfrentava na sua galeria de arte ou em decorrência do câncer que a mãe dele enfrentava, mas, foi só mais tarde que a mulher entendeu: Sai estava tendo um caso. Com outro artista plástico.
Sakura havia participado mais da história dos dois do que gostaria, entretanto, o que poderia fazer quando Ino apareceu em sua porta, na hora do jantar, com Inojin em seu colo, seu filho de quatro anos, implorando que a sedasse antes que cometesse uma loucura. Sasuke, sempre impassível e que, por sorte, estava em casa, precisou ser impelido a levar as crianças para o quarto de brinquedos enquanto Sakura tentava apaziguar a dor de Ino. Mas o que poderia fazer para amenizar o sofrimento de uma mulher ferida emocionalmente?
O pedido de divórcio veio logo depois e as más línguas foram ainda mais ágeis, espalhando pelos corredores e quatro ventos que Ino era corna e que Sai era gay. Tsunade precisou conceder uma licença-saúde para Ino antes que tudo terminasse em um inquérito policial.
Sakura se remexeu desconfortavelmente no banco do motorista, pensando nas palavras certas para explicar para uma criança de quase quatro anos o que era um divórcio. Sabia que não podia tolher a curiosidade da filha, porém a dúvida era atípica para a tenra idade.
— Sabe, filha, quando duas pessoas se amam muito e querem ficar juntas, elas se casam e… — iniciou.
— O que é isso?
— Ahn, casamento é uma festa… Em que as essas duas pessoas anunciam para todo mundo que escolherem ficar juntas e que vão ser uma família.
— Como você e o papai? — Sarada tinha os malditos olhos de Sasuke, escuros e profundos.
— É, isso mesmo. Mas, às vezes, acontece que essas mesmas pessoas podem deixar de se gostar e resolverem não ficar mais juntas. E o divórcio serve ‘pra isso, ‘pra separar essas pessoas.
Sarada pareceu absorver as informações que lhe foram apresentadas, crispando as sobrancelhas ralas e desviando os olhos para a janela, e, por um segundo, Sakura se considerou segura, o que foi um tolo engano:
— E você e o papai vão se “divocia” também?
A resposta ficou pendurada na ponta da língua da mulher. Seria um tanto dissimulada se não admitisse que a ideia nunca lhe passou pela cabeça. O seu conceito de “casamento perfeito” estava muito distante do que vivenciava hoje em seu matrimônio com Sasuke.
No começo, era inegável que tudo estava indo bem. Sasuke é paleontólogo, o que significava que Sakura era responsável pelas contas da casa, mas isso nunca se mostrou um empecilho.
Quando engravidou pela primeira vez e teve um aborto espontâneo, Sasuke se manteve ainda mais leal e gentil, o que solidificou demasiadamente o amor que Sakura sentia por ele.
Logo após, quando Sarada nasceu, tudo pareceu entrar nos eixos. Sasuke foi chamado para lecionar na universidade federal da cidade e a família não podia estar mais feliz com aquela rotina. Iam ao parque nos sábados e aos domingos, almoçavam junto de seus sogros ou com seus pais.
Mas, há um ano — Sakura ainda lembrava com exatidão do decorrer dos fatos daquele dia: o plantão tinha sido desolador, uma adolescente foi internada após um acidente automobilístico em que o restante de sua família havia morrido —, quando chegou em casa, Sasuke estava com uma garrafa de champagne aberta para comemorar o que seria o “impulso na sua carreira”: tinha sido convidado a participar de uma expedição científica no Reino Unido. E o pior de tudo, ele tinha aceitado, sem ao menos questionar a esposa sobre tudo aquilo. Não considerá-la na ocasião de uma decisão tão importante para a família a consternou intensamente, como se a opinião dela não valesse nem ao menos o seu tempo.
Na época, Sakura engoliu em seco sua tristeza e seu sentimento de insignificância e insídia e brindou a conquista do marido a falsos sorrisos, sem jamais revelar a profundidade do ressentimento que Sasuke causou em seu âmago.
E, desde lá, desde quando Sasuke partiu para outro país, deixando-a sozinha com uma criança de dois anos, tudo que Sakura fazia era abdicar. Precisava estar sempre disponível para Sarada e para os conselhos desnecessários de sua mãe e de sua sogra. Havia abandonado o pilates e seu ciático estava sempre implorando por um anti-inflamatório. O happy hour mensal da equipe da traumatologia, só entrava nos planos quando a babá estava livre. O livro sobre traumatologia infantil, que tinha começado a escrever três anos atrás sem que Sasuke soubesse, não via um parágrafo novo desde suas férias do ano passado. Seu único prazer era uma taça de vinho acompanhada de uma masturbação seca e rápida escondida no quarto de casal antes que Sarada surgisse na porta com medo de algum pesadelo.
Por mais que tentasse ver a situação de forma mais positiva, considerando-se egoísta por desejar um apoio, estava farta de bancar a altruísta. Estava inegavelmente cansada de se deixar de lado, de adiar seus planos, de estar sozinha e carente no meio da noite.
Via seu esposo a cada seis longos meses durante três semanas e precisava se contentar com todas as histórias empolgadas de Sasuke sobre aqueles estúpidos fósseis. Sabia o quanto a carreira de Sasuke era importante, mas a sua própria também era. E tudo que fez, sempre visou ao salutar bem-estar da família, acima de tudo. Compreendia como era mesquinho desejar que seu marido voltasse para casa e esquecesse essa expedição idiota, contudo, não podia deixar de fazê-lo.
E, não podia negar, a ideia de se divorciar, de desistir daquela relação, passeava por seus pensamentos, principalmente nas noites em que não conseguia dormir. Chorava por não se sentir apta a sustentar aquela vida sozinha, sentia-se uma traidora por permitir que aquele sentimento tomasse conta de si.
Amava Sasuke. Amava-o profundamente. Mas estava exaurida. Nos dias ruins, temia por seu casamento. Nos piores dias, pensava em quanto tempo mais levaria até que terminassem como uma fofoca maldosa nos corredores do hospital.
Não podia bancar a adolescente e acreditar que o amor incondicional os manteria juntos para sempre, pois não viviam a porra de um conto de fadas.
— Não filha. Mamãe e papai ainda se amam — abriu a porta do motorista e secou uma lágrima disfarçadamente.
Ajudou Sarada a sair do carro e deram as mãos. Sakura deixou a menina escolher o carrinho de mercado que simulava um carro e fingiam barulhos de motor e buzina nos corredores do supermercado, assim como permitiu que Sarada escolhesse uma guloseima das gôndolas ao redor do caixa enquanto aguardavam na fila.
Enquanto houvesse amor de sua parte, Sakura sustentaria aquele casamento como Atlas, o titã da mitologia grega fadado a suportar o peso dos céus por toda a eternidade.
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