Eu desço em pinheiros, esperando que a multidão de pessoas subindo às escadas escondam o meu rosto triste encharcado de lágrimas. Ele desceu na consolação.

Consolação. Eu preciso de um pouco disso agora.

Nunca me considerei uma pessoa muito corajosa, mas neste momento tenho certeza de que sou mais valente que aquela princesa ruiva da Disney. Eu fiz a coisa mais difícil que eu poderia fazer.

Eu terminei com ele.

E eu já estou arrependido, é claro, mas ao menos, eu tive a braveza de fazer. Mesmo que eu queira voltar. Mesmo que eu queira pular dentro daquele metrô novamente e perseguir ele até o final de São Paulo e dizer que foi uma pegadinha, que eu sou brincalhão, que eu estou bêbado e que eu amo ele e não posso viver sem ele nunca, e então, pedir ele em casamento ali na frente das catracas mesmo.

Isso seria lindo.

E eu sei que iria me arrepender disso também.

Tomar a decisão correta não é tão fácil quando a decisão correta é pedir que a pessoa mais linda do mundo saía da sua vida.

E Deus me ajude, eu já estou surtando dez minutos depois do término, eu não faço ideia de como vou ficar pelos próximos dias. E semanas. E meses. Talvez até anos.

Eu vou precisar esquecer completamente que ele existe. Não posso lidar com nenhum traço da existência dele até que ele pare de existir no meu coração.

*

Enquanto subo no ônibus para casa, eu penso sobre checar os Stories dele. E ao me sentar no banco da janela esquerda e entrar no perfil dele no Instagram pela minha tela quebrada do Xiaomi, eu percebo que não vou poder continuar tendo acesso às redes sociais dele se eu quero superar ele. Ver o rostinho dele na última foto postada me faz querer chorar e bater minha testa contra a janela suja e riscada do ônibus.

Não acredito que realmente estou fazendo isso, mas eu aperto em Parar de seguir. E faço o mesmo no Twitter. E eu tenho certeza de que estou morrendo durante o processo.

Tenho certeza de que só hoje eu já morri vinte vezes.

*

Eu também tive que apagar o número dele, apesar de não apagar nossas conversas. Eu não queria ver os status que ele iria postar. Eu não sei se sou realmente tão frágil e sensível, mas não quero descobrir ao abrir uma foto dele sem querer no Whatsapp.

Droga, por que ele é tão lindo? Seria tão tão tão mais fácil se ele fosse feio. O Prince estava certo; The beautiful ones, they hurt you everytime.

*

Eu estive escutando o The Emancipation Of Mimi mais do que deveria nos últimos dias. Eu nunca tinha notado como a Mariah Carey sofre por amor nesse álbum; ela sofre MUITO por amor.

E enquanto eu escuto Circles e Don’t Forget About Us pensando nele, eu imagino se ele pensaria sobre mim caso We Belong Together e Mine Again tocassem aleatoriamente na rádio do Spotify dele. Ele não costuma escutar nada remotamente parecido com Mariah, então provavelmente não aconteceria.

Já fazem duas semanas e assim como a Mariah, eu também gostaria de me emancipar.

*

Eu tive um sonho com ele. Um sonho quente. E antes que eu pudesse me dar conta, eu acordei e já estava me masturbando vendo as nudes antigas que ele me enviou. Eu só percebi o quão fora da minha consciência eu estava depois de gozar e perceber que eu estava sozinho. Ele não estava deitado do meu lado como na minha imaginação.

É claro que ele não estava.

(Ainda sim, foi bem incrível).

*

Já fazem quatro semanas e eu tenho pensado menos sobre ele, apesar de stalkear o perfil dele no Twitter todo dia assim que acordo. Não tem doído tanto, só de vez em quando escorrego em lembranças e pensamentos e fantasias de momentos lindos e românticos onde nós dois somos felizes e apaixonados. Acho que estou começando a me acostumar com a ideia de que é só isso que terei dele daqui pra frente, e estou aprendendo a controlar minhas emoções em relação a isso também..

No final do dia, é ridículo. Eu que terminei com ele. Eu não deveria estar passando por esse período de luto se fui eu quem matei o que nós tínhamos.

Mas eu era louco por ele. Muito louco. Eu só terminei porque ele não era tão louco por mim também. E acho que ele estava correto no final das contas, mas ainda sim, era frustrante.

De qualquer forma, acho que não era pra ser. Não para sempre. Foi por um tempo. E foi ótimo, apesar dos apesares. Mesmo que eu esteja sofrendo agora, eu sou grato pelo que ele me deu e pelo o que a gente viveu e pelo o que eu senti.

Eu espero que ele também seja.

E eu espero que ele esteja bem, mesmo que eu ainda não tenha chegado lá. Eu odiaria saber que ele está triste e que o culpado sou eu; não sei se sou trouxa por isso, mas eu gosto muito dele para desejar que ele sofra por mim.

*

Eu tenho andado bastante de Uber nos últimos tempos. Nunca foi muito a minha coisa, mas acho que está começando a ser. Não lembro a última vez que toquei na barra de um metrô ou escutei a voz sexy e robótica da mulher da CPTM.

Na verdade, lembro sim. Não foi das melhores.

Será que eu peguei algum tipo de trauma de transporte público por conta dele? Deus, se for isso, eu sou muito patético. E ele me custou muito caro.

Mas talvez seja algo bom. Eu provavelmente morreria se um dia pisasse na linha amarela novamente e encontrasse com ele sem querer.

Tá. Não sei se morreria. Não sei o que eu sentiria. Não sei se quero descobrir.

Eu não tenho sofrido por ele, mas eu também fiz tudo que poderia para evitar o sofrimento. Se eu superei ele de verdade é algo que segue incógnito.

Não sei nem mesmo o que significa superar alguém. Eu deveria odiar ele? Sentir raiva? Sentir que Deus me livrou? Me sentir feliz caso ele surja namorando outro menino?

Caralho, eu espero que eu nunca veja ele com outro menino. Mesmo que eu esteja casado e com cinco filhos, eu prefiro preservar a imagem dele solteiro na minha mente se eu não voltar a ver ele nunca mais.

E sim, tenho noção de que isso é bem egoísta e mesquinho da minha parte… Foda-se, eu sou humano.

Enfim.

*

Talvez daqui um ano eu me sinta diferente sobre tudo isso. Sobre ele. Sobre o que a gente teve. Sobre o porquê acabou. Sobre ele e o futuro namorado dele. Sobre o metrô. Sobre a linha amarela.

Sobre o que poderia ter sido e não foi.

Mas acho que eu nunca vou parar de amar ele. E não digo de maneira apaixonada, obcecada e doente, mas… Acho que não quero esquecer o que ele me fez sentir ou o porquê eu senti; e eu não quero mais sentir ou carregar comigo, porém, ainda posso guardar num potinho e manter em cima da minha estante, não posso? Junto com aqueles bilhetes que comprei para ver ele na Paulista e nunca tive a oportunidade de usar.

Não sei, provavelmente só estou pensando melosidades idiotas.

Ou não estou.

Sei lá. Tanto faz.

O que importa é que já estou chegando ao meu destino.

E acho que estou pronto para a próxima estação.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!