Mais raso é meu coração

Henrique nunca iria entender o Igor.

Nunca mesmo.

Ele sempre via o ruivo como alguém perdido no meio das suas sextas-feiras, sem conseguir elaborar bem uma hipótese de porque raios Igor estava lá.

Estava ali, todo final de semana.

Não que se questionasse muito sobre isso; não, não mesmo. Aquilo era apenas algo que surgia em sua confusa mente nos momentos em que estava bêbado, chapado, olhando o teto girar às cinco e meia da manhã, quando chegava em casa. Quando estava muito cansado para ficar acordado, porém muito tonto para conseguir fechar os olhos, a bateria do seu celular zerada. E então, forçado a pensar em alguma coisa, Igor e suas estranhezas apareciam de vez em quando.

Confessava: Igor era mais do que recorrente em seu leque extenso de pensamentos cotidianos. Difícil era não relembrar daqueles cabelos claros, macios demais para um cara que dizia não se cuidar. Daqueles lábios rosados, grossos, e das sardas pintando o nariz arrebitado. Henrique tinha o melhor beijo que já provara em toda a vida, e uma transa particularmente excepcional.

“Por que é que você faz todas essas coisas?” Henrique perguntou no dia seguinte, estragando sua reflexão de possíveis madrugadas de insônia condicional que viriam pela frente.

“Por motivos completamente contrários aos seus” ele respondeu quase de imediato.

Henrique emburrou a cara, puto. Pensou em responder que o outro não fazia ideia de quais eram os seus motivos, então não teria como dizer aquela afirmativa com tanta certeza. Depois, percebeu que sequer ele mesmo sabia quais eram os seus motivos.

E pensar que realmente cogitou nunca mais ponderar sobre aquele assunto de novo.

E então, Igor nunca mais saiu da sua cabeça. Ele, seus motivos, suas frases sem pé nem cabeça. Coincidentemente (ou não), passaram a se ver mais depois daquilo. Henrique gastava horas imaginando coisas que possivelmente só aconteciam dentro da sua cabeça. Passou a se questionar, sóbrio, porque é que Igor insistia em viver aquele estilo de vida tão raso.

Porque ele sabia bem que era raso. Fútil, pouco. Henrique e tudo o que lhe acompanhavam era criticado pelas grandes mídias e textos cult feito por pessoas teoricamente muito bem fundamentadas, em redes sociais encharcadas de pessoas. Viva mais, eles diziam. Seja você mesmo, sem se incomodar com que os outros dizem. Faça tudo como quiser, já que a vida de dinheiro, sexo, viagens e bebidas caras só traz felicidade no Instagram. De resto, todo mundo é gente como a gente. Curtidas, seguidores e roupas de marca não vão lhe trazer felicidade nenhuma.

Poderiam falar o que fosse, mas Henrique gostava demais da vida que levava. Todos os fins de semana cheios de baladas repetidas, ostentação desnecessária e cigarros fortes lhe davam uma alegria inexplicável. Ele gostava daquele mundo baseado apenas na manutenção do ciclo social, das inúmeras drogas e do obrigação de manter isso tudo exposto na internet.

Só não entendia porque raios Igor também fazia cada uma dessas coisas.

Okay, convenhamos: talvez não todas essas coisas. Henrique era consideravelmente rico; já Igor, nem tanto. Claro que, dentre esse vai e vem de classes médias, algum motivo tinha para os dois fazerem o que tanto fazia.

“Deixe-me adivinhar, Igor” Henrique murmurou, já um tanto quanto bêbado “você está perdidamente apaixonado por mim.”

“Isso ainda é sobre aquela pergunta?” Igor retrucou, quase impaciente. Falar sobre sua vida boêmia não era o seu tema preferido. Quanto menos Henrique o perturbasse sobre o assunto, melhor seria.

“Não deixa de ser uma pergunta merecedora uma boa resposta” concluiu. Olhou firme para o rosto branquelo, esperando.

Henrique odiava esperar.

“Claro que estou perdidamente apaixonado por você” Igor respondeu em um suspiro. “Agora volta pra cama, que está frio aí fora”

Não completamente satisfeito, Henrique desistiu de acender o cigarro e saiu da varanda, fechando a porta de vidro atrás de si. O quarto, realmente, estava bem quentinho. Ainda estava curioso. Teve receio, por alguns instantes, de que Igor só o aguentasse por viverem aquela mesma loucura todos os dias. Que se não fosse pela esbórnia e pela bebida, poucas seriam as vezes que dormiriam juntos daquele modo.

Aquelas preocupações não o deixavam em paz. Sentia-se incomodado de não ter todas as respostas que gostaria, todavia, voltou para debaixo das cobertas.

Tentou não pensar mais em nada daquilo.

Independente do motivo, suas coisas, uma vez que se tornavam suas, deveriam permanecer em sua posse por todo o tempo do mundo – e às vezes, até mais do que isso.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.