kissing in the blue dark

3 Chiamerà Butterfly dalla lontana


Notas iniciais
OLAOLA gente a fic esta viva!!!!! espero q vcs gostem!!

Julieta se arrumava em silêncio. Estava contente por passar um tempo com o filho, longe das preocupações do trabalho. Usava o habitual preto, mas seu vestido tinha um corte diferente, um pouco mais moderno e leve. Era uma vestimenta que ela havia comprado na Europa alguns meses antes, mas jamais teve coragem de usar. Parecia apropriado naquela noite, já que iria à ópera com Camilo.

—Vamos? – Seu filho perguntou após bater na porta.

Julieta olhou seu reflexo no espelho mais uma vez. Estava apresentável. O vestido era um pouco menos fechado no pescoço, algo mínimo, mostrando um pouco de pele. Da gola descia uma espécie de capa que cobria seus ombros e escondia seus braços. O colo ficava exposto até onde era aceitável para uma viúva e o corpo do vestido era discretamente decorado com pedrinhas que contornavam o formato de flores. Por fim, a saia era leve, lisa, sem detalhe algum. Nos cabelos ela usava um adorno discreto, feito das mesmas pedras que decoravam o vestido.

Camilo sorriu ao ver a mãe. Ela estava linda.

—A Senhora está encantadora. – Disse oferecendo o braço para que ela enlaçasse o seu.

—Obrigada, querido. – Julieta sorriu. Mesmo nunca tendo conseguido demonstrar seus sentimentos, gostava de sentir o carinho dele. Camilo era puro de coração, a única coisa boa em sua vida. Ela, apesar de tudo, se sentia privilegiada por tê-lo.

Os dois foram para o teatro, algo que gostavam de fazer desde que Camilo entrou na faculdade. Óperas sempre maravilhavam Julieta, transmitiam para ela diversas sensações, que muitas vezes se convergiam com seus sentimentos mais secretos. Naquela noite assistiriam Madame Butterfly, um dos espetáculos preferidos de Julieta. Era tudo uma grande tragédia, mas a Rainha do Café se identificava de certa forma com a personagem principal.

Durante o caminho Julieta se perguntou por onde andava Aurélio. Havia ele falado para alguém sobre o ocorrido? Não, ela já saberia se ele o tivesse feito. Empurrou o pensamento dele para longe de sua mente, focando em Camilo, quem realmente importava naquela noite.

Chegaram cedo no teatro, como Camilo havia planejado. Ele ajudou a mãe a sair do carro e novamente a elogiou. Discretamente, Camilo olhou a sua volta à procura de Ema. Avistou a moça trajando um vestido lilás, parada ao lado do pai.

—Mãe, vamos, quero apresentá-la para alguém. – Disse Camilo após trocar olhares com Ema.

Julieta seguiu o filho, até perceber que estavam indo em direção a Aurélio. Parou subitamente.

—O que há, mãe?

—Nada... Eu quase tropecei.

O Príncipe do Café segurou a risada. Claro, quase tropeçou na surpresa que foi ver Aurélio.

—Está tudo bem?

—Sim, tudo ótimo. – Ela respondeu e continuaram seu caminho até os Cavalcante.

—Mãe, quero que você conheça Ema, minha mais nova amiga, e seu pai...

—Aurélio. – Completou Ema.

Julieta olhou para Ema e em seguida para Aurélio. Encarou o homem em busca de alguma explicação para estarem naquela situação.

—Prazer em conhecê-los. – Falou em um tom de voz estranho.

Aurélio limpou a garganta e beijou a mão que ela estendia para que ele apertasse.

—Prazer em conhecer a senhora. – Disse olhando diretamente nos olhos dela. Realmente estava fingindo que não o conhecia?

Camilo e Ema se entreolharam percebendo uma certa tensão entre os dois.

—É um prazer conhecê-la. – Disse Ema, com sua habitual simpatia. – Camilo falou muito bem da senhora.

—Falou? Fico feliz em saber. – Julieta falou olhando para Camilo, que percebia a irritação da mãe.

—Mãe, eu tomei a liberdade de convidar Ema e o Senhor Aurélio para nos acompanhar em nosso camarote. Como eles estão de passagem na cidade pensei que seria gentil de nossa parte.

Julieta respirou fundo e soltou o ar vagarosamente.

—Muito bem, tenho certeza que serão uma companhia muito agradável.

—Então vamos, logo o espetáculo começa. — Disse o filho da Rainha.

Ema sorriu e enlaçou o braço no de Camilo. Os dois saíram na frente propositalmente, para conversar sobre o que haviam presenciado. Julieta viu-se sem outra opção senão aceitar o braço que Aurélio oferecia e seguir seus filhos ao lado dele.

—Gostaria de entender o que o senhor pretende com essas investidas.

—Que investidas?

—Oras, não se faça de desentendido. Primeiro aparece na varanda e me convida para uma caminhada e alguns dias depois consegue que sua filha faça amizade com Camilo, apenas para se aproximar de mim novamente.

Aurélio riu incrédulo.

—Quantas suposições errôneas a senhora acaba de fazer. Primeiro, não tinha intenção alguma quando falei com a senhora naquela festa, muito menos planejei beijá-la.

—Mas sabia quem eu era e tentou tirar proveito e está fazendo isso novamente, agora usando a própria filha.

—Eu não sabia que era a Senhora, já lhe disse isso. Caso soubesse...

—Não teria se aproximado.

—Teria sido mais cauteloso com minhas ações. Sua reputação não me assusta e não seria ela que me impediria de conhece-la melhor e ter minha própria impressão da Senhora.

—E qual foi sua impressão? – Questionou Julieta erguendo levemente o queixo enquanto falava.

—Boa, posso dizer. – Aurélio disse sorrindo.

Julieta olhou para baixo, sentindo as maças do rosto queimarem. Mal podia acreditar que estava corando por culpa daquele homem.

—Onde está Camilo? – Perguntou quando chegaram na escadaria que os levaria até o camarote.

—Está ali, conversando com algumas pessoas.

Julieta olhou na direção que Aurélio indicou com a cabeça. Camilo estava falava descontraído com algumas pessoas de sua idade e Ema. Ela mirou Aurélio com uma expressão de desagrado que o fez rir.

—Acho melhor nós irmos direto para o camarote, conheço Camilo, ele vai se estender nessa conversa até a peça começar.

—Bem, então vamos.

Eles iniciaram a subir as escadas ainda de braços dados, mas ele era mais rápido, talvez um pouco mais preparado fisicamente para tantos lotes de degraus, e ela ainda usava sapatos altos, não muito confortáveis. Um pouco ofegante, Julieta apertou o antebraço dele para que parasse. Aurélio olhou para ela e parou. Os rostos deles estavam próximos, ele um degrau a frente dela.

—Não é fácil subir essa escadaria usando um espartilho. – Falou quando notou a preocupação na expressão dele. Ela estava um pouco corada, o que ele achou adorável. Julieta se afastou dele e apoiou as mãos no corrimão.

—Me desculpe. – Ele esperou ela recuperar o fôlego e continuaram a subida.

Chegaram no camarote e não pronunciaram nenhuma palavra. Julieta olhava fixamente para o palco, tentando ignorar a presença dele. Aurélio buscava alguma abordagem que não fosse incomodá-la.

—Eu nunca assisti nenhuma montagem dessa ópera. – Disse ele enfim, não aguentando o silêncio constrangedor que ela havia imposto.

—Eu assisti faz alguns anos. É bastante emocionante, conta história de uma Gueixa de quinze anos que foi vendida com uma casa para um marinheiro americano. Os dois se apaixonam... bem, não vou falar ópera toda, assista e descubra.

—O final é feliz ao menos?

Julieta riu.

—Espere e verá.

Camilo e Ema entraram após alguns minutos, pareciam contentes.

—Demoraram, a peça já vai começar. – Julieta os repreendeu.

—A culpa é minha, me animei apresentando Ema para meus amigos.

Os dois se acomodaram e os espetáculo começou. O primeiro ato era o que mais mexia com Julieta, mostrando a protagonista ainda na adolescência, sendo vendida como um objeto qualquer. Lembrava-se do noivado arranjado com Osório, de tudo que sofreu nas mãos dele. Na peça, a gueixa e o americano se apaixonavam e se casam. Julieta sentia raiva, pois sabia que um amor como aquele não era real. Ele não a amava, ele apenas usaria a jovem, assim como Osório fez com ela.

O segundo ato apenas deixava Julieta com ainda mais ódio. O marinheiro volta para os Estados Unidos, deixando Butterfly sozinha. Alguns anos passam, e a jovem agora tem um filho fruto de sua união com o americano. Abandonada e com uma criança para cuidar, exatamente como Julieta ficou após a morte do marido. A gueixa recebe ofertas de casamento, e duvidam da paternidade de seu filho. A Rainha do Café entendia aquilo tudo. Sabia como era se sentir humilhada.

Enfim o terceiro e último ato. Julieta juntou suas forças para acompanhar o desfecho trágico de Madame Butterfly. O marinheiro volta para a cidade onde deixou a protagonista. Estava agora casado com outra, uma americana. Esta pede o filho de Butterfly, diz que vai cria-lo como se fosse seu. Sem escolha, a gueixa pede para ficar a sós com o menino. Se despede dele, coloca uma venda em seus olhos, e enfim comete o suicídio, com o ritual japonês Suppuku.

Julieta chorava. Aceitou de bom grado o lenço que Aurélio lhe ofereceu. Ele também estava abalado pela ópera, mas a reação dela chamou sua atenção. Levou alguns minutos para que ela conseguisse controlar a respiração. Secou as lágrimas e notou que os três olhavam.

—Eu também chorei. – Disse Ema, notando o desconforto da Rainha do Café. – É um espetáculo muito forte.

—O último ato com certeza fez muitas pessoas se emocionarem. – Disse Aurélio – Eu mesmo fiquei muito consternado.

—Um homem sensível à ópera, algo difícil de encontrar.

—Eu lhe disse que gosto de arte.

—Disse quando, papai?

—Ora, quando Ema? Enquanto você e Camilo estavam conversando com os amigos dele.

Julieta lembrou-se da conversa deles durante o baile. Agradeceu aos céus por Aurélio rapidamente consertar o que havia dito.

—Bem, e o que faremos agora? – Perguntou Camilo

—Iremos para casa. – Disse Julieta.

—Mas tão cedo? Por que não levamos o Senhor e Ema para um passeio?

—Papai e eu adoraríamos, não é mesmo?

—Sim, mas não queremos ser nenhum tipo de incomodo.

—E não são incomodo algum! Será um prazer ter a companhia de vocês, não é mesmo?

Julieta suspirou dando-se por vencida. Com o desgaste emocional que Madame Butterfly havia lhe causado, talvez fosse melhor espairecer. Seguiram os quatro para fora do teatro, Julieta e Aurélio um ao lado do outro, pois Ema e Camilo teimavam em caminhar juntos.

—Tudo bem? – O filho do Barão perguntou.

Julieta olhou para ele surpresa.

—Tem algum motivo para eu não estar me sentindo bem?

—Não sei, talvez eu tenha descido as escadas rápido demais.

Ela revirou os olhos. Ele riu.

—Sim, está tudo bem.

—Sem contar que a senhora não acha minha presença muito agradável.

Julieta olhou para ele. Não o achava desagradável, mas sentia que com ele por perto estava muito exposta. Não gostava daquilo, de sentir que alguém tinha uma fragilidade sua em mãos.

—Sinto muito se dei a entender que não gosto do senhor.

—Então gosta de mim?

—Não o conheço o bastante para determinar isso.

—Mas tem certa simpatia...

—O senhor quer mesmo falar sobre isso?

—Creio que nós dois atropelamos as coisas em nosso primeiro encontro...

—Novamente esse assunto. Não quero falar sobre isso, muito menos perto de nossos filhos.

—Me desculpe.

Continuaram a andar calados, até chegarem nas portas do teatro.

—O que querem fazer? Tem um restaurante ótimo aqui por perto que eu gosto muito. – Camilo perguntou para Aurélio e Ema, que não conheciam a cidade tão bem.

—Com uma noite linda dessas, eu gostaria apenas de caminhar pelo centro da cidade. – Disse Aurélio.

Camilo riu.

—E tem jeito melhor de conhecer a cidade do que andando? O que as damas acham?

—Para mim está ótimo. – Respondeu Julieta e Ema concordou.

Os quatro seguiram pelas ruas de São Paulo, conversavam sobre algumas trivialidades e rindo. A Rainha do Café estava um pouco distante, seus pensamentos ora no trabalho, ora no passado.

—E qual o seu lugar preferido em São Paulo, Julieta? – Aurélio perguntou.

Julieta parou para pensar um pouco. Ela não tinha um lugar especial, que realmente gostasse de ir. Havia apenas uma pequena padaria que ela adorava ir quando criança, onde se faziam os melhores sonhos que Julieta já comeu.

—Só consigo pensar numa padaria que eu ia quando era uma menina.

—É muito longe? – Camilo perguntou – Podemos ir até lá.

—Era aqui no centro, mas não sei se ainda existe.

—Temos tempo, vamos lá. – Aurélio falou bem humorado.

Mesmo receosa, Julieta aceitou ir. Havia muitos anos que não pisava naqueles cantos da cidade, pois uma boa parte de sua vida esteve lá, da parte mais doce de sua infância, até a mais amarga.

Minutos depois, param em frente a uma livraria.

—É aqui. – Disse Julieta. Riu. Tinha esperança de comer aqueles sonhos outra vez.

Entraram e se dispersaram entre as prateleiras. Julieta andava vagarosamente, remontado com sua memória a antiga padaria, as mesas e a senhora que atendia os clientes. Tudo ainda estava muito vivo. Ela sorriu. Pegou um livro qualquer em uma prateleira e percebeu que Aurélio ia fazer o mesmo.

—Minha esposa detestava esse livro. – Ele disse com a mão sobre a dela. Julieta puxou o livro, afastando o toque dele.

Ela leu a capa. O morro dos ventos uivantes.

—É um dos meus preferidos.

Ele sorriu.

—Você gosta de tragédias, não é mesmo?

—Creio que elas sejam um pouco mais realistas.

—Fugir da realidade é bom, às vezes. – Ele esticou o corpo e alcançou um livro de Shakespeare – Sonho de uma noite de verão é o livro mais fora da realidade que você pode encontrar. Devia ler.

—Obrigada, mas prefiro continuar com meus pés no chão.

Ele recolocou o livro sobre a prateleira.

—Eu gostaria de conhece-la melhor.

—Está pedindo permissão para me cortejar?

—A senhora está dizendo isso, eu estava pedindo uma nova oportunidade para esquecer os mal entendidos.

—Amizade não se pede, se constrói.

—Mas para que duas pessoas se tornem amigos, é necessário interesse de ambos os lados. Então, senhora Julieta, tem interesse em se tornar minha amiga?

Antes que ela pudesse responder, uma lâmpada que estava posicionada bem acima deles, estourou. O barulho fez os dois se aproximarem e abaixarem as cabeças. Aurélio passou o braço esquerdo sobre os ombros dela. Uns segundos após o susto, ergueram a cabeça para entender o que havia acontecido. Seus olhares se encontraram, como havia acontecido no jardim. Aquela mesma proximidade. Julieta se afastou, temendo que repetissem o beijo.

—Já é hora de voltarmos. – Disse com o coração ainda acelerado.

Antes do acidente, Camilo e Ema conversavam sobre os pais.

—Eles realmente fingiram que não se conheciam. – Ela disse rindo.

—Isso não me surpreende vindo de minha mãe.

—Não conseguimos descobrir nada sobre eles.

—Mas eles passaram algum tempo juntos, pelo menos. — Camilo falou tentando animá-la.

—E parecem estar se dando muito bem! – Ema apontou para os pais deles. Eles estavam a duas prateleiras de distância, conversando amigavelmente. Os dois se olharam comemorando silenciosamente, até que o estrondo caudado pela lâmpada os assustou.

Aurélio e Camilo pagaram por alguns livros que gostaram e todos voltaram para o teatro. A caminhada de volta foi mais rápida, pois já estavam cansados e era tarde.

—Seria uma honra recebe-los para um jantar. – Falou Julieta quando o carro parou em frente à casa de Jorge. Ela havia oferecido para leva-los para casa, já que quase passava do toque de recolher.

Aquilo pegou Aurélio de surpresa, não esperava que ela realmente fosse aceitar criar certa intimidade.

—Eu e Ema adoraríamos! – Respondeu sem esconder a alegria pelo convite.

—Eu ligo para vocês para acertar os detalhes. – Disse Camilo, também animado.

Se despediram rapidamente, e, antes de fechar a porta do carro, Aurélio entregou para Julieta um embrulho fino.

—Acho que a senhora realmente precisa ler esse livro. – Ele então fechou a porta.

Ela cuidadosamente abriu o papel seda que envolvia o presente, já sabendo do que se tratava.

Sorriu ao ler o título.

Sonho de uma noite de verão.

Notas finais
obrigada por ler :)