love in the fall
9 Day 09 – following the "stars" and a song
Notas iniciais
Agora que entrara na reta final de sua gestação, Severus fora de vez removido de suas funções como professor de poções e suas delegações como chefe de casa foram repassadas a outros representantes de Slytherin, enquanto isso passava seus dias sozinhos com Fluffy, Karl e Petra. De início decidiu ler alguns livros, mas cansou-se imediadamente, terminara-os rapidamente, pois aprendera desde cedo o método da leitura dinâmica, um grande adendo valioso quando precisava devorar livros e livros, de grandes tomos com lombadas gigantescas e necessários a seus serviços. Então idealizou organizar a casa, mas declinou quando suas costas reclamaram do labor excessivo, não era mais jovem e o peso a mais que seu bebê lhe trazia além de sua nova silhueta não ajudavam em nada a tarefa.
Pensou em sair para comprar o que restava para o quarto do bebê e outras coisas, mas a presença de suas acompanhantes, Hermione Granger e Luna Scamander não lhe fizeram nada feliz. A senhorita Granger que optara por não adotar o nome de seu marido, seguindo seus ideais progressistas, ou como ela mesmo chamava, feministas, não ficou nada feliz com os votos bruxos nem muito menos os muggles e decidira casar-se baixo intermédio de um juiz de paz, que uniu o matrimônio Granger-Weasley de uma forma nada convencional, mas deveras apaixonada. Tanto quanto a animação de Granger em comprar cada coisinha rosa que podia encontrar, o que lhe fazia pensar na contradição que era a garota, ou melhor dizendo, mulher. Enquanto isso a senhorita Scamander, atualmente planejando também ter filhos, amenizava as ações eufóricas da amiga, mas deixava-o abrumado pelas falas avoadas, que lhe faziam parecer uma cópia menos dramática de Trelawey. Mesmo assim, as frases que dizia lhe arrepiavam a alma, o fazendo desejar esquecer aquilo tudo e voltar rapidamente a casa. O que fizera de pronto, após um grito extremamente fino que fez com que seus ouvidos doessem, e tudo porque Granger encontrara um maldito carrinho de bebê que até mesmo lhe encantara, mas que a fizera estar mais feliz do que o próprio gestante. Frustrado, cansado e irritado, Severus pôs fim as compras e foi-se para casa, deixando as duas bruxas com cara de paisagem após declinar o auto-convite que elas fizeram para adentrar e lhe acompanhar num chá da tarde, que ele mesmo não queria beber.
Jogando-se sobre sua cadeira preferida, puxou o apoio para os pés e reclinou-se afagando o ventre crescido, sentindo seu bebê mexendo baixo suas mãos, suspirou então cansado de tudo. Seus pés doíam, suas pernas estavam inchadas, seu humor estava uma montanha-russa das piores e esse tédio era uma das coisas que mais lhe consumiam. Suspirou outra vez, sentindo um chute, ao que parecia sua criança pensava o mesmo, foi então que seu estômago roncou.
— Creio que essa é a deixa para fazemos algo para comer. O que você acha? — Outro chute se seguiu, que levou a um sorriso por parte de Severus que levantou-se decidido a seguir até a cozinha, mas ao passar pela entrada a biblioteca, notou algo estranho ali. Um livro fora lugar, que não deveria estar ali, pois ele conhecia cada um dos títulos e sabia que aquele não estava ali antes de sair para as compras com a dupla furacão. Aproximou-se do encadernado e com muito custo conseguiu recolher-lo do chão. Seguindo até a cadeira de leitura que tinha ali e sentou-se para poder ler o que estivesse ali. Era um tomo de capa dura, com couro negro e letras apagadas, discerniu as letras HJP e sorriu. Deveria ser algum diário esquecido de Harry, seu marido era um adepto a escrita o que poucos sabiam.
Tocou com carinho a capa, imaginado se seria errado folhear suas páginas e descobrir os segredos de seu amado, mas um novo ronco de seu estômago interrompeu sua linha de pensamentos. Cansado demais para levantar-se e novamente voltar a se sentar, chamou Fluffy pedindo-lhe um pequeno almoço, o que prontamente foi atendido, pois minutos depois o pequeno elfo deixou ao seu lado algumas fatias de bife Wellington, junto de um copo grande de suco de abóbora, algumas rosquinhas e broas de coco com leite condensado, que eram a sua perdição. Agradeceu e com um pedido de licença e um pop Fluffy se foi, deixando-o sozinho. Respirou fundo e pôs a comer alguns pedaços usando um garfo de bolo¹, e agradecendo que a carne estivesse tão macia ao ponto de poder cortá-la com aquele engraçado talher.
Após algumas bocadas e um grande gole do suco, pôs-se a ler um pouco das páginas, pensando que Harry talvez houvesse o folheado quando fora a casa antes de sua saída com as meninas. Sorriu, pensando que ele deveria tê-lo o escondido com muita pressa e pouco cuidado, quando entrara no local para o beijar em uma amorosa despedida. Haviam almoçado juntos, algo bonito que faziam nesse novo arranjo que tinham, com horários tão distantes uns aos outros. Uma forma de estarem próximos, nos poucos minutos que podiam. Sorrindo novamente foi olhando as notas ali escritas. Alguns pedaços de tinta estavam manchados de lágrimas, ele sabia que essas partes eram muito pessoais, mais profundas do que outras que havia lido e decidiu não parar-se ali. Certas coisas não podiam ser invadidas, e mesmo que estivesse lendo o diário secreto de seu esposo, não seria certo aprofundar-se em algumas partes. Decidiu seguir pelas páginas, foi quando encontrou algo escrito com minucia, letras muito bem organizadas. Severus sentiu que o esmero de Harry depositara ali, então decidiu ler o que estava escrito. Seus olhos não podiam crer que no que via.
Eu não sei quanto tempo mais vou poder aguentar isso. Eu sabia que existia algo de errado comigo quando passei a notar com mais afinco a figura de Malfoy, mas a verdade me pegou em cheio quando vi Dean e Seamus se beijando atrás do campo de Quidditch, após termos ganhado uma partida contra Slytherin. Eu fiquei excitado vendo-os ali, mas também fiquei com medo. Eu não posso ser gay, eu nem mesmo sei se sou gay. Eu gosto de Ginny, eu beijei Cho, até mesmo senti algo pela Luna, mas nunca foram momentos que me fizeram felizes, era como estar beijando e tocando, mas sem vontade. Só que ali vendo aqueles dois, eu me senti animado. Só que ao invés de estar contente por essa descoberta eu estou mortificado. Não posso falar com Ron, tenho certeza que ele não irá entender isso, nem posso falar com Hermione. Eu vou remoer isso até conseguir respostas, mas até lá eu preciso parar de pensar nele. Mas fica difícil, Snape não me deixa pensar, esteja eu acordado ou dormindo. A voz dele me deixa arrepiado, eu sinto uma eletricidade correndo por todo meu corpo, eu fico excitado. E quando ele se aproxima de mim, eu sinto que não vou aguentar. Minhas notas tem decaído, eu estou parecendo um primeiranista, de tão relapso que estou, mas é impossível se concentrar estando perto dele, poções já eram difíceis, mas com esse a mais me sinto perdido. Por isso estou escrevendo aqui nessas horas altas da madrugada, tive um sonho com ele, diferente de tudo que tive. Acho que foi culpa de ter comido tanto no jantar², bem que Hermione me avisou sobre isso, mas não lhe dei ouvidos. Voltando ao que importa, eu sonhei que estava em um navio, eu era um pirata, que usava as estrelas como guia, um mapa para me levar até um tesouro, só não sabia qual.
Nesse momento, Severus parou um pouco a leitura, fechou o diário, tomando um pouco de ar e notando só então que Karl e Petra haviam entrado e estavam agora deitados, com seus pés sobre eles, como se fosse almofadas. Cães e suas excentricidades quanto a seus donos, era algo que Severus nunca conseguiu entender. Suspirou um pouco, e bebendo mais de seu suco além de forrar novamente o estômago, retornou por fim a leitura, diminuindo antes disso, o peso que estivera mantendo em seus pés. Seus cães poderiam até gostar de serem usados como almofadas, mas ele não estava confortável com isso, não de um todo. Sabia que ambos gostavam da posição, mas preocupava-se pela saúde dos animais. Por fim, após mudar a disposição de seus pés para que ficassem cada um debaixo de seus corpos retomou por fim a leitura.
Sirius era meu imediato, um pouco torpe, mas era bom no que fazia. Ginny, Fred e George eram meus leais, responsáveis por atacar e se infiltrar. Tinham como ajudantes Ron, Dean e Seamus. Enquanto que Neville, Hermione e Luna eram os médicos e cozinheiros do meu navio, o Golden Snitch que sempre estava ali procurando um caminho a seguir. Eu confesso que fiquei chocado com o que sonhei, mas imagino que seja talvez meu desejo por liberdade, por querer ser dono de meu destino, meu caminho, ou ao menos poder escolher o que fazer sem que alguém o faça por mim. Mas voltando ao sonho, estávamos seguindo para o norte, eu sentia que deveria ir de encontro as luzes da aurora e da estrela que decidira essa noite me guiar, foi quando notei algumas formações rochosas surgirem a nossa frente e uma melodiosa canção pude ouvir. Alguém cantarolava, uma música que transmitia dor e amor, algo difícil de explicar, mas bonito e sensível de se ouvir. Eu fiquei tentado a descobrir o que era, foi quando achei Severus, transformado em um belo tritão, com seus longos cabelos soltos e revoltosos, a pele pálida coberta de um brilho púrpura, resultado da fina camada de escamas que cobria seu corpo. Olhei-o por um todo e me senti fascinado com sua beleza, longas orelhas que pareciam nadadeiras de peixe, assim como a causa, também em tons roxo púrpura, e violeta, com algumas partes rosa fuscia, que me deixaram apaixonado. Ele cantava, de olhos fechados, com uma voz que eu jamais imaginei ouvir, seu colar mágico descendia do pescoço até a metade do seu peito, brilhando fortemente conforme a intensidade de sua voz aumentava. Eu estava sem palavras, queria tocá-lo, mas meu esconderijo sobre as pedras só me deixava observar de longe. Tinha medo, pois os mitos das sereias diziam que se alimentavam de homens desavisados que seguiam para os braços da morte, iludidos por seu encanto musical. Mesmo assim, mesmo temendo poder ser vítima de uma possível fúria de sua espécie me estiquei, saindo de meu esconderijo-
Mas Severus não pode mais continuar a ler, pois o diário fora tomado de suas mãos, seguindo em disparada para as de Harry, que olhava-o triste e envergonhado. Severus lhe sorriu, imaginando as coisas que poderiam estar passando pela mente de seu esposo. Chamou a Harry, pedindo-o para sentar-se consigo, o que prontamente ele fez, deixando seu corpo recair sobre o braço da cadeira, tendo a cintura envolvida pelos braços de Severus, que recebeu um beijo sobre os cabelos.
— Sinto falta de poder te por no colo, é estranho não poder te segurar como fazia antes.
— O motivo que o impede para isso me faz feliz Severus, seremos pai.
— Já somos Harry, nosso bebê pode ainda não ter nascido, mas já somos seus pais. Então eu estava lendo algo muito interessante nesse diário aqui — ditou indicando o livro nas mãos de Harry que afundou mais ainda em sua vergonha.
— Qual delas? — Perguntou temeroso da resposta.
— Há mais? — Harry acenou em assentimento — eu imaginava que teria, posso vê-las depois? Eu sei que foi errado ter lido ele sem pedir permissão.
— Eu não me importo Severus, não que fosse um segredo que tenho alguns diários, é só que eu sinto vergonha, eu não sei como você reagiria sobre o que eu escrevi aqui.
— Estou lisonjeado de saber que seu primeiro grande affair foi a minha pessoa, mas me ponho ciumento ao saber que esteve imaginando a Draco. Imagino que para um jovem em descoberta a beleza dos Malfoy seja interessante, mas me encanta e orgulho-me que seja eu quem você tenha escolhido — respondeu-lhe antes de se beijarem. Harry então olhou para si, feliz por não ter sido julgado.
— Então, qual delas você estava lendo?
— Um muito encantador relato sobre como sou bonito sendo um tritão e que você estava apaixonado por meu canto e escamas. Mas uma coisa me preocupou, você não deveria pensar que era errado sentir algo por mim ou por qualquer outro homem. Até entendo que por ter sido seu professor é algo pesado, mas não errado. Muitos jovens tem quedinhas em figuras mais velhas, é um processo natural de amadurecimento. Imagino que você deva ter se preocupado demais com isso, mas vindo de uma criação muggle que possui enormes preconceitos eu entendo o que você possa ter imaginado. Mas saiba Harry, amar alguém de forma pura e verdadeira não é errado, seja homem ou mulher, o amor é lindo. Você me ouviu?
— Eu tive meus medos Severus, mas tudo isso é passado — ditou antes de beijar-lhe — agora estou muito seguro de ter escolhido certo, não me importa mais ninguém além de vocês dois e nossos futuros filhos.
— Futuros filhos? Eu te amo, mas se quisermos termos outros bebês, recomendo que se prepare para gestar. O quê? Você acha mesmo que eu vou conseguir passar por outra gestação? Harry eu te amo muito, mas ter um bebê não é fácil estando na minha idade e condições. Mas sempre podemos conversar se você me contar o final daquela história sobre sereias e piratas.
— Eu acho isso uma excelente ideia, mas só se você cantar antes para mim — então beijaram-se novamente, dessa vez deixando o diário cair ao chão, abrindo-se numa página onde havia um desenho colado, e muito bem traçado de Harry com pirata olhando Severus a cantar, enquanto tritão.

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