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Notas iniciais
29 de agosto de 2021, 22:06.
Se havia uma coisa que qualquer pessoa deveria saber sobre Remus Lupin era que o garoto tinha um humor peculiar ao acordar, não importava a hora ou o motivo, ele sempre despertava com o que Marlene, sua prima, chamava de lobo interior, o pior e mais bravo de todos, por isso ganhou o apelido idiota de Moony, uma mistura de “de lua” com mal humorado, quando ainda era criança.
Sendo assim, durante o ano que passou mochilando pela Europa, o pior momento para ele era a parte de acordar, então acabou desenvolvendo alguns truques que amenizavam o mau humor, mas nada o eliminava de vez.
O primeiro truque era o silêncio. Claro que vivendo de um hostel para outro era difícil ter silêncio ou qualquer coisa próxima a isso, mas não importava muito desde que Remus não fosse obrigado a falar ou, pior, manter uma conversa inútil.
O que nos leva ao segundo truque: fones de ouvido. Sempre foi uma mania sua andar com os fones para qualquer canto que fosse, antes mesmo de arrumar suas coisas e partir para a sua grande aventura, mas durante aqueles meses uma coisa que Remus ficou, foi ainda mais apegado àquele objeto.
Por último temos o terceiro truque: em hipótese alguma dormir na casa ou cama de outra pessoa, fosse amigo e/ou alguém que ele havia resolvido ficar numa noite. Era uma regra meio idiota levando em conta que ele raramente ia em festas e ficava com alguém, mas é mais seguro previnir do que remediar, certo? Afinal, dormir é imprescindível para o bem de Lupin e de todos que o cercam.
E essa pequena (grande) introdução é apenas para expor uma coisa: Remus Lupin era um ser humano muito rabugento quando acordava. E apenas por isso que ele fez cara feia ao tirar o travesseiro do rosto e dar de cara com um homem de cabelos compridos sentado de frente para ele na outra cama, lendo um livro que identificou quase de cara.
Aí vai o segundo fato sobre Remus Lupin: ele gosta de livros. Ou melhor, ele é completamente obcecado por livros. Todos. Sem distinção, preconceito ou reclamações. O que fez com que ele desenvolvesse, nas palavras dele, o talento de reconhecer um livro pela capa. Sério, qualquer livro mesmo!
É meio doentio se querem saber a opinião de quem vos narra… Mas vamos ao que interessa.
Remus tentou não chamar a atenção do companheiro de cabine a todo custo, então não se mexeu depois de afastar o travesseiro do rosto e, da posição que estava, conseguia olhar o homem em silêncio, tentando se acalmar para não parecer o ser humano mais sem educação do mundo.
Ele observou, enquanto se perguntava em qual parte da história estava, o modo como os olhos do outro homem se moviam de um lado para o outro de forma rápida, claramente lendo as frases escritas naquelas páginas.
Os olhos do viajante vagaram então pelo corpo do desconhecido de forma rápida, mas cuidadosa. Reparou nas tatuagens parcialmente visíveis no pescoço e em seus braços, assim como estava sentado de forma estranha e que provavelmente causaria dores nas costas. Notou também na forma como segurava o livro, abrindo-o mais do que Remus teria coragem e que o fez questionar se seus dedos não doíam de ficar naquela posição por tanto tempo.
Depois do que pareceu alguns minutos, Lupin reparou no lápis balançando de forma rítmica na ponta dos dedos do homem, quase que inconscientemente. No automático, procurou por um caderno ao redor do desconhecido e se assustou ao reparar que não havia nada, que tipo de pessoa riscava um livro — ainda mais aquele! — sem nenhum peso na consciência?
— Você risca seus livros? — Remus perguntou de repente e quase riu do susto que o homem na sua frente tomou. Provavelmente teria mesmo rido se não fosse por três grandes motivos: 1) ainda estava rabugento por ter acabado de acordar; 2) ele estava riscando um livro(!!!) e, principalmente, 3) eles não se conheciam.
— Puta que… — houve um momento de silêncio enquanto Remus levantava para se sentar na cama e o desconhecido tentava se recuperar do susto. — Você por um acaso estava me espionando?
— Não — Lupin deu de ombros tentando soar indiferente. — Só tentando me localizar depois de acordar e me desculpe pelo susto, foi sem querer.
— Tudo bem — mais um momento de silêncio enquanto os dois se encaravam. — Faço anotações e desenhos de algumas cenas, é mais fácil acompanhar o livro assim e lembrar na hora de explicar na aula.
— Você dá aulas? — a dúvida podia ser sentida em cada elemento da frase de Remus. Ele sabia que não tinha nada a ver com o homem e com o que ele trabalhava, na verdade, conseguia até vê-lo como professor de música ou coisa assim com a aparência que tinha, mas o desconhecido parecia novo demais para sequer ter saído da faculdade.
— O que você acha? Não pareço professor? — Remus sentiu o desafio no tom dele e no modo como a sobrancelha esquerda se arqueou, e sem nenhum tipo de vergonha voltou a analisar o homem na sua frente.
Primeiro encarou o cabelo amarrado num coque desajeitado que fazia alguns fios caírem no rosto do homem e Remus se perguntou se eram macios ao toque tanto quanto pareciam. Depois desceu sua visão para o rosto do desconhecido, os olhos puxados pareciam ainda menores com o sorriso desafiador que dava.
Lupin já tinha visto as tatuagens na sua pequena análise, mas as olhou com mais atenção dessa vez. Não tinha como ver muitos detalhes por causa das roupas, mas conseguia distinguir a cabeça de um cachorro pintado de preto perto do pescoço do desconhecido e tinha o que parecia ser um leão no antebraço.
— Você só parece novo demais para ser professor — Lupin deu os ombros, se sentando melhor na cama para poder calçar os sapatos.
— Não posso ser um gênio que se formou na faculdade aos 12 anos de idade?
— Quem é você? Spencer Reid?
— Eu não tenho ideia de quem seja essa pessoa.
— Mais uma prova de que você não é um gênio, Reid.
Houve mais um momento de silêncio onde eles se encararam, Remus teve que lembrar que não conhecia o homem para segurar a vontade de sorrir para ele. Se levantou ainda calado e pegou sua mochila, a colocando nas costas.
— Você está indo pra onde? — Remus perguntou parando de frente para o desconhecido que ele decidiu que chamaria de Reid de agora em diante.
— Inglaterra e você?
— França — mais um sorriso que Lupin se segurou para não dar.
— Você é sempre rabugento? Nunca dá um sorriso? — Reid perguntou rindo de leve, seus olhos sumindo em uma única linha.
— Você tem até a Bulgária para descobrir — piscou um olho para o moreno e foi até a porta da cabine, a abrindo.
— Nossa, você vê muitos dramas — o homem riu alto, jogando a cabeça para trás, enquanto Remus saia da cabine e fechava a porta, se permitindo sorrir.
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